Vladan Jorlan vetoriza a nossa tragédia
Publicado em: 6 de maio de 2026Vladan Joler é um designer e professor sérvio da Universidade de Novi Sad cuja prática atravessa design, arte e teoria crítica da tecnologia. Vencedor de prêmios como o Leão de Prata na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2025, seu trabalho é referência por investigar as infraestruturas que sustentam a internet, as plataformas digitais e os sistemas de Inteligência Artificial. Joler constrói cartografias complexas que revelam relações de poder, cadeias materiais e dinâmicas políticas ocultas nos sistemas tecnológicos contemporâneos.
Entre seus projetos mais conhecidos estão Anatomy of an AI System e o recente Calculating Empires (ambos com a pesquisadora Kate Crawford), The Nooscope Manifested (com o filósofo Matteo Pasquinelli) e Facebook Algorithmic Factory. Esses projetos são frequentemente exibidos em museus como o Rijksmuseum e bienais como a de Veneza. Também são utilizadas como materiais pedagógicos em salas de aula de todo o mundo, inclusive em versões traduzidas. Por exemplo, há traduções no Brasil de dois desses projetos, agora com títulos em português, Anatomia de um sistema de IA e O Manifesto Nooscópio.
Joler, que se interessa tanto em desnudar sistemas complexos de tecnologia, teve sua formação marcada pelo ativismo. Como ele relata: “Comecei a estudar em 1996 e terminei em 2000. Mas basicamente todo esse período foi sob o regime de Slobodan Milošević na Sérvia. Estávamos protestando por anos. Eu não me lembro de estudar muito. Depois, criamos um grande festival que se transformou em desobediência civil, e isso se transformou na revolução. Minha geração pensava: ‘Sabemos como lidar com ditaduras.’” Desde cedo, Joler era alguém querendo abrir sistemas fechados. Mas que também se interessava pela tecnologia: “Depois, quando tudo isso acabou, eu deslizei para o hacking de jogos de computador e comecei a transformá-los em obras de arte. Eu sempre estive em algum lugar entre cultura hacker, ativismo e arte. Então, os mapas que hoje faço obsessivamente começaram com algo muito pequeno, mas já com alto teor crítico e de liberdade.”

Em fevereiro de 2026, Vladan Joler esteve em São Paulo participando do seminário ANTAGONISTAS: Resistências Algorítmicas, realizado na Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da Universidade de São Paulo. O evento foi organizado pelos projetos Fapesp Acervos Digitais e Pesquisa, coordenado pelas professoras Giselle Beiguelman e Ana Magalhães (ambas da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design FAU da Universidade de São Paulo), e CNPq Inteligência Colaborativa em Coleções de Museus, coordenado por mim. O seminário realizou debates sobre tecnologia, poder e resistência, em diálogo direto com a exposição homônima no MAC USP — da qual fui um dos curadores, ao lado dos professores Heloisa Espada (USP) e Gabriel Pereira (Universidade de Amsterdam). A presença de Joler reforçou o eixo central do seminário: a necessidade de produzir leituras críticas e situadas das infraestruturas digitais que moldam a vida contemporânea.
Uma apresentação de Joler está longe de ser uma palestra tradicional de design, com slides refinados e narrativa linear. O que ele oferece é, antes, um compartilhamento de desktop — uma navegação por janelas, PDFs e mapas abertos. Foi assim em São Paulo, e também dois anos antes, em Zurique, quando apresentamos nossas pesquisas no evento de lançamento do Zentrum Künste und Kulturtheorie (ZKK). Seu gesto aparentemente simples — compartilhar a tela de seu computador — é revelador: “Eu sempre tenho problemas com PowerPoint. O que eu normalmente faço é abrir todos esses mapas em que estou trabalhando e percorrê-los, tentando contar algum tipo de história. Eu perdi completamente a capacidade de fazer apresentações lineares […] comecei a pensar de forma não linear, mais em termos de espaços.”
A não linearidade é também uma resposta àquilo que ele descreve como “buraco de coelho”. Seus projetos nos arrastam para dentro de sistemas cuja totalidade é impossível de compreender. Tudo começa com algo mínimo: “Quando você pressiona algo no teclado, você cria um pacote de internet que vai do seu lugar para um campo desconhecido. Eu sou completamente obcecado com essa ideia […] E até hoje, depois de 15 anos, ainda não sei — acabei em um buraco de coelho tentando entender o que acontece por trás dos dispositivos que usamos.” Diante desse não sei, surge o mapa — não como síntese total, mas como ferramenta de orientação. “O mapa não é uma visualização da pesquisa. O mapa é uma metodologia. Você pensa com o mapa — o mapa faz as perguntas.” Os diagramas de Jolen são, portanto, sistemas abertos: não têm começo nem fim, podem ser lidos a partir de qualquer ponto, e operam mais como territórios do que como narrativas fechadas.
Pensando na prática fotográfica, o trabalho de mapas de Joler interessa justamente por deslocar a pergunta sobre a imagem: não apenas o que ela mostra, mas quais infraestruturas tornam possível sua produção, circulação, leitura e classificação. Seus mapas não são fotografias, mas operam dentro do mesmo regime visual contemporâneo em que imagens são capturadas, comprimidas, indexadas, distribuídas por plataformas e convertidas em dados para sistemas algorítmicos. Ao tornar visíveis as cadeias materiais, energéticas e trabalhistas por trás da IA, Joler também nos obriga a olhar para a fotografia em sua condição atual: menos como objeto isolado e mais como parte de uma ecologia técnica, estatística e extrativa, na qual ver, reconhecer, classificar e circular imagens se tornaram operações profundamente políticas.
Sua parceria mais conhecida é com a pesquisadora australiana Kate Crawford, no projeto Anatomy of an AI System. Trata-se de uma investigação sobre o dispositivo Amazon Echo e que revela a rede global (material, humana e energética) mobilizada por um simples comando de voz (a voz da IA Alexa). No grande diagrama de Joler sobre o dispositivo da Amazon, podemos ver com mais clareza a rede de extração de recursos naturais necessária para que o aparelho seja fabricado, assim como a massa de trabalhadores da plataforma online da própria Amazon, fundamentais para organizar os datasets de treinamento que permitem à Alexa responder quase sempre corretamente.
O mapa diagrama de Anatomy of an AI System é ao mesmo tempo preciso e vertiginoso. No centro, um gesto banal: falar com um dispositivo. A partir daí, desdobra-se uma cadeia que atravessa minas de lítio, fábricas, trabalhadores precarizados, cabos submarinos, data centers e modelos algorítmicos. Cada linha do mapa conecta escalas distintas — do mineral ao corpo, do corpo ao planeta. É uma infraestrutura colossal que agora pode ser vista parcialmente em um único e grande arquivo PDF.
Complementar ao mapa de Joler, Kate Crawford escreve um conjunto de verbetes que ajudam a contextualizar o que foi incluído ali. Um simples comando de voz ativa uma cadeia global de mineração, logística, trabalho e processamento algorítmico. A “nuvem” é, na verdade, uma infraestrutura física extensa baseada na extração da Terra. E que a Inteligência Artificial representa uma forma de extrativismo que alcança tanto a natureza quanto a cognição humana. O projeto, que pode ser explorado online, integra a coleção do MoMA e segue circulando em exposições — até final de abril de 2026 estava em cartaz na mostra O Mundo Através da IA, no Sesc Campinas, com previsão para chegar ao Sesc 23 de Maio da capital de São Paulo ainda este ano.
Anatomy of an AI System abriu portas para colaborações de Jolen com outros pesquisadores, como o filósofo italiano Matteo Pasquinelli, com quem desenvolveu o Nooscope Manifested. Nesse trabalho, eles investigam a Inteligência Artificial como instrumento de classificação e poder, propondo o conceito de “nooscópio” como uma sistema que observa e organiza o pensamento coletivo. Aqui, o mapa de Joler é menos detalhado do que o de Anatomy of an AI System, mas o texto de Pasquinelli é mais denso. Pasquinelli escreve: “Na expressão ‘inteligência artificial’, o adjetivo ‘artificial’ carrega o mito da autonomia da tecnologia: sugere ‘mentes alienígenas’ caricaturais que se autorreproduzem em silício, mas, na verdade, mistifica dois processos de alienação: a crescente autonomia geopolítica das empresas de alta tecnologia e a invisibilização da autonomia dos trabalhadores em todo o mundo.”
Em projetos, Jolen quase sempre está ao lado de grandes pesquisadores da IA. Como ele trabalha com eles? Ele se incomoda por ser sempre creditado como segundo autor, mesmo com trabalhos tão minuciosos? Joler foi questionado sobre isso na palestra em São Paulo. Houve conflitos? Um designer sempre é o segundo nome de um processo? Resposta elusiva. Como faz ao apresentar seus mapas, fez um movimento de zoom, mas dessa vez só de out, sem entrar em possíveis tensões, sugerindo que os processos foram naturais e colaborativos. Próxima pergunta.
Mas a real importância do trabalho de Joler não é a de pensar o papel da autoria do designer. Está no fato que seus mapas tornam visível aquilo que normalmente permanece oculto. Como ele explica: “Cada dispositivo que tento desnudar tem três ou quatro super poderes: o poder de bloquear, o poder de ver, o poder de desacelerar ou acelerar, e o poder de copiar.” E essas capacidades estão distribuídas em infraestruturas controladas por atores específicos: “Todas essas redes pertencem a alguém […]” Ao mesmo tempo, revelam uma economia ambígua: “Se isso é uma fábrica, o que somos nós?” E expandem a escala da análise: “Você pergunta a temperatura em São Paulo e ativa o planeta inteiro.” O que emerge é uma visão sistêmica: “Para que esses sistemas existam, você precisa de um sistema em escala planetária de extração, exploração do trabalho e destruição ambiental.” Seus mapas, assim, funcionam como dispositivos críticos e de emancipação: “Eu não quero oferecer uma história linear — quero um espaço para que as pessoas explorem e construam suas próprias narrativas.” E apontam para uma transformação mais profunda: “A IA é um espaço estatístico […] a verdade se torna estatística […] uma espécie de tecnologia populista.”
Há uma tensão em seu trabalho mais recente. Em parceria novamente com Kate Crawford, Calculating Empires expande drasticamente a escala de análise, cobrindo séculos de história e múltiplas camadas de poder. Se antes sua força estava na precisão — no zoom in radical sobre sistemas específicos como o de um único dispositivo — agora tudo parece interessar nos mapas de Joler. Até que ponto essa ambição de totalidade não dilui a potência crítica do detalhe que tanto marca seus projetos? O designer que operava entre aproximação e distanciamento, que generalizava a partir do específico, estaria se deixando capturar pelo fascínio da grande escala? Há certamente um risco neste projeto atual. Donna Haraway escreveu que a tecnologia nunca deve ser considerada uma visão de lugar nenhum.
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Joler se tornou um cético em um mundo em que o digital não é mais nem de longe sinônimo de esperança: “Eu acreditava no sonho da transparência algorítmica […] mas percebi que é uma fantasia […] você vê algumas árvores e tenta desenhar toda a floresta. E isso não funciona mais.”
Na palestra em São Paulo, Joler dá um zoom extremo no PDF do Anatomy of an AI System: o planeta Terra cortado e o símbolo do silício na tabela periódica. Ele parece confortável no evento, mas já estava visivelmente cansado após navegar por tantos PDFs, tantos zooms in e out. A Terra sendo extraída, devastada, para sustentar nosso desejo de comprar mais, agora falando com máquinas. O mundo derretendo diante de nós, enquanto seguimos postando memes nas redes sociais. E Vladan Joler ali — tentando, com seus mapas, vetorizar os processos dessa tragédia. ///
Bruno Moreschi é artista e professor de Novas Mídias na Universidade de Aalto, Finlândia. Projetos e pesquisas em locais como ZKM Karlsruhe, Collegium Helveticum (ETH Zurique), Bienal de São Paulo e Center for Arts, Design and Social Research. Mais em https://brunomoreschi.com/











