Ensaios

Capivaras & dragões

biarritzzz Publicado em: 9 de junho de 2022

Um dia, por trás do rio das capivaras, foi visto um ser luminoso que nasceu do rebuliço das águas salgadas. Flutuando nas águas doces de capibarybé, o grande dragão trazia a ira do fogo em sua boca. Guia dos jangadeiros, convocava a fuga e incendiava o peito, como velas ao vento de quem o seguia até a outra beira das terras da grande siara. Sua luz guiou os caminhos de água e terra naquele tempo que também era hoje. Dizem que sua brasa ainda queima em lacrimejos os olhos da Justiça.

Em Recife, especificamente na localidade do Poço da Panela, há uma estátua que hoje configura uma praça em frente à mansão de um dos abolicionistas mais reconhecidos da cidade. O busto do abolicionista José Mariano, com nome e data de falecimento, presta homenagem ao abolicionista que, naquela casa, cuja parte de trás dá direto para o rio Capibaribe, abrigava escravizados fugidos para depois seguirem a rota de fuga fluvial rumo ao Ceará, província que, antes de todo o resto do Brasil, já havia abolido a escravidão. Abaixo de seu busto, um corpo negro esculpido sem nome e quase sem roupas, segurando algemas quebradas, “ilustra” o feito daquele grande homem branco libertário.

Partindo de uma não homenagem aos ícones e sistemas de premiação e reconhecimento das elites pelas elites, este jogo de imaginação segue a rota de fuga desenvolvida pelos escravizados que seguiam de Pernambuco, estado onde moro e vivo, para o Ceará, lugar e terra de meus familiares e onde nasci. Traçando uma memória pessoal de vidas anteriores à minha, vidas negras e fugidias, que não guardam em suas trajetórias os caminhos que percorreram num processo de esquecimento forçado, de permanência negada, de raízes sentidas, porém não ditas; trago uma narrativa que se desenvolve a partir da incorporação de personagens que permeiam essa história. As capivaras, que batizam o rio Capibaribe, ou Capibarybé, se despedem daqueles que irão de encontro ao Dragão do Mar, codinome de Francisco José do Nascimento, líder revolucionário das águas salgadas da província da grande Siara. Símbolo da luta dos jangadeiros pelo fim da escravidão. Também um ser encantado que cospe fogo e que sobrevoou essas rotas de águas e terras, guiando, para além do visível e do humano, povos para longe do sistema colonial escravocrata. Assim começa o jogo.

CARTA RITO DE DESPEDIDA

A capivara encantada se despede daqueles que fogem na calada da noite.

Use esta carta para saber qual direção seguir pelo rio capibarybe.

CARTA FUMAÇA DAS FORÇAS

A fumaça sagrada que toca seu barco favorece sua corrente de acordo com a maré.

Sem a sabedoria invisível da maré você não chegará ao seu destino.

CARTA DAS PEDRAS

Nesta carta especial, você pode usar qualquer um dos três poderes:

Pedra de Reis

Invoca a força do reinado da Serra do Ororubá. Sem saldar os donos da terra não se pode ir a lugar algum.

Pedra de Fogo

Invoca a força ancestral das pedreiras da justiça e protege dos inimigos.

Pode ser lançada contra cabuetas.

Pedra de Raio

Invoca a energia dos raios e tempestades ao seu favor durante a travessia na maré.

CARTA DRAGÃO DO MAR

Irá lhe guiar ao desembarcar na terra firme rumo ao Siará.

É necessário consultar essa carta durante todo o trajeto de fuga.

Com ela você vai agregar mais fugitivos ao longo do caminho.

biarritzzz (1994, Fortaleza, vive e trabalha em Recife, Brasil) é uma artista transmídia que investiga a falsa questão da tecnicidade x amadorismo / ciência x magia na criação de realidades, a partir das interações entre o universo da internet, o mundo das imagens e os corpos não hegemônicos. Entende as infinitas linguagens a partir dessa intersecção, e suas criptografias, como ferramentas de poder. Em seu trabalho remixa cultura pop, videoarte, política de memes, estéticas de videogame e poesia com as novas mídias.

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Concepção, desenhos em laser e GIFs: biarritzzz
Fotografia e edição: Desna
Barqueiros: Aline Lacerda e Anísio Barros
Molduras: Edu Moreira

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