Revista ZUM 5

O álbum de Pablo Escobar

James Mollison & Paulo Werneck Publicado em: 09 de dezembro de 2013
Por quase três anos, o britânico James Mollison esteve à caça do traficante em arquivos fotográficos espalhados pela Colômbia. Com imagens garimpadas nos acervos da polícia e dos principais jornais do país, nos álbuns da família e dos capangas, Mollison reconstrói a trajetória de Escobar. As fotografias revelam cenas de sua vida pública e privada, a atividade criminosa e o terror que ele instaurou. Vinte anos após sua morte, filme e séries de TV reacendem o interesse pela figura do traficante.

O corpo está curvado, e seus 150 quilos se distribuem entre a cumeeira e as duas águas do telhado. Os pés descalços possivelmente quebraram, minutos antes, as telhas que se espalham em cacos ao redor. Entre a camiseta azul e o jeans se espreme a barriga, cevada em longos meses de sedentarismo nos esconderijos.

A cabeça, cabeluda e empapada de sangue, em minutos será espoliada: seus matadores colheriam como troféu mechas de cabelo e as pontas do bigode, dando-lhe, segundo o obituário do New York Times, ares hitlerianos. O jornal ainda informou que o corpo foi reconhecido pelas digitais e por um crucifixo de dez centímetros implantado no ombro esquerdo.

“É certo que ninguém deve se alegrar com a morte de ninguém”, escreveria sobre a cena, anos mais tarde, o romancista colombiano Héctor Abad. “Mas aquele corpo do mal, abatido, aquela barriga no ar, com uma pistola na mão, aquele cadáver por fim incapaz de maquinar assassinatos, sequestros e atos terroristas não nos entristeceu. Sua morte violenta, na mesma lei da selva que ele impôs, representou o começo da redenção de um país sangrado por muitas maldades, mas sobretudo por essa maldade sofisticada, precisa, pura, inteligente de um homem só e daninho: Pablo Escobar.”

Demorou 20 anos para que o nome de Escobar migrasse das páginas policiais para as de espetáculos. Responsável direto por cerca de 4 mil mortes que levaram a Colômbia a uma insuportável espiral de violência, Escobar hoje é tema de livros, séries de TV, filmes de ficção e documentários. Em 2013, foi filmado o longa-metragem de produção europeia Paradise Lost, com Benicio del Toro no papel principal. No Brasil, José Padilha, diretor de Tropa de elite, prepara uma série de TV sobre a história do traficante.

Escobar cultivou a relação com fotógrafos e se deixou clicar à vontade, pelo menos enquanto duraram suas ambições políticas. Exibiu-se como Al Capone e Pancho Villa. Chegou a adotar um chapéu russo de pele, à guisa de boina de revolucionário, com o qual posou para os fotógrafos atrás das grades de sua prisão-mansão, a Catedral. Em meio a uma campanha de ameaças e atentados contra o jornal El Espectador, fez chegar um recado à redação: faltava imaginação para obter novas fotos dele, que se esforçassem mais.

“Os bandidos sempre geraram fascinação na cultura popular”, disse Abad à ZUM. “Pablo Escobar era pobre e chegou a ser o homem mais rico da Colômbia: isso não deixa de despertar admiração. As pessoas tendem a perdoar tudo aos muito ricos.” Não por acaso, em 2012, com o sucesso da série de TV Escobar, El patrón del mal, virou coqueluche em Medellín um álbum de figurinhas editado clandestinamente com imagens reais do capo e de suas propriedades.

“A Bíblia não funcionaria direito sem Judas, sem o anjo caído, sem os demônios”, disse o escritor ao ser questionado sobre o culto póstumo a Escobar. Fala com conhecimento de causa: seu pai, o sanitarista Héctor Abad Gómez, foi assassinado em 1987 por paramilitares cuja violência Escobar ajudou a insuflar. “Precisamos ver a representação do diabo, porque o mal e os maus sem dúvida existem, e sempre serão, no sentido católico (embora não religioso, mas terreno), uma tentação.” Para Abad, o antídoto a essa tentação é mostrar como Escobar chegou lá: à custa de mortes e sofrimento.

 

CAÇADA FOTOGRÁFICA

O fotógrafo e pesquisador britânico James Mollison tomou conhecimento da história de Pablo Escobar em 2002, durante uma sessão de fotos na penitenciária de Valledupar. Ali estava preso Popeye, o chefe da segurança de Escobar e um dos poucos sobreviventes do Cartel de Medellín. Foi ele quem despertou em Mollison o interesse pela trajetória do traficante. Algum tempo depois, enquanto fotografava um prédio do Ministério Público da Colômbia que servira de residência para Escobar, Mollison conheceu Manuel Dario Aristizabal, que lhe mostrou uma sacola repleta de imagens de Pablo. Logo estaria fascinado pela mitologia em torno do mafioso que gostava de se deixar fotografar.

“Os chefões que vieram depois aprenderam com esse erro e fizeram de tudo para se manter no anonimato”, diz Mollison. “Escobar agiu assim porque houve um momento, no final dos anos 1970, em que a cocaína era conhecida como o ouro branco, e Pablo acreditava que o dinheiro da droga não seria visto de maneira diferente do dinheiro do tráfico de bebidas [durante a Lei Seca, nos anos 1920] que ajudou a fazer dos Kennedy a mais poderosa dinastia dos Estados Unidos.”

Ao longo dos anos seguintes, Mollison vasculhou arquivos policiais, os principais jornais colombianos e também entrou em contato com a família e os capangas de Escobar, reunindo um material precioso, capaz de compor um retrato que desse conta de varias facetas do traficante. O resultado da pesquisa foi publicado no livro A memória de Pablo Escobar, lançado nos Estados Unidos em 2007. Mollison calcula, porém, que as quase 400 fotos do volume não passam de 10% do material encontrado.

La estão as mesmas imagens do álbum de figurinhas: a coleção de carros antigos, o portal da fazenda Nápoles, ornamentado com um dos aviõezinhos que levavam pó para os Estados Unidos, a penitenciária cinco estrelas Catedral. Mas estão também os retratos de vítimas, cadáveres destroçados, cenas de atentados, homicídios e outros crimes, numa mescla de afetividade e violência que ajuda a compreender melhor sua figura. “O livro é tanto sobre Pablo quanto sobre fuçar em arquivos pessoais e institucionais, em meio a documentos que volta e meia permanecem abertos a questionamentos e interpretações, disse Mollison à ZUM.

Salta aos olhos, nas imagens, a extrema normalidade de Escobar e seu entourage. Família e amigos se divertem em casa ou na fazenda. Assassinos cruéis curtem a piscina com as namoradas. “Era tão bom pai que se escondia dos filhos para fumar um baseado, seu único vício permanente”, escreve o biógrafo Alonso Salazar J. em A parábola de Pablo.

 

ANOS DOURADOS DO TRÁFICO

A história de Pablo Escobar é o marco zero de um problema que ganharia proporções calamitosas: o tráfico de cocaína e as consequências da guerra às drogas proclamada pelos Estados Unidos nos anos 1990. A Colômbia de Escobar prefigura, em menor escala, a barbárie que os cartéis mexicanos vêm promovendo desde meados da década passada. Conforme o mantra dos especialistas em narcotráfico, as bem-sucedidas operações de repressão num país só fazem a violência migrar para outras paragens – de 2001 para cá, a Colômbia caiu de primeiro para terceiro produtor mundial de cocaína, atrás de Peru e Bolívia.

Em meados dos anos 1970, tempos idílicos do narcotráfico, meia dúzia de sequestradores e traficantes fez de Medellín, segunda cidade da Colômbia e capital do montanhoso departamento de Antioquia, o centro operacional que abastecia ate 80% do mercado americano de cocaína. Os preços eram alucinantes; os riscos, relativamente baixos; a audácia, extrema.

Ao lado de seu primo e sócio Gustavo Gaviria, Escobar liderava o Cartel de Medellín, associação que incluía traficantes como a família Ochoa (criadores de cavalos cujo “hobby” era exportar coca), José Gacha (“El Mexicano”) e Carlos Lehder.

Considerado como “visionário”, Lehder deu o pulo do gato que levou Escobar e ele próprio a ocuparem ao mesmo tempo o topo das listas dos mais ricos e dos mais procurados do mundo todo. A ideia era simples e engenhosa: levar cocaína para os Estados Unidos em aviõezinhos, que voavam poucos metros acima da linha d’água do oceano (portanto invisíveis aos radares), com escalas para reabastecimento no Caribe. Tornou-se possível transportar toneladas, e não mais parcos quilogramas escondidos em forros de paletós, fundos de malas ou presos no corpo de “mulas”, como era a regra até então.

Escobar demonstrou notável capacidade de inovação ao criar múltiplas e duradouras rotas de tráfico, por todos os meios de transporte e caminhos possíveis, que podiam passar até mesmo pela África para chegar em solo americano. Foi pioneiro ao transportar cocaína em submarinos soviéticos, comprados de máfias do Leste Europeu, e em submersíveis construídos com fibra de vidro e motor de caminhão. Fez da pistolagem em Medellín um negócio próspero e hierarquizado.

O QG do capo era a fazenda Nápoles, a 180 quilômetros de Medellín, de onde partiam os aviõezinhos, às vezes quatro por dia, carregados de pó. A propriedade era ponto de festivas reuniões entre os chefes do cartel. Ali foi montado seu célebre zoológico, com elefantes, girafas, zebras e outros animais exóticos. Dele, só restam os hipopótamos, os únicos que proliferam em vida selvagem fora da África.

 

POLÍTICA

Escobar queria ser reconhecido como benfeitor e ensaiava sua entrada na política, forjando o mito do traficante protetor, paternal e mão-aberta, que compensaria a ausência do Estado distribuindo remédios, casas e campos de futebol.

A fotógrafa italiana Giovanna Pezzotti, durante uma longa temporada em Medellín, conseguiu se aproximar de Pablo Escobar no início dos anos 1980 para clicá-lo em campanha política, em dias de festa e até durante caçadas, ao fim das quais ele mesmo sangrava e assava as presas para o churrasco.

Naqueles tempos de prestígio, o capo chegou a ir a Madri para a posse do primeiro-ministro espanhol Felipe González, em 1982. Ia a Miami com passaporte e visto verdadeiros e fazia negócios como qualquer executivo. Atrás dessa fachada, porém, ele já fazia valer sua lógica, que se resumia binariamente no dilema plomo o plata: quem não se deixasse corromper e recusasse seu dinheiro levava chumbo. Não oferecia alternativa.

Eleito para o Congresso colombiano em 1982, Escobar teve a origem de sua fortuna questionada pelo parlamentar Rodrigo Lara Bonilla. Escobar havia se esmerado para não deixar pistas sobre suas reais atividades: afirmava ter enriquecido na indústria, na construção civil e na agropecuária. Pela primeira vez, o país prestava atenção naquele obscuro milionário que chegou ao ponto de construir um bairro inteiro para a população de um lixão, até hoje conhecido informalmente como Bairro Pablo Escobar.

Um dos responsáveis por desmascará-lo foi Guillermo Cano, jornalista do Espectador, quem olhou para aquele rosto e intuiu já tê-lo visto. Depois de uma varredura nos arquivos do jornal, Cano republicou o registro policial da primeira prisão de Escobar por tráfico de cocaína, que sorri com deboche para a câmera, em 1976. Era a prova que confirmava todos os rumores. Escobar viu-se acuado e, por fim, expulso da política partidária.

Lara Bonilla e Cano seriam “cobrados” pelo episódio: o primeiro foi assassinado em abril de 1984, quando era ministro da Justiça e havia acabado de comandar o assalto a Tranquilândia, complexo de laboratórios que produzia mais de 20 toneladas de cocaína por mês em plena selva. Cano foi executado em 1986. E a redação do Espectador, que seguia combativo em suas denúncias contra os narcos, foi destruída por uma bomba em 1989. Luis Carlos Galan, que liderava a corrida eleitoral em 1989, também foi atingido durante um comício. Com vítimas ilustres, Escobar conseguiu levar ao caos o sistema político do país.

 

TERCEIRIZAÇÃO

Além do desejo de vingança, um traço que une todos esses crimes é a terceirização “empresarial”: bandos de pistoleiros volta e meia eram contratados simultaneamente para uma ação. Armou-se em Medellín uma rede de quadrilhas que “prestavam serviços” a Escobar – e, às vezes, também a seus inimigos, como o Cartel de Cali, que em 1988 financiou um atentado para tentar explodir o edifício Mônaco, a luxuosa residência da família do mafioso.

De juízes, ministros da Justiça, presidentes e presidenciáveis a policiais de rua, qualquer representante do Estado tornou-se alvo do Cartel de Medellín. Escobar recompensava quem os matasse com preços tabelados conforme o status da vítima. A polícia se vingava com chacinas praticadas a esmo nos bairros pobres: o número de homicídios alcançou o índice de 381 por 100 mil habitantes. Apenas em 1991 foram assassinadas mais de 7 mil pessoas em Medellín.

 

A LEI DE EXTRADIÇÃO

Desde que uma lei de 1979 criara a possibilidade de colombianos serem extraditados e processados em outros países, Escobar e outros capos se articularam para revogá-la. “Preferimos um túmulo na Colômbia a uma cela nos Estados Unidos”, dizia o slogan do grupo, autointitulado Los Extraditables. Impunes em seu país, temiam não escapar da Justiça norte-americana, que já reunia provas contra eles.

Escobar prometia se entregar caso a lei de extradição fosse anulada. Moveu uma campanha para persuadir a população de que a lei era a fonte da violência. Como argumento, promovia atentados a bomba, assassinatos e sequestros de autoridades, empresários e militantes progressistas. Muitos viram na guerra aberta contra o Estado uma vingança de Escobar por sua expulsão da política.

A ação mais impressionante foi o ataque, no dia 6 de novembro de 1985, ao Palácio de Justiça, em Bogotá, no qual morreram mais de 100 pessoas, incluindo 12 juízes da mais alta corte do país. O atentado foi financiado por Escobar e executado pela guerrilha M-19.

 

A CATEDRAL

Em 1991, a lei de extradição foi finalmente declarada inválida. Escobar então concordou em se entregar, mas impôs suas condições, aceitas pelo presidente César Gaviria (dois anos antes, durante a campanha presidencial, ele escapara de um atentado de Escobar que explodiu um avião da Avianca em pleno voo). Biógrafos e jornalistas são unânimes ao afirmar que a prisão de “segurança máxima” em que Escobar foi recolhido era para americano ver: foi construída por ele, no local que escolheu, e era vigiada por seus próprios capangas. Servia mais para protegê-lo – do Estado, do Cartel de Cali, do grupo Los Pepes (Personas Enemigas de Pablo Escobar), que se formara para vingar suas vítimas – do que para puni-lo.

Reunidas no livro de Mollison, as imagens do capo na Catedral transpiram normalidade. Como sempre, ali ele também se divertiu, promoveu orgias e cometeu crimes, como a execução sumária de dois ex-associados acusados de traição.

A divulgação da morte dos antigos comparsas tornou insustentável sua permanência na Catedral, cujo clima de permissividade desmoralizou as autoridades dentro e fora do país. Em 22 de julho de 1992, Escobar tomou como reféns os negociadores que foram tratar de sua transferência e fugiu com nove homens por uma saída secreta que ele mesmo mandara construir na muralha. Começava a caçada final de um homem cuja vida não interessava mais a ninguém.

 

CALCANHAR DE AQUILES

O calcanhar de aquiles de Escobar foi justamente aquilo que tanto surpreende a quem observa os registros banais de sua vida privada: a ligação umbilical com a família.

Cada vez mais encurralado, o capo negociou asilo político para os filhos e a mulher na Alemanha. Eles embarcaram em 27 de novembro de 1993, mas, a pedido do governo colombiano, o asilo foi negado pelo governo alemão, e os Escobar voltaram para a Colômbia, onde ficaram sob proteção oficial numa residência militar. O bem mais querido de Pablo Escobar estava nas mãos de seu maior inimigo.

Daí a fazê-lo quebrar as regras básicas de segurança foi um pulo. Mesmo evitando conversas prolongadas por telefone, Escobar foi rastreado por um novo tipo de radar que os americanos doaram aos colombianos. Instalada num avião, a engenhoca era capaz de reconhecer vozes pela frequência e fazer uma triangulação para determinar a localização do aparelho emissor.

Enquanto ditava ao filho as respostas a uma entrevista para uma revista alemã, Escobar ouviu o helicóptero e o rumor dos soldados que já cercavam a casa, fincada num bairro de elite de Medellín. “Já te ligo”, disse a Juan Pablo e, com a pistola 9 mm, saltou por uma janela para ganhar o telhado. Era 2 de dezembro de 1993; na véspera, completara 44 anos.

Escobar foi atingido na perna e no ombro. O balaço que o matou entrou bem no centro da orelha direita e saiu em trajetória perfeita pela orelha esquerda. É o que mostram as fotos do legista.///

 

Paulo Werneck é jornalista e editor, curador da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2014.

James Mollison (1973) nasceu no  Quênia e cresceu na Inglaterra. É fotógrafo e pesquisador. Atualmente, mora em Veneza.

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