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Mães, filhas, prisioneiras: As mulheres de Adriana Lestido

Adriana Lestido & Renata Martins Publicado em: 14 de março de 2019

Da série Mães e filhas, 1995-1999, de Adriana Lestido. Cortesia da fotógrafa.

Uma das mais importantes fotógrafas argentinas contemporâneas, Adriana Lestido (1955) tem seu trabalho marcado por um intenso diálogo entre o que seu olho não chega a ver e o que a sua percepção logra eternizar. Principalmente quando são mulheres que ela retrata, como o caso de três famosas séries realizadas nos anos 1990: Mães adolescentes (1988-1990), Mulheres presas (1991-1993) e Mães e filhas (1995-1999).

A eternidade capturada pela objetiva de Adriana Lestido tem a sua atemporalidade fundamentada no ato de iluminar um segredo que cada uma das mulheres retratadas guarda(va) somente para si. Como se através de movimentos de aproximação e distanciamento, sincronizados conscientemente, a artista fosse capaz da façanha de tornar acessível aquilo que, naturalmente, é inacessível a olhares comuns.

John Berger (1926-2017), crítico de arte e escritor britânico, em uma carta à fotógrafa escrita em 2012, confessa sua surpresa diante dessas mesmas fotografias: “O que faz com que seu trabalho seja tão inusual e misterioso é a natureza da sua presença (a da fotógrafa). Aquilo que vemos suceder – existir – acontece como se você não estivesse ali. Ninguém dá a impressão de que está sendo fotografado. E contudo, ao mesmo tempo, cada imagem foi escolhida e reunida com tanto amor e compaixão. Você está absolutamente ali com aquilo e aqueles que está fotografando; e, por outro lado, não está ali absolutamente! É como se fixasse o tempo de exposição não em 30 segundos, mas na eternidade. E o eterno (como nos disse Espinosa) não é perene, senão atemporal. (…) Obrigado, obrigado/Abrazos fuertes/John”.

Pelas mãos de Lestido somos conduzidos a enigmas que impulsionam a roda viva do mundo e a existência dos seres humanos. Em cada foto de uma das três séries citadas, a figura feminina, além de ser o elemento único e protagonista de seu enredo, é também o ponto de partida, a ponta de um iceberg, tanto para outros elementos, propositalmente ausentes, quanto para uma narrativa polissêmica e polifônica cujas leituras apontam para múltiplas possibilidades.

A dançarina de salsa, 1992, de Adriana Lestido. Cortesia da fotógrafa.

Em uma manhã de novembro de 1982, Lestido, que colaborava como a única fotojornalista mulher para um novo jornal de esquerda, o La Voz, foi cobrir um ato de protesto público das Mães da Praça de Maio, em Buenos Aires. Como seu equipamento havia sido roubado no dia anterior, em sua primeira semana de trabalho, enquanto registrava a repressão policial durante um protesto popular, para esse novo ato ela levara apenas uma lente simples. O que aconteceu naquele dia foi justamente o que lhe conferiria sua marca indiscutível.

“Na praça havia uma garotinha com um lenço branco na cabeça a chorar. Todos os fotógrafos estavam ao redor dela tirando fotos. Tive o pudor de levantar a câmera nesse momento. Mas quando o ato começou e os fotógrafos foram para o palco fotografar os oradores, fiquei ao lado da menina e sua mãe, que parecia ter a minha idade. Em um momento, a mãe a levantou, as duas gritaram e eu fiz a foto. São só dois quadros. Sempre gostei muito dessa foto, mas somente com o tempo me dei conta de que é a imagem iniciadora de todo o meu trabalho. É a origem, tudo vem a partir dela”, relembra Lestido. Ela não fotografou o que via – pois, em suas palavras: “Se já o vi, para que quero isso em papel? O que quero ver é o que o meu olho não vê. Fotografo o que percebo, mas não chego a ver”.

Assim surgiu a fotografia Mãe e filha da Praça de Maio, uma das imagens mais representativas da carreira de Lestido, e assim descrita por ela: “Pela idade, a mulher não poderia estar protestando por seu filho. Pensava que protestava por seu homem, e a garotinha, por seu pai. (…) Na realidade, sempre a relacionei com o desaparecimento de Willy, mas também é a ausência de meu pai. Depois, soube que a mulher, Blanca Freitas, protestava pelo seu irmão, Avelino, tio da garotinha”.

Mãe e filha da Praça de Maio, 1982, de Adriana Lestido. Cortesia da fotógrafa.

A menção a Willy, seu companheiro desaparecido em 1978 durante a ditadura cívico-militar argentina, e com quem esteve cinco anos casada, e ao seu pai, preso por cinco anos quando ela apenas tinha sete anos, é o ponto-chave que orienta o modus operandi de Lestido em suas séries dedicadas a mulheres. Em uma foto tão simbólica, tanto para a sua própria história quanto para a de seu país, a presença do elemento feminino denuncia de forma sutil a ausência do elemento masculino, como ela mesma defende: “Durante muito tempo foi dito que eu retratava o universo feminino. Mas não é isso: eu retratava a constante ausência do masculino – o que não é o mesmo. Esse foi o eixo do meu trabalho durante décadas”.

Velázquez dizia, a respeito da sua famosa pintura As meninas que não era para lhe perguntarem pela infanta Margarita, nem tampouco pelo cachorro ou pela anã, porque ele somente pintava o ar que havia entre eles. Da mesma forma, Adriana Lestido registra somente o ar que circunda as suas meninas, mães, mães-meninas, mães-presas, mulheres-presas. Através do enigma que move suas mulheres, registra momentos de ausência, luta, injustiça, sobrevivência, resistência – elementos invisíveis aos olhos nus.

“Não pode ser possível que estamos aqui para não poder ser”. Como na indagação de Julio Cortázar (1914-1984) em O jogo da amarelinha, as mulheres que Adriana Lestido viu (e por elas foi vista) são e resumem em si a plenitude da existência humana – com todas suas nuances e contradições, logros e perdas, harmonias e distensões.

Assim, universos femininos particulares foram eternizados de forma analógica no processo artesanal  da luz sobre a gelatina de prata e em períodos de criação que demandavam seu próprio ritmo e desafiavam qualquer necessidade instantânea. O desejo de registrar vínculos e sentimentos é o que aproximou Lestido de “suas mulheres” ao longo de um período de 10 anos.

A série Mães adolescentes, produzida entre 1988 e 1990, traz por um lado o ambiente de desamparo e desconsolo – fruto da desprotegida situação de segregação social que sofrem adolescentes de baixa renda quando se tornam mães. No entanto, vislumbra-se uma narrativa alternativa de Lestido que, recriando uma atmosfera lúdica, resgata a aura especialmente naïf e ternamente infantil dessas “mães-meninas” brincando e acariciando seus filhos como se fossem suas bonecas.

Já entre os anos de 1991 e 1993, o lúdico da série anterior é substituído pela força expressiva e pulsante do trabalho Mulheres presas. Depois de haver convivido durante um ano com detentas do presídio da cidade de La Plata, Lestido nos traz relatos visuais de ausências, descuido, revolta, desespero transmitidos especialmente através das miradas dessas mulheres. Cada uma de suas retratadas possui em si uma narrativa única, e o proposto intercâmbio de olhares com elas nos faz penetrar num campo de novos significantes e significados que colocam em cheque nossos preconceitos. Inicialmente, a ideia de Lestido era registrar a maternidade no cativeiro – ideia essa que mais tarde considerou romântica porque “a realidade é muito mais dura. Estar com um filho na prisão é secundário, o forte é estar preso. Assim, com esse lema seguiu e terminou o projeto Mulheres presas. Entendi que sempre se está preso, mesmo antes de ir para a prisão. Estar preso é não poder decidir”.

Mães e filhas, sua última série dedicada exclusivamente a mulheres, e a concretização de seu projeto sobre a maternidade, foi um movimento em direção à liberdade, ao nascimento, ao mistério do amor incondicional entre mães e filhas. Entre 1995 e 1999, Lestido acompanhou quatro mães com suas respectivas filhas nas mais diversas etapas de vida. A intimidade da maternidade foi retratada pela fotógrafa como se tivesse fechado seus olhos e deixado para suas mãos a responsabilidade de capturar sensações, movimentos, gestos. Guiada pela agilidade do seu dedo sobre o botão do obturador, Lestido narra momentos de carinho, cumplicidade, conflitos, exaustão, desamparo, simbioses e necessidades que compõem a maternidade.

Sua última retrospectiva no Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires em 2013 reuniu fotografias  de 1979 a 2007 e teve fila dando volta no quarteirão. No Brasil, a artista expôs em 2015 no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro O que se vê: uma seleção de 82 fotos dos anos de 1982 a 2005, entre as quais estavam as séries Mães adolescentes, Mulheres presas e Mães e filhas, além de Mãe e filha da Praça de Maio.

Em torno a todas as narrativas visuais de Adriana Lestido sobre suas mulheres observa-se que o grande enigma que transpassa cada uma de suas tomadas é o amor – tanto em sua presença ou ausência. No entanto, não vemos a representação de um amor platônico ou kitsch; vemos um amor em seu puro estado sublime – aquilo que encanta, mas que amedronta ao mesmo tempo; que não tem conserto, certeza ou tamanho. Através de suas mulheres, a artista sana e encerra suas próprias narrativas pois, segundo ela: “já vi tudo o que necessitava ver”.///

 

Adriana Lestido (1955) nasceu em Buenos Aires, onde estudou fotografia e trabalhou como fotojornalista para os jornais La Voz e Página 12 e a agência Diarios y Noticias (DyN). Publicou sete livros fotográficos, entre eles Mujeres presas (2001), Madres e hijas (2003), Lo que se ve (2012) e Antártida negra (2017), entre outros.

Renata Martins (1980) é professora e tradutora natural de São Paulo, mas residente em Bonn, Alemanha. É mestre em Literatura Alemã pela USP e especialista em curadoria de arte pela Universidade das Artes de Berlin. Sobre artes visuais e cultura escreve para distintas publicações na Alemanha, Argentina e Brasil.

 

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