Entrevistas

As miragens de Lucas Cordeiro

Lucas Cordeiro & Lucas Veloso Publicado em: 11 de outubro de 2023

Abraço, da série Inventário Itaú Cultural, 2021

Itapetinga é uma cidade localizada a 576 km de Salvador. Foi nessa cidade, conhecida pela pecuária e suas quase 100 mil cabeças de bovinos com uma produção de 160 mil litros de leite por ano, que nasceu e cresceu o fotógrafo Lucas Cordeiro.

Agora vivendo em São Paulo, Cordeiro busca proteção através da fotografia, e resguarda o que julga importante para si: passagens, encontros e atravessamentos de orixás, plantas, animais e pessoas.

Filho de uma cidade onde as festas populares mais importantes são a Marcha para Jesus, os festejos de São José, o evento Jesus Vida Verão e São João, ligados à Igreja Católica, Lucas traz à baila outras santidades, cultuadas e preservadas pelas pessoas escravizadas trazidas em navios negreiros e mantidas por seus descendentes até hoje, apesar da colonização imposta.

É com uma máquina fotográfica que ele fala das histórias que foram contadas a ele quando criança, numa noite escura na zona rural na pequena cidade do interior da Bahia. “Quero sentir cada dia mais mirrar fortemente as falsas e tristes imagens que criaram sobre nós. Senti-las perder a força até deixar de existir em nosso inconsciente coletivo como uma história verdadeira”, diz. “Quero que sejam lembradas somente como uma tentativa de nos fazer sucumbir a um poder fracassado”.

No trabalho do dia a dia, ele enxerga que é tempo de florescer, criar as próprias histórias, com o poder da arte. “Sinto o nascer de um novo tempo, novas histórias e ressignificação das velhas. Fico feliz em fazer parte disso”.

Como suas experiências pessoais influenciam a temática e o conteúdo das suas fotografias?

Lucas Cordeiro: A fotografia que eu faço é uma cocriação. Ainda que não exista ali uma figura humana trocando comigo, os elementos que escolho ou os que se sobressaem para aparecer na foto são frutos de minhas experiências e trocas. Muitas vezes, fotografias que ainda não foram feitas aparecem e se fazem presentes como um zumbido no ouvido ao tentar dormir depois de dançar a noite inteira ao lado de um paredão. A imagem me pirraça até não querer mais, aí eu cedo, então eu tenho que começar o movimento de materializar os elementos e fazer a foto.

Quer seja com um estranho na rua, uma planta, um orixá ou um ancestral desencarnado, as trocas são momentos muito importantes para mim, pois é daí que abre esse canal, vêm memórias e mirações. Louvo as trocas e as experiências como louvo a solitude e o silêncio, ambos são importantes no meu processo

Você diz que suas imagens retratam histórias e encontros com os seus semelhantes. Pode nos contar mais sobre uma experiência específica que o inspirou a capturar algumas dessas histórias?

LC: As primeiras fotografias da série Armaduras nasceram de um encontro com um muro numa rua da Lapinha – bairro de Salvador – coberto de cacos de vidro no topo, um pombo pousado nos cacos e um pixo azul grandão no muro ‘Ogum’. Aquela imagem me arrebatou o coração. Estava sem bateria no celular para registrar, então fiquei muito tempo ali sendo hipnotizado por aquelas sensações todas. Tudo que ali gerava significado para mim eram meus semelhantes: Ogum, os pombos, os cacos de vidro no muro. Cresci em uma casa no interior da Bahia, em Itapetinga, com um muro no quintal coberto com cacos de vidro, os gatos e os sariguês sempre passavam por cima do vidro ou nas frestas entre o cimento e o caco.

Para mim, era um risco de corte iminente pular para o quintal do vizinho passando por ali. Já o pombo na Lapinha e os bichos no muro da minha infância encontravam um ambiente de paz naquela situação. Dessas trocas entre tranquilidade versus perigo, fragilidade do pombo versus cacos afiados, vieram as primeiras imagens dessa série. Consigo encontrar um conforto criativo nessas encruzilhadas de informações e signos. É o lugar que segue alimentando minhas mirações fotográficas.

A sua arte é descrita como uma onda que ecoa mistério e beleza. Como você escolhe os elementos que compõem suas fotografias para transmitir esses sentimentos?

LC: Tendo a usar elementos que despertam memórias poderosas em mim e que eu também possa transformar esses elementos em um dos assuntos da foto. E criar uma nova história com isso. Minha avó areava muito bem os alumínios dela e tinha ciúmes também desse processo de deixá-los brilhando. Ela se orgulhava de exibi-los recém areados escorrendo na pia. Itapetinga é uma cidade muito solar e quente, então essa imagem de ver essa luz do sol refletida nos alumínios de minha avó era sempre um espetáculo pra mim.

Coincidentemente, essas escolhas das bacias de alumínio para algumas séries que eu fiz, baseado em ter visto essa cena muitas vezes na minha infância, despertam mistério e beleza por si só, mas não como uma busca direta por isso. É bem natural, o mistério e a beleza já estão ali esperando serem tomados, independentemente dos elementos.

Digo Grau, da série Inventário Itaú Cultural, 2021

Você mencionou a importância das histórias contadas para você na sua infância. Como essas narrativas influenciam a maneira como você aborda a fotografia? Foi na infância que começou a fotografar?

LC:  Comecei a fotografar com 16 anos. As histórias de minha infância vêm na maioria das pessoas mais velhas. Eu ficava ali com elas, ouvindo os causos e as resenhas. Sempre ligado nas histórias. Meu avô e meus tios eram reizeiros – devotos e participantes ativos da Folia de Reis, uma festa popular, comum no nordeste brasileiro, que lembra a jornada dos três reis magos, a partir do momento em que eles recebem o aviso do nascimento de Jesus, até a hora em que encontram a criança. Algumas noites dos meses de janeiro, durante anos, via aqueles senhores, muitos deles sérios e de pouca conversa, se enfeitarem e dançarem até de manhã, tocar, beber e assumirem um lugar de esplendor e muita força ancestral. Eu gosto de sentir pelo menos uma ponta destes instantes quando olho para as minhas fotografias.

Suas fotografias muitas vezes abordam temas relacionados à cultura e tradições. Como você equilibra a necessidade de capturar a autenticidade desses elementos com sua própria visão artística?

LC: Já refleti bastante sobre isso, principalmente por muitas vezes querer desobedecer algumas construções estéticas estabelecidas dentro da cultura da religiosidade afro-brasileira que são puramente coloniais e estabelecem vínculos e valores que nos remetem a um passado de repressões de nossa pluralidade. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho muita fé e sou um amante também das tradições. Aí fico envolvido nesse antagonismo, que é a grande charada da religiosidade afro da Bahia.

No seu trabalho, você busca desafiar as imagens negativas que foram criadas sobre certos grupos. Que grupos são esses? Como você acha que a fotografia pode desempenhar um papel na mudança de percepções e narrativas?

LC: Faço fotografias com o intuito de louvar nossas existências, ser como somos e como gostamos de ser vistos. Um corte de cabelo ou o uso de um fio de conta no pescoço fala sobre a beleza e a força do ser. Ver o outro em si e se ver nestas fotografias, isso é cura.

Você mencionou o poder de cura e transformação da arte. Pode compartilhar um exemplo de como suas fotografias já impactaram positivamente a percepção de alguém sobre um tema específico?

LC: Muitos dos trabalhos dos artistas negros da minha geração têm a cura como um prospecto importante em sua arte. No meu, isso vem desde o encontro que precede a fotografia e nas trocas que ocorrem no momento da foto. Se tiver cura no encontro, com certeza ela vai desembocar numa imagem que transmita isso, porque o processo de cura durante o fazer da imagem sempre resulta em uma fotografia especial.

Eu recebo muitos relatos no meu Instagram sobre como essas fotografias são imagens poderosas e gosto de conversar com as pessoas sobre as sensações que elas transmitem.

Muitas pessoas têm essas fotografias em seus papéis de parede do celular e me enviam essas capturas de tela. Isso, enquanto artista, me deixa feliz. Acho que seria enfadonho produzir uma arte que não estivesse diretamente ligada às pessoas reais e que não fosse consumida por elas.

Um pendor para o brilho raro, da série Para acalmar a terra, 2021

Sua referência à sua irmã Gê Viana sugere uma colaboração artística. Como vocês trabalham juntos e como essa colaboração influencia suas respectivas abordagens criativas?

LC: A arte tem o poder de nos mover para outras dimensões e criar possibilidades de existências diferentes desta realidade aqui. Me identifico muito com o trabalho de Gê por transformar antigas memórias em compartilhamentos de abundância, felicidade e vida plena. Sigo motivado pela trajetória dos mestres Walter Firmo e Lázaro Roberto, e atento e inspirado pela caminhada de Gê Viana, Antônio Tarsis, Ventura Profana, Castiel Vitorino, Helen Salomão, Yá Boaventura.

À medida que você explora novas histórias e ressignifica antigas, como você equilibra a necessidade de abordar desafios e questões sociais com a expressão artística individual?

LC: Escolhi não abordar diretamente questões sociais em meu trabalho. Decidi ser fisgado por nossa transcendência. ///

Lucas Veloso é jornalista audiovisual e cofundador da Mural – Agência de Jornalismo das Periferias, onde também colaborou com reportagens, além de outros portais, como Alma Preta e Rio On Watch. Atualmente, edita conteúdos no Expresso na Perifa, suplemento hospedado no Estadão, além de colaborações no UOL e matérias audiovisuais na TV Cultura.

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