Revista ZUM 14

Além do exótico

Daigo Oliva & Yann Gross Publicado em: 03 de julho de 2018

Viajante que odiava viagens, Claude Lévi-Strauss começa Tristes trópicos (1955) ironizando a importância que se costuma dar a passagens banais dos relatos de exploradores. Seguem-se comentários ácidos sobre o calor das embarcações, as crianças e as beterrabas. O tubérculo é usado como metáfora para representar a massificação das civilizações do século 20.

“A humanidade instala-se na monocultura; prepara-se para produzir civilização em massa, como a beterraba. Seu trivial só incluirá esse prato.”

O livro da selva: histórias contemporâneas da Amazônia e de suas bordas (2016), do fotógrafo suíço Yann Gross, atualiza as ideias elaboradas por Lévi-Strauss há mais de seis décadas. Ao mesmo tempo que as sociedades se aproximam, intensificando a massificação, elas se adaptam de acordo com suas particularidades. A capa de tecido verde exibe ilustrações douradas de uma onça-pintada, um jacaré e um garoto de traços indígenas com o corte de cabelo de Neymar. A junção de animais selvagens com um menino que imita o visual do jogador mundialmente conhecido resume a visão da Amazônia apresentada por Gross, uma cultura ligada à floresta, mas também aos centros urbanos e ao universo das celebridades.

Ao longo do livro, sucedem-se fotos de misses, de um cachorro-do-mato acorrentado, de latas de cerveja que escondem cocaína, de um xamã que se tornou porteiro de igreja evangélica, da área de controle de qualidade de uma fábrica de preservativos e de um professor chamado Hitler Capinoa Sandiego.

Pouco mais de uma década antes de publicar O livro da selva, Gross fotografou moradores do vale do Ródano, na Suíça, que sonhavam com o modo de vida americano mesmo sem terem visitado os Estados Unidos. Horizonville, como o ensaio foi batizado, exibe restaurantes de estética western, clubes de striptease, trailers com a bandeira confederada, easy riders e muitas pessoas com chapéus de caubói. O título do ensaio faz referência a uma cidade que não existe e foi pinçado da placa de um posto de gasolina encontrado ao final da road trip de três meses realizada por Gross. Postos de gasolina são símbolos da cultura pop americana, presentes na obra de artistas como Edward Hopper ou Ed Ruscha.

Entre a Suíça e a Amazônia, Gross viveu alguns meses em Uganda, onde também se interessou pelos cruzamentos culturais. Em Kitintale, subúrbio da cidade de Kampala, o fotógrafo encontrou um grupo responsável pela construção da primeira pista de skate do país. Na paisagem paupérrima, Gross reconheceu códigos comuns a seu próprio universo de skatista.

Muitos quilômetros separam os skatistas ugandenses dos surfistas da Amazônia paraense, que se reúnem duas vezes ao ano para deslizar sobre a longa pororoca do rio Capim, numa das micro-histórias relatadas no novo livro. A extensão do território por onde Gross viajou – além do Brasil, ele foi à parte amazônica do Equador, da Colômbia e do Peru – permitiu a ele encontrar uma variedade maior de situações e tratar mais amplamente das relações entre estereó – tipos e aculturação. É a colisão de elementos contemporâneos com o imaginário visual da Amazônia que dá forma ao livro.

Os relatos dos exploradores são uma referência para o estudo da América. Antes que surgissem, no entanto, havia outras maneiras de representar o que estava além do oceano, território desconhecido na Europa. Uma dessas representações eram os portulanos, antigas cartas náuticas usadas para prever distâncias e direções entre portos. Fosse por inclinações artísticas, místicas ou religiosas de seus criadores, fosse para valorizar a coragem necessária para embarcar em jornadas extensas e incertas, era costume incluir nos portulanos desenhos de animais medonhos e figuras monstruosas. O encarte do livro de Gross exibe uma ilustração que lembra essas cartas. Com o brasão da Tabula Regionis Amazonicae, o mapa demarca a localização dos personagens e dos objetos retratados no livro, em versões não menos aterrorizantes que a dos desenhos antigos. As distâncias representadas também são heterodoxas.

Reza a lenda que espanhóis liderados pelo explorador Francisco de Orellana (1490-c.1546) batizaram o rio de Amazonas depois de perderem uma batalha para indígenas guerreiras que em muito lembravam as mulheres da mitologia grega. Em suas fotos, Gross também reviveu certos mitos. O retrato de uma moça nua, curvilínea e com máscara de onça faz referência à Tupichua, uma linda mulher-jaguar que, segundo a antropóloga francesa Hélène Clastres, adorna-se com pintura atraente e faz os homens perderem a razão. Se copularmos com a mulher-jaguar, ela “começa a ficar pintada e deixa de parecer uma mulher, pondo-se a arranhar o chão e a rugir, assim como a vítima”.

A relação entre homens e animais também aparece na fotografia de um garoto com o casco de uma tartaruga na cabeça. Ao final de O livro da selva, um índice oferece uma explicação sobre as imagens: “Após a refeição, o casco da tartaruga se torna um brinquedo para as crianças”. Vendo a foto, é possível tanto imaginar que os pequenos se divertissem com os restos do animal como acreditar que o garoto de fato usasse o casco como um chapéu inusitado. Ao enfatizar a exceção em imagens com ares oníricos, Gross mistura o que é fato e ficção.

A mulher-jaguar e o menino-tartaruga foram fotografados em Iquitos, no Peru. A expansão da cidade absorveu as vilas indígenas ao redor, o que fez que as tradições de cada comunidade desaparecessem gradualmente. Muitos habitantes não conhecem suas origens nem a de seus ancestrais e, assim, constroem uma identidade que incorpora elementos de outras partes do país, como danças, vestimentas ou música popular.

Perto dali, na também peruana Santo Tomás, Gross encontrou jovens de origem Cocama que tentam retomar seus antigos rituais. Em algumas fotos, os atuais Mashakaras (“homens de máscaras”, na língua Kukama-Kukamiria) reinterpretam um ritual Cocama extinto, com máscaras que representam demônios e criaturas fantásticas da mitologia de diversas tribos.

Do século 18 em diante, exploradores se dedicaram a desenhar detalhadamente a fauna e a flora da região amazônica, com destaque para a produção do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), que viajou pela parte espanhola e fez desenhos com o assunto centralizado em um fundo neutro e isolado do ambiente. Quase na metade de O livro da selva, Gross usa essa abordagem em 16 fotografias de plantas e animais, impressas em um papel fosco e de gramatura mais fina. A sequência de fotos, que parece feita em estúdio, começa com cipós ayahuasca e segue com lagartos, plantas afrodisíacas, até terminar com um tatu. Os elementos, que ganharam legendas com seus nomes populares, científicos e uma breve explicação sobre seus usos mais comuns, não foram encontrados na floresta pelo fotógrafo, mas adquiridos no mercado de Belén, na Amazônia peruana.

Humboldt também produziu paisagens que ofereciam uma perspectiva positiva da natureza e das populações, em oposição às visões que enxergavam nos trópicos um local insalubre, de população degenerada. As paisagens naturais fotografadas por Gross são deslumbrantes, mas, muitas vezes, seguidas por imagens de garimpos, de edificações ou de uma pessoa armada. Gross exalta a visão romântica da floresta ao mesmo tempo que revela sua decadência, por meio do registro de embarcações e de construções abandonadas, e da paleta de cores dessaturada, melancólica, com tonalidades opacas e pouco contraste. Gross é econômico ao dirigir os retratos dos personagens. E suas descrições são mais substantivas do que verbais: um homem segura um violão, sem tocá-lo.

A palavra também é essencial no livro, lançado em inglês pela editora norte-americana Aperture, em espanhol pela mexicana RM e, em francês, pela Actes Sud. Além dos comentários explicativos ao final, textos curtos e objetivos acompanham muitas das fotografias para identificar personagens ou reproduzir depoimentos. A comunicação é seca e muitas vezes anedótica, valendo-se apenas do inusitado. Em uma passagem, Gross relata que, ao chegar a um assentamento indígena depois de navegar por dois dias pelo rio Napo, tudo que se ouvia era “o retumbante som da música eletrônica”. O comentário acompanha uma paisagem pictórica, coberta por neblina, e mostra como a realidade da Amazônia frustra a expectativa romantizada.

O título do livro faz referência ao clássico literário do anglo-indiano Rudyard Kipling, publicado em 1894. O livro da selva é uma coleção de fábulas em que animais antropomórficos aventuram-se em busca da educação moral de seus leitores. Mogli, o personagem mais famoso, é um bom selvagem tipicamente romântico. No trabalho de Gross, porém, não há espaço para a visão idealizada. Enquanto desfaz estereótipos, muitas vezes encontra novos exotismos: um grupo indígena de hip-hop, um Tarzan colombiano, um cacique com agasalho de ursinhos ou o garoto com o cabelo de Neymar.

O livro da selva trata da identidade moderna, da noção de progresso e desenvolvimento. É uma construção feita a partir de várias imagens sobrepostas, que incluem estereótipos e exotismo. A ideia de civilizações homogêneas, centradas na monocultura, também é questionada no livro. Dependendo da forma como você cozinha a beterraba, acredita Gross, o gosto pode variar. ///

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O livro da selva: histórias contemporâneas da Amazônia e de suas bordas
Editoral RM (2016)
232 páginas
Idioma: Espanhol

Yann Gross, fotógrafo e cineasta suiço, é autor de Horizonville (2010), Kitintale (2010) e O livro da Selva (2016). Recebeu o prêmio PhotoEspaña Descubrimientos de 2008 e colabora para publicações como National Geographic, Aperture e The New York Times.

Daigo Oliva é editor adjunto do Núcleo de Imagem do jornal Folha de S. Paulo.

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