Exposições

Uma seleção de exposições no Brasil para quem gosta de fotografia

Veja uma seleção de exposições no Brasil (e, aqui, no exterior) para quem gosta de fotografia:

 São Paulo

 

 

Miguel Rio Branco: Nada levarei qundo morrer

Em 1979, Miguel Rio Branco frequentou por alguns meses o bairro Maciel, na região do Pelourinho, em Salvador. O resultado foi a famosa série de fotografias que leva o nome do bairro. Agora, quase 40 anos depois, o Masp apresenta a exposição Miguel Rio Branco: Nada levarei qundo morrer, uma nova visita do fotógrafo a estas imagens.

Masp, até 1 de outubro

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Álbum: Mauro Restiffe

A Pinacoteca de São Paulo apresenta Álbum, a primeira exposição panorâmica da obra de Mauro Restiffe em um museu brasileiro. Com curadoria de Rodrigo Moura, o trabalho fotográfico de Restiffe é apresentado em diálogo com pinturas selecionadas dos acervos da Pinacoteca e do MASP e é dividido em grupos de obras, cujos interesses vão da paisagem ao retrato, da abstração à arquitetura, da política ao cotidiano.

Estação Pinacoteca de SP, até 06 de novembro

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Corpo a corpo

A exposição Corpo a corpo, que inaugura o novo IMS-Paulista, celebra a nova produção brasileira em fotografia, cinema e vídeo através de sete trabalhos de Bárbara Wagner, Coletivo Garapa, Jonathas de Andrade, Letícia Ramos, Mídia Ninja e Sofia Borges [imagem].

IMS Paulista, até 30 de dezembro

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Robert Frank: Os Americanos e Os Livros e os Filmes

O IMS Paulista apresenta, pela primeira vez no Brasil, Os americanos, de Robert Frank, um dos nomes mais importantes da história da fotografia. A série, com 83 fotografias em cópias da década de 1980, pertence à coleção da Maison Européenne de la Photographie e é uma das poucas séries completas da obra de Frank. A exposição traz também Os livros e os filmes, projeto desenvolvido em parceria com o editor Gerhard Steidl.

IMS Paulista, até 30 de dezembro

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Câmera aberta, de Michael Wesely

Câmera aberta é um projeto do artista alemão Michael Wesely iniciado em 2014 a convite do IMS. Wesely instalou seis câmeras – quatro analógicas e duas digitais – nas fachadas dos edifícios vizinhos à obra do IMS Paulista, que capturaram continuamente imagens das quatro faces do novo centro cultural sendo construído. As imagens foram captadas por meio de uma técnica desenvolvida pelo artista, que utiliza câmeras construídas por ele que permitem expor um mesmo negativo ao longo de muitos anos, condensando diversos momentos em uma única fotografia.

IMS Paulista, até 30 de dezembro

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Rio de Janeiro

 

Natureza Concreta

Entre fotografias, vídeos e instalações em formatos variados, a coletiva Natureza Concreta apresenta 94 obras que discutem as relações dos seres humanos com a natureza e o mundo que os cerca. Participam da exposição 17 artistas e grupos brasileiros, incluindo Alexandre Sant’Anna, Ana Quintella & Talitha Rossi, Bruno Veiga, Cássio Vasconcellos, Claudia Jaguaribe, Gilvan Barreto [imagem], Iatã Cannabrava, José Diniz, Luiz Baltar, Pedro Motta, Rogerio Faissal e Rogério Reis

Caixa Cultural Rio de Janeiro, até 12 de novembro

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Chichico Alkmim, fotógrafo 

Em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, a exposição Chichico Alkmim, fotógrafo apresenta mais de 300 imagens produzidas pelo fotógrafo mineiro na primeira metade do século 20. Segundo Eucanaã Ferraz, curador da mostra, “Chichico é daqueles fotógrafos que parecem ter o poder de fazer vir ao primeiro plano a vida de seus modelos. E é patente a densidade existencial que se expressa no conjunto de características físicas que chamamos fisionomia, compreendida como a realização momentânea de um destino”.

Instituto Moreira Salles – RJ, até 29 de outubro

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Espelhos d’agua – Luiz Braga

A exposição individual reúne cerca de 30 trabalhos, a maioria inéditos, produzidos desde os anos 1980 até hoje. Destaque para as imagens em preto e branco de sua Belém natal, da Ilha de Marajó e dos arredores da região amazônica paraense.

Galeria Gávea, até 17 de novembro

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Feito poeira ao vento

A exposição mostra parte do acervo de fotografia do Museu de Arte do Rio – MAR, com cerca de 250 imagens de 112 artistas, que vão desde o século 19 até os dias de hoje. Feito poeira ao vento apresenta trabalhos de nomes como Marc Ferrez, Kurt Klagsbrunn, Pierre Verger, Walter Firmo, Evandro Teixeira, Guy Veloso [imagem], Rodrigo Braga, Marcos Bonisson e Rogério Reis, entre outros.

Museu de Arte do Rio, até 1 de julho de 2018

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Curitiba

 

Masao Yamamoto: o sensei das imagens pequenas

O Museu Oscar Niemeyer exibe o trabalho do artista japonês Masao Yamamoto, em sua primeira exposição individual em Curitiba. A mostra reúne três séries fotográficas distintas: A Box of Ku, Nakazora e Kawa=Flow, produzidas entre 1989 e 2016.

Museu Oscar Niemeyer, até 22 de outubro

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Exposições

Fotografia latino-americana é destaque na programação do festival de Arles 2017

Sérgio B. Gomes

Equador, de Paco Salazar, Quito, 1994. Cortesia do artista.

Este ano, os Encontros de Fotografia de Arles, um dos principais festivais de fotografia do mundo e que toma conta da cidade do interior francês nos meses de verão, tinham a clara intenção de abraçar uma grande diversidade de geografias e de congregar no mesmo espaço diferentes identidades ligadas à produção de imagem, sobretudo fotográfica, mas não só. A fotografia pode ser uma ferramenta útil para decodificar o que ocorre numa sociedade, num país, num bairro, numa casa, num cotidiano individual ou coletivo, por mais “fechada” ou turbulenta que seja essa realidade. Nesse exercício de olhar para o que nos é distante (a partir de e em qualquer direção), há sempre armadilhas ligadas a exotismos vários, maravilhamentos cegos, paternalismos exagerados e atitudes condescendentes. Em suma, o perigo de olhar para o outro como se ele fosse “o outro” e não nós mesmos.

A primeira virtude da programação proposta este ano por Sam Stourdzé, diretor do evento, é a de ter conseguido reunir uma série de mostras dentro do tema Latina!, que se impuseram por mérito próprio nos pontos nevrálgicos da intrincada (e disputada) coreografia de exposições do centro de Arles. Ou seja, mesmo se não fosse uma das principais linhas dos Encontros e nem se beneficiasse de um (natural) acréscimo de visibilidade entre as iniciativas do festival, a existência dessas exposições no coração da cidade já teria sido uma aposta ganha.

Numa edição particularmente eficaz na construção e desconstrução de conceitos rígidos relacionados com fronteiras (muito além da sua acepção política e das linhas imaginárias ou físicas que separam países), Latina! não cumpriu aquele papel burocrático e politicamente correto de preenchimento de uma cota geográfica que eventualmente lhe estivesse “reservada”. Nem se abrigou à sombra do forte impulso proporcionado pela atual celebração do França-Colômbia, que tem desdobrado iniciativas de todo o tipo nos dois lados do Atlântico. Nestas ocasiões, quando jorra dinheiro público e há por parte dos dois celebrantes a intenção de não melindrar o outro de maneira nenhuma, qualquer coisa que se ponha no avião para cruzar o oceano (do mais medíocre ao mais institucionalmente domesticado) pode muito bem ser louvada com a grandeza de uma obra-prima. Não foi o caso de Latina! que, para além de Stourdzé, tem a marca de mais cinco curadores.

Sem ser extraordinariamente ambiciosa em número de exposições, a programação do Latina!, orientada em torno de quatro mostras, revela-se muito equilibrada e diversificada no que diz respeito aos usos da imagem fotográfica, reunindo trabalhos que tanto indicam como essa estética é levada a extremos por artistas visuais contemporâneos (mais próximos ou mais distantes), como recuperam as utilizações do fotográfico nas mais diversificadas manifestações da imagética vernacular. Esse equilíbrio manifesta-se ainda na tipologia das exposições, com duas coletivas muito distintas (Pulsões urbanas – fotografia latino-americana, 1960-2016 e A volta – 28 fotógrafos e artistas colombianos), uma retrospectiva (Paz Errázuriz – uma poética do humano) e aquilo que podemos chamar de turbilhão kitsch (A vaca e a orquídea – fotografia vernacular colombiana).

A escolha de ocupar vários ambientes da cidade também se revelou certeira. As exposições de Latina! não foram confinadas a um único lugar, detalhe que pode parecer sem importância, mas que ajuda a quebrar uma velha tentação de juntar “os da mesma origem” no mesmo espaço, um bairrismo onde o difícil é encontrar algum efeito positivo.

No geral, o destaque negativo vai para a pouco equilibrada representatividade do gigantesco universo latino-americano, com um claro favorecimento da Colômbia, em detrimento de outros grandes universos fotográficos desta região, como o clássico México (por sinal, já muito revisitado) ou a Argentina e o Brasil, ainda pouco conhecidos na Europa, para além dos grandes nomes. Devido à celebração do ano França-Colômbia, isso era algo esperado, mas não obrigatório. Os Encontros podiam ter aproveitado o foco sobre um país e voltar os olhos para toda a região, que a própria organização apelidou de “terra da fotografia”.

Colômbia, de Viki Ospina, Bambuco, 1977. Cortesia do artista.

Um extraordinário exemplo da riqueza dessa produção em torno da fotografia é dado por Pulsões urbanas, exposição de onde se sai com a sensação de conhecer pouco este universo fotográfico. Organizada a partir da vasta coleção privada de Leticia e Stanislas Poniatowski – que há 15 anos reunem imagens produzidas na América Latina, com foco na vivência da cidade – , Pulsões é uma das exposições mais surpreendentes da programação de todo o festival. Isso se dá não tanto pela visão renovada e ampliada com que nos apresenta o vibrar da cidade latino-americana (o que já seria bom), mas sobretudo pela potência do que é mostrado e pela riqueza de olhares com que o faz. Percorrendo as paredes, é possível sentir a força, a violência, a tensão, a saturação e o imenso frenesi da urbe. Depois de duas apresentações no Museu do Banco da República de Bogotá, em 2013, e, um ano depois, no ICP, de Nova York, com o nome Urbes Mutantes, a exposição que chega agora a Arles foi reformulada de maneira a receber novas imagens e novos artistas da mesma coleção que, contam os curadores Alexis Fabry e María Wills Londoño, não para de crescer.

A dupla Fabry/Londoño, que já assinou outras mostras tendo a América Latina como pano de fundo, como a Fogo latino (PhotoEspaña 2015), a partir da coleção de Anna Gamazo de Abelló, consegue a proeza de nos manter permanentemente atentos numa exposição com centenas de fotografias. E, no final, com vontade de ver ainda mais, de perceber como a cidade se tornou um ente que respira, que vive e morre, que se embeleza, que festeja, se contorce, se expande e se mutila. A cidade como utopia modernista e como um dos símbolos máximos do triunfo capitalista.

O movimento das cidades foi sempre sujeito privilegiado dos fotógrafos. Tem a fotogenia (que uma certa fotografia procura) e a transformação que toda a fotografia gosta de contrariar. Pulsões urbanas concentra-se na produção fotográfica dos últimos 50 anos para construir um panorama rico que nos põe a pensar (como era desejo dos curadores) sobre “os efeitos das mutações e as hibridações” a que foram sendo sujeitos os grandes centros urbanos latino-americanos, driblando toda a carga de falsa alteridade sugerida pelo exotismo e o seu imaginário visual indígena e rústico. Vemos a cidade encravada entre as contradições de um mundo pré-ibérico e outro pós-colonial, a maneira por vezes desorganizada como cresce, assimilando o rural e o popular, fazendo-os viver em cápsulas do tempo no meio de um progresso inexorável, estridente e amoral.

Num percurso dividido por nove grandes grupos, que começa em Aberto à noite e termina em Os condenados, esta é uma daquelas exposições que devia empreender a reescrita da história da fotografia canônica construída a partir de perspectivas demasiado “europeizadas”. Ainda assim, apesar da imensa diversidade de autores oriundos de geografias latino-americanas (com destaque para a Colômbia e o Chile), o Brasil está claramente sub-representado, com apenas três fotógrafos em todo o percurso: Rosa Gauditano, Ayrton de Magalhães e Miguel Rio Branco.

Evelyn, de Paz Errázuriz, da série Pomo de Adão, La Palmera, Santiago, 1983. Cortesia da galeria AFA, Santiago, Chile.

A partir dos artistas escolhidos para Pulsões urbanas poderiam ser feitas várias exposições retrospectivas como a que foi dedicada a Paz Errázuriz, tal a profusão de percursos artísticos de grande calibre, como os de Fernell Franco, Johanna Calle ou Armando Cristeto. O que vemos no Atelier de la Mécanique é a singularidade, a teimosia e uma capacidade ímpar de mostrar mundos que foram sendo atirados para as margens (prostitutas, cegos, travestis, artistas de circo, alcoólatras, mendigos…). Ao percorrermos as séries de Errázuriz, percebemos como é extraordinariamente sutil a sua maneira de nos pôr a olhar para o que geralmente se esconde, para o que não quer ser visto ou para o que, como na maior parte dos casos, é escondido.

Demônio negro, de Paz Errázuriz, da série Lutadores do ringue, 2002-2003. Cortesia do artista.

Paz, dizem as suas notas biográficas, mais do que uma andarilha foi uma nômade no seu país, galgando lugares remotos que vão da Patagônia às ruas de Talca, Valparaíso ou Santiago. Não fez, contudo, da paisagem o seu objeto fotográfico, preferindo quase sempre o rosto humano, na sua imensidão, na sua singularidade. Na grande retrospectiva apresentada em Arles (vinda da Fundação Mapfre, em Madri), confirmamos como Paz Errázuriz nunca precisou apontar dedos acusadores para dizer com a sua fotografia aquilo que sempre quis dizer; vemos com nitidez e sem subterfúgios de nenhum tipo a sua opção de se colocar ao lado dos que estão em situações sociais mais fragilizadas e desprotegidas; percebemos como nunca precisou gritar para falar com autoridade, que lhe advém da imensa solidez ética com que foi construindo a sua obra, da qual fazem parte séries tão emblemáticas quanto Pessoas, Memento mori, O pomo de Adão, Prostíbulos, Cegueira, Os nômades do mar, A luta contra o anjo ou O circo. Saímos do meio do trabalho de uma vida, como o de Paz Errázuriz, com várias imagens na memória, como aquele rosto do boxeador VI, eterno, quase imaculado.

Jogo de probabilidades, de Oscar Muñoz, 2007. Cortesia do artista e da galeria Mor Charpentier, Paris.

Ao contrário das duas exposições já referidas, A volta – 28 fotógrafos e artistas colombianos foi produzida especificamente para os Encontros. Em dois pisos da capela Saint-Martin du Méjan é possível sentir o pulsar da produção artística contemporânea colombiana que lida com a imagem fotográfica e com o vídeo. Ao contrário de uma das exposições mais badaladas da edição deste ano, Irã, ano 38, cujos 66 autores apresentados parecem poucos diante do que há para se mostrar e dizer sobre o país, os 28 nomes escolhidos para A volta dão a impressão de muitos para o estado da arte que se quis levar até Arles e que parte do final dos anos 80 até hoje. A maioria lida com questões históricas traumáticas dos últimos 60 anos, profundamente marcados por tensões sociais e políticas e pela guerra civil. Neste particular, a exposição parece bem resolvida com um punhado de obras de grande intensidade e valia (casos de Óscar Muñoz e Miguel Ángel Rojas). No entanto, áreas como Cartografias urbanas, onde há trabalhos relativamente redundantes (Rosario López e Andrea Acosta), deixam a sensação de que seria necessário escavar muito mais o passado para trazer propostas mais estimulantes e criativamente surpreendentes.

Ao mesmo tempo que cita os mais recentes desenvolvimentos políticos (e históricos) do país (acordo de paz entre o Governo e as FARC, rejeição do referendo sobre os termos desse acordo, Prêmio Nobel da Paz para o Presidente Juan Manuel Santos), dando a entender que será possível encontrar produção artística nova em relação a esses acontecimentos (o que não chega a acontecer em nenhuma das obras apresentadas), A volta promete um estado da arte do “dinamismo” das últimas décadas. Certo é que, não desmerecendo o retrato que é feito sobre isso, os curadores parecem ter sido apanhados pelo turbilhão de acontecimentos que rodearam a Colômbia nos últimos meses sem que tenham tido a capacidade de lhes responder com arte fresca, recente. Sabemos que seria um exercício bem mais arriscado, apesar de mais estimulante – descobrir a arte que parece andar ombro a ombro com as últimas manifestações da realidade.

Hulk, de Juan Pablo Echeverrí, 2011. Cortesia do artista.

A coletiva A volta, com curadoria de Stourdzé e Carolina Ponce de León, pretendia sentir o pulso da arte da Colômbia contemporânea, mas a sensação que fica é que a realidade enganou-a, e fez com que passássemos a olhar para ela sobretudo como o resumo de um mundo defasado do momentum atual. Sem dúvida esse sentimento é evidente nos trabalhos cuja mensagem política é explícita, mas A volta apresenta propostas de outros universos criativos, como aquele que lida com o meio ambiente e com a natureza, onde se destaca Alberto Baraya, com Herbário de plantas artificiais (2012-2016), uma fina ironia ao deslumbramento colonial pela natureza exuberante, ou (outra vez) Johanna Calle, com Terra quente (2012-2013), um exercício de percepção, de escala e de memória sobre os poderes latentes do fotográfico; ou ainda as propostas que se concentram na vivência nas cidades, com destaque para o vídeo Ação de repetição (2010), de A virgem do milagre produções, uma reflexão estimulante sobre o  cotidiano social e psicológico urbano; ou Andrés Felipe Orjuela, com Arquivo morto (2013), um trabalho que lida com a construção e com a deformação da realidade a partir de fotografias do arquivo do extinto tablóide El Espacio.

Anônimo, anos 1980.

No que diz respeito a confusão de realidades, A vaca e a orquídea – fotografia vernacular colombiana é imbatível. Diz Timothy Prus, curador da mostra, que “a Colômbia, à semelhança da fotografia, nunca é aquilo que pretende ser”. A exposição que montou em Arles – dando continuidade a uma presença  constante do vernacular na programação oficial, trazida sobretudo pelo holandês Erik Kessels – demonstra de forma aguda como essa afirmação provocatória pode ter algum fundo de verdade. As paredes do espaço Croisière estão carregadas de imagens que Prus, editor do Arquivo de Conflitos Modernos, juntou ao longo dos últimos dez anos. E se à primeira vista temos a sensação de estar perante um amontoado caótico, um olhar um pouco mais demorado faz com que descubramos logo outras imagens – umas dentro das outras, umas sobrepostas às outras; umas grandes, como pano de fundo de outras, menores; umas bidimensionais, outras tridimensionais; outras ainda a surgir na nossa imaginação.

Dois lutadores, Bogotá, 1956. Cortesia de Manuel H.

Para A vaca e a orquídea, Prus convocou de maneira emocional e intuitiva toda a parafernália da imagética vernacular (capas de discos, fotografias de estúdio, fotografias de rua…), juntou um pouco de fotografia histórica (há albuminas e cópias de outros processos de impressão históricos), uns grãos de imagens com um toque vintage e ainda uns grãozinhos de pretensa “fotografia de autor”. A caldeirada tem ingredientes de sobra, mas é impossível entrar na Croisière e não participar por um momento que seja neste festim da imagem; de provar um pouco da tragicomédia servida por um país que viveu décadas mergulhado na incerteza e que agora vislumbra voltar à normalidade.

Ao mesmo tempo que somos esmagados por uma avalanche de imagens de uma incrível diversidade, sentimos a tentação de fazer um certo tipo de respiração através delas, como se fossem o tônico certo para nos fazer descansar ao ritmo de uma música onipresente, que não cessa. A ausência de tese (quem vê é que decide o que quer retirar do que lhe é mostrado), ou de qualquer sentido óbvio levam-nos a uma espécie de êxtase, um estado em que podemos escolher qualquer caminho sem medo de errar. Em A vaca e a orquídea (dois símbolos nacionais de Colômbia) todos os caminhos contam e todos servem para chegar a algo que vagamente se possa chamar de “objetivo”: o prazer da imagem.///

 

Sérgio B. Gomes é jornalista e escreve sobre fotografia no jornal português Público desde 1999. É pesquisador da história da fotografia em Portugal, júri de vários prêmios, curador de exposições e editou por dez anos o blog Arte Photographica (2005-2015).

 

 

Exposições

Uma seleção de exposições pelo mundo para quem gosta de fotografia

Veja uma seleção de exposições no mundo (e, aqui, no Brasil) para quem gosta de fotografia:

Magnum Manifesto

Esta exposição celebra os 70 anos da famosa agência Magnum, fundada por Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e Chim (David Seymour). A mostra do Centro Internacional de Fotografia (ICP) explora a história da segunda metade do século 20 pelas lentes de 75 fotógrafos da agência, com nomes como Elliott Erwitt, Cristina Garcia Rodero, Jim Goldberg, Joseph Koudelka, Sergio Larrain, Susan Meiselas, Martin Parr, Marc Riboud, W. Eugene Smith, Alec Soth, Chris Steele-Perkins e Alex Webb, além dos próprios fundadores. [imagem de Chris Steele-Perkins]

ICP, Nova York, até 3 de setembro

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As oferendas

Gao Bo

Uma ampla retrospectiva da obra do artista chinês Gao Bo (1964) pode ser vista na Casa Europeia da Fotografia. Transitando entre a fotografia, a instalação e a performance, estão expostos desde seus primeiros trabalhos sobre a milenar cultura dos monges tibetanos até suas instalações mais recentes, como a intervenção onde queimou uma série de fotos para reter apenas as cinzas.

Casa Europeia da Fotografia, Paris, até 4 de setembro

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Gordon Parks – Eu sou você. Trabalhos selecionados 1942-1978

A exposição Gordon Parks – Eu sou você. Trabalhos selecionados 1942-1978 apresenta uma parte importante do fotógrafo norte-americano. Além de seu trabalho em preto e branco, estão expostas fotografias coloridas e trechos de A árvore do conhecimento e Shaft, filmes dirigidos por ele.

Foam, Amsterdã, até 6 de setembro

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Elliott Erwitt na Hungria

Em 1964, o renomado fotógrafo Elliott Erwitt fotografou a vida cotidiana em Budapeste, Hungria. A mostra apresenta o olhar do artista norte-americano para o que acontecia nos países do lado leste da Cortina de Ferro. O resultado da visita está sendo exposto pela primeira em Budapeste, na Casa Mai Manó.

Casa Mai Manó, Budapeste, até 10 de setembro

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Com os olhos bem abertos. Cem anos de fotografia Leica.

A mostra Com os olhos bem aberto. Cem anos de fotografia Leica é composta por cerca de 400 fotografias que contam a história de um século de imagens com a clássica e icônica máquina de 35 mm. A exposição está estruturada em temas: Leica e a nova visão, Fotojornalismo, Fotografia subjetivista, Fotografia humanista, A fotografia de moda, A nova fotografia em cores e Fotografia de autor. A mostra apresenta trabalhos de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Paul Wolff, Bruce Davidson, Robert Frank e outros fotógrafos que ajudaram a tornar a Leica um clássico. [imagem de Fred Herzog]

Fundação Telefonica, Madri, até 10 de setembro

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 Ed van der Elsken: Câmera apaixonada

 

O fotógrafo holandês Ed van der Elsken percorreu as ruas das grandes cidades do mundo: Paris, Amsterdã, Tóquio, Hong Kong e tantas outras. Em busca de personagens característicos, principalmente jovens marginalizados, o fotógrafo desenvolveu um estilo de próprio de ver as cidades e suas mudanças no pós-guerra.

Jeu de Paume, Paris, até 24 de setembro

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re:coleção

O Museu da Fotografia Contemporânea de Chicago expõe uma boa parte da sua coleção de fotografia na mostra re:coleção. A montagem propõe diálogos entre imagens de diferentes períodos, artistas e temas a partir do acervo do museu. A exposição apresenta trabalhos de fotógrafos como Evan Baden, Dawoud Bey, Lynne Cohen, Kelli Connell, Kei Ito, Mary Koga [foto], Danny Lyon, Rachel Papo, Christian Patterson e outros.

Museu de Fotografia Contemporânea, Chicago, até 1 de outubro

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Francesca Woodman: Em ser um anjo

Exposição com cerca de 100 imagens da fotógrafa norte-americana Francesca Woodman (1958-1981), girando em torno de um tema recorrente em sua obra: os anjos. Ao longo de sua curta carreira, Woodman desenvolveu diferentes abordagens em seus autorretratos, de situações mais oníricas até momentos mais angustiantes e sombrios.

Museu Finlandês de Fotografia, Helsinki, até 15 de outubro

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Paul Graham: A brancura da baleia

Retrospectiva do fotógrafo inglês Paul Graham, a exposição reúne um conjunto de trabalhos importantes do artista: Noite americana (1998-2002), um brilho de possibilidade (2004-2006) e O presente (2009-2011). As cerca de 40 imagens tratam dos temas de interesse de Graham, que vão de questões raciais até o cotidiano mais banal da vida americana.

Museu High Art, Atlanta, até 22 de outubro

Mais inf0rmações aqui.

 


Eugene Richards: O passar do tempo

Nos últimas décadas, o fotógrafo norte-americano Eugene Richards (1944) dedicou-se a explorar temas complicados e controversos em seus trabalhos, como racismo, pobreza, dependência química, envelhecimento e o êxodo rural americano. A exposição Eugene Richards: O passar do tempo apresenta seus trabalhos a partir de 1968, e inclui fotografias, textos e filmes.

Museu George Eastman, Rochester, NY, até 22 de outubro

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Magnum Recuperação Analógica

Esta mostra é fruto de um trabalho de recuperação de cópias analógicas guardadas nos arquivos da famosa agência Magnum, fundada por nomes como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson. São milhares de imagens produzidas entre 1947 até o final de 1970 que agora são recuperadas e mostradas ao público, desde fotos já clássicas até outras pouco vistas. [imagem de Léornad Freed]

Le Bal, Paris, até 27 de outubro

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Zanele Muholi: Salve, leoa negra!

Zanele Muholi (1972) apresenta em Londres a série Somnyama Ngonyama (Salve, leoa negra!, em português). Em mais de 60 autorretratos, a artista utiliza o próprio corpo para confrontar questões de raça e representação nas artes visuais. A série brinca com convenções da pintura clássica, da fotografia de moda e com um imaginário etnográfico que nos é familiar. Mas faz isso com a intenção de interrogar as atuais representações de beleza e padrões estéticos.

Galeria Autograph ABP, Londres, até 28 de outubro

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 Robby Müller – Mestre da luz

O holandês Robby Müller (1940), um dos mais reconhecidos diretores de fotografia do cinema contemporâneo, tem abrangente retrospectiva de sua obra no Museu Alemão de Cinema e Televisão, em Berlim. O cinematógrafo assinou a fotografia de filmes icônicos do cinema mundial, como a obra-prima Paris, Texas (1984), do alemão Wim Wenders; Daunbailó (1986), de Jim Jarmusch e Dançando no escuro (2000), de Lars von Trier, entre outros.

Museu Alemão de Cinema e Televisão, Berlim, até 3 de novembro

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Weegee por Weegee

 

Na convulsionada Nova York dos anos 30 e 40, Weegee (pseudônimo de Arthur Fellig) era um repórter fotográfico que sempre estava sintonizado na frequência policial a fim de descobrir a próxima pauta. A exposição Weegee por Weegee apresenta uma ampla seleção de seus trabalhos, desde fotos de crimes, incêndios e acidentes até cenas de eventos populares e aglomerações da população nova iorquina, como sua famosa imagem de uma multidão em Coney Island.

Fundação Foto Coletânea, Barcelona, até 3 de novembro

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Chão comum: Fotografias de Fazal Sheikh, 1989-2013

A exposição é uma retrospectiva dos quase 25 anos de carreira do fotógrafo nova-iorquino Fazal Sheikh, reconhecido por seus trabalhos que buscam dar visibilidade a questões de violação dos direitos humanos de comunidades de refugiados da fome ou de conflitos bélicos. As mais de 170 fotografias mostram sobreviventes, órfãos e vítimas de violência e abusos em países como Paquistão, Afeganistão, Índia e Holanda.

Museu de Arte de Denver, Estados Unidos, até 12 de novembro

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Feliz aniversário, Mr. Hockney: Fotografias

Exposição, que comemora os 80 anos do artista inglês, apresenta uma seleção de fotografias nos anos 1980. Hockney foi um dos pioneiros no uso de montagens e colagens fotográficas, usando principalmente uma câmera Polaroid para registrar vários ângulos de uma cena e depois trabalhar em composições e camadas para montar uma imagem única.

Museu J Paul Getty, Los Angeles, até 26 de novembro

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Histórias recentes: Nova fotografia africana

Exposição reúne o trabalho de 14 artistas contemporâneos da África, que investigam temas ligados a questão de identidade, pertencimento e preocupações sócio-políticas, como migração e o legado colonialista. A mostra apresenta obras dos artistas Edson Chagas, Mimi Cherono Ng’ok, Andrew Esiebo, Em’kal Eyongakpa, François-Xavier Gbré, Simon Gush, Délio Jasse, Lebohang Kganye, Sabelo Mlangeni, Mame-Diarra Niang, Dawit L. Petros, Zina Saro-Wiwa, Thabiso Sekgala e Michael Tsegaye. [imagem de Dawit L. Petros]

Coleção Walther, Neu-Ulm, Alemanha, até 29 de novembro

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Música dos balcões

Ed Ruscha

Esta exposição mostra de maneira abrangente o trabalho do artista norte-americano Ed Ruscha (1937), incluindo séries fotográficas, pinturas e desenhos dos anos 60 até os 2000. Ruscha desenvolveu sua obra tendo como referência as paisagens urbanas do oeste americano, principalmente em torno do imaginário ligado a Los Angeles e Hollywood.

Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo, até 29 de abril de 2018

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Exposições

Curador convidado, Alberto García-Alix explora temas como beleza, dor, horror e amor em seis exposições no festival PhotoEspaña

Sérgio B. Gomes

De riso fácil e humor refinado, o espanhol Alberto García-Alix (1956) vive um momento fulgurante da sua carreira, com múltiplas exposições, livros e solicitações para falar sobre o seu trabalho. Aproveitando este momento estelar e querendo homenageá-lo como um dos primeiros fotógrafos espanhóis a merecer uma exposição retrospectiva na primeira edição do festival, em 1998, o PhotoEspaña deu este ano carta branca a Alix para criar uma programação de exposições do seu gosto. E ele escolheu levar para Madrid a obra de Anders Petersen (Suécia, 1944), Teresa Margolles (México, 1963), Paulo Nozolino (Portugal, 1955), Pierre Molinier (França, 1900-1976), Antoine d’Agata (França, 1961) e Karlheinz Weinberger (Suíça, 1921-2006). Pelo olhar destes artistas também é possível traçar um mapa dos universos criativos do próprio fotógrafo espanhol, em que habitualmente assumem protagonismo as margens da sociedade, as tribos urbanas, os mundos intimistas, a ousadia da diferença, a paisagem poética e a auto-representação. “Quisemos ver a fotografia através dos olhos do Alberto”, diz María García Yelo, diretora do festival, para quem este grupo “usa a imagem fotográfica de uma maneira muito particular e por vezes estranha”.

“São autores que procuram um campo difícil que é o sublime, fotógrafos que conseguem mostrar, ao mesmo tempo, beleza, dor, horror e amor”, explicou Yelo, que cumpre este ano o seu terceiro e último ano à frente do festival.

Numa edição festiva, o programa oficial (com 22 exposições) é extraordinariamente eclético, tentando corresponder a um espectro de públicos o mais abrangente possível. As propostas vão do clássico – com fotógrafos tão lendários quanto Elliott Erwitt, Cristina García Rodero, Gabriele Basilico, Carlos Saura ou Minor White – ao histórico, com as paisagens americanas de Carleton Watkins e o universo cultural e artístico que envolveu o pintor espanhol Joaquín Sorolla. E ainda o campo conceitual, com as apropriações das gravuras de Goya de Fardeh Lashai, ou a busca de Peter Fraser pelas “manifestações da matemática” na paisagem.

A seção oficial inclui ainda duas exposições coletivas que juntam em pólos opostos um grande número de autores: uma é sobre o centenário da Leica e traça o uso da mítica câmara através do olhar de dezenas de fotógrafos ao longo do século 20; a outra tenta sentir o pulso da mais recente produção de fotografia de autor na Espanha, uma seleção através da qual se percebe a força do documental mais puro e o namoro com documental “ficcionado”.

Eduardo Arroyo, da série Pular amarelinha

No campeonato da fotografia anônima, que ganha protagonismo a cada dia, o Museu Lázaro Galdiano mostra uma das exposições mais surpreendentes do festival, Pular amarelinha (A la pata coja, em espanhol), um conjunto de quase 100 fotografias minuciosamente alinhadas pelo artista Eduardo Arroyo, que mistura fotografia de autor (não identificada como tal na sala) com fotografia comprada em mercados e lojas de segunda mão. Detalhe: em todas as imagens alguém está com uma perna levantada. É um gesto que nos desperta para a latência do movimento e para a certeza do que já aconteceu. Uma lembrança de que cada fotografia (todas elas) encerra um memento mori, uma melancolia pelo que já passou. Ao pendurar lado a lado fotografias de autores reconhecidos, como Ramón Masats, Juan Gyenes ou Hans Bellmer, com as de autores anônimos, vindas de álbuns de família de espólios dos jornais e revistas ou de simples caixas de papelão no chão de qualquer feira de velharias, Arroyo dá nobreza ao mais despretensioso retrato e põe toda a imagem fotográfica em pé de igualdade, que aqui é validada “apenas” pelo seu conteúdo e não pela sua autoria.

À diversidade destas propostas (às quais se podiam somar, só em Madrid, dezenas de outras exposições espalhadas por galerias e instituições convidadas) opõe-se a coerência do olhar de Alberto García-Alix. E esta unidade impõe-se a um nível tão forte que se pode dizer que, à falta de um tema geral, é o fotógrafo espanhol que assume maior protagonismo no festival (mesmo sem expor na seleção oficial). O tema da 20a PhotoEspaña bem poderia ser “espírito Alix”, conceito que andará entre o desafiador, o poético, o indomável e, claro, o heterodoxo.

Esse espírito começou a ser revelado logo nas primeiras exposições, no início de junho, quando o fotógrafo-motoqueiro confessou, ao lado do português Paulo Nozolino, que a concretização destas exposições (agrupadas sob o nome A exaltação do ser: Um olhar heterodoxo) tinha lhe servido de “alimento para a alma”.

Paulo Nozolino, Brilho carregado 12, Ellis Island, 2011 © Paulo Nozolino

Já longe dos microfones depois da primeira inauguração no Círculo de Belas Artes, confessou como lhe agradava a montagem que tinham feito para a exposição Brilho carregado (Loaded Shine, em inglês), embora quisesse que o muro que intermedeia a entrada e as fotografias fosse mais comprido, de maneira a “proteger” e isolar ainda mais o trabalho de Nozolino. Nas palavras que deixou inscritas na Sala Goya, onde brilha a mostra, García-Alix faz um exercício de adivinhação para, imediatamente a seguir, nos trazer de novo à terra sobre o que está à frente dos nossos olhos: “Talvez Nozolino tenha começado a olhar o céu. Um céu sempre carregado. As suas imagens parecem sair de sonhos. Hoje, com este trabalho, ele sujeita o seu olhar ao atemporal e em relação àquilo que, aparentemente, já está morto. Vemos um mundo que se destrói continuamente.”

Pierre Molinier, O duplo © ADAGP Pierre Molinier. Cortesia Kamel Mennour, Paris

De uma sala “sacra” Alix conduz-nos logo a seguir para uma espécie de quarto escuro onde reina o mundo transgressivo de Pierre Molinier, poeta, pintor, “surrealista esquecido”, maldito, xamã, figura violenta e provocadora (Foi um homem sem moralidade, chama-se a exposição), fotógrafo da transfiguração, do desejo, do fetiche e do prazer narcísico. O sentimento de García-Alix balança entre a compaixão e a admiração profunda por um “feroz hedonista e independentista”, alguém que preparou a morte e escreveu a lápide da sua sepultura (reivindicando precisamente uma existência amoral). O culto crescente (e a especulação) em relação à obra radical-obsessiva de Molinier, caricaturado como “homem-puta” e classificado como “o artista mais sincero do século 20”, é proporcional ao medo e à repulsa que ainda provoca. Parece óbvio que García-Alix sabe disso, como parece evidente que lhe dá especial prazer mostrar num centro de belas-artes as imagens de um enorme transgressor que não ambicionou a glória artística. Numa sala pequena e redonda, alinham-se cadeiras estofadas que nos convidam a um olhar mais demorado, um pouco como se estivéssemos a espreitar pelo buraco da fechadura, a entrar na intimidade andrógina de um mestre da representação, da ilusão e da transfiguração do corpo.

Antoine d’Agata, México, 2014 © Antoine d’Agata

Das profundezas da existência de “um grande fabulador” que expiou os seus demônios através do corpo, Alberto García-Alix indica-nos a seguir outro cultivador do auto-sacrifício como ato de resistência: Antoine d’Agata. Na instalação Corpus, o fotógrafo francês usa fotografia, texto e vídeo (e muito design) para percorrer os temas centrais de uma obra em que é criador e protagonista. Numa linha circular (num obra que tende a andar em círculos) aparece a dependência do sexo e das drogas, de uma vida sempre à beira do excesso, do limite, do precipício e da queda. Esta viagem, conduzida pelo medo e pelo desejo, começa em 1987 e termina em 2016. Pelo meio, a repetição de imagens de violência, esgar, sofrimento, demência e desespero. Nos vídeos, vozes constrangidas de mulheres soltam frases em registo diarístico como “Tenho a boca cheia de moscas”, “Não posso ficar debaixo do teu corpo doente” ou “Daqui para a frente envolve-me na tua obscuridade”.

Teresa Margolles, Andrea sobre a Discoteca La Madelon, 2016 © Teresa Margolles

Ainda na visualidade do corpo, mas sobretudo na agitação social e política que a sua transformação pode causar, o trabalho de Teresa Margolles é entre todos os artistas eleitos por García-Alix aquele que mais denúncia carrega. Um conjunto de grandes fotografias coloridas revela a destruição de clubes noturnos, de espaços de baile e de diversão na cidade mexicana de Ciudad Juarez, onde trabalhadoras transgênero exerciam a sua profissão. Privadas destes lugares de refúgio, ficaram à mercê de um sociedade violenta e intolerante, “condenadas” ao ostracismo. Carla, uma transexual com quem Margolles trabalhou e de quem era amiga foi assassinada durante a realização desta série. Porquê? “Por ser transgênero. Rasgaram seu ventre.”

Anders Petersen, Café Lehmitz © Anders Petersen

É sobre aqueles que vivem nas margens da sociedade que fala também Café Lehmitz, de Anders Petersen, que, no final dos anos 60, passou dois anos e meio naquele bar de Hamburgo, a conviver e a fotografar uma clientela formada por cafetões, prostitutas, drogados, estivadores, criminosos, velhos solitários e alcoólicos. Alberto García-Alix confessou uma profunda admiração por este trabalho seminal da fotografia europeia e encomendou ao comissário Nicolás Combarro uma revisitação da obra. O resultado é a revelação, pela primeira vez, das folhas de contato das milhares de fotografias que Petersen tirou no Lehmitz, café que hoje já não existe. Há também fotografias que nunca tinham sido ampliadas, fato que transforma esta exposição num marco do festival. O ambiente de vibração e de folia constantes no Café Lehmitz, com todo o tipo de exibicionistas, pode dar a ideia de que tudo aquilo não passava de um mundo teatral, um “circo social”. Mas Petersen desmente esta provocação: “Não são atores. São muito reais. São pessoas normais, um grupo que não pertencia realmente à sociedade, que estava fora dela.”

E para terminar a seleção de Alix, o trabalho de alguém que também procurou dar imagem a um mundo marginal e underground, Karlheinz Weinberger, que nos últimos anos tem sido objeto de curiosidade e de interesse. Weinberger começou a fotografar na adolescência e nos anos 40 juntou-se ao clube gay Der Kreis (O Círculo), começando a publicar na revista de mesmo nome, título que se tornaria referência para o movimento homossexual internacional. No final dos anos 50, depois de pedir a um rapaz numa rua de Zurique permissão para fotografar por causa de uma roupa de caubói inspirada no cinema americano, passou a retratar (sobretudo) rapazes suíços que procuravam desafiar os conceitos tradicionais de masculinidade e feminilidade. Pelas imagens de Weinberger (expostas no Museu do Romantismo) podemos  perceber que os fotografados o fizeram sobretudo através da reciclagem e do pastiche dos símbolos dos rebeldes sem causa ou da criação de novos adereços e vestuário, que tinham um toque artesanal e, sobretudo, caminho aberto para chocar.

© Acervo Karlheinz Weinberger, cortesia galeria Esther Woerdehoff Paris, 2017

Na primeira vez em que se deparou com as fotografias de Weinberger, García-Alix ficou seduzido apenas pelo brilho das chapas dos cintos (muitos com a figura de Elvis estampada), com a ousadia de fazer das braguilhas um tema fotográfico e com o espírito roqueiro transmitido por estas imagens. Depois de investigar e estudar a obra percebeu que havia algo mais, para além dos adereços e vestuários estranhos, um trabalho “complexo”, que foi sendo construído num apartamento onde Weinberger vivia com a mãe. Quando começou a levar estes rapazes para o estúdio improvisado de casa, uma das primeiras coisas que Karlheinz Weinberger tratou de fazer foi mudar a discografia, passando da música clássica para o rock. Tudo para criar o ambiente adequado para as suas imagens que, com o passar do tempo, revelar-se-iam cada vez mais ousadas. “Depois de vermos o conjunto da sua obra, percebemos que no início ele só estava interessado nos jeans, nos cintos e nas braguilhas. Mas depois começou a pedir aos modelos para tirarem as calças, e, mais tarde, pediu-lhes retratos segurando o pênis. Isto era uma grande ousadia para a época. Podemos dizer que através da fotografia fazia sexo. Mas não havia fisicalidade nestes momentos de intimidade. Não havia outra relação que não a fotográfica. E esta é a grande heterodoxia deste homem e deste trabalho”, observa García-Alix.

Weinberger nunca foi um fotógrafo em tempo integral. Trabalhava como responsável de armazém de segunda a sexta e só se dedicava à fotografia nos finais de semana. “Este homem encontrou sentido para a sua vida através da fotografia, através da relação que estabeleceu com estes rapazes pelos quais foi seduzido. Foi um fotógrafo que viveu seduzido pelo que retratou”, diz García-Alix. E aponta uma terceira mudança de direção no trabalho do fotógrafo suíço, no final dos anos 70, quando começou a ir às concentrações de motoqueiros: “Apesar de serem homens românticos, não é o tipo de homens que esperamos encontrar no Museu do Romantismo. Até agora.”///

 

 

Sérgio B. Gomes é jornalista e escreve sobre fotografia no jornal português Público desde 1999. É pesquisador da história da fotografia em Portugal, júri de vários prêmios, curador de exposições e editou por dez anos o blog Arte Photographica (2005-2015).

Exposições

Exposição Antilogias: o fotográfico na Pinacoteca trabalha a ideia do acervo como espaço em movimento

Ronaldo Entler

Armando Prado, sem título, 1977

A missão do museu é paradoxal. Sua tarefa é tanto resguardar quanto colocar em circulação os objetos que abriga. Ele deve estabilizar seus materiais e também responder à transformação dos olhares. Ao museu de arte, sobretudo, cabe circunscrever as linguagens operadas pelas obras e, ao mesmo tempo, pôr em marcha suas potê­ncias transgressoras. Dentro do museu, o acervo parece responder pelo lado mais rígido dessa missão. É ali que se realiza a tarefa de conservar os objetos, de preservá-los da ação do tempo. Inacessível, ele é a parte mais privada desse espaço que foi reivindicado como público. Imaginamos um ambiente onde a luz, a umidade, a temperatura e também os gestos são balanceados, onde o olhar adquire seu viés mais técnico e eficiente. Supomos que, dentro dele, também as palavras são pronunciadas de forma precisa e solene, apoiadas em convenções seguras. E, uma vez impressas nas fichas que agenciam o acesso às obras, elas se tornam definitivas.

A exposição Antilogias, na Pinacoteca de São Paulo e com curadoria de Mariano Klautau Filho, é uma oportunidade para desconstruir essas fantasias em torno do acervo. A mostra surge do esforço da instituição de pensar sua coleção de fotografia, constituída ao longo dos últimos 40 anos. Em princípio, a tarefa solicitada a Klautau foi essencialmente técnica: ele deveria percorrer as imagens para entender e refinar suas formas de catalogação. Deveria também vasculhar o centro de documentação do museu para buscar informações complementares sobre os trabalhos. A pesquisa permitiu ainda observar as margens da coleção de fotografia para localizar obras que, mantendo-se em suas vizinhanças, poderiam ser eventualmente pensadas dentro desse recorte.

Para uma tarefa como essa não existe uma ciência pronta. As palavras, os conceitos e os indexadores que o pesquisador escolhe não são neutros, eles têm um alto poder de renovar os sentidos das imagens a que se referem. É assim que o acervo, esse lugar que imaginamos hermético e assertivo, contamina-se dos paradoxos que atravessam de modo amplo qualquer espaço dedicado à história da cultura. Não se preserva uma obra de arte como se guarda um fóssil. Aquilo que de uma obra se conserva é também sua mobilidade, sua capacidade de falar dos novos tempos com que se confronta.

Thomaz Farkas, Expedição ao rio Negro, da série Brasil e brasileiros no olhar de Thomaz Farkas, 1975

A ideia de realizar uma exposição veio em seguida, ao final de um semestre de pesquisas realizadas por Klautau. Mas é possível supor que a tarefa de observar sistematicamente a coleção já tivesse exigido muitas vezes o trabalho inventivo de uma curadoria. A preparação da mostra demandou mais um ano de trabalhos e contou com a colaboração de Pedro Nery como curador-adjunto. Para ampliar a leitura já realizada, Klautau optou por colocar a coleção da Pinacoteca em diálogo com outras imagens. Antilogias conta com cerca de 250 trabalhos de 32 artistas presentes no acervo e de outros 29 nomes convidados. O objetivo dessa abertura foi reforçar a proposição de certos “percursos” – conceito-chave explorado pelo curador – pela diversidade de formas e materialidades que a fotografia já esboçava dentro do acervo.

Sabemos que, nessas quatro décadas em que essa coleção se constituiu, nossa compreensão da fotografia foi alargada tanto pelas novas abordagens teóricas quanto pela produção experimental dos artistas. Sabemos também que, nesse mesmo período, os diretores e curadores que atuaram na Pinacoteca souberam manter a instituição atenta à produção fotográfica brasileira, ainda que com visões e preferências muito distintas. Num país marcado por instabilidades políticas, as instituições precisam desenvolver certa habilidade para produzir suas narrativas a partir de gestos descontínuos. Para se ter uma noção do que é esse esforço: Tadeu Chiarelli, que dirigia o museu na época em que o projeto de revisão catalográfica foi viabilizado, conta que foi seu antecessor, Ivo Mesquita, quem lançou um olhar mais provocativo e atento em direção ao acervo de fotografia. O convite a Klautau para realizar a pesquisa que culminou nessa exposição partiu de Chiarelli. Mas, semanas antes da Pinacoteca abrir Antilogias, Jochen Volz já tinha assumido o lugar de Chiarelli na direção.

Em meio à diversidade de trabalhos e de visões que resultam nessa coleção, a exposição não tem a pretensão de chegar a uma síntese do que é a fotografia abrigada pela Pinacoteca. O que está ali representado é, antes, a topografia complexa de um espaço percorrido pela instituição nessas quatro décadas e que, conforme o mapeamento feito pelo curador, constitui um campo fotográfico bastante vasto.

André Penteado, da série Missão francesa, 2017

Se obedecermos ao desenho das salas ocupadas pela exposição, é a série Bom Retiro e Luz (1976), de Cristiano Mascaro, que abre Antilogias. Esse trabalho, produzido a convite da então diretora Aracy Amaral, demarca o início da coleção de fotografia da Pinacoteca. Na sala subsequente, vemos outras obras produzidas entre as décadas de 1970 e 1980 por nomes como Carlos Moreira, Boris Kossoy, Armando Prado e Alair Gomes. No entanto, a exposição não se limita a uma organização cronológica. Apesar da simetria das salas, o espaço simbólico construído pelas imagens é complexo e nenhuma linearidade está garantida: numa espécie de analogia com o que ocorre no acervo, há diversas portas de entrada para a exposição. Independentemente da que for escolhida, é certo que, em uma experiência dessa ordem, sempre chegaremos pelo meio. Antes mesmo de entrar nas salas, encontramos um recorte da série Missão Francesa (2017), trabalho recente de André Penteado que cria também um espaço de transição entre esta exposição e uma história mais ampla da arte brasileira, bem representada em outros espaços da Pinacoteca. A exposição revela uma curadoria provocativa e plena de inquietações, mas que não faz das obras um pretexto para manifestar suas hipóteses teóricas. Com uma montagem simples, generosa e sem artifícios cenográficos, o público encontrará sua própria distância e ritmo para percorrer as imagens.

Não é difícil construir hipóteses sobre o que aproxima as obras alocadas em cada uma das sete salas da exposição, recortes mais ou menos consolidados como fotografia documental, fotografia expandida, corpo, paisagem e narrativas, entre outros. Mas, como parte desse exercício de produzir antilogias [termo que indica contradição ou confronto em ideias e argumentações], sempre encontraremos trabalhos que não se entregam tão facilmente ao lugar que lhe foi dado pela curadoria. Também veremos imagens que ora antecipam, ora desdobram para outras salas os recortes demarcados. Um exemplo: em meio a um gênero tradicional como o da fotografia de paisagem, algumas obras se expandem na direção da imagem em movimento por meio de fotomontagens, de sequências narrativas, vídeos e gifs animados. Ou, na direção contrária: numa sala que claramente prioriza as poéticas da fotografia expandida, bem ao lado de Rosângela Rennó, há um documentarista clássico como Jean Manzon. Segundo o curador, o que motivou essa aproximação é algo muito sutil: numa de suas imagens (Cena urbana no centro de São Paulo, 1950), vemos um garoto imerso em alguma outra paisagem do mundo, graças a um aparato de exibição de imagens estereoscópicas. Klautau enxerga ali o prenúncio do desejo de desvelar os artifícios do dispositivo fotográfico, que marca vários dos trabalhos mais recentes expostos naquela sala.

Claudia Andujar, sem título, 1970

Podemos apostar que algumas tensões provocadas pela curadoria já estavam, desde antes, colocadas também pelo acervo. Já na primeira sala, os curadores informam que as imagens de Mascaro exibidas originalmente em 1976, foram novamente ampliadas em 2003. Com algumas dessas cópias exibidas lado a lado, vemos como uma mesma imagem se comporta de modos distintos quando submetida a condições técnicas diferentes. A fotografia impôs o reconhecimento da autenticidade estética de uma imagem que já nascia como cópia. Mas há um efeito colateral dessa concessão que demoramos a reconhecer: se o procedimento técnico de reprodução não oferece parâmetros inequívocos, o trabalho criativo do fotógrafo está longe de se esgotar na captura de um instante.

Cristiano Mascaro, da série Bom Retiro e Luz, 1976

Cristiano Mascaro, da série Bom Retiro e Luz, 1976

Além de muitos jovens artistas, a exposição inclui trabalhos pouco vistos de fotógrafos consagrados, por exemplo, uma Claudia Andujar precocemente experimental (Sem título, 1970) ou, ao contrário, um Thomaz Farkas documental, já distante do formalismo dos fotoclubes (Expedição ao Rio Negro, AM, 1975). Há em Antilogias um desejo claro de apontar para a amplitude das experiências que a fotografia pode assumir: ela pode assumir a forma de livro, de instalações e de objetos variados. Pode também avançar sobre o território da literatura, da escultura e do cinema. Uma situação-limite desse exercício curatorial pode ser visto na pintura Banhistas I (1976), de João Calixto. A técnica tradicional – óleo sobre tela – não deixa dúvidas sobre o lugar mais confortável para catalogação dessa obra. Mas a exposição é muito convincente ao observar aquilo que há de fotográfico na imagem: um realismo baseado na banalidade do instante e no enquadramento quase acidental de alguns elementos, inevitavelmente associado ao clique despretensioso de uma câmera. Trazida para o território da fotografia, e assumida a possibilidade de leituras anacrônicas, essa imagem poderia se confundir com um dos registros que postamos nas redes sociais num fim de semana. Como sugere Klautau, o que guia sua pesquisa é a tentativa de compreender uma cultura visual atravessada pela fotografia.

Em particular, a vitrine dedicada à série Nova York (1982), de Alex Vallauri, constitui uma alegoria dos deslocamentos que uma obra pode experimentar dentro de um acervo. Vallauri é um dos precursores da arte urbana no Brasil e o que vemos ali, em cópias xerográficas, é um portfólio composto por registros fotográficos de intervenções feitas na cidade.  Não é incomum ver documentos, sobretudo aqueles que se referem a ações artísticas efêmeras, ganharem em coleções o estatuto de obra de arte. Mas o que surpreende não é apenas isso: ao lado da sequência de fotografias está a pasta que abrigava esse portfólio. Nela vemos que as páginas de plástico transparente absorveram as imagens que protegiam, como se o tempo tivesse prosseguido por conta própria a experimentação de novos suportes que tanto marcou o trabalho dessa geração de artistas. É um acidente, sem dúvida, mas que demonstra o modo como as imagens, mesmo quando permanecem guardadas, são capazes de renovar os problemas que lançam ao olhar.

Alex Vallauri, da série Nova York, 1982

Vitrine com a série Nova York, de Alex Vallauri, 1982

Percorrendo Antilogias, entendemos que o acervo não é avesso às ações do tempo. Ao contrário, é constituído justamente por elas: pelas transformações que marcam a trajetória da instituição, o olhar do público, os materiais e as linguagens da arte. O trabalho do curador foi, em certa medida, dessacralizar o espaço de uma reserva técnica, produzir ali movimentos menos contidos e protocolares, arrancar de seu silêncio solene uma escuta do modo como as obras negociam entre si uma história da fotografia, que não se resume à somatória das leituras que justificaram cada uma das aquisições. Ao colocar seu acervo em diálogo com outros trabalhos, o museu demonstra que investir na compreensão de sua história não é um movimento de autocelebração, mas uma forma de manter a vitalidade de sua coleção e de fazer dela um canal de diálogo com o mundo a seu redor.///

 

Ronaldo Entler é pesquisador e crítico de fotografia, professor e coordenador de pós-graduação da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP (SP) e editor do site Icônica (www.iconica.com.br).

Exposições

Uma seleção de exposições pelo mundo para quem gosta de fotografia

Veja uma seleção de exposições no mundo (e, aqui, no Brasil) para quem gosta de fotografia:

Larry Sultan: Aqui e em casa

 

Retrospectiva abrangente da carreira do fotógrafo norte-americano Larry Sultan (1946 – 2009), famoso por fotografar sua vida familiar explorando retratos posados, narrativas domésticas e um estilo documental. Os trabalhos expostos incluem fotos do início de sua carreira e imagens do seu trabalho mais famoso Fotos de casa (Pictures from home – 1983-92), cujo livro foi recentemente relançado e resenhado na ZUM.

Museu de Arte Moderna, São Francisco, até 23 de julho

Mais informações aqui.

 


Entre o diabo e o profundo mar azul – Pieter Hugo

Em exposição no Museu de Arte de Wolfsburgo (Alemanha), os retratos, naturezas mortas e paisagens do fotógrafo sul-africano Pieter Hugo (1976) trabalham sempre com questões de opressão cultural e dominação política. A mostra apresenta obras de trabalhos famosos de Hugo, como “Kin”, “A Hiena & outros homens”, “Nollywood” e de projetos mais recentes, como “Ruanda 2004: vestígios de um genocídio” e “Flores selvagens da Califórnia”.

Museu de Arte, Wolfsburgo, até 23 de julho

Mais informações aqui.

 


E. O. Hoppé – Revelando um segredo

 

Emil Otto Hoppé (1878) foi um importante fotógrafo alemão do início do século 20. Suas fotografias de paisagem, arquitetura e indústrias foram publicadas em importantes revistas. No entanto, a partir de 1950 seu nome começou a ser esquecido, principalmente pelo fato de Hoppé ter doado uma grande parte de seu acervo para uma biblioteca pública de Londres que não classificou sua obra por nome do autor, mas por temas. Só a partir dos anos 90 seu trabalho foi redescoberto, reclassificado e exposto.

Centro do Acervo Fotográfico / SK Stiftung, Colônia, Alemanha, até 30 de julho

Mais informações aqui.

 


As muitas vidas de Erik Kessels

As muitas vidas de Erik Kessels apresenta uma retrospectiva dos 20 anos de carreira do artista, publisher e curador holandês, uma referência mundial quando o assunto é fotografia apropriada. Na sua prática, a fotografia é um elemento a ser reorganizado e re-contextualizado, gerando uma espécie de ecossistema de imagens com um novo significado.

Centro Italiano de Fotografia, Turim, até 30 de julho

Mais informações aqui.

 


Memória descoberta: As fotografias do gueto de Lodz

Henryk Ross

Importante exposição que revisita o horror do cotidiano dos guetos judeus na Polônia da Segunda Guerra mundial. As imagens mostram a determinação e coragem do fotojornalista polonês Henryk Ross (1910-1991), um raro sobrevivente do gueto Lodz que conseguiu documentar o que ele chama de “nosso martírio”. Ross foi designado pelas autoridades alemãs para fotografar cenas montadas da vida no gueto que serviriam de propaganda nazista. Mas, de forma secreta e clandestina, fotografou também a realidade e as mazelas deste cotidiano em cerca de 6 mil negativos que manteve enterrados para só depois da guerra serem revelados e expostos.

Museu de Belas Artes, Boston, até 30 de julho

Mais informações aqui.

 


Irving Penn – Centenário

 

A maior retrospectiva até hoje do grande fotógrafo norte-americano Irving Penn (1917-2009), esta exposição comemora o centenário de nascimento do artista. Com quase 70 anos de carreira, Penn foi um dos grandes mestres do retrato, fotografando com extrema atenção a detalhes de composição, luz e estilo.

Metropolitan, Nova York, até 30 de julho

Mais informações aqui.

 


Foto Espanha 2017

O festival Foto Espanha toma conta de várias cidades espanholas até o final do mês de agosto. A extensa programação inclui oficinas, palestras, debates e exposições, com destaque para o trabalho de artistas como Paulo Nozolino, Teresa Margolles, Pierre Molinier, Anders Petersen e Antoine d’Agata, entre outros. Em sua vigésima edição, os organizadores deram carta branca ao fotógrafo espanhol Alberto García-Alix, curador das exposições do festival. [imagem de Anders Petersen]

Espanha, até 30 de julho

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Fons Iannelli: Guerra/ pós-guerra

Embarcado como fotógrafo da aviação naval da Marinha americana no Pacífico, Alfonso ‘Fons’ Ianelli (1971-1988) registrou momentos de camaradagem entre os marinheiros. Após a guerra, dedicou-se ao fotojornalismo e retratou de forma íntima o cotidiano das famílias americanas das mais diferentes classes sociais. Muito do seu acervo foi destruído em um incêndio do seu estúdio nos anos 1980, mas parte dele foi recentemente recuperado e agora é exposto em Nova York pela primeira vez.

Galeria Steven Kasher, Nova York, até 11 de agosto

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Mike Mandel: Os bons 70s

O MoMa de San Francisco está com a exposição Mike Mandel: Os bons 70s, uma grande retrospectiva do artista californiano. Com cerca de 200 objetos, incluindo fotografias, livros e filmes realizados nos anos 70, a mostra apresenta a excêntrica obra de Mandel, com trabalhos como a série Pessoas em carros (1970-73), Mrs. Kilpatric (1974) e Motels (1974).

SF MoMA, San Francisco, EUA, até 20 de agosto

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Magnum Manifesto

Esta exposição celebra os 70 anos da famosa agência Magnum, fundada por Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e Chim (David Seymour). A mostra do Centro Internacional de Fotografia (ICP) explora a história da segunda metade do século 20 pelas lentes de 75 fotógrafos da agência, com nomes como Elliott Erwitt, Cristina Garcia Rodero, Jim Goldberg, Joseph Koudelka, Sergio Larrain, Susan Meiselas, Martin Parr, Marc Riboud, W. Eugene Smith, Alec Soth, Chris Steele-Perkins e Alex Webb, além dos próprios fundadores. [imagem de Chris Steele-Perkins]

ICP, Nova York, até 3 de setembro

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As oferendas

Gao Bo

Uma ampla retrospectiva da obra do artista chinês Gao Bo (1964) pode ser vista na Casa Europeia da Fotografia. Transitando entre a fotografia, a instalação e a performance, estão expostos desde seus primeiros trabalhos sobre a milenar cultura dos monges tibetanos até suas instalações mais recentes, como a intervenção onde queimou uma série de fotos para reter apenas as cinzas.

Casa Europeia da Fotografia, Paris, até 4 de setembro

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Gordon Parks – Eu sou você. Trabalhos selecionados 1942-1978

A exposição Gordon Parks – Eu sou você. Trabalhos selecionados 1942-1978 apresenta uma parte importante do fotógrafo norte-americano. Além de seu trabalho em preto e branco, estão expostas fotografias coloridas e trechos de A árvore do conhecimento e Shaft, filmes dirigidos por ele.

Foam, Amsterdã, até 6 de setembro

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Elliott Erwitt na Hungria

Em 1964, o renomado fotógrafo Elliott Erwitt fotografou a vida cotidiana em Budapeste, Hungria. A mostra apresenta o olhar do artista norte-americano para o que acontecia nos países do lado leste da Cortina de Ferro. O resultado da visita está sendo exposto pela primeira em Budapeste, na Casa Mai Manó.

Casa Mai Manó, Budapeste, até 10 de setembro

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Com os olhos bem abertos. Cem anos de fotografia Leica.

A mostra Com os olhos bem aberto. Cem anos de fotografia Leica é composta por cerca de 400 fotografias que contam a história de um século de imagens com a clássica e icônica máquina de 35 mm. A exposição está estruturada em temas: Leica e a nova visão, Fotojornalismo, Fotografia subjetivista, Fotografia humanista, A fotografia de moda, A nova fotografia em cores e Fotografia de autor. A mostra apresenta trabalhos de Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Paul Wolff, Bruce Davidson, Robert Frank e outros fotógrafos que ajudaram a tornar a Leica um clássico. [imagem de Fred Herzog]

Fundação Telefonica, Madri, até 10 de setembro

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 Ed van der Elsken: Câmera apaixonada

 

O fotógrafo holandês Ed van der Elsken percorreu as ruas das grandes cidades do mundo: Paris, Amsterdã, Tóquio, Hong Kong e tantas outras. Em busca de personagens característicos, principalmente jovens marginalizados, o fotógrafo desenvolveu um estilo de próprio de ver as cidades e suas mudanças no pós-guerra.

Jeu de Paume, Paris, até 24 de setembro

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Diane Arbus: No começo

Esta exposição apresenta mais de 100 fotografias que redefinem Diane Arbus, uma das mais influentes e provocativas artistas do século 20. Focando no início de sua carreira, de 1956 a 1962, quando desenvolveu seu estilo idiossincrático e o método pelo qual foi mais tarde reconhecida, aclamada, criticada e copiada ao redor do mundo. Composta majoritariamente por material inédito, vindo do arquivo Diane Arbus, a mostra traz íntimas e surpreendentes imagens de crianças, pessoas excêntricas, casais, artistas circenses, drag queens e frequentadores da Quinta Avenida, em Nova York, onde a artista fez a maioria de suas fotos.

Malba, Buenos Aires, até 9 de outubro

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Eugene Richards: O passar do tempo

Nos últimas décadas, o fotógrafo norte-americano Eugene Richards (1944) dedicou-se a explorar temas complicados e controversos em seus trabalhos, como racismo, pobreza, dependência química, envelhecimento e o êxodo rural americano. A exposição Eugene Richards: O passar do tempo apresenta seus trabalhos a partir de 1968, e inclui fotografias, textos e filmes.

Museu George Eastman, Rochester, NY, até 22 de outubro

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Magnum Recuperação Analógica

Esta mostra é fruto de um trabalho de recuperação de cópias analógicas guardadas nos arquivos da famosa agência Magnum, fundada por nomes como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson. São milhares de imagens produzidas entre 1947 até o final de 1970 que agora são recuperadas e mostradas ao público, desde fotos já clássicas até outras pouco vistas. [imagem de Léornad Freed]

Le Bal, Paris, até 27 de outubro

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Weegee por Weegee

 

Na convulsionada Nova York dos anos 30 e 40, Weegee (pseudônimo de Arthur Fellig) era um repórter fotográfico que sempre estava sintonizado na frequência policial a fim de descobrir a próxima pauta. A exposição Weegee por Weegee apresenta uma ampla seleção de seus trabalhos, desde fotos de crimes, incêndios e acidentes até cenas de eventos populares e aglomerações da população nova iorquina, como sua famosa imagem de uma multidão em Coney Island.

Fundação Foto Coletânea, Barcelona, até 3 de novembro

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Histórias recentes: Nova fotografia africana

Exposição reúne o trabalho de 14 artistas contemporâneos da África, que investigam temas ligados a questão de identidade, pertencimento e preocupações sócio-políticas, como migração e o legado colonialista. A mostra apresenta obras dos artistas Edson Chagas, Mimi Cherono Ng’ok, Andrew Esiebo, Em’kal Eyongakpa, François-Xavier Gbré, Simon Gush, Délio Jasse, Lebohang Kganye, Sabelo Mlangeni, Mame-Diarra Niang, Dawit L. Petros, Zina Saro-Wiwa, Thabiso Sekgala e Michael Tsegaye. [imagem de Dawit L. Petros]

Coleção Walther, Neu-Ulm, Alemanha, até 29 de novembro

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Música dos balcões

Ed Ruscha

Esta exposição mostra de maneira abrangente o trabalho do artista norte-americano Ed Ruscha (1937), incluindo séries fotográficas, pinturas e desenhos dos anos 60 até os 2000. Ruscha desenvolveu sua obra tendo como referência as paisagens urbanas do oeste americano, principalmente em torno do imaginário ligado a Los Angeles e Hollywood.

Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo, até 29 de abril de 2018

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Exposições

Exposição em Nova York celebra o centenário de nascimento de Irving Penn

Irving Penn & Francisco Quinteiro Pires

Irving Penn sentia-se mais à vontade e seguro quando estava dentro de um estúdio. O fotógrafo norte-americano podia assim ter a sensação mais clara de controle tanto sobre os elementos à sua volta quanto sobre os objetos por ele fotografados. Uma representação fotográfica que escapasse facilmente ao seu poder de manipulação desafiava sua capacidade de tolerância estética. “O realismo do mundo real é algo quase insuportável para mim”, explicou nos anos 1970. Famoso pelas fotografias publicadas na revista Vogue durante quase sete décadas de trabalho, Penn foi fundamentalmente um fotógrafo de estúdio, como enfatiza Irving Penn: Centenário, exposição do Metropolitan Museum of Art que celebra o centenário de nascimento do artista norte-americano e o anúncio de que a Fundação Irving Penn doará cerca de 150 fotografias para o museu nova-iorquino. Essa é a terceira mostra que o Met dedica ao trabalho do fotógrafo nascido no Estado de New Jersey, em junho de 1917.

Dividida em onze seções onde aparecem todas as imagens doadas pelo instituto que administra a obra do fotógrafo, morto em 2009, Irving Penn: Centenário apresenta um profissional a um só tempo tradicionalista e criativo, oscilante entre os universos das fotografias comercial e artística, admirador das vanguardas modernistas europeias e aspirante à criação de uma obra de arte tão canônica quanto uma escultura grega clássica. A curadoria da exposição do Met, realizada por Maria Morris Hambourg e Jeff L. Rosenheim, acentua a devoção de Penn ao próprio trabalho, além da atenção por ele reservada à composição e às nuances de suas imagens, marcadas por um formalismo e modernismo que haviam se tornado norma quando suas fotos passaram a ser exibidas em museus dos Estados Unidos nos anos 1970. Penn surge como um indivíduo simples, de origem proletária e avesso ao mundo glamoroso exibido nas páginas da revista Vogue, nas quais imperava, como ele mesmo afirmou, uma “elegância anoréxica”.

Os curadores, entretanto, tomaram certo cuidado para relativizar uma leitura predominantemente consagradora de um fotógrafo canônico, cuja primeira exposição no Met, Irving Penn: Material de rua, foi realizada em 1977, seguida pela segunda mostra, em cartaz em 2002, com o título Corpos terrenos: os nus de Irving Penn 1949-50. Apesar de superficial, tal relativização ocorre na série mais propensa à polêmica, chamada Retratos etnográficos, 1967-71. A sala da exposição com este trabalho apresenta imagens feitas por Penn na Guiné, em Papua Nova Guiné e no Marrocos e publicadas em cores pela revista Vogue. Penn compilou uma seleção desses retratos em preto e branco no livro Mundos em uma pequena sala (1974).

Irving Penn, Truman Capote, Nova York, 1948. © Fundação Irving Penn

O método que consagrou Penn no início de sua carreira como fotógrafo de moda tornou-se com o tempo mais espinhoso, por estar sujeito a promover a reprodução de estereótipos quando retrata indivíduos de sociedades não-ocidentais. Em uma série de retratos de artistas e famosos feitos para a Vogue a pedido de Alexander Liberman —diretor de arte da revista —, Penn inventou diferentes artifícios para isolar os retratados do ambiente à sua volta. Para fazer as séries Retratos existenciais, 1947-48 e Pequenas trocas, 1950-51, o fotógrafo adotou como fundo neutro uma cortina velha e manchada de teatro e um cenário improvisado composto de biombos em um ângulo agudo. A cortina criava uma paisagem de terra arrasada, em consonância com a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial ou o universo ficcional de uma peça de Samuel Beckett. Penn posicionava os seus retratados de costas para o vértice formado pelos biombos, espremendo-os entre as retas desse ângulo agudo e imobilizando-os de modo a mirarem a sua câmera. Ao criar como fundo um local não-identificado, em que as especificidades tendem a se anular, Penn pôde concentrar toda a sua atenção nas expressões corporais daqueles que posavam para a sua câmera e assim guiá-los no ambiente cuidadosamente controlado de um estúdio. Era uma variação da sua experiência seminal nos anos 1930 e 1940 com o retrato de naturezas-mortas. “Objetos inanimados são bons, seguros e fáceis de controlar e nada perturbadores”, disse Penn a respeito do seu trabalho com as naturezas-mortas.

Quando viajou para a Guiné, onde fotografaria mulheres descendentes das amazonas do Reino do Daomé, Penn exigiu a princípio um estúdio no país africano que recebesse luz natural desde o norte. Como esse tipo de estrutura se mostrou impossível de ser alugado em regiões mais remotas do país africano, Penn seguiu a sugestão de Mary Roblee Henry, então editora da Vogue. Henry aconselhou Penn a montar uma barraca, dentro da qual poderia separar mulheres e crianças da paisagem natural. Esse estúdio improvisado e ambulante era uma espécie de “região neutra” na vila de pescadores em Ganvié. A barraca, segundo o fotógrafo americano, “não era a casa deles, pois eu havia proporcionado esse invólucro estrangeiro à vida deles; não era a minha casa, já que eu tinha obviamente vindo de um outro lugar, bem longe. Mas nesse limbo criou-se para nós a possibilidade de contato que foi para mim uma revelação e que foi com frequência, eu podia perceber, uma experiência comovente para os retratados”.

Irving Penn, Três homens-lama Asaro, Nova Guiné, 1970. © Fundação Irving Penn

O uso da palavra limbo por Penn para se referir a seu estúdio improvisado e ambulante remete à conotação de um lugar indefinido, esquecido, marginal. Uma das características fundamentais do seu trabalho, a prática de isolar os retratados do seu contexto cultural e descaracterizar o cenário em que estão inseridos ecoa um discurso colonialista e reproduz estereótipos em relação a povos nativos, admitem os curadores de Irving Penn: Centenário. Penn contou com certa vergonha que, antes de sua viagem para Papua Nova Guiné, ele “esteve preocupado com o fato de trazer a sua mulher depois de ler sobre canibalismo” no país da Oceania. Coincidência ou não, esse discurso sobre canibalismo está na base do encontro entre colonizadores europeus e populações aborígenes. Tratadas como seres selvagens, mais próximos dos animais do que dos seres humanos, essas populações poderiam ser violentadas e escravizadas.

Essa perspectiva influenciou a relação colonialista e controversa entre fotografia e antropologia nos século XIX, o que pode tornar explosivo o trabalho etnográfico de Penn na Guiné, em Papua Nova Guiné e Marrocos. Sob o ponto de vista comercial e editorial da Vogue, esse tema candente e doloroso virou uma oportunidade, segundo interpretação de Diana Vreeland, editora-chefe da revista. Para Vreeland, o vestuário e os adornos corporais registrados nos retratos de Penn eram um material autêntico e complementar à contracultura dos anos 1960 que a revista tentava capturar em suas páginas.

Embora a curadoria de Irving Penn: Centenário tenha abordado o tema controverso da relação entre colonialismo e fotografia, ela deu menos atenção às questões de gênero do trabalho de Penn, que se dizia mais preocupado em retratar as mulheres dentro dos vestidos do que os próprios vestidos. Em uma das seções mais experimentais da exposição do Met, uma série de retratos apresenta mulheres nuas, com a cabeça cortada. Penn escolheu mulheres de corpos mais magros como modelos iniciais, depois sucedidas por mulheres mais corpulentas e fora de forma. O efeito dos corpos sem rostos é perturbador, ao mesmo tempo que desencoraja o voyeurismo. Tanto Liberman, diretor de arte da Vogue, quanto Edward Steichen, fotógrafo e curador do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York, rejeitaram esse projeto de Penn.

Irving Penn, Escultura de corpo Ungaro (Marisa Berenson), Paris, 1969. © Fundação Irving Penn

Outro tema delicado da exposição é a escolha de mulheres jovens e atraentes, com os seios nus, para a edição da Vogue que publicou a série de retratos feitos na Guiné. Apesar de as retratadas desafiarem em algumas imagens a linguagem fotográfica imposta por Penn, o que prevalece no enquadramento das guineanas é uma composição diretamente transplantada das páginas de Vogue e da National Geographic. Esse registro em imagens realizado por Penn pertence a uma tradição que lamenta o desaparecimento de culturas locais. Ao mesmo tempo, ao reproduzir padrões estéticos dentro de um estúdio onde quer que vá, Penn se arrisca ao dar margens à interpretação de estar exercendo o poder de uma visão masculina, que desconhece outras perspectivas por desinteresse em se aventurar em um universo com significados culturais que lhe escapam ao controle. Quando se lê o texto de introdução escrito por Maria Morris Hambourg no catálogo de Irving Penn: Centenário, é possível desconfiar da citação feita pela curadora de um trecho de Pele Negra, Máscaras Brancas, um livro clássico de Frantz Fanon sobre colonialismo. De acordo com Hambourg, Penn teria promovido em suas fotografias o que Fanon descreveu como “a criação de um mundo humano — isto é, um mundo de reconhecimentos mútuos”.///

 

Francisco Quinteiro Pires (1982) é jornalista e doutorando no Departamento de Língua e Literatura em Espanhol e Português da Universidade de Nova York (NYU). Nasceu no Brasil e vive em Nova York desde 2010.

 

Exposições

Ambiciosa exposição em Barcelona apresenta o universo em torno do fenômeno dos fotolivros

Walter Costa

Em 1977, duas sondas espaciais Voyager partiam da Terra levando um disco de ouro especialmente criado pelo cientista Carl Sagan, na possibilidade de alguma civilização extraterrestre encontrá-las no futuro. Como resumir nosso planeta e nossa civilização em um “cartão de visita” gravado em apenas 12 polegadas de circunferência?

Mais terreno e menos grandioso, porém similar, é o desafio da exposição Fenômeno fotolivro, em cartaz no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) e na nova sede da Fundação Foto Coletânea, ambos em Barcelona. Um bom fotolivro acontece a partir de uma colaboração bem-sucedida entre autor, editor, designer e produtor gráfico. Da mesma forma, o curador-chefe Moritz Neumüller optou por uma curadoria conjunta, convidando pesos pesados com atuações fundamentais para a expansão desse universo até o tamanho atual. O resultado é uma mostra ambiciosa, densa, dividida em sete “capítulos” e destinada a ser um marco na história da produção de fotolivros.

Uma das características físicas mais importantes de um livro é a sua portabilidade, a possibilidade de ser lido na cama, em um gramado, numa praça ou varanda. Logo de partida, este já é um bom desafio: como levar um objeto de leitura íntima à dimensão pública de uma exibição? Sabemos que em toda tradução perde-se algo do original, mas é aí que um bom tradutor faz a diferença. Assumindo que imprimir fac-símiles gigantes não seria uma opção e que não é possível deixar de proteger do manuseio livros frágeis e raros, me interessou ver as respostas dos curadores da Fenômeno fotolivro a esse desafio.

Se hoje consideramos normal chamar de fenômeno o movimento em torno do fotolivro, a ponto de dedicar-lhe uma grande exposição com mais de 500 títulos, precisamos dar um passo atrás para melhor entender o cenário. Apesar de existir na linha do tempo da fotografia desde seus primórdios, por décadas o fotolivro foi relegado a um canto escuro do salão na história da fotografia, mais preocupada com discussões e embates para afirmar-se no mundo da arte. Como prestar atenção ao que era considerado um subproduto barato, muitas vezes um simples catálogo?

A visão do colecionador, curadoria de Martin Parr

 

Sendo assim, o primeiro objetivo da exposição é a consagração de uma história da fotografia que reconheça o papel dos fotolivros na evolução da linguagem fotográfica. Basicamente, o que o fotógrafo e editor inglês Martin Parr vem fazendo desde 2004 junto ao também fotógrafo e curador Gerry Badger, parceiro na edição da trilogia O fotolivro: uma história. O capítulo “A visão do colecionador”, curado por Martin Parr, define a espinha dorsal da exposição com 57 livros fundamentais escolhidos dentre os 13 mil de sua coleção. Para ressaltar o valor de cada livro, e transmitir o sequenciamento das páginas que sustentam a narrativa, optou-se pelo uso de vitrines dispostas ao longo de um corredor, ao lado dos originais protegidos, tablets para “folhear”, projeções e, quando possível, exemplares de consulta. Não é como ler com as costas no travesseiro, mas, dentro do possível, foi uma boa solução para dar conta de apresentar a seleção de livros.

Um dos primeiros a apostar na inclusão de fotolivros em museus, o curador Horacio Fernández, ao contrário de Parr, não pretendia criar uma linha do tempo histórico-estética. O nome de seu capítulo na exposição, A biblioteca é o museu reafirma a posição de Fernández. No espaço expositivo, a escolha foi diagramar mosaicos na parede onde os olhos do visitante são convidados a relacionar as obras de Gabriel Cualladó, Manuel Álvarez Bravo e Henri Cartier-Bresson com os livros de suas respectivas bibliotecas. Uma aposta original, que cria mapas conceituais próximos dos trabalhos e das referências de cada artista. Essa opção vem do fato de que, para Fernández, apesar de ficar fora do circuito da arte, os fotolivros sempre circularam, influenciaram e inspiraram gerações de fotógrafos.

 

A biblioteca é o museu, curadoria de Horacio Fernández

Gerry Badger escolheu uma abordagem mais provocativa ao eleger livros que originalmente não tinham propósito artístico, mas que com o tempo foram descobertos por seu valor fotográfico e narrativo. Em “Livros de propaganda vs Livros de protesto”, ele se concentra em criar oposições entre os dois temas. Para isso, além de vitrines, usa reproduções superdimensionadas das páginas, somando a força da colagem ao tamanho da pintura muralista e tomando conta de todo o espaço. Os esforços político-visuais de convencer as pessoas a abraçar uma causa – seja por meio da celebração, no caso da propaganda, ou da denúncia, no caso do protesto –, são misturados entre si, reforçando a ideia de Badger de “dois lados da mesma moeda”.

O holandês Erik Kessels é conhecido por ser um artista da apropriação, colecionador compulsivo e grande admirador da fotografia vernacular, anônima, acidental, de cliques sem nenhuma intenção artística. Dividida em duas partes, sua curadoria “Fascinações e fracassos” nasce da “tensão constante entre dedicação, péssimo resultado e genialidade, o que torna interessante estes livros”. Na primeira parte, “Fotolivros incrivelmente geniais”, percebemos ecos do seu livro Fotolivros terrivelmente geniais. Um caso típico de furor acumulativo, o visitante é engolido por uma sala forrada até o teto de reproduções de páginas caoticamente arranjadas. No meio, uma vitrine apresenta as cópias físicas desse gabinete de curiosidades, que vai de um manual de break-dance até um sobre o fair play no futebol. A segunda parte, intitulada “Que desastre!”, se inspira no livro homônimo em que Kesssels celebra o erro como motor criativo. A sala, transformada num depósito de restos, abriga fotografias apropriadas originalmente usadas como provas para ilustrar informes de danos. As imagens estão expostas junto a portas velhas, tábuas e cadeiras, criando uma instalação divertida, mas um pouco fora de contexto diante de tamanha densidade de obras e conteúdos.

 

Fascinações e fracassos, curadoria de Erik Kessels

A cultura imagética japonesa, que remonta à natureza visual do ideograma, já seria justificativa suficiente para a existência do único capítulo “geográfico” da exposição. Mas, como escreve o curador e colecionador de fotolivros Ryuichi Kaneko, a exceção nipônica é ainda mais rica: “No Japão, apenas a reprodução da imagem [em livros e revistas] era considerada merecedora de consideração. Essa diferença se tornou uma característica da fotografia japonesa, que a conduziu à idade de ouro dos fotolivros”. Com a colaboração do editor e especialista em fotografia japonesa Ivan Vartanian (com quem Kaneko publicou o fundamental Fotolivros japoneses dos anos 1960 e 70), o capítulo “Cinco aspectos do fotolivro japonês”, destaca a relação entre fotógrafo e designer na criação de fotolivros. Um dos exemplos escolhidos foi o livro Barakei (1963), do fotógrafo Eikoh Hosoe (1933), editado quatro vezes entre 1963 e 2015. Apesar de apresentar o mesmo conteúdo fotográfico, cada versão do livro parece uma obra completamente distinta. Trabalhando em cada edição com um designer diferente, Hosoe deixou que eles expressassem livremente seu estilo, mas sempre respeitando o equilíbrio entre imagens e objeto. Infelizmente essas maravilhas só podem ser vistas através de vitrines, quando poderiam ter ido para a parede ou mesmo para tablets.

O fato de o CCCB, um centro não especializado em fotografia, hospedar a maior parte da exposição realça dois aspectos. Por um lado, demonstra que o fotolivro está finalmente se estabelecendo na cultura visual contemporânea. E, por outro, carrega a responsabilidade de abrir o entendimento do fotolivro a um público mais amplo, com o desafio de gerar encanto e interesse para o formato junto a pessoas alheias a este nicho. Nesse contexto, o capítulo “Lendo Nova York” merece destaque. Criado em torno de um único livro, o clássico de William Klein (1928) A vida é boa & boa pra você em Nova York (Life Is Good & Good For You In New York, no original, de 1956). Com curadoria de Markus Schaden, editor e diretor do PhotoBookMuseum, esse trabalho é o mais recente de uma série intitulada PhotoBookStudies: mapas rizomáticos que expandem fotolivros no espaço expositivo, em que as paredes viram uma grande lousa com comentários manuscritos acompanhando a sequência de páginas. Uma maneira chamativa, divertida e inovadora que enriquece a leitura e sugere interpretações, servindo também como guia para o (não sempre fácil) ato de ler fotolivros.

 

Lendo Nova York, curadoria de Markus Schaden

Finalmente, o capítulo “Práticas contemporâneas” ressalta outra parte fundamental para entender melhor os fotolivros: o processo criativo que se esconde por trás do resultado final. A curadoria ficou por conta da dupla Moritz Neumüller (professor e curador-chefe da exposição) e Irene de Mendoza (diretora artística da fundação Foto Coletânea), com sete artistas que se destacam na experimentação de processos e formatos, e cujos trabalhos são mostrados por meio de bonecos dos livros e vídeos. Entre tanta diversidade de aproximações, cabe ressaltar uma característica comum entre os artistas: suas carreiras decolaram graças à produção de fotolivros, veículos cada vez mais efetivos para afirmar a voz de autor no panorama fotográfico. Completa essa parte da exposição a “Estação beta”, uma grande sala de leitura com mais de duzentos livros publicados nos dois últimos anos e selecionados por especialistas do mundo todo. Entre mesas e pufes, a boa surpresa foi encontrar Cabanagem (2105), de André Penteado, único representante do Brasil (além de Amazônia (1978), de Claudia Andujar e George Love, selecionado na curadoria de Martin Parr).

Práticas contemporâneas, curadoria de Moritz Neumüller e Irene de Mendoza

Um destaque final é o catálogo, desenhado pelo italiano Ramon Pez, que transforma os capítulos expositivos em fascículos com imagens e textos mais extensos dos curadores, além de um inédito ”posfácio”, em que Lesley Martin (editora do Photobook Review, da Aperture), nos apresenta seu “Convite para uma taxonomia do fotolivro contemporâneo”.

Voltando aos discos das Voyager do início do texto, a mostra Fenômeno fotolivro também lida com a dúvida e a esperança de que seu conteúdo ultrapasse fronteiras. Possivelmente, o tamanho e abrangência da exposição sobrecarregue quem não pertence à categoria que Neumüller chamou de “congregação do fotolivro”. No entanto, a polifonia das vozes curatoriais oferece ao visitante a liberdade de pular para o seu “capítulo” favorito, o que pode ajudá-lo a se localizar neste universo. Como Sagan já imaginava, é difícil dizer se a mensagem enviada em disco chegará aos “extraterrestres”. No caso da exposição, o mesmo vale para as pessoas fora do mundo das publicações artísticas. Meu desejo, parafraseando o cientista, é que ela consiga passar para o grande público que “um [foto] livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia”.///

 

Walter Costa é fotógrafo e editor independente italiano com base em São Paulo. Pesquisador na área da edição, criou o projeto The Rising Card, é um dos fundadores do grupo de discussão sobre fotolivros Trama e coordenador do grupo de estudos Lombada-Laboratório de Fotolivros.

Exposições

Na abertura, Museu da Fotografia Fortaleza mostra a diversidade de sua coleção com quatro exposições

Iana Soares

Fachada do Museu da Fotografia Fortaleza, por Celso Oliveira

O mesmo conselho dado por Marco Polo ao imperador Kublai Khan diante da vastidão de seu império em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, pode ser oferecido ao visitante que entra pela primeira vez no Museu da Fotografia Fortaleza: de uma fotografia, assim como de uma cidade, não aproveitamos apenas “as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. Ou as perguntas que nos colocamos para nos obrigar a responder, como Tebas na boca da Esfinge”. Ao ver imagens de Henri Cartier-Bresson, Steve McCurry, Man Ray, Rosângela Rennó, Pierre Verger, Claudia Andujar, Sebastião Salgado e outros tantos mestres da fotografia mundial, é necessário ser um viajante atento e curioso para apreender a diversidade que temos diante dos olhos.

Inaugurado no início de março, o Museu da Fotografia Fortaleza apresenta ao público mais de 400 obras nacionais e internacionais que fazem parte da coleção Paula e Silvio Frota. Quatro exposições, divididas nos três andares do prédio de 2.500m2 projetado pelo arquiteto Marcus Novais, apresentam a imersão do curador Ivo Mesquita, ex-diretor artístico da Pinacoteca de SP, no acervo que ultrapassa as 2.000 imagens.

O fato de o empresário Silvio Frota ter iniciado sua coleção de obras fotográficas a partir de critérios de gosto pessoal talvez explique a variedade da seleção: fotografias históricas, de reportagens, retratos, paisagens, publicidade e outras já consagradas no campo da arte contemporânea compõem o arquivo. Os eixos escolhidos por Ivo Mesquita, nas quatro exposições, são pouco explícitos e reforçam essa profusão, sem aprisioná-la em um discurso curatorial limitador. Algumas imagens exibidas no MFF remetem àquelas que ainda não foram apresentadas ao público, pois integram séries maiores ou são recortes na produção de determinado fotógrafo. Nesse jogo, o espectador pode imaginar outros roteiros possíveis dentro da coleção, organizados tanto por temas, como por marcos temporais ou mesmo por autor.

Congresso nacional II, de Marcel Gautherot

Abrindo mão de uma narrativa cronológica, a exposição temporária Imaginário de Cidades, no térreo do museu, traz um mosaico sobre questões urbanas no mundo. Luis Gispert, em Cemitério (2011), coloca o espectador dentro de um carro, bem ao lado do alegre pintor da Torre Eiffel, de Marc Riboud. As escolhas iniciais da curadoria já apontam que, mais do que ter como fio condutor o artifício do tempo e um viés evolucionista, pautado pelas transformações tecnológicas do meio fotográfico ou mesmo da paisagem, a busca foi por criar conexões, diálogos e também distanciamentos entre as imagens.

O Rio de Janeiro, por exemplo, surge tanto na fotografia de Marc Ferrez, ainda no século XIX e sob encomenda de Dom Pedro II, como no painel iluminado de Betina Samaia, em uma imagem da série Noturnos (2013). As fotos de José Medeiros e Bina Fonyat conversam sobre a praia de Copacabana. A graciosidade e o instante decisivo do transeunte que salta Atrás da estação São Lázaro (1932), em uma das fotografias mais famosas de Henri Cartier-Bresson, flertam com as Meninas no bairro da Liberdade (1940), de Hildegard Rosenthal, que se lambuzam com seus picolés. O voyeurismo da série Numa janela do Prestes Maia 911 (2008), de Julio Bittencourt, marca um olhar mais contemporâneo de fotorreportagem na coleção. É preciso tempo e até mais de uma ida ao MFF, para investigar as especificidades de cada imagem e também as conexões entre elas. Seria interessante que fosse oferecido um catálogo, ainda que virtual, para esse percurso continuar mesmo após a visita.

Águas termais, de Otto Stupakoff.

Victor Dragonetti, nascido em 1991, é o fotógrafo mais jovem presente no museu e aparece com imagens das manifestações ocorridas em São Paulo, em 2013, com as quais ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo. Feitas 40 anos antes, e reunidas agora na mesma exposição, as imagens do veterano Evandro Teixeira narram a ditadura no Brasil e criam pontes históricas entre as manifestações populares.

Baldes (2009), de Patrick Hamilton, é a única obra que rompe com o rigor da parede ao expor algumas fotografias noturnas dentro de baldes iluminados. Ainda que destoe do conjunto geral da curadoria, a presença dessas imagens indica o interesse do colecionador em reunir trabalhos que também saiam da moldura na parede, trazendo outras questões para o espaço expositivo.

Menina afegã, de Steve McCurry.

Ainda no térreo, no final de um corredor, a Menina afegã (1984), de Steve McCurry, faz a transição para a exposição Sobre Crianças. Mesmo reproduzida à exaustão em revistas, livros e internet, a fotografia que ressalta os olhos da menina Sharbat Gula sempre causa impacto.  Esta imagem, vista há nove anos em uma exposição de McCurry em Houston, mudou o rumo da coleção de Paula e Silvio Frota, até então focada em pintura.

Nesta exposição, a menor das quatro que inauguram o museu, é possível encontrar obras de Claudio Edinger, Thomaz Farkas, Adriana Duque, entre outros. Gabriel Chaim, presente também em Imaginário de cidades, mostra retratos de crianças de Aleppo, atingidas pelos conflitos na Síria. Sobre crianças também será ponto de partida das ações educativas com crianças em situação de vulnerabilidade social, expandindo o alcance do museu. Serão realizadas oficinas de fotografia em bairros e escolas e o resultado será exposto no mesmo espaço.

Jovens de Aleppo, de Gabriel Chaim.

Em Jogos de olhares, no primeiro andar, fica ainda mais explícito que não existe um princípio curatorial primordial e unificador nas exposições. Ao reunir a multiplicidade de gosto dos colecionadores, afirma-se mais uma vez que foi priorizada a exibição da diversidade do acervo. Em princípio, esta mostra tem caráter permanente, com possíveis variações a partir da própria coleção.

A mãe migrante (1936), de Dorothea Lange, está reunida com obras de Man Ray e Cindy Sherman. Uma das imagens mais significativas da segunda guerra mundial, feita em 1945 por Joe Rosenthal, ganhador do prêmio Pulitzer, mostra soldados norte-americanos fincando a bandeira dos Estados Unidos em Iwo Jima. A presença de O soldado caído (1936), de Robert Capa, também impressiona quem já conhece a história da fotografia.  Em outra parede, Che Guevara, Frida Kahlo, Igor Stravinsky e Richard Avedon parecem conversar sobre o tempo. É nesta exposição que aparecem autores mais relacionados à fotografia contemporânea e o hibridismo de técnicas. Além de Ação 3 (2005), série do cearense Yuri Firmeza marcada pela performance, há também duas fotografias de Adriana Varejão com o mesmo viés. Esses encontros apontam a possibilidade do Museu da Fotografia Fortaleza tornar-se um espaço de formação e valorização desta linguagem, nacional e internacionalmente.

sem título, de Man Ray.

No segundo andar, a exposição O norte e o nordeste traz autores nascidos ou que direcionaram o olhar para essas regiões. O litoral e o sertão são protagonistas em fotos de Marcel Gautherot, Tiago Santana, Pierre Verger e Gentil Barreira. A série com crianças Tapebas, de José Albano, enfatiza certa tradição fotojornalística na região. Os retratos de Mário Cravo Neto, com um olhar pessoal sobre o candomblé, também são destaque. A força e o mistério de Miguel Rio Branco podem ser percebidos no políptico O grito, porta da escuridão (1996), presença significativa na mostra.

Zo’é, de Rogério Assis.

Deus da cabeça, de Mario Cravo Neto.

Ainda neste pavimento, Chico Albuquerque (1917-2000) ganha uma sala especial no ano em que o seu centenário de nascimento é comemorado. Em É tudo verdade – Chico Albuquerque e Orson Welles, o espectador pode ver o encontro entre o cearense e o cineasta norte-americano, durante a gravação do filme É tudo verdade, em 1942. Neste espaço, há também um vídeo com entrevistas gravadas com o fotógrafo. A sua trajetória na publicidade, que o consagra nacionalmente, ficou de fora.

Mucuripe, de Chico Albuquerque.

Nesta primeira série de exposições fica claro que a coleção é pautada essencialmente pelo gosto do colecionador. Ainda que diversificado, é perceptível um forte interesse por imagens já consagradas na história da fotografia. Abrir o acesso a este acervo privado é um gesto relevante. Para a inauguração, a escolha da curadoria de apostar na diversidade, sem ter um discurso conceitual mais estabelecido e privilegiando a presença de imagens icônicas, permite atingir um público amplo, formado não apenas por fotógrafos e artistas. Mas para firmar-se como um espaço de referência nacional e internacional, será preciso ir adiante e experimentar mergulhos mais profundos tanto na coleção, como em percursos que ultrapassem as fronteiras do acervo, através de curadorias ousadas que estabeleçam formulações mais contundentes. Além de reverenciar os mestres, o MFF pode se destacar ao descobrir e exibir artistas que experimentem mais com a linguagem fotográfica. Transformar-se em um pólo não só de difusão, mas também de formação, pode ser uma estratégia para consolidar o espaço.///

 

Iana Soares é fotógrafa e jornalista. Mestre em Criação Artística Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, é editora de fotografia do Jornal O POVO, em Fortaleza.

Exposições

Uma seleção de exposições no Brasil para quem gosta de fotografia

Veja uma seleção de exposições no Brasil (e, aqui, no exterior) para quem gosta de fotografia:

São Paulo

 

 

Imagem-movimento

Zipper Galeria, até 14 de janeiro de 2017

A exposição explora a capacidade da fotografia, comumente associada à perenidade, de comunicar duração e movimento ao reunir obras e artistas que questionam imobilidade da imagem, seja através da escolha de tema, suporte ou modo de operar. Obras de André Penteado, Felipe Russo, Ana Vitória Mussi, Katia Maciel, Graciela Sacco, Patricia Gouvêa, entre outros, nas quais aspectos como deslocamentos, suportes cinéticos e efêmeros, longas exposições e relações temporais entre elementos pictóricos se entremeiam. Mais informações aqui. [imagem: Patricia Gouvêa]


 

German Lorca: Arte ofício/artifício

Sesc Bom Retiro, até 26 de fevereiro de 2017

dragao do mar, década de 1980

A exposição é dividida em três núcleos: no primeiro estão reunidas experimentações do artista com a técnica fotográfica, incluindo solarizações, múltiplas exposições e jogos de inversão negativo-positivo. Outro nicho expositivo mostra sua aproximação com o meio publicitário a partir da década de 1940, quando produziu diversas campanhas de marcas brasileiras. Por fim, o visitante tem uma rara oportunidade de conferir algumas obras em cores do fotógrafo, que se afirmou como um dos expoentes da fotografia moderna brasileira com sua obra predominantemente monocromática. Mais informações aqui.


 

III Mostra do Programa de Exposições 2016

Centro Cultural São Paulo, até 12 de março de 2017

WhatsApp Image 2016-12-14 at 16.23.09

Entre os artistas e coletivos que integram a mostra está o Nervo Óptico, grupo que atuou entre 1977-78 publicando um cartazete mensal, nos moldes da arte postal. Livros, revistas, fotografias, fotomontagens e registros de instalações compõem um resgate do trabalho do coletivo, que usava a imagem fotográfica como forma principal de expressão. Mais informações aqui.


 

Fotografia publicitária brasileira

Casa da Imagem, até 2 de abril de 2017

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A mostra reúne mais de setenta profissionais da área e imagens criadas a partir da década de 1950 até a atualidade. A evolução do discurso publicitário no país é representada através de produtos e marcas que pontuaram os hábitos de consumo brasileiros e suas respectivas campanhas. O grande destaque fica para os pioneiros Otto Stupakoff, Hans Gunter Flieg, German Lorca e outros mestres que afirmaram a pertinência desta linguagem. Mais informações aqui. [imagem: German Lorca]


 

Rio de Janeiro

 

Espírito de tudo
Rosângela Rennó

Oi Futuro Flamengo, até 29 de janeiro de 2017

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Ocupando todo o espaço do Oi Futuro Flamengo, a mostra reúne seis obras da artista multimídia que trabalham com a imagem em diferentes esferas. Em Turista transcedental, por exemplo, Rennó manipula vídeos de viagens a diversos pontos do planeta, distanciando-se da paisagem em si e concentrando a experiência na relação com culturas estrangeiras. Segundo a artista, as obras que compõem o Espírito de tudo mostram que há muitos outros mistérios entre o céu e a terra, além daqueles que os filósofos, poetas e artistas já detectaram. Mais informações aqui.


 

Modernidades fotográficas, 1940-1964

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro, até 26 de fevereiro de 2017

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Modernidades fotográficas, 1940-1964 é a nova exposição de longa duração em cartaz na Galeria Marc Ferrez no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. É possível explorar mais de 160 imagens de quatro grandes fotógrafos brasileiros num período crucial para a formação da fotografia moderna no país. Com curadoria de Ludger Derenthal, coordenador da coleção de fotografia da Kunstbibliothek em Berlim, e Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS, a mostra apresenta do fotojornalismo de José Medeiros (1921-1990) ao modernismo de Marcel Gautherot (1910-1996), da abstração de Thomaz Farkas (1924-2011) à fotografia industrial de Hans Gunter Flieg (1923) – com um país em rápida e contraditória transformação como pano de fundo. Mais informações aqui. [imagem: Thomaz Farkas]


 

Otto Stupakoff: Beleza e inquietude

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro, até 30 de abril de 2017

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A retrospectiva do pioneiro da fotografia de moda no Brasil, cujo acervo de 16 mil imagens está sob a guarda do IMS desde 2008, foi dividida em quatro núcleos que contemplam toda a sua trajetória profissional: os anos de formação e início da carreira nos anos 1950; sua colaboração com importantes revistas como a Vogue francesa, a americana Harper’s Bazaar e retratos de celebridades como Jack Nicholson; sua série de nus; e uma sala dedicada às inúmeras viagens que fez, incluindo destinos como o Ártico. Mais informações aqui.


 

 

Belo Horizonte

 

Estado da natureza
Pedro Motta

CâmeraSete, até 25 de fevereiro de 2017

O fotógrafo, que utiliza extensivamente da manipulação digital em seu trabalho, expõe mais de 70 imagens distribuídas em oito séries, nas quais explora a tênue linha entre elementos naturais e o comportamento humano. Entre as obras expostas estão Flora negra, instalação fruto de uma residência na Colômbia, e a série Naufrágio calado, na qual Motta insere carcaças de barcos em paisagens marcadas por erosões de grande dimensões. A erosão é também o tema em Falência #2, obra criada especialmente para o espaço da exposição. Mais informações aqui.


 

Curitiba

 

Êxodos
Sebastião Salgado

Caixa Cultural Curitiba, até 12 de fevereiro de 2017

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O fotógrafo lança seu olhar sobre movimentos migratórios induzidos por conflitos políticos e étnicos no mundo desde 1993, analisando como a história e geografia são alteradas por eles. A mostra traz o resultado desta pesquisa, para a qual Salgado percorreu quarenta países retratando a realidade de pessoas obrigadas a deixar sua terra natal por motivos sociais e econômicos. Mais informações aqui.


 

Recife

 

PaLarva
Paulo Bruskcy

Caixa Cultural Recife, até 12 de fevereiro de 2017

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Com cerca de 300 obras, esta retrospectiva inédita da poesia visual de Bruscky inclui trabalhos realizados desde a década de 1960, assim como alguns produzidos exclusivamente para a mostra. Mais informações aqui.


 

Salvador

 

World Press Photo

Caixa Cultural Salvador, até 29 de janeiro de 2017

Migrants crossing the border from Serbia into Hungary.

A exposição reúne as 164 imagens vencedoras da 59ª edição do prêmio de fotojornalismo, que expõe seus resultados na Bahia pela primeira vez. Entre as fotografias premiadas estão duas de Maurício Lima, fotojornalista brasileiro vencedor do prêmio Pulitzer deste ano, e outra do espanhol Sebastián Liste, que fotografou a rotina do Papo Reto, coletivo de mídia independente que atua no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Mais informações aqui. [imagem: Warren Richardson]