Ensaios

A luz e a textura da memória

Orhan Pamuk Publicado em: 19 de julho de 2022
© Dayanita Singh

Eu já tinha visto as fotografias de Dayanita Singh, mas só a conheci em 2011, na Índia. Durante esse primeiro encontro, Dayanita dedicou um tempo a me mostrar parte de seu trabalho. Isso aconteceu no estúdio em sua casa – no local a que ela se refere como “meu vilarejo em Goa” –, que fica a uma hora de carro da casa que eu costumava alugar no estado em janeiro e fevereiro todo ano, e para onde eu ia para escrever. Dayanita tinha acabado de começar o que ela chamava de “trabalho de acervo”. Enquanto eu estava ali parado olhando suas fotografias em preto e branco naquela sala pouco iluminada, que recordo hoje como uma espécie de oficina, podíamos ouvir os murmúrios da pequena reunião que Dayanita tinha organizado, um jantar (que incluía Kiran Desai e Amitav Ghosh) que havia migrado para o terraço nos fundos da casa. Antes, a conversa tinha mencionado um crocodilo visto perambulando por um pântano perto da casa. Lá fora, a noite estava escura e azul marinho. Ali dentro, enquanto eu observava aquelas fotos na penumbra, minha mente começou a recordar algumas memórias muito antigas e muito familiares… Mas, não, a palavra “memória” não é suficiente. O que estava ganhando vida dentro de mim era uma emoção despertada por essas memórias, e parecia que aquelas fotos tinham sido feitas exatamente para capturar essa emoção.

Escrevo este ensaio para descrever aquela emoção e vou começar examinando as razões por que algumas fotografias de Dayanita Singh evocam essa sensação de “memória” em mim. Ao mesmo tempo, também vou discutir a sensibilidade da fotógrafa e meus próprios interesses pessoais.

O que me atraiu no trabalho de Singh são as imagens reunidas em seus livros File Room [Sala do Arquivo] e Museum of Chance [Museu do Acaso]. Neles, encontramos fotografias em preto e branco dos vastos arquivos oficiais, depósitos e cartórios de registro da Índia, e de pessoas, lugares e momentos que convivem em harmonia com as imaginações que esses lugares induzem. Enquanto folheamos esses livros, somos tomados por uma ideia de decrepitude poética e uma sensação de profundidade: houve um tempo em que as pessoas trabalhavam muito; elas submetiam incontáveis pedidos, enviavam petições e moviam ações judiciais, escreviam sobres as atividades umas das outras e as classificavam e, com o encorajamento e as ordens do Estado, mantinham um registro ininterrupto de tudo. Um dia, toda essa intensa atividade teve fim, e o que ficou para trás foram esses documentos, esses arquivos, esses sacos e armários e prateleiras de metal que guardam e preservam tudo isso. As imagens em preto de branco de Singh dessas pilhas de pastas cinza chumbo, de metal, de papéis velhos e desvanecidos, que parecem estar cobertas de poeira, mesmo quando não estão, me permitem constar a existência do que eu descreveria como a “textura da memória”.

Em que penso quando imagino a textura da memória? Quer preservemos louças, pedras, objetos antigos, quer encomendemos pinturas cheias de cor e as penduremos em algum lugar na esperança de que sejam permanentes, quer coletemos meticulosamente todo pedaço de papel em que já tivermos escrito alguma coisa (sou uma dessas pessoas), quer confiemos de forma ingênua na capacidade infinita da fotografia e do acervo digital, a proteção e preservação do passado é, na verdade, uma tarefa impossível. Mesmo assim, as fotos de Dayanita Singh nos mostram que, quando tentamos lembrar e identificar as muitas coisas – as velhas obras de arte, os papéis, os documentos – que são a personificação dos nossos esforços de “preservar o passado” como aparecem hoje para nós, constatamos o quanto nossos esforços inúteis são sinceros e, na verdade, “sagrados”. (Ainda que a câmera de Singh muito raramente se interesse por temas ou estruturas religiosas, mesmo assim existe uma dimensão mística e religiosa nas cenas que ela nos apresenta.) A memória nunca nos deixa muito a que nos apegar; mas talvez os detalhes contidos nas memórias não tenham tanto apelo de fato para nós quanto a aura de, de alguma forma, estar contidas nos objetos que povoam nosso presente. Inevitavelmente, a aura que as memórias tomam dos objetos vão elicitar em nós uma espécie de melancolia – assim como olhamos para antigas ruínas gregas e romanas e para monumentos abandonados. A razão para consideramos esses arquivos empoeirados, sujos e sem cor tão “belos” é porque, graças à habilidosa câmera de Singh, eles revelam a melancolia acumulada dentro de nós.

Quando esse humor é capturado na mesma composição que os rostos e as sombras de alguns dos funcionários desses antigos depósitos, porões e arquivos, começamos a perceber que a sensação de melancolia que esses arquivos evocam está, na verdade, intimamente conectada a um certo estilo de vida. Assim como aquela emoção específica que tenho buscado identificar, as fotografias de Dayanita Singh também transmitem uma ideia de humildade diante da vida, de dar um passo para trás, de uma resistência digna mesmo quando a passagem do tempo torna tudo sem sentido.

© Dayanita Singh

Vamos pegar, por exemplo, a imagem da funcionária cercada por pastas e arquivos – uma foto que extraí de File Room. A mulher, que passa a vida entre montes de documentos amarelados, pacotes amarrados com barbante e prateleiras abarrotadas de papéis, tem um sorriso otimista que nos dá uma sensação de que existe algo igualmente lógico e necessário em seus esforços kafkaescos. Se os romances de Kafka (O processo, O castelo) devem ser lidos essencialmente como alegorias que exploram a relação entre o indivíduo e um Estado e governo inacessíveis e incompreensíveis, então existe um aspecto kafkiano na fotografia de Dayanita Singh.

© Dayanita Singh

Mas, com essa sensibilidade poética e alegórica, também vejo um elemento “realista” nas fotografias de Singh. Pessoas como eu, que ficam fascinadas por suas imagens, vão descobrir que elas podem exalar o aroma específico daquelas pilhas enormes de papéis antigos e amarelados das salas de arquivo e dentro e sobre armários de metal. Neste artigo sobre arquivos velhos e decadentes e a fotografia de Dayanita Singh, Aveek Sen nos faz lembrar que a fonte principal desse cheiro singular impregnado nos arquivos do governo indiano é a pasta de arroz usada na produção do papel. Criaturas invisíveis conhecidas como “ácaros de pó caseiro” adoram devorar essa pasta de arroz, deixando buracos até finalmente encher as salas de arquivo de uma poeira feita de partículas minúsculas de papel. A brisa fresca de um ventilador de teto – principal emblema do escritório do governo que é possível notar no alto das imagens de salas de arquivo feitas por Singh – ou até mesmo a força da tosse de alguém (porque é impossível não tossir em um arquivo) são suficientes para desintegrar o que restou desses papéis velhos que há tempo foram transformados em pó pelos ataques dos ácaros e do tempo.

Arquivos indianos – locais capazes de deixar até a pessoa mais saudável asmática – também adquirem seu cheiro característico por causa das enchentes que acompanham as chuvas de monção. Pastas encharcadas, quando deixadas à própria sorte, vão começar a espalhar um cheiro peculiar de cogumelos e umidade. Se os arquivos forem tirados um por um (uma tarefa quase impossível) e colocados para secar ao sol, um cheiro que poderíamos descrever como lodo de rio e gosma de peixe logo se materializa.

Esses detalhes me atraem não apenas por serem tema de debate entre os miniaturistas palacianos sobre os quais escrevi em Meu nome é vermelho (o equivalente da pasta de arroz em Istambul é a goma arábica à base de ovos, uma favorita entre os ratos), mas também por causa dos odores similares que eu sentia na infância toda vez que acompanhava minha mãe e meu irmão a qualquer escritório do governo.

© Dayanita Singh

Eu via os mesmos armários, as mesmas pastas enormes, as mesmas montanhas de envelopes e arquivos dos escritórios do governo turco que visitava na década de 1960 com minha mãe e meu irmão toda vez que precisávamos de comprovantes de vacinação, escrituras ou registrar um nascimento. Mesmo quando criança, eu podia sentir que o feitiço que aquela entidade vasta e monstruosa que chamávamos de “Estado” tinha um efeito muito mais profundo nesses lugares do que nas escolas, nas cerimônias militares ou durante as celebrações do Dia da República. O que torna um Estado um Estado, antes de tudo, não são seus soldados nem sua polícia, mas essas pastas, esses registros, esses documentos e papéis antigos. Às vezes nossas vidas não conseguiam se alinhar, como nos diziam que elas deveriam, com todos os papéis que emboloravam nesses prédios decadentes – quando havia um erro ou uma lacuna nos meus comprovantes de vacinação, por exemplo, ou, como aconteceria em anos posteriores, no meu registro no escritório de alistamento militar – e era isso que faria a polícia ou o exército vir me punir. Em outras palavras, a verdadeira fonte de poder do Estado não eram os soldados ou os policiais, mas esses registros oficiais que haviam se acumulado por centenas de anos. O tom severo e imperioso que a maioria dos funcionários nesses escritórios do governo usava conosco, assim como o fato de que nada nunca transcorria com facilidade e de que sempre parecia haver algo faltando ou algum tipo de erro em nossos arquivos, tudo isso ampliava a ideia de que o Estado era poderoso, e nós éramos fracos. Ainda que esses registros, essas massas de documentos estivessem destinadas a se transformar em poeira em menos de 60 ou 70 anos (como jornais velhos impressos em papel ácido), mesmo assim eles eram mais fortes do que nós. Talvez seja por isso que as fotografias de Singh se pareçam tanto com memórias para mim.

© Dayanita Singh

A aura contida nas fotos que Dayanita Singh chama “obras de arquivo” também está impregnada em seus outros trabalhos. Vemos isso com mais clareza nas imagens reunidas em Museum Bhavan, uma série de pequenos livretos organizados numa caixa. Todas essas máquinas antigas, os caldeirões, os depósitos, os fornos, as máquinas de impressão antigas, e todas as ferramentas cuja função se manteve basicamente obscura, estão envoltas na mesma aura que emanava dos arquivos oficiais. Podemos sentir a presença dessa aura nos vendedores de roupas, nas farmácias, chapelarias, dentro das casas, entre os móveis e os utensílios domésticos, nas fotos emolduras e nos retratos, dentro de paredes, sobre as mesas, no que pode ser vislumbrado do lado de fora das janelas. Quando essa aura se junta à luz sutil e delicada que é uma espécie de assinatura da fotografia de Dayanita Singh, a lógica do mundo visto pelas lentes de sua câmera emerge com uma força ainda maior. Como eu, Singh gosta de coisas emolduradas, objetos vistos através de folhas de vidro, museus e vitrines. Quando folheio as 26 imagens de museus, vitrines, armários de exposição e objetos emoldurados reunidos em um dos livretos (Museum of Vitrines, ou “Museus de Vitrines”, em tradução livre) ou em Museum Bhavan, fica evidente para mim que existe um quê de museu no mundo de Dayanita Singh. A luz débil que emana dos cartórios e arquivos, bem como o estilo particular e o enquadramento também são coerentes com o Little Ladies Museum [Museu das Mocinhas], uma série de retratos feitos por Singh na casa de famílias indianas, e na fotos compiladas por ela no livreto Museum of Men [Museus de Homens]. É como se a maneira de absorver por completo as multidões infinitas, os congestionamentos e a comoção sem fim, a intensa luz do sol e a história única da Índia fosse um recolhimento a lugares cuja atmosfera fosse o exato oposto, a espaços protegidos por vidro fosco, tules e cortinas, por janelas fechadas ou entreabertas, pela noite, pela neblina, pelas sombras. Nesses espaços – assim como nas velhas salas de arquivo que materializam a história e a política de uma nação e a textura de sua memória – podemos não conseguir enxergar a cacofonia real do mundo lá fora, seu caos e suas discussões, mas o que de fato encontramos são pessoas e objetos que, banhados naquela luz estranha, ao mesmo tempo estão descolados desse mundo e nos fazem lembrar dele. Os objetos capturados por essas imagens parecem exalar uma espécie de silêncio. Mas, no fim das contas, o que nos faz lembrar a Índia como um todo, assim como o passado como um todo, e o halo e a aura das salas de arquivo, é aquela luz especial que a câmera de Dayanita Singh captura com primor e que é a inequívoca marca registrada dessa excelente fotógrafa. ///

Tradução do inglês por Alyne Azuma

© 2022, Orhan Pamuk. Escrito originalmente para a Fundação Hasselblad em conjunto com o Prêmio Hasselblad 2022 e o livro Dayanita Singh: Sea of Files

Dayanita Singh (1961) publicou, entre outros, Myself Mona Ahmed (2001), I Am as I Am (2001), Go away closer (2007), Sent a letter (2008), Blue Book (2009), Dream Villa (2010), House of Love (2011) e File Room (2013). Em 2013, foi convidada a expor seu trabalho no pavilhão da Alemanha da 56ª Bienal de Arte de Veneza. Em 2022 ganhou o Prêmio Hasselblad.

Orhan Pamuk (Istambul, 1952) é escritor, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2006. Autor de Meu nome é vermelho (1998), Neve (2006) e O castelo branco (2007), entre outros, publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

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