Revista ZUM 3

Transposição

Caio Reisewitz & Natália Brizuela Publicado em: 28 de maio de 2014
O trabalho Transposição, resultado de viagens feitas em 2012 ao sertão do Brasil, foi publicado na ZUM # 3 com comentário da crítica argentina Natália Brizuela. Confira abaixo as fotos e o texto da  matéria na íntegra.

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O sertão vai virar mar,
E o mar vai virar sertão



TERRAS RESSEQUIDAS PELO SOL, cristalizadas pelo fogo, sem palmeiras e florestas densas, estão distantes da exuberância tropical retratada na obra anterior de Caio Reisewitz. A água, ora presente, ora ausente, une e divide a nova obra, feita de duas zonas ou margens: de um lado, os rios, as cachoeiras, os canais; de outro, a seca, as pedras e as casas em ruínas. Vida e morte. Opostos que retomam a dualidade usada para definir e imaginar o sertão no passado, cristalizada na obra de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos e levada ao extremo no trabalho de Guimarães Rosa e de Glauber Rocha. Grande sertão: veredas. Já no título, os opostos convivem: as terras áridas de um lado; de outro, as inúmeras veredas que permitem a travessia do sertão. Separados não por um ponto ou uma vírgula, e sim por dois-pontos. Uma parte é a repetição ou a explicação da outra. São, portanto, o mesmo. Mas diferentes. Assim como Deus e o diabo na terra do sol, diria Glauber.

Transposição é um sertão contemporâneo, resultado de viagens feitas em 2012 para um trabalho ainda em andamento, realizado a convite do curador Marcelo Campos. Estas fotografias são o momento atual de uma genealogia que começa nas fotos da Campanha de Canudos tiradas por Flávio de Barros, em 1897, e que voltaria a se manifestar no sertão de Vidas secas, por exemplo, fotografado por Luiz Carlos Barreto e José Rosa durante as filmagens de Nelson Pereira dos Santos. Cada uma dessas ocorrências leva ao limite as manifestações de um território brasileiro que deveria ser todo “ordem e progresso”.

Caio Reisewitz também é fascinado pelos lugares por onde passou Marc Ferrez, que retratou o país de 1860 até 1923, ano de sua morte. De tão vasta, a obra de Ferrez já foi chamada de O Brasil de Marc Ferrez. Não é o Brasil por Marc Ferrez, mas sim a imagem de um país cuja singularidade está radicada no imaginário desse indivíduo – uma das muitas imagens do Brasil, mas uma imagem icônica. Parte da fascinação por Ferrez pode ser vista como um interesse pela construção fotográfica da paisagem brasileira, por transformar o Brasil em uma imagem, não uma imagem verdadeira, mas um retrato imaginário de um lugar supostamente verdadeiro – daí o título Parece verdade, que batizou a primeira grande retrospectiva de Caio em 2010. Ele quer armar O Brasil de Caio Reisewitz ou Um Brasil anti-icônico.

O desejo de revisitar, neste novo trabalho, os lugares e as imagens de Ferrez tem como ponto central a cachoeira de Paulo Afonso e o rio São Francisco. Foi essa cachoeira  que deu início ao projeto, com uma fotografia comprada em um sebo – porque Caio coleciona fotos antigas de paisagens, mas principalmente porque sabia que Ferrez tinha passado por ali, em 1875. A imagem aqui apropriada é uma pequena fotografia em preto e branco, cuja impressão foi desgastada com o passar dos anos e as tonalidades, corroídas. Há quatro figuras humanas na parte de baixo. Com exceção de dois retratos conhecidos (Rufo, de 2003, e Antonia, de 2008), e de paisagens como Cantareira II  (2008), a obra de Caio se caracteriza pela ausência quase absoluta de pessoas. Ferrez, por outro lado, muitas vezes incluía figuras humanas nas fotografias de paisagens, para dar a noção de escala ou para que funcionassem como ponto de observação da construção do sublime. É por isso que a antiga fotografia de Paulo Afonso destoa. É de outra época e de outro olhar.

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Mas não é a primeira vez que Caio trabalha com cachoeiras. Um de seus trabalhos mais conhecidos foi a instalação Ituporanga, feita em São Paulo, em 2011. Nela, uma janela monumental do Sesc Belenzinho funcionava de backlight para a fotografia de uma cachoeira, dividida em 76 retângulos. Também nas fotografias  de Ferrez – como em quase todas as outras fotos de cachoeiras –, o que se enxerga é a assombrosa  queda, a espuma, o vapor, a inevitável brancura, o véu de noiva. Mas, no novo trabalho de Caio, não vemos a cachoeira definida como uma queda-d’água. E às vezes não sabemos bem o que vemos. A decisão de não fotografar a cachoeira usando a perspectiva a que fomos acostumados pelas representações do século 19 em diante tira a dramaticidade monumental da queda d’água. E ao negar o ponto de vista humano, que enxergaria a cachoeira a distância, essas imagens também negam o sublime. O que há aqui é algo antissublime. Porque as paisagens não são apresentadas para que o espectador se sinta diante de uma força de tal dimensão que as únicas reações possíveis seriam de assombro e submissão. O sublime é uma relação entre o homem e a natureza, um encontro de forças, e a figura humana, ou o seu ponto de vista, está ausente nesse trabalho. Aquilo que diversos críticos de Reisewitz apontaram como épico, monumental e sublime, prefiro chamar de “gigante”, pois trata de uma questão de escala.

Em uma entrevista, Caio afirmou que gosta de brincar com a suposta verdade da fotografia: aprecia tirar fotos que parecem reais, mas que na verdade são falsas, e bater fotos reais que pareçam falsas. Sua pesquisa também envolve a busca pelo que é atemporal, por fazer nos dias de hoje algo que poderia ter sido feito muito tempo atrás. Por isso o fotógrafo só usa a sua Technika de 4 × 5 polegadas, uma antiga câmera de grande formato, que exige tomadas mais lentas.

Essa terra que Caio mostra  não nos foi revelada em seus  trabalhos  anteriores.  Algo  aconteceu com a natureza.  Não há mais o predomínio  do verde, mas sim do marrom.  Não há exuberância,  mas esterilidade. Passamos das selvas tropicais para o inferno do sertão. Caio tenta tirar o encanto do território brasileiro que o decorrer da história e as lutas por poder nomearam como território, aquilo que vemos em grande parte da iconografia moderna. O trópico é o território já “humanizado” pelo trabalho real e simbólico do homem. Mas Caio vai do trópico ao sertão, colocando o espectador diante de um novo território, um território selvagem de terra pura. E não mostra apenas outro Brasil, mas também o outro do Brasil.  ///

TRADUÇÃO DO ESPANHOL DE ANTÔNIO XERXENESKY

Caio Reisewitz (1967) é artista. Vive e trabalha em São Paulo. Publicou Parece verdade.

Natália Brizuela é crítica argentina. Escreve sobre fotografia, literatura e cinema e publicou, entre outros, Fotografia e império: paisagens para um Brasil moderno (2012). É professora da Universidade Califórnia, Berkeley.

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