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Moçambique pelo olhar intimista de José Cabral

Publicado em: 03 de junho de 2019

Kok Nam, José Cabral e Ricardo Rangel, sem data, foto do livro Moçambique – José Cabral, XYZ Books, 2017

Em conversa com a ZUM, o jornalista, editor e historiador da fotografia Alexandre Pomar destacou algumas das características próprias da fotografia de Moçambique ao comentar os trabalhos de dois grandes fotógrafos do país: José Cabral e Ricardo Rangel. “Uma marca comum é a recusa das facilidades do exotismo que domina muita fotografia africana pós-colonial como via do sucesso mediático”, diz o jornalista.

Editor do livro José Cabral: Moçambique (XYZ Books), Pomar revela a atualidade da obra de Cabral, que “nunca é a da guerra civil, da violência urbana ou da miséria quotidiana, mas não é indiferente à realidade do país, que muito percorreu e documentou.”

Na última década, a fotografia africana tem sido exposta e publicada nos principais museus e instituições culturais ao redor do mundo, consagrando nomes como Seydou Keïta, Malick Sidibé e J.D.’Okhai Ojeikere, entre outros. Nesse contexto, qual você consideraria a particularidade da fotografia moçambicana e seus principais nomes?

Alexandre Pomar: Dois nomes – Ricardo Rangel e Kok Nam – destacam-se na fotografia de Moçambique desde a década de 60 e até entrando o novo século, atravessando todos os regimes, num contexto que é mais semelhante ao da África do Sul do que à África Ocidental independente, com os seus retratistas populares. Ambos fotojornalistas, exploravam o possível espaço livre numa imprensa liberal tolerada pelo regime colonial, apesar da censura. Favoreceu-os o facto de serem mestiços, de ascendência múltipla, europeia e chinesa, num quadro político que opunha brancos e negros. Rangel fez reportagens nos bairros pobres (o caniço) e mostrou a segregação, na linha do humanismo e da Life, impondo a fotografia como editorial e espaço de opinião, em especial no semanário de oposição, Tempo, de que foi fundador em 1970. O seu trabalho foi revelado no exterior logo por ocasião dos 1ºs Encontros de Bamako, 1994, com um livro antológico de edição francesa e a exposição pela Revue Noite da sua série mais famosa, dos anos 60/70, sobre as mulheres dos bares do porto da antiga Lourenço Marques (O Pão nosso de cada noite).

Também a Frelimo e depois o novo governo independente, após 1975, valorizaram a informação fotográfica, criando a Associação Moçambicana de Fotografia e um Centro de Formação. Com Rangel e Kok, e com o apoio da cooperação internacional, em especial italiana (com Gin Angri), cresceu a “escola moçambicana de fotojornalismo”, um “colectivo” informal com largo número de bons profissionais que acabariam por ter pouco espaço livre na imprensa do novo regime socialista e da demorada guerra civil que devastou um país pobre.

A vocação documental é uma linha constante na fotografia de Moçambique, agora muito renovada pela reflexão sobre a identidade dos mais jovens fotógrafos-artistas, que se autonomizaram do colectivo formado por Rangel e afirmam linguagens pessoais com ambição internacional. Sérgio Santimano, a partir da Suécia, é um veterano. Três novos fotógrafos – Mário Macilau, Mauro Pinto e Filipe Branquinho – já circulam bem por fora de Moçambique, que não deixou ainda de ser um espaço fechado. Uma segunda marca comum é a recusa das facilidades do exotismo que domina muito a fotografia africana pós-colonial como via do sucesso mediático.

 

E dentro da fotografia moçambicana, como se insere o trabalho de José Cabral?

AP: José Cabral foi fotojornalista por pouco tempo e foi formador de fotógrafos, mas o seu caminho foi o da liberdade face às regras políticas e depois da irreverência pessoal, com uma personalidade forte, indisciplinada e desafiadora. O seu trabalho rompeu com a “escola moçambicana”, dinamitou-a, e exigiu a afirmação e o reconhecimento da autoria individual. De início usou o terreno do documentário de encomenda, depois criou uma linguagem intimista e sensual onde o retrato e o seu contexto ocupam um largo lugar. Impôs num meio adverso e sem mercado (privado ou institucional) para a fotografia uma forte sequência de exposições temáticas e subtilmente antológicas: As linhas da minha mão (com referência a Robert Frank), em 2006; Anjos urbanos (os seus filhos e os filhos dos outros), de 2009, e depois Espelhos quebrados, 2012, com imagens de toda a carreira onde o fotógrafo ficava sempre incluído, reflectido, sem que se trate de autorretratos: é afirmação da autoria, reflexão sobre a imagem construída, autobiografia.

Depois de Rangel, Cabral é o outro mestre da fotografia de Moçambique, respeitado pelas gerações mais novas, para as quais abriu caminho e foi exemplo. Fotógrafo culto, grande leitor, viajado por Itália e Estados Unidos, graças a um prêmio e uma bolsa, afirmou um perfil de excepção e ruptura, sensível e crítico, enquanto desenvolvia um vasto trabalho pessoal, dentro e fora das encomendas, ainda pouco mostrado.

 

Ilha de Moçambique, 1990, foto do livro Moçambique – José Cabral, XYZ Books, 2017

Muitas vezes, a imagem que nos chega da África trazida pelo fotojornalismo está focada na fome, nas guerras, nas várias mazelas pelas quais a população de boa parte de países africanos tem passado. No entanto, o trabalho de José Cabral parece fugir desse olhar de denúncia mais explícita e direta. Você concorda? Onde se encaixaria o olhar de Cabral?

AP: A actualidade de Cabral nunca é a da guerra civil, da violência urbana ou da miséria quotidiana, mas não é indiferente à realidade do país, que muito percorreu e documentou. À distância da vitimização e do exotismo, a atenção ao tempo longo e ao olhar dos outros é também uma forma de activismo, que não está do lado imediato da denúncia, que se afasta da mensagem e do confronto políticos, procurando os pequenos sinais positivos e vitais, para ser um olhar mais essencial ou definitivo, do lado da permanência e da convivência. É também um olhar crítico mas sempre subtil e até amável, com um humor que dispensa a anedota. A sua fotografia é discreta e serena, ao contrário do que é como homem, é emocionada e cúmplice das pessoas, sem um “estilo” feito de ensaios formalistas ou retórica conceptual.

 

Ilha de Moçambique, 1990, foto do livro Moçambique – José Cabral, XYZ Books, 2017

Quais aspectos da vida e obra de José Cabral o livro buscar destacar?

AP: Organizado com um acesso limitado ao acervo de negativos de Cabral, pelas carências do meio local, o livro segue o essencial das anteriores exposições antológicas, atravessa a obra sem distinguir capítulos e sem respeitar a cronologia (que pouco importa), procurando sublinhar o que são interesses constantes e marcas autorais: os retratos quase sempre frontais, os olhos e os corpos das mulheres, os nus íntimos, as árvores, que são também presenças sensuais, a família e os filhos, com passagem para a atenção às crianças em geral, e a dimensão autobiográfica de toda a obra que se afirma no final com a presença do fotógrafo incluído na imagem. São marcas que também se podem reconhecer ao longo de alguns itinerários geográficos que o livro percorre, da capital Maputo ao planalto Maconde e à Ilha de Moçambique, com passagem pelas Américas. O fotógrafo fotografa-se com os outros, e viaja, vive a sua vida.///

 

Alexandre Pomar é jornalista, crítico de arte e investigador independente sobre história da fotografia. Publicou o catálogo raisonné de Júlio Pomar (2002 e 2004); As Áfricas de Pancho Guedes (2010); 4 Fotógrafos de Moçambique (2016); e José Cabral: Moçambique (2017). Realizou com Tiago Pereira o filme Solar dos Jorges, sobre o artista outsider Jorge Soares (2014).

 

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