“A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um”, de Sofia Borges

 

Em A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um, Sofia Borges, realiza uma pesquisa visual sobre fotografias, máscaras, colagens, performance e teatro que investigam a origem do mundo. A partir da origem do mundo, um mergulho no estado de representação das coisas: experiências artísticas que aceitam a impossibilidade da linguagem de unir existência e significado.

 

De onde veio sua vontade de falar sobre a representação das coisas?

Sofia Borges: Pensar na relação entre representação e significado sempre foi intrínseco ao ato de observar isso que é o “fenômeno” de algo existir. Desde o seu início, ou até antes disso, minha prática artística naturalmente se volta para essas questões. E a fotografia foi se tornando uma ferramenta cada vez mais fundamental para essa observação, por sua vocação em ser uma “aparente transparência” do real, e por sua similaridade ou filiação à própria experiência de imagem que a visão gera. Então por isso, por estar interessada em entender a estrutura mimética de uma imagem, por anos eu não conseguia me afastar muito da estrutura do museu, porque lá os objetos “se continham” nesse estado. Quero dizer que os objetos, quando dentro do museu ou centros de pesquisa ou outros espaços de representação (por exemplo um zoológico ou uma enciclopédia), pareciam ter adquirido uma espécie de sentido acumulado. Para mim, é como se o significado que recobre a matéria ganhasse maior espessura nesse lugares. Então era mais fácil fotografar o estado mimético em si, a coisa-mimética que como um fino lençol cobria a coisa-em-si. Eu queria mostrar essa película em si, ao mesmo tempo que queria mostrar que embaixo desse lençol-superfície-imagem existe o vazio do fantasma, e não o fantasma. Então passei sete anos dentro de museus, zoológicos e afins, onde as coisas estavam um pouco mais empenhadas em encenar o seu próprio estado de representação. Eu acho um pouco impressionante observar um vaso, um quadro ou uma coisa qualquer que ela seja, em qualquer circunstância, acho incrível observar um fenômeno. Só que quando essa coisa se transporta para um museu e passa a ser em si ao mesmo tempo em que se torna a sua própria representação, algo acontece, a fronteira entre representação e significado fica mais densa, ou mais opaca. Difícil achar uma imagem pra explicar isso, mas é como se a imagem da coisa ali estivesse mais sólida. Tudo isso foi ocorrendo até o dia em que fui para as cavernas pré-históricas do sul da França e entendi que o meu problema, esse que eu estava tentando entender há anos, era o mesmo problema deles e que não haveria exatamente a solução… a cultura, a arte, a religião, a filosofia, a ciência, são frutos desse problema, mas não conseguem solucioná-lo, apenas oferecem uma miríade de manifestações dessa incógnita, que é a incógnita da existência da realidade e da invenção do significado.

 

E por que, neste trabalho, você parte da tragédia para falar disso?

SB: Após esse período em que fui para as cavernas pela primeira vez, como consequência do impacto que a caverna causou em mim, minha pesquisa entrou num colapso expansivo. Eu voltei para o Brasil e senti que precisava parar e pensar. E também ler um pouco. Peguei o Poiesis do Aristóteles e encontrei um trecho que falava sobre a tragédia, depois acabei encontrando coisas interessantes sobre tragédia lendo um pouco de Barthes, de Merleau Ponty, Derrida. Eu cheguei num texto chamado A morte do autor, do Barthes, que para mim foi também um divisor de águas, um colapso. Nesse texto ele fala que quem determina o sentido de uma obra de arte não é o autor/artista, mas é o leitor, uma espécie de leitor absoluto ou tudo o que se pode compreender sobre uma coisa específica em um dado contexto histórico. E como isso muda, mesmo sendo a compreensão a respeito de um mesmo objeto. Foi um pouco disso que eu entendi nesse texto, e isso alterou completamente a forma como passei a enxergar um – ou qualquer – objeto existindo. Eu estendi um pouco essa compreensão para fora do significado do objeto de arte, e considerei que qualquer coisa contém, em potencial, todo o conhecimento possível. Depende da capacidade do leitor absoluto em conseguir acessar, em outras palavras, depende da humanidade e não da matéria o poder de extrair de um mesmo objeto tudo que se pode conhecer. A matéria é uma coisa, ela existe, e ela contém, encriptografada – a partir desse texto do Barthes –, todo o conhecimento possível. Só que eu tinha um dilema, que era a linguagem, porque eu estava tentando entender qual era o significado da matéria. Quem vai conseguir descriptografar tudo, a partir de uma só coisa, seria o conhecimento. Ora, mas como eu vou falar de uma matéria, vamos supor um vaso, com outra matéria, que seria o som? Essa é a origem da tragédia. Também no texto, Barthes fala que toda tragédia é baseada no fato de que os personagens falam um ao outro com palavras de duplo sentido e entendem exatamente o sentido errado das palavras que pronunciam um ao outro. E há também um terceiro que vê esses dois personagens conversando e assiste ao fato, entende a dubiedade das palavras que pronunciam um ao outro e entende a má compreensão de cada um. Então tem sempre esse terceiro elemento, que pode ser a plateia em si, pode ser um outro personagem da tragédia. Mas toda tragédia é baseada no trágico que a linguagem carrega, que é o fato de que todas as palavras têm duplo sentido. Foi aí que entendi que a linguagem em si é trágica e é a partir desse viés (a estrutura da linguagem) que venho pensando a tragédia.

 

E como você foi parar nas artes e na fotografia, ao longo de seu percurso?

SB: Quando criança lembro de passar horas pensando. Achava que não sabia desenhar muito bem então a solução que eu dava ao meu impulso criativo era escrever. Sempre escrevi e pensava que quando crescesse seria uma escritora, nunca uma artista, já que artistas, na minha cabeça, precisavam saber desenhar. Um dia, eu tinha acabado de entrar na universidade, entrei em uma exposição de arte contemporânea e achei tudo incrivelmente estranho, uma espécie de feio porque era livre do ato de ser algo perfeito, achei aquela estranheza uma coisa fascinante e concluí que se existia uma profissão onde as pessoas podiam fazer o que queriam, então era essa profissão que eu precisava exercer. Foi um momento de muita lucidez, senti que havia entendido o que eu precisava fazer, no dia seguinte larguei o curso que eu fazia e fui estudar artes visuais. No começo eu me dedicava muito a desenhar, esculpir e a escrever, mas começar a fotografar foi o acelerador de questões, continuamente se abrindo. E eu demorei muitos anos para entender porque é que eu estava tão associada à fotografia, porque eu não me interesso especialmente por fotografia, normalmente acho um tédio, prefiro pintura, música, escultura, dança. Mas existia algo na fotografia que me permitia fazer o que eu precisava fazer. Demorou muitos anos para eu entender que eu usava a fotografia porque o estado da fotografia, o estado da imagem fotográfica, era muito parecido com o estado de imagem do nosso olho. E isso me possibilitaria investigar maneiras de dessignificar a realidade e desfazer essa fronteira entre imagem e representação, usando a imagem fotográfica como mimesis da imagem ocular. Enfim, tudo isso para dizer que o meu interesse no fotográfico, no real, é e sempre foi de ordem metafísica. E eu costumo também dizer que na fotografia eu investigo abstração, mas não do ponto de vista formal, não importa se tem representação ou não, é abstração do ponto de vista do significado, abstração do ponto de vista da compreensão, da possibilidade de compreender o que é uma coisa no ponto em que você dissolve a compreensão daquilo, porque, talvez, quando você dissolve a compreensão do que é o  objeto, você consegue atravessar e você se torna aquilo, porque não existe mais limite. Acho um pouco fascinante isso.

 

E já que a falência da solução do problema está aceita, à arte, como fruto dela, sobra que papel?

SB: A arte é um estado de espelho, eu acho, em que o que se vê, o que se experimenta através da visão, da forma, da existência, da relação de ser com uma outra coisa que também existe, pode ser uma pintura, pode ser um som. É um estado de reconhecimento onde, pela primeira vez, se olha algo que já existia, mas no além-matéria. Então, para mim, talvez os grandes artistas foram aqueles que criaram coisas que apresentam, que dão visibilidade àquilo que sempre existiu mas nunca havia tido forma de existência matérica, somente em conteúdo. Então, quando a gente olha uma obra de arte, ela inaugura um conteúdo que cada um já tem dentro de si, mas que antes não havia forma para ele. Então isso, para mim, é o papel da arte, é esse estado de dar forma a conteúdos que já existiam, mas antes sem forma, no além-matéria. ///

 

Veja imagens do ateliê da artista Sofia Borges:

Sofia Borges (Ribeirão Preto/SP – 1984)
Formada em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo em 2008. Foi uma das fotógrafas indicadas ao Foam Paul Huf Award (Holanda) em 2010 e 2014. Publicou, em 2016, o livro The Swamp (O Pântano), premiado em concurso da Editora Mack (Inglaterra).