Por Trás da Foto

Por Trás da Foto: o fotógrafo Chiquito Chaves conta a história de sua premiada foto da invasão da CSN em Volta Redonda há 30 anos

Chiquito Chaves Publicado em: 09 de novembro de 2018

Invasão da Companhia Siderúrgica Nacional, de Chiquito Chaves, 1988

O massacre de Volta Redonda, assim chamado pelos metalúrgicos fluminenses, aconteceu durante a greve dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), na cidade de Volta Redonda (RJ), durante o mês de novembro de 1988. A CSN era uma empresa estatal e seus trabalhadores exigiam do governo do então presidente José Sarney reajuste salarial, estabilidade de emprego e fim da perseguição à atividade sindical. No dia 7 de novembro, após confronto com a polícia militar do Rio de Janeiro, um grupo de operários invadiu e tomou o controle da CSN. A direção da companhia pediu a intervenção do exército para que a mesma fosse reintegrada o mais rápido possível. E no dia 9 de novembro aconteceu a invasão e retomada da empresa pelos militares do exército e da PMERJ. A violência brutal da ação militar causou a morte de três operários e mais de 100 feridos, entre eles jornalistas e parte da população do bairro de Santa Cecília, que foi totalmente cercado pelas forças de segurança durante a invasão. A violenta intervenção militar gerou grande repercussão nacional e internacional.

Nesse contexto, vivi uma das mais fortes passagens como repórter fotográfico. Convivi intensamente com trabalhadores e moradores da região da usina e tive companheiros gravemente feridos. O jornal em que trabalhava na época ganhou o Prêmio Esso de contribuição à imprensa, graças ao dinamismo e coragem da nossa equipe, capaz de viabilizar a cobertura jornalística sem abandonar a verdade do front de batalha. Todos que ali estavam sabiam o que poderia acontecer: os militares tinham um perfil tenso, eram jovens totalmente despreparados para o diálogo, armados de fuzis, metralhadoras e pistolas para enfrentar homens vestidos em seus macacões e armados com pedaços de pau.

Nessa situação, eu havia combinado com um outro colega fotógrafo uma tentativa de “invadir” a CSN e conseguir registrar a entrada do exército. Na última hora o companheiro não pôde ir, então fui só. Cheguei pelo portão lateral, onde havia só dois militares, a câmera escondida numa sacola de supermercado com apenas uma objetiva 24mm. Aproveitei que os guardas me confundiram com alguém e entrei. Naquele exato momento em que os soldados começavam a invadir  a maior empresa metalúrgica do estado, notei que havia três grandes setas brancas no chão a apontar para a esquerda, o centro e a direita. Corri muito para me posicionar diante do pelotão, me arrisquei. Mas consegui e imediatamente percebi que havia feito “o clique” principal de meu trabalho. Saí rápido, fui à rodoviária para enviar o filme para a redação no Rio de Janeiro e voltei ao cenário do conflito.

Não tive tempo de avisar ninguém e só depois, no dia seguinte, quando a fotografia estampou a primeira página do jornal, vim saber do caminho que ela percorreu até a diagramação final, literalmente saindo da lata de lixo. A pessoa que recebeu as fotografias da equipe não entendeu o contexto e a descartou. O editor foi procurar a foto e assustou-se com o destino daquela imagem que visualmente fazia uma pergunta importante para aquele momento histórico: qual seria a posição do exército, logo após sair de uma ditadura tão sangrenta? ///

 

Chiquito Chaves (1948) é fotógrafo, poeta e semioticista. Trabalhou nos jornais Repórter, Última Hora, O Globo, Jornal do Brasil e O Dia, pelo qual recebeu o Prêmio Esso – Regional Sudeste de 1988, juntamente com a equipe do jornal, pela reportagem O massacre de Volta Redonda. Participou como fotógrafo do grupo de estudos junguianos com a Dra. Nise da Silveira entre 1972 e 1974.

 

 

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