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Conheça 10 destaques da edição que comemora os 50 anos dos Encontros de Arles

Ângela Berlinde Publicado em: 09 de agosto de 2019

Arles, a cidade provençal do sul da França, celebra em 2019 os 50 anos dos Encontros de Arles, um dos eventos mais importantes da fotografia mundial. Sua “edição de ouro” conta com 50 exposições, uma aventura que, ano após ano, não perdeu a sua vitalidade. A própria cidade vive num balanço entre a nostalgia de um passado efabulado e a sede de um futuro radiante. É a capital provençal sonhada por Frédéric Mistral, a capital artística marcada pelo gênio Vincent Van Gogh, a capital da fotografia, graças ao visionário Lucien Clergue e vislumbra tornar-se um marco de arte contemporânea, graças à majestosa torre da Fundação Luma, desenhada por Frank Ghery para se parecer com uma gigantesca pedra cintilante, num elogio poético às pinceladas de Van Gogh.

Há 50 anos o fotógrafo Lucien Clergue, o escritor Michel Tournier e o historiador Jean-Maurice Rouquette fundaram os Encontros Internacionais da Fotografia de Arles, já voltado para o contacto e a troca, para a conversa e a discussão. Nos últimos 15 anos sou uma frequentadora assídua dos Encontros, descoberto fotógrafos e entrelaçado projetos a partir dessas visitas.

Admirado quer pelas figuras centrais da fotografia, quer por amadores e turistas, os Encontros de Arles são hoje uma referência absoluta. Em 2019, os Encontros transpiram um ar barroco, perturbador, sensual e furiosamente marcado pelos anos 1980. Eis um recorte daquilo que mais me animou, pela mira de algumas questões mais complexas da sociedade que nos mostram que afinal a fotografia pode ser a ferramenta mais bem posicionada para captar o pulsar do(s) tempo(s).

 

 

Lar doce lar – 1970 — 2018 : O lar britânico, uma história política

Talvez pela nostalgia da edição jubila, o tema da família surge fortalecido em Arles 2019. Incluído no capítulo Habitar, um inventário de paisagens domésticas, a mostra Lar doce lar – 1970-2018: O lar britânico, uma história política espalha-se pelos dois andares e percorre os quartos da Maison des Peintres reunindo 34 artistas que exibem a riqueza da anatomia da vida cotidiana na Grã-Bretanha a partir da década de 1970 até aos nossos dias, com obras de Anna Fox, David Moore, Martin Parr, Clare Strand, Juno Calypso, Natasha Caruana, Peter Kennard, Laura Blight, Gillian Wearing e Iain McKell, entre outros. É verdade que há muito que a conexão entre família e fotografia está estabelecida. E que melhor tema como o da casa para destacar a riqueza, a diversidade e o desenvolvimento do meio fotográfico? Comissariada por Isabelle Bonnet, esta seleção é associada à ideia de “conforto” e o estado de ser “confortável” como algo especificamente britânico. Fotógrafos de diferentes gerações capturaram o conceito de lar, seja nos becos dos subúrbios, no coração do país ou em prédios urbanos decadentes, mostrando ainda as peculiaridades da individualidade na decoração doméstica. Explorando a relação entre conforto e casa, os interiores íntimos são tornados públicos, as posses são orgulhosamente apresentadas e o arranjo do espaço é mostrado como parte de uma identidade nacional. Será assim que veremos a Grã-Bretanha na Europa pós-brexit?

Numa exposição multi-geracional foram selecionadas as obras-chave que revelam coletivamente a dinâmica e as complexidades da vida familiar aliada aos prazeres, ao conforto e até ao terror da vida doméstica. Todavia, sendo uma coleção destinada a pesquisar construções de identidade nacional, as omissões parecem fulcrais, como é o caso de Richard Billingham ou Nick Waplington, notavelmente ausentes. Ainda assim, Lar doce lar é uma mostra muito bem articulada e fluída, com boas histórias, ainda que ligeiramente ligadas a uma visão geral dos britânicos como excêntricos e incapazes de romper sua antiga insularidade.

Além disso, o lar é fundamentalmente familiar e, não obstante as inúmeras reflexões sobre gênero, ainda vemos poucas imagens de famílias queer e não-binárias. Essas configurações têm a intenção de levantar questões sobre o espaço privado como um campo privilegiado de desenvolvimento da comunidade e a expressão de gêneros e sexualidades que são frequentemente marginalizadas na esfera pública. No entanto, a exposição é um registro válido que, ao longo de uma linha de tempo, nos mostra como as pessoas se parecem e se comportam nos seus locais de refúgio.

 

 

O Projeto Anônimo: A Casa

Para ser vista em modo happy e tecnicolor, a exposição A Casa, transformou a Maison des Peintres numa instalação imersiva, alinhada com a proposta única e colorida da dupla de curadores Emmanuelle Halkin e Lee Shulman. Depois da brutal e perturbadora instalação da Casa Ballenesca de Roger Ballen em 2017 que marcou para sempre o espaço, o Projeto Anônimo promete ser uma das exposições mais visitadas nesta edição.

Desta vez, a casa tem a decoração e mobília da classe média americana dos anos 1950. Tudo está impecável: desde a sala de estar com todas as suas loiças a brilhar e música de fundo, à árvore de Natal e suas bolas cintilantes, à casinha do cachorro, aqui tudo vibra de felicidade e nostalgia. As imagens foram resgatadas de slides anônimos descobertos pelo cineasta Lee Shulman. Divertida, surpreendente e comovente, o projeto como um todo reúne uma coleção de cerca de 500.000 slides dos últimos 70 anos e nasce do desejo de preservar essa memória coletiva e atribuir uma segunda vida às memórias esquecidas, registradas pelas cores do Kodachrome. As fotos amadoras são um diário caleidoscópico daquela época, fascinante e atraente por sua qualidade não polida e celebram os laços familiares – aniversários, funerais, celebrações, regresso a casa.

Esta feliz imersão na casa encoraja o espectador a olhar mais de perto para a fotografia como um meio. E revela, de forma bem humorada, a nostalgia e o desejo humano de pertencer a alguém ou a algum lugar, injectando-nos um sentido poético de arquivo, que nos leva a investigar os velhos futuros para a fotografia. Cenas de família, lembranças de férias, vida cotidiana, está tudo aqui suspenso entre a verdade e a ficção. Na eminência da digitalização de tudo, uma nostalgia por objetos fotográficos reaparece e nos lembra que o mundo está a mudar diante dos nossos olhos.

 

Eve Arnold, Abigail Heyman e Susan Meiselas: Mulher sem retoques

Nesta edição é notória a viragem feminista e retroativa dada pelos Encontros de Arles em resposta ao protesto contra o desequilíbrio entre os sexos das últimas edições. No ano passado, o diretor Sam Stourdzé foi alvo de protestos, algo expresso numa carta aberta publicada no jornal Libération reclamando uma maior representação de mulheres no programa principal. E o ruído parece ter resultado. Um ano depois, Marina Gadonneix, Germaine Krull, Helen Levitt, Evangelia Kranioti, Libuse Jarcovjakova, Camille Fallet, entre muitas outras, figuram no programa principal com mostras individuais.

O capítulo Replay inclui uma mostra coletiva intitulada A Mulher sem retoques, que combina o trabalho de Eve Arnold, Abigail Heyman e Susan Meiselas, cujos fotolivros da década de 1970 desafiaram o preconceito de gênero e celebraram as mulheres de todo o mundo. Destacando as três fotógrafas americanas que trabalharam e lutaram para conquistar camadas de liberdade, a exposição é fruto da investigação de Clara Bouveresse através da bolsa de pesquisa curatorial atribuída pelo festival. A obra-prima de Susan Meiselas, Show de Strippers (1976), prevalece através do retrato desafiador e estranhamente independente das dançarinas, dentro e fora do palco, em carnavais de pequenas cidades na Nova Inglaterra, Pensilvânia e Carolina do Sul, apresentando o olhar quer do intérprete quer do espectador. Merecido destaque é feito à fotógrafa Abigail Heyman, a primeira mulher a ser convidada para o coletivo Magnum, cujo livro Crescendo mulher (1974) subverteu os códigos e suposições tradicionais sobre o que significa ser feminina, através dos olhos e da câmera de uma mulher – imagens sem retoques, numa mágica combinação entre intimidade e foto-reportagem. É cada vez mais urgente que os desequilíbrios sejam corrigidos, trazendo os que tradicionalmente estão sub-representados da periferia para o centro, sem esquecer de valorizar a qualidade e o talento. Este ano todos os holofotes se voltaram para Susan Meiselas, num momento impressionante em que a fotógrafa norte-americana ganhou o Prêmio da Fundação Deutsche Börse, a bolsa Kraszna-Krausz e agora o Prêmio Mulheres em ação, recém-criado pelo Encontros de Arles. Esperemos que com esta lição se abra caminho para a celebração e reconhecimento de muitas outras artistas que ainda permanecem na sombra, como ressaltou Meiselas na homenagem realizada no Théâtre Antique em Arles.

 

Tom Wood: Mães, filhas, irmãs

Ao lado de Mulher sem retoques, e no mesmo capítulo dedicado a reviver o passado (Replay), o espaço compacto da Sala Henri-Comte acolhe silenciosamente o trabalho do fotógrafo Tom Wood. Obcecado em capturar o espírito e as nuances do cotidiano, Wood revela a Liverpool dos anos 1970 até 1990, de forma tão bela quanto  imperfeita, a partir das relações entre mães-filhas-irmãs. Com curadoria de Martha Kirszenbaum, a exposição do irlandês é uma oportunidade única para colocar em perspectiva um aspecto da prolífica prática fotográfica de Wood em combinação com o tesouro da sua coleção vernacular de postais de família. De cores vibrantes e uma sublime intimidade, a exposição prende o espectador à vida mundana e cotidiana e causa impacto pela cumplicidade feminina que ali vem à tona. Olhando para ontem, o espectador de hoje entra numa zona de atrito quando se apercebe que os postais são hoje substituídos pelos posts do Instagram. E Wood nos mostra que não interessa se as imagens são imperfeitas: a fotografia, tal como a cidade, pode ser terna e vulgar.

 

Evangelia Kranioti: Os vivos, os mortos e aqueles no mar

A grega Evangelia Kranioti é um dos destaques dos Encontros em 2019 e vencedora do Prêmio Photo Madame Figaro Arles 2019. Fotógrafa e documentarista, Evangelia entrega-se às travessias pelo universo das desigualdades, perseguindo a cartografia de um mundo vulnerável. Reunindo histórias barrocas de marinheiros e prostitutas, a artista sempre navega ao lado dos excluídos da sociedade de excessos. Desde a cena urbana queer e vertiginosa das mutações de gênero no Rio de Janeiro, à escravidão das domésticas africanas e asiáticas em Beirute, até aos corpos que vagueiam no mediterrâneo, a investigadora de longo curso parece enfeitiçada pela luz surreal das margens da solidão. As suas belas imagens parecem pequenos milagres, em que a sensualidade do corpo prevalece sobre o amargo da melancolia.

 

Pixy Liao: Relacionamento experimental

No tema das relações experimentais, não é demais lembrar a pureza pop e lúdica do relacionamento da artista Pixy Liao com o seu parceiro Moro Magario, com o qual tem produzido, nos últimos 12 anos, autorretratos colaborativos e contorcendo de forma divertida a dinâmica do poder nas relações heterossexuais.

Nascida em Xangai e atualmente radicada no Brooklyn (NY), Pixy Liao é exemplo de uma nova geração de artistas que testa os limites do olhar feminino/masculino e atreve-se a desafiar padrões do relacionamento. Partindo da sua relação com o namorado mais jovem, Liao encena uma metáfora de amor e ódio entre nações e provoca interrogações sobre as convenções fotográficas e sociais relativas aos papéis de gênero na China do século 21. Essa encenação sutil inverte de forma inteligente estes papéis e reinventa novos formatos de relação familiar. Também vale conferir a banda PIMO,  música produzida pelo casal Pixy & Moro que uma vez mais se tornam seres híbridos, agora em outra linguagem.

 

 

La Movida:  Uma crônica da turbulência 1978 – 1988

Em homenagem a um dos movimentos mais notáveis ​​e espontâneos da cultura contemporânea na Espanha pós-ditadura franquista, a aliança explosiva de punk e pop e a agitação underground da La Movida estão representadas na exposição em cartaz no Palácio L´Archevêchê. Acompanhada pelos seus cúmplices Alberto García-Alix (1956), Pablo Perez-Minguez (1946-2012), Miguel Trillo (1953), a estrela madrilena Ouka Leele (1957) é uma alma pulsante e eufórica. Emotiva e excêntrica, Leele produz encenações e cria imagens híbridas e burlescas, a meio caminho entre a fotografia e a pintura, como testemunha Cabeleireira (1978), possivelmente a sua série mais famosa.

Os quatro artistas apresentados são uma parte inegável do fenômeno da contracultura que explodiu nos anos pós-Franco em Madri e estendem-se também ao cinema, através dos delírios de Pedro Almodóvar. Uma crônica da turbulência documenta esse período na capital espanhola, abrindo uma brecha para figuras extravagantes darem a cara como uma forma de resistência política. La Movida teve sua própria criação e um imaginário visual que se fundiu e parece continuamente renovar-se. 

 

 

A saga das invenções: Da máscara de gás à máquina de lavar roupas – Arquivos CNRS

Uma das várias exposições que o festival reuniu sob o título A Outra Fotografia – uma tribuna para colecionadores e pessoas obcecadas, A saga de invenções é uma verdadeira relíquia poética e lúdica sobre alguns dos mais divertidos clichês corporativos. Entre 1915 e 1938, milhares de imagens foram produzidas na França no âmbito de uma política nacional de incentivo à pesquisa cientifica e industrial. Sob a supervisão da historiadora Luce Lebart, imagens do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) foram montadas a partir de uma coleção de milhares de negativos, revelando um século mais tarde a poesia desses clichês. Este é um retrato convincente da inovação em que os visitantes podem admirar o rigor visual de invenções, desde aquelas que nascem da guerra e dos esforços de defesa nacional, até às de foro doméstico e civil. Imagens de trombetas, trincheiras, máscaras de proteção contra o fogo, nuvens artificiais, máquinas de lavar e táxis salva-vidas são apenas alguns exemplos da parafernália, em que o inanimado ganha vida e é revelada a pose dramática do fotógrafo que lhe confere aquilo que Lebart denomina de “estética poético-militar-burlesca”. Esta é uma exibição tão convincente quanto absurda, que se indigna com a visão institucionalizada e revela algumas pérolas do arquivo, tratadas com um humor excêntrico.

 

Foto Bruta: Coleção Bruno Decharme & Compagnie

No industrial e futurístico Parque dos Ateliês abre-se pela primeira vez uma exposição de arte bruta, com 45 autores e cerca de 500 obras. Instigante e surpreendente, a mostra estende-se por 1200 m2 e apresenta fotos, gravuras, fotomontagens e fotocolagens produzidas por autodidatas. Alguns nomes são conhecidos, outros até hoje permanecem na sombra e constituem verdadeiras descobertas. A coleção de Bruno Decharme, complementada com outras coleções institucionais, permite uma aproximação audaz entre a arte bruta e a fotografia.

Tão perturbadoras quanto otimistas, estas criações são inventivas embaralham as categorias geralmente adoptadas pela história da arte. Os autores tem uma intenção artística e dão-nos uma noção do papel da fotografia como um meio de colocar em cena as suas obsessões. Um dos exemplos é Aleksander Lobanov (1924–2003), artista que enfrentou uma série de dramas, desde a doença, o exílio e exclusão social, tendo conseguido  reconstruir sua identidade através da sua própria mitologia onírica, fazendo dele o mais importante criador russo de arte bruta. Por meio de seus autorretratos, influenciados pela ideologia soviética triunfante, Lobanov assume os traços de Estaline e torna-se o seu próprio ícone, sendo a estrela de uma narrativa que se opõe ao silêncio a que fora forçado.

Esta exposição e o livro que a acompanha testemunham um campo pouco explorado e abre o caminho para práticas inovadoras no campo da fotografia bruta, contribuindo para a exploração deste território ainda por desbravar.

 

 

Hey! What’s Going On ?

A balada sentimental What’s Going On?, do cantor norte-americano Marvin Gaye, dá o tom à exposição com o mesmo nome na Fundação Manuel Rivera-Ortiz e acolhe em Arles uma vasta exposição de artistas dos cinco continentes, englobando uma gama de respostas artísticas a realidades complexas, influenciadas por histórias coloniais, governos repressivos, crise econômica e desigualdade social. É neste tempo tão conturbado, traçado por regimes autoritários e populistas, que aqui se revela um retrato perturbador que emerge ternura, simpatia e uma lufada de amor, tão essencial nestes tempos de cólera.

Um aplauso para o coletivo franco-brasileiro Iandé pela garra e ambição em erguer a versão brasileira What´s going on in Brazil?, agregando as visões de 12 fotógrafos que demonstram a situação atual da história do Brasil. Entre eles, a carioca Ana Carolina Fernandes, que foca seu trabalho junto a causas sociais, e Shinji Nagabe (finalista do Prêmio Descoberta Louis Roederer), originário de uma família tradicional japonesa, que traça uma exótica simbiose entre a realidade e ficção, surpreendendo pelo seu humor desconcertante e um certo caos visual.///

Encontros de Arles 2019, até 22 de setembro. Saiba mais aqui.

 

Ângela Ferreira (a.k.a Berlinde). Nascida na cidade do Porto, em Portugal, é investigadora, escritora e curadora especializada em fotografia contemporânea. Atua no domínio de pesquisa sobre as formas híbridas da fotografia e tem comissariado exposições na Europa e na América Latina. Vive e trabalha entre Portugal e Brasil. www.angelaberlinde.com

 

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