ZUM Quarentena

Como transformar sua casa numa câmara obscura

Bruno Alencastro Publicado em: 28 de maio de 2020

O fotógrafo Bruno Alencastro está ensinando as pessoas a fazerem de suas casas gigantescos aparatos ópticos para registrar momentos de isolamento social na quarentena. Nesta entrevista, ele explica como e convida os leitores a participar.

 

Ursula Jahn (26) é artista e teve todos seus trabalhos suspensos em função da pandemia da covid-19. (Montenegro, RS)

Como surgiu o projeto?

Como fotógrafo, eu também queria fazer o meu ensaio durante a quarentena, mas nenhuma ideia me parecia original. Como desenvolver uma narrativa visual dentro de casa, nesse espaço limitado que estamos vivendo? Comecei a refletir sobre a história da fotografia e me ocorreu o princípio da câmara obscura. Fiz um primeiro teste e fiquei impressionado com o resultado que obtive. Na mesma hora, me dei conta de todo o simbolismo que o efeito dessa imagem carrega. A projeção nos mostra um mundo de cabeça para baixo, tal como o caos que estamos vivendo; e faz com que o mundo exterior entre na nossa casa. Enxergarmos o nosso papel, e que os problemas precisam ser resolvidos de dentro para fora.

 

O casal Felipe Martini (32), jornalista, e Rafaela di Giorgio (31), arquiteta, teve de cancelar o casamento e a mudança para a Espanha, marcados para este ano, em função da pandemia do novo coronavírus. (Rio de Janeiro, RJ)

Como foi o convite para as pessoas participarem?

Na impossibilidade de fotografar a série sozinho em época de isolamento social, resolvi convocar um coletivo de amigos fotógrafos para que eles também transformassem suas casas em câmaras gigantes e pudessem, assim, narrar suas vidas em tempos de pandemia. Por meio de videochamadas e conversas via WhatsApp, fui convidando cada um deles e explicando toda a parte técnica. Como fazer para construir a câmara obscura, quais os melhores materiais para isolar a luz, qual o tamanho e a posição do buraco por onde a luz deve entrar, entre outros pontos importantes.

Resolvida a parte técnica, conversávamos sobre a direção dos retratos, o que e de que forma fotografar. Eles então iam me mandando os resultados e, eventualmente, fazíamos ajustes e novas tentativas. Mas, na maioria dos casos, as fotos já chegavam prontas, cada fotógrafo com a sua singularidade: um casal que precisou adiar o casamento; o aniversariante que pela primeira vez na vida comemorou a data sozinho; o artista que perdeu sua fonte de renda; as crianças isoladas dos amigos.

 

Qual é a origem da câmara obscura? Qual a importância dessa técnica na história da fotografia?

As referências mais antigas à câmara obscura (do latim camera obscura) remetem ao século 5 a.C; também há relatos do seu conhecimento por Aristóteles, que a utilizava para fazer observações astronômicas.

Mas somente na segunda metade do século 17 ela passa a ser utilizada como dispositivo óptico, para auxiliar o desenho e a pintura. Como funcionava: em um quarto totalmente escurecido, fazia-se um pequeno orifício por onde a luz externa podia entrar. Dessa forma, pelo princípio físico da propagação retilínea da luz, os raios luminosos são projetados na parede oposta ao orifício de entrada, de forma invertida.

Por isso, podemos dizer que a câmara obscura é a mãe da fotografia. O princípio de “escrita com a luz” já estava ali. O que faltava era uma superfície fotossensível capaz de registrar essa projeção.

 

Ilustração: Marina Schiesari

Como fazer uma câmara obscura em casa?
Quem quiser construir uma câmara obscura em casa deve observar cinco pontos principais:

1) A escolha do ambiente. O local escolhido precisa ser completamente isolado da luz; quanto maior for o espaço e mais aberturas tiver, maior será o trabalho de vedá-lo. Além disso, lembre-se que a imagem será projetada na parede oposta ao orifício de entrada da luz; ou seja, quanto mais lisa e clara for essa superfície, melhor será o resultado da projeção. O mesmo princípio da tela branca no cinema.

2) A hora do dia. Como o ambiente precisa ser escuro, pode-se pensar que é mais fácil fazer a foto à noite. Errado! A gente precisa de luz, muita luz! Mas ela precisa ser controlada e só pode entrar no ambiente por um pequeno buraco. Quanto mais ensolarado estiver do lado de fora, mais contrastada e nítida ficará a projeção do lado de dentro. Por isso, escolha um momento do dia com luz direta sobre o ambiente externo.

3) Os materiais. Pode-se utilizar fita isolante para cobrir os vãos das portas, janelas e do buraco da fechadura. Outra boa dica é o papel-alumínio; leve, barato e eficiente (mas precisa ter paciência, pois qualquer coisa ele rasga). Cuidado com as lonas: mesmo as pretas às vezes vazam luminosidade, e as que cortam a luz por completo são muito pesadas e difíceis de pendurar.

4) A posição do furo. Lembre-se que a imagem externa aparecerá invertida, portanto, vale experimentar diferentes posições até encontrar a que mais agrade.

5) O tamanho do furo. O diâmetro ideal depende da distância do furo até a parede oposta, variando entre a circunferência de uma moeda e a da base de uma xícara. A dica é começar com um buraco maior e ir diminuindo, testando, até chegar ao resultado desejado. Aqui vale a mesma lógica da fotografia: quanto menor for o furo, mais nítida será a imagem, e vice-versa.

Uma vez preparada a câmara obscura, você pode usar qualquer aparelho fotográfico para captar a imagem projetada. Faça o enquadramento que achar mais adequado. Escolha utilizar o modo manual da câmera ou celular e trabalhe com os parâmetros de abertura, velocidade e ISO para chegar à melhor exposição. Se possível, apoie a câmera em um tripé e programe o disparo usando o timer – assim você pode sair em sua própria foto.

Confira também dicas de como fazer uma câmara obscura no vídeo:

 

Experimente fazer na sua casa e envie o resultado para [email protected]. As fotos selecionadas serão publicadas nas redes sociais da revista ZUM e na página do projeto OBS-CU-RA.

 

Bruno Alencastro (RJ) é fotógrafo, mestre em comunicação pela Unisinos e foi professor de jornalismo, publicidade e propaganda, design e fotografia (2014 -2018). Atualmente, é diretor de fotografia na agência Canarinho.

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