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Retrospectiva: as matérias em destaque de 2019

Publicado em: 02 de janeiro de 2020

Para fechar o ano, ZUM apresenta uma retrospectiva das matérias mais lidas publicadas em 2019. Conheça os 12 textos de maior destaque.

O que dizem as imagens do presidente

Frame de vídeo publicado no canal Youtube de Jair Bolsonaro.

A colunista Giselle Beiguelman escreve sobre a estética precária e amadora usada pelo presidente Jair Bolsonaro para construir sua imagem nas redes sociais: “de camiseta esportiva, shorts, e mesmo de terno e gravata, já no posto de presidente, ele não fala com seu eleitor, ele o exprime. E ao exprimi-lo, transforma-o em um herói, convidando o eleitor a eleger-se a si próprio”.

 

Profundamente falsa: a imagem na era da pós-verdade

Quando ver para crer ganha perigosos contornos surrealistas. O jornalista Alexandre Matias escreve sobre os “deepfakes”, vídeos manipulados e disseminados na internet com o objetivo de distorcer a nossa noção de realidade.

 

Mães, filhas, prisioneiras: As mulheres de Adriana Lestido

Da série Mulheres presas, 1991-1993, de Adriana Lestido. Cortesia da fotógrafa.

A fotógrafa argentina Adriana Lestido realizou, ao longo da década de 1990, três séries que tinham como tema as mulheres: “Mães adolescentes”, “Mulheres presas” e “Mães e filhas”.

“Em cada foto, a figura feminina, além de ser o elemento único e protagonista de seu enredo, é também o ponto de partida, a ponta de um iceberg, tanto para outros elementos, propositalmente ausentes, quanto para uma narrativa polissêmica e polifônica cujas leituras apontam para múltiplas possibilidades”.

 

Impasse mineral

Vista parcial do Córrego do Feijão, soterrado pela lama da barragem de rejeitos da mina da Vale, sem título da série Vista da mata de Pedro David, Brumadinho, Minas Gerais, 2019. Cortesia do artista.

A partir das recentes tragédias ambientais de Mariana e Brumadinho, o colunista Moacir dos Anjos ressalta o valor da arte como instrumento de denúncia, resistência e advertência: “o colonialismo predatório que explorou o ouro no século 18 se transvestiu de empreendedorismo moderno mais de dois séculos depois na exploração deste e de outros minérios, atualizando a ética tosca e violenta dos conquistadores europeus.”

 

Imagens em chamas – Calvino, Farocki, Carver e a Notre-Dame de Paris

Fumaça em volta do altar dentro da Catedral de Notre-Dame, em Paris, noite de segunda-feira, 15 de abril de 2019. Crédito da foto: Philippe Wojazer/ The New York Times/ Fotoarena

O escritor Ronaldo Bressane traça paralelos entre o incêndio da catedral de Notre-Dame, escritos da década de 1980 do italiano Ítalo Calvino que anteciparam a discussão a respeito da avalanche de imagens em que estamos mergulhados e obras do artista alemão Harun Farocki e do escritor norte-americano Raymond Carver.

“Relendo Calvino, ‘se tudo o que não é fotografado é perdido e é como se não tivesse existido, para viver de verdade é preciso se autofotografar o maior número de vezes possível.’ Daí é que a Notre-Dame só passa a se incinerar de verdade quando demonstramos aos nossos seguidores que já estivemos lá, quando a catedral ainda estava inteira”, comenta Bressane.

 

Cosméticos e abjeção: feminismo e fetichismo na fotografia de Cindy Sherman

Cindy Sherman, Untitled #87, 1981. Cortesia da artista e da Metro Pictures, Nova York.

Nos anos 1990, a crítica de cinema e feminista inglesa Laura Mulvey escreveu um ensaio fundamental sobre a obra da fotógrafa norte-americana Cindy Sherman, contextualizando o trabalho da artista em relação aos modelos teóricos feministas da época e o conceito freudiano de fetichismo. Leia no site da ZUM o ensaio “Cosméticos e abjeção: Cindy Sherman 1977-87”, pela primeira vez traduzido para o português.

“O irônico ‘desvelar’ de Sherman também ‘desvela’ o uso do corpo feminino como uma metáfora da divisão entre a atração da superfície e a decadência oculta, como se aquilo que tivesse sido projetado por tanto tempo no espaço mítico ‘atrás’ da máscara da feminilidade tivesse subitamente sido quebrado através do véu delicadamente pintado”.

 

É bom morar no azul

A partir de fotos da lua feitas durante as missões Apollo da Nasa, a artista Anna Bella Geiger, no início dos anos 70, criou uma série de fotogravuras ligadas ao tema da chegada do homem à superfície lunar.

No mês que comemora os 50 anos do evento, a poeta Marília Garcia parte da obra de Geiger e traça caminhos “para enxergar no meio da poeira / para descobrir as coisas mais simples: / pra onde ir, como dar os primeiros passos, o que fazer / como morar no azul.”

 

O trivial jamais: retratos da noite paulistana dos anos 1990 por Claudia Guimarães

Andréa De Mayo & Al Capone, 1997, foto de Claudia Guimarães, São Paulo, SP. Retrato para o acervo pessoal da artista.

No início dos anos 1990, Claudia Guimarães era a fotógrafa da coluna “Noite Ilustrada”, assinada por Erika Palomino no jornal Folha de S. Paulo. Naquele espaço da grande imprensa, Claudia quebrou tabus e rompeu estereótipos tirando corpos “fora do padrão” do armário.

 

A história do retrato de Davi Kopenawa e o massacre na aldeia Yanomami de Haximu em 1993

Davi Kopenawa, foto de Ormuzd Alves, aldeia de Homoxi, Venezuela, 1993. Crédito da foto: Ormuzd Alves.

O fotojornalista Ormuzd Alves conta a história por trás do retrato do líder indígena Davi Kopenawa feita em 1993 quando do massacre da aldeia Yanomami de Haximu.

“Contrariando a máxima de Robert Capa (“Se suas fotos não estão boas o suficiente, você não está perto o suficiente”), me afastei do grupo de fotógrafos já excitados na frente dos Yanomami e coloquei uma lente 300mm na câmera – uma outra maneira de aproximação. Num determinado momento Davi olhou em minha direção e sua imagem foi capturada”.

 

Claudia Andujar e a tradução xamânica

Os xapiri são vistos sob a forma de homens miniaturas enfeitados de ornamentos cerimoniais coloridos e brilhantes. Sua dança de apresentação é comparada à ruidosa e alegre chegada de grupos convidados, ricamente adornados, nas festas intercomunitárias reahu, do núcleo temático Malocas, próximo ao rio Catrimani, RR, 1974. Foto de Claudia Andujar.

O antropólogo Pedro de Niemeyer Cesarino destaca o olhar original de Claudia Andujar ao registrar as manifestações xamânicas dos Yanomami: “O que realmente surpreende em tais imagens é que Andujar tenha sido capaz de atravessar as cenas prosaicas do mundo cotidiano para produzir a partir delas (e não a despeito delas) uma espécie de tradução visual de um mundo outro e, sobretudo, da capacidade que os Yanomami possuem de estabelecer vínculos entre este mundo outro e sua referência cotidiana”.

 

Desaprendendo as origens da fotografia

Grande Praça de Argel (1830), de Jean-Charles Langlois, Museu de Belas-Artes, Caen, França.

Em cinco ensaios provocadores publicados na ZUM #17, a pesquisadora Ariella Azoulay propõe repensar as origens modernas da fotografia para desconstruir as narrativas imperialistas legitimadas por ela, abrindo espaço para outras histórias potenciais.

Em “Desaprendendo as origens da fotografia”, primeiro desses ensaios, Azoulay nos convida a deslocar o advento da fotografia para o século 15. O que isso significaria? “Explicar a fotografia com base na narrativa de seus promotores é como registrar a violência imperial nos termos daqueles que a exerceram, declarando que eles haviam descoberto um ‘mundo novo'”, diz a autora.

 

Paraisópolis

Tuca Vieira, Paraisópolis, 2004.

O filósofo e curador Lorenzo Mammì relembra a famosa foto de Tuca Vieira, que capturou em uma única imagem a violenta desigualdade que separa a favela de Paraisópolis, palco de uma tragédia que vitimou nove jovens no último final de semana, e um condomínio de luxo.

“Muros como esses não são cercados ou arrimos: são fronteiras. As fronteiras são finas, porque são muito mais do que físicas. O que as sustenta é a convicção de que o que está do outro lado é outro Estado, outra situação, outro lugar que não nos diz respeito”. ///

 

 

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