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Crimes, mistérios e clichês: fotolivro “Folie à deux” propõe um jogo de detetive com o leitor

Publicado em: 02 de julho de 2019

Foto do livro Folie à deux, 2019, de Felipe Abreu

Lançado recentemente, o livro Folie à deux, do fotógrafo e editor Felipe Abreu, propõe ao leitor um jogo de aparências e pistas falsas. A intenção de Abreu é questionar alguns clichês relacionados a determinadas imagens e narrativas visuais: “Uma das propostas deste projeto é justamente transportar clichês e códigos do romance policial, do filme noir e detetivesco para uma publicação fotográfica”, comenta.

ZUM conversou com Felipe Abreu sobre a relação entre fotografia e verdade, narrativas detetivescas e alguns dos segredos escondidos no seu livro.

 

 

A narrativa policial/detetivesca na literatura e no cinema já tem uma tradição bastante sólida. Seu livro pode ser visto como uma maneira de levar esse tipo de narrativa para livros de fotografia?

Felipe Abreu: A tradição que você comenta, especialmente a do universo audiovisual, foi a grande influência no processo de criação de Folie à deux. Tenho formação em cinema e isto permeia minha produção fotográfica de uma forma que considero bastante produtiva. Este livro tinha, antes da maioria de suas fotografias, um roteiro e uma espécie de storyboard montados e discutidos no grupo de estudos do qual eu fazia parte. Há referências ao cinema e à televisão espalhadas pelo livro que constituem o esqueleto da narrativa desenvolvida.

Uma das propostas deste projeto é justamente transportar clichês e códigos do romance policial, do filme noir e detetivesco para uma publicação fotográfica. Isso se dá pelos temas que decidi fotografar e pela fonte dos materiais de arquivo e de texto utilizados. Cabe aqui citar os fotolivros que me influenciaram neste processo – ou que descobri ao longo dele – e que me deram a sensação de que havia uma “comunidade” ou um zeitgeist que não deixaria Folie à deux solto no mundo. A Criminal Investigation (2012), de Watabe Yukichi,  The Epilogue (2014), de Laia Abril, Belgian Autumn (2015), de Jan Rosseel, Jaunt (2016), de Lotte Reimann, além da produção teórica e fotográfica de Joan Fontcuberta, são algumas das publicações que me deram respaldo para seguir com o projeto da maneira que eu havia imaginado.

 

Livro Folie à deux, 2019, de Felipe Abreu

Bilhetes ao longo de Folie à deux parecem funcionar como pistas para a resolução de um mistério. Mas podem ser vistos também como uma forma de despistar (no sentido de, ao mesmo tempo, apresentar e esconder provas) o leitor. De onde veio a ideia para fazer um fotolivro com uma pegada detetivesca?

FA: A primeira inspiração para o livro veio quando fotografei um homem que dormia em um parque em Barcelona, estirado no chão. A maneira com que seu corpo estava disposto me deu a clara impressão de que algo ruim havia acontecido, mas na verdade era uma simples siesta. Com esta imagem me veio o estalo de trabalhar com o clichê fotográfico. Me explico: dependendo do assunto/objeto e de como se fotografa, o espectador é levado a um determinado espaço mental, como o suspense ou apreensão, em Folie à deux. Com isto estava criado o jogo de investigação que permeia todo o livro: esta imagem é de um crime real ou apenas parece ser? Esta participação do leitor, que deve decidir a todo momento o quanto acredita ou não na narrativa que proponho é parte importante da proposta. Aproveito para contar um dos pequenos segredos desta história: há seis bilhetes espalhados ao longo do livro, três deles com mensagens de amor, cada vez mais desiludidas, e três deles com mensagens violentas, de crescente intensidade. Os textos presentes em cada um destes grupos poderiam ser do diário de uma das vítimas e dos arquivos policiais, respectivamente, mas são pequenos trechos retirados dos roteiros de Casablanca (1942) e Se7en (1995). Há uma série de pequenas armadilhas como esta ao longo de todo o livro, para manter vivo este constante jogo entre realidade e ficção.

 

Folie à deux apresenta textos e imagens apropriadas misturadas a fotografias feitas por você sem uma preocupação em deixar claro a autoria. Essa confusão parece ser algo proposital no livro. É isso mesmo?

FA: Sim, esta omissão em relação à fonte dos materiais é essencial. Como comentei anteriormente, Folie à deux é um jogo sobre clichês, sobre como associamos determinados códigos a certas sensações, como o medo ou o desejo. Se a fonte de cada um dos materiais estivesse apresentada abertamente o castelo de cartas que construí desmoronaria no mesmo momento. Faço questão de omitir esta informação na estrutura do livro, mas não em meu discurso. Tomo esta decisão para proporcionar ao leitor distintos níveis de leitura e imersão na proposta. Há uma leitura superficial, centrada nas imagens, da qual espero que se tire uma sensação de suspense, apreensão. Logo, há uma segunda leitura, guiada pelos bilhetes e por um olhar mais atento às imagens, que deve revelar que a narrativa acompanha uma série de crimes. Finalmente, as pistas começam a ser entregues de maneira mais aberta com o texto de Antônio Xerxenesky no final do livro: um conto em que o protagonista, assombrado pelas imagens de sonhos inquietos causados pelo hábito de dormir com a televisão ligada, caminha pela cidade acreditando ver cenas de crimes por onde passa. Com este texto, que acredito fechar muito bem o livro, a aproximação ao universo audiovisual e televisivo começa a se entregar, ainda que de maneira sutil, como com todas as outras pistas presentes no livro. Além dos níveis de leitura que comento acima, faço questão de apresentar o processo de criação de Folie à deux, todas as escolhas e segredos escondidos, em palestras e falas que faço sobre o trabalho. Assim, pouco a pouco, os participantes vão descobrindo a “verdade” do livro.

 

A que loucura (folie) o título do livro se refere?

FA: “Folie à deux” é uma aflição psicológica que faz com que duas pessoas próximas compartilhem sintomas, uma espécie de contaminação psicótica. Ao entrar na narrativa – sem informações externas – espera-se que o leitor seja contaminado pela verdade do livro, entrando na loucura proposta pelo seu autor: uma investigação de uma série de crimes que não existiu. Entendo que alguns leitores logo escapam desta loucura e outros ficam por mais tempo, compartilhando os “sintomas” que proponho. Esta dupla visão, necessária para fugir da loucura proposta pelo livro, se apresenta sutilmente em alguns do elementos criados pela direção de arte de Gabriela Castro, do Bloco Gráfico. Uma das escolhas marcantes neste desenho se dá pela capa e quarta capa serem formadas por uma só imagem. Se vistas de perto, podem parecer apenas o ruído da estática de uma TV, mas ao se afastar, três rostos aparecem, mais claros a cada passo dado para trás. Esta necessidade de se distanciar da história para entendê-la de maneira mais precisa é um dos pontos conceituais importantes de Folie à deux. Além disso, a orelha da quarta capa, também proposta pelo Bloco, esconde um dos segredos que mais me divertem e que ajuda a explicar o título do livro: um agradecimento especial a Vince Gilligan, criador de Breaking Bad e roteirista de vários episódios de Arquivo X, entre eles, um chamado “Folie à deux”.

 

Você acredita que exista hoje uma incapacidade de a fotografia dar conta da representação direta numa narrativa em tempos de pós-verdade?

FA: Não acredito que haja uma incapacidade da imagem fotográfica em criar representações diretas, mas acredito, sim, que há um cenário muito complexo de discussão em torno da crença que uma pessoa tem ou deixa de ter em relação a um determinado conteúdo. Um leitor que circula no meio fotográfico ou que está atento aos desdobramentos políticos dos últimos anos chega com um pé atrás em relação à veracidade de uma imagem e está mais preparado para interpretá-la do que simplesmente comprar seu discurso. Se você busca, como artista, propor um conceito ou atmosfera permeável, a fotografia tem imensa capacidade para construir um modelo viável de representação. As coisas se complicam quando a mensagem precisa ser mais direta, algo que acontece com o fotojornalismo ou o com o que entendemos por fotografia documental, por exemplo. Nestes campos, o texto se torna um grande aliado – e também uma grande armadilha. Se pensarmos no trabalho de Laia Abril (The Epilogue, On Abortion), de Jack Latham (Sugar Paper Theories) ou Mathieu Asselin (Monsanto) a narrativa é conduzida pela informação textual, a imagem entra como representação ou apoio ao conteúdo apresentado de forma escrita. O texto se torna armadilha, da maneira mais interessante possível, quando pensamos no trabalho de Joan Fontcuberta (Sputnik, Fauna, entre outros) ou de Cristina de Middel (The Afrounauts). Nestes trabalhos, a palavra é apresentada como veículo para a verdade e dá credibilidade às imagens ficcionais criadas pelos seus autores. Folie à deux busca tirar vantagem desta dualidade, usando imagens de arquivo e textos para criar uma sensação de veracidade à narrativa proposta.

Voltando à pós-verdade, entendo que se cria um olhar mais atento à imagem que tem como principal função carregar informação jornalística. A nova preocupação para o próximo ciclo eleitoral são os deep fakes, vídeos falsos que serão um novo nível de fake news, deixando claro que não se pode mais apenas ver para crer. No campo da arte, entendo que se abre um imenso espectro conceitual e estético para explorar esta nova relação mais incrédula em relação à imagem, algo que me parece super excitante.///

 

Felipe Abreu é fotógrafo, editor da revista OLD e doutorando no programa de Artes Visuais da Unicamp com pesquisa focada na construção de narrativas em publicações fotográficas.

 

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