“Postais para Charles Lynch”, do coletivo Garapa

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O trabalho do coletivo Garapa, formado por Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, parte do questionamento das fronteiras da linguagem jornalística, documental e fotográfica. Em Morar (2007-2011), primeiro projeto de fôlego da dupla, os artistas se propuseram criar “um arco de memória entre a existência e a desaparição” do edifício São Vito, no centro de São Paulo, conhecido como “Treme-Treme”. Em A Margem (2013), uma “exploração documental e afetiva do rio Tietê” em forma de ensaios e montagens fotográficas, a dupla realizou uma expedição da nascente à foz do rio Tietê, inspirada nos diários de viajantes dos séculos 18 e 19 pela região. 

Postais para Charles Lynch (2015), projeto vencedor da Bolsa zum de Fotografia em 2014, discute a representação visual do linchamento no Brasil contemporâneo, uma das dimensões mais “primitivas da mentalidade opressora e punitiva da modernização excludente do país”, nas palavras do sociólogo José de Souza Martins, autor de Linchamentos: a justiça popular no Brasil (2015). No trabalho, Paulo e Rodrigo interferem nos arquivos digitais de imagens de linchamentos divulgadas na internet, propondo o que chamam de uma “desconstrução das imagens da violência” que revelam o lado mais sombrio da cultura popular brasileira.

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No projeto, vocês tratam do linchamento como questão social e como imagem em circulação nos meios contemporâneos. Como vocês descreveriam o projeto submetido à Bolsa ZUM?

Coletivo Garapa: O projeto foi se transformando ao longo da sua realização. Inicialmente, quando submetemos à Bolsa zum, pretendíamos tratar principalmente do linchamento enquanto evento concreto da realidade brasileira. Durante o processo, no entanto, percebemos que a relação que nós tínhamos com esses eventos era em grande parte mediada pela imagem (na tv, nas fotos e vídeos compartilhados na internet), muito mais do que uma relação corporal, presencial. Isso fez com que a nossa abordagem se direcionasse para um questionamento dessas imagens, da relação e do papel da imagem da violência extrema, do linchamento hoje.

O projeto tem um viés histórico, sociológico. Qual foi o ponto de partida do projeto? Como ele se relaciona com outros trabalhos de vocês?

CG: O ponto de partida, assim como em outros trabalhos nossos, foi uma espécie de “interesse jornalístico”. Em 2014, o tema do linchamento ganhou muita força na esfera pública por conta de dois casos emblemáticos: o do menino acorrentado a um poste no bairro do Flamengo e o de Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá, que foi linchada e morta porque a multidão a “confundiu” com um retrato falado de uma suposta sequestradora de crianças que circulou na internet. Foi o ano do editorial da Rachel Sheherazade no SBT, que chamou o linchamento de “legítima defesa coletiva”. Nossos trabalhos buscam colocar em discussão as negociações e construções da memória coletiva; dialogar com eventos e narrativas históricas e contemporâneas, propondo elos temporais, como fizemos em A Margem, a partir dos diários dos viajantes, e também em Postais para Charles Lynch, com a associação, proposta no título do trabalho, entre os vídeos que circulam hoje na internet e os cartões postais com fotos de linchamentos que circularam nos Estados Unidos nos séculos 19 e 20.

O trabalho envolveu a pesquisa em acervos “públicos/privados” de imagens, como vocês caracterizam fontes como o YouTube. Quais foram os principais desafios na execução do projeto?

CG: O principal desafio foi lidar com a crueza da matéria-prima com a qual escolhemos trabalhar. São imagens de muita violência, mas ao mesmo tempo muito facilmente encontráveis. Primeiro nós filtramos o material por meio da busca, porque queríamos usar apenas registros de linchamentos ocorridos no Brasil. Uma busca simples no YouTube gera mais de 20 mil resultados, dos quais nós selecionamos pouco mais de 200 vídeos, que foram baixados e catalogados. Por conta dessa violência explícita, muitas vezes acabávamos adiando o trabalho direto, o corpo a corpo com as imagens. Fora isso, o desafio técnico foi encontrar os parceiros mais habilitados para concretizar o objeto que tínhamos em mente. O resultado do trabalho é um livro-objeto, com páginas impressas em risografia e encadernadas à mão a uma caixa feita de aço-carbono, cortada a laser, dobrada, soldada, envernizada e serigrafada. Dentro dela vai ainda uma fita LTO, um formato de backup digital de longa durabilidade, gravada em equipamento específico. Então cada etapa da construção demandou um parceiro que, além de dominar a técnica, compreendesse o propósito do trabalho.

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Quais foram as opções formais de edição e intervenção sobre as imagens?

CG: Praticamente todas as estratégias que entraram no livro surgiram no decorrer do processo. O resultado é muito diferente do que tínhamos em mente quando submetemos o projeto à Bolsa ZUM. Quando decidimos que o trabalho seria feito exclusivamente a partir de arquivos digitais, e que a nossa matéria-prima seriam os vídeos divulgados no YouTube, passamos a pensar então nas possibilidades de uso e intervenção sobre aquele acervo.

O cerne do trabalho é uma série de capturas de tela de vídeos selecionados. Essas imagens foram então corrompidas por meio da manipulação desses arquivos em um editor de texto, a partir do enxerto, no código, de comentários de ódio também publicados no YouTube. Isso gera um defeito na imagem, conhecido como glitch, que acaba criando um ruído visual na leitura (seja a leitura do software ou do observador). O trabalho inclui ainda o roteiro textual de um linchamento fictício, criado a partir da transcrição de outros vídeos; uma fita magnética (LTO) onde estão gravados todos os vídeos utilizados na pesquisa; e um índice com os títulos dos mais de duzentos vídeos gravados na fita. 

O projeto teve desdobramentos?

CG: Durante a exposição Corpo a Corpo, no IMS de São Paulo, realizamos três leituras dramáticas públicas, com atores, a partir do roteiro que compõe o trabalho. Outro desdobramento, que ainda está em fase de projeto, é a publicação de uma edição comercial do livro, para que o trabalho alcance um público mais amplo. Atualmente, estamos desenvolvendo um trabalho que parte de uma investigação histórica do território conhecido hoje como Cracolândia, em São Paulo, para refletir sobre as relações entre a violência de Estado e a transformação do espaço urbano. 

Quais as imagens mais emblemáticas do projeto, na visão de vocês?

CG: A imagem do retrato falado que foi o estopim do linchamento de Fabiane Maria de Jesus. É uma imagem que nós decidimos deixar crua, sem intervenção, porque ela está nesse lugar (bastante contemporâneo) de um suposto documento que, ao circular pela internet, fora de qualquer contexto, acabou sendo lido como a comprovação de um crime que nunca ocorreu, e que no fim justificou o assassinato brutal de uma mulher inocente por uma multidão enraivecida. A imagem de um rapaz amarrado ao poste, que carrega toda uma memória histórica, remetendo às gravuras de Debret, aos corpos negros amarrados ao tronco para serem açoitados. E possivelmente um dos primeiros registros em vídeo de um linchamento, ocorrido em Matupá-MT, em 1990. As vítimas já tinham se entregado à polícia, mas a população resolveu puni-los de forma ainda mais brutal. O corpo queimado vivo também carrega a imagem das fogueiras da Inquisição.///

 

 

Veja o fac-símile do livro:


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Veja o making of:

 

Garapa (São Paulo/SP – 2008) é um coletivo de fotografia formado pelos jornalistas e artistas visuais Leo Caobelli (Pelotas/RS – 1980), Paulo Fehlauer (Mal. Candido Rondon/PR – 1982) e Rodrigo Marcondes (São Paulo/SP) – 1979. Os trabalhos do Garapa lançam mão de múltiplos formatos e linguagens para produzir narrativas visuais e pensar a imagem e a linguagem documental como campos híbridos de atuação.