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A valise carioca

Luís Edgar de Andrade & Erika Zerwes Publicado em: 08 de maio de 2020

Em 29 de abril, um dia antes da data que marcou os 45 anos do final da Guerra do Vietnã, faleceu no Rio de Janeiro, vítima do novo coronavírus, o jornalista cearense Luís Edgar de Andrade. O veterano correspondente se foi na mesma semana em que o número de mortos pela Covid-19 nos EUA superou as vítimas da Guerra. Negativos fotográficos revelados agora, após mais de meio século, mostram imagens inéditas do conflito feitas por Luís Edgar. Este artigo é dedicado à sua memória e à sua família, que guarda com amor e generosidade seu rico arquivo.

Único registro de Luís Edgar de Andrade no Vietnã, feito por um autor desconhecido em 1968

É mais comum do que poderíamos imaginar que importantes registros das várias guerras do século 20 permaneçam por décadas escondidos dos olhos do público, esquecidos, juntando poeira sobre prateleiras de sótãos ou arquivos.

Por vezes, os perigos impostos pela própria realidade dos conflitos, a necessidade de fugir do avanço inimigo, a condição de refugiado ou prisioneiro de quem as realizou, faz com que imagens sejam deixadas para trás, perdidas, ou passem de mão em mão e acabem em destino desconhecido. Tal foi o caso de um dos mais famosos conjuntos de fotografias de guerra, realizado por Robert Capa, Gerda Taro e David Seymour “Chim” durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Conhecido como a Valise (ou mala) mexicana, esse conjunto de negativos, que se acreditava perdido desde o fim da guerra, reapareceu em um sótão da Cidade do México em 2007. Acredita-se que, para evitar comprometer os fotógrafos diante da iminente invasão nazista na França, os negativos tenham passado por diversas mãos, até chegarem às de um diplomata mexicano, que os transportou para fora da Europa e os guardou em sua casa. Passadas quase sete décadas, seu neto os redescobriu.

Outras vezes, imagens de igual valor histórico ou estético são guardadas e esquecidas porque perderam o timing certo para serem divulgadas, não são mais notícia naquele momento ou não coadunam mais com os discursos políticos vigentes. Esse foi o caso do documentário britânico Memória dos campos (German Concentration Camps Factual Survey), realizado em 1945, na fase final da Segunda Guerra Mundial. Produzido por Sidney Bernstein, então oficial do governo britânico, e em parte editado por Alfred Hitchcock, o filme reuniu imagens de cinegrafistas do exército britânico sobre os campos de concentração nazistas que foram sendo descobertos conforme as tropas aliadas avançavam. Por ordem do governo britânico, a produção do filme foi abandonada em setembro de 1945. Naquele momento, os britânicos não queriam mais incentivar a animosidade do público contra a Alemanha, que, imediatamente após o fim da guerra, passou a ter um papel relevante na Guerra Fria. Além disso, se viam às voltas com o sionismo e seus desdobramentos em território colonial. Assim, o filme permaneceu incompleto, esquecido nas prateleiras do Museu Imperial da Guerra, em Londres, por quase sete décadas, até ser redescoberto, restaurado e finalmente mostrado ao público em 2014. Nesse mesmo ano, foi lançado o documentário A noite cairá (Night Will Fall), que conta a história do filme perdido e depois recuperado.

Pode ainda acontecer que o autor das imagens pense que elas simplesmente precisem de tempo para ser digeridas, especialmente por se tratar de imagens de guerra. No livro Despachos do front (Dispatches), em que relata suas experiências durante a Guerra do Vietnã entre 1967 e 1969, o escritor norte-americano Michael Herr busca entender o motivo que o levou a estar lá. Sem muita segurança, chega à conclusão de que seu objetivo na guerra era “ver”. Mas, em seguida, ele nos informa que essa não era uma tarefa simples. “O problema é que você nem sempre sabia o que estava vendo até mais tarde, talvez anos mais tarde; que muita coisa nunca foi absorvida, só ficou guardada nos seus olhos.” A mesma ressalva poderia valer para os fotógrafos.

A guerra como ela é

O jornalista brasileiro Luís Edgar de Andrade foi contemporâneo de Herr na Guerra do Vietnã, durante o ano de 1968. Andrade fora repórter da revista O Cruzeiro, na década de 1950, e correspondente em Paris, no início dos anos 1960, antes de chefiar a editoria internacional do Jornal do Brasil. Ao ser demitido do JB, no fim de 1967, usou o dinheiro da rescisão para bancar a viagem ao Vietnã. Na volta, em São Paulo, foi injustamente preso e torturado pela ditadura militar. Trabalhou também nas revistas Realidade, Exame e O Pasquim e no jornal O Estado de S. Paulo. No início da década de 1970, Andrade foi para a Rede Globo, depois para a TV Manchete e para a TVE.

Munido de sua Leica, Luís Edgar viu e fotografou durante todo o período em que esteve no Vietnã. Embora tenha privilegiado durante sua carreira o jornalismo escrito, os negativos que trouxe dessa viagem evidenciam a experiência adquirida com os grandes repórteres fotográficos que compunham o estafe de O Cruzeiro. Suas reportagens sobre a guerra foram publicadas no Correio da Manhã, do Rio, e na Folha da Tarde, de São Paulo, acompanhadas de uma ou duas fotografias cada, e nas revistas Manchete e Fatos & Fotos, ricamente ilustradas. A grande maioria de suas fotografias, no entanto, permaneceu inédita. Os negativos ficaram esquecidos por quase cinco décadas em um armário úmido de sua casa, até serem redescobertos, há poucos meses, pelo genro Jonas e pela filha Bárbara.

Realizados com lente 50 mm, em preto e branco e também em Kodachrome, esses negativos revelam os mais diversos aspectos da guerra: de corpos mutilados nas ruas a crianças e soldados brincando alegremente; da tensão no fronte de combate à longa espera dos fuzileiros na retaguarda. Andrade acompanhava tanto os destacamentos de soldados norte-americanos quanto as ações das forças sul-vietnamitas; cobria desde as coletivas de imprensa do general Westmoreland, então comandante-geral das forças norte-americanas no Vietnã, até o convívio com outros correspondentes internacionais.

Nessas imagens, a guerra se apresenta como ela é: uma sucessão de momentos de espera, calma, tédio; e momentos de luta intensa. A calmaria aparece tanto na retaguarda – onde os norte-americanos buscavam manter a aparência de normalidade, relaxando em seus alojamentos decorados com pôsteres de mulheres nuas – como na zona de combate, entre os abrigos e trincheiras escavados e guardados por sacos de areia. Já o combate propriamente dito é registrado muitas vezes por meio de suas causas – as armas e os poderosos aparatos bélicos, como os tanques de guerra – ou  seus efeitos: os mortos e as cidades queimando ou em ruínas.

Liberdade no Vietnã

Em 2001, Luís Edgar se reencontrou com o jornalista neozelandês Peter Arnett, com quem conviveu durante a guerra, em um seminário na Universidade Estácio de Sá. Comentando as dificuldades de se cobrir um conflito como o do Vietnã, Arnett afirmou que uma das vantagens era não existir nenhum tipo de censura. O governo norte-americano não admitia que estava em guerra contra o Vietnã do Norte – estaria apenas dando apoio ao Vietnã do Sul –, e instaurar censura seria admitir esse fato. Os jornalistas se aproveitavam dessa situação, experimentando grande liberdade em suas coberturas. “Não ficávamos em Saigon nem falávamos com os diplomatas. Íamos ao campo de batalha para descobrir as respostas por nossa conta”, disse Arnett.

Essa liberdade de movimentação, bem como de ponto de vista, também aparece nas reportagens de Luís Edgar e permitiu que ele estivesse presente em um dos episódios mais dramáticos da guerra: o cerco da base americana de Khe Sanh. O posto avançado, próximo à fronteira com o Laos, foi cercado em dezembro de 1967 por cerca de 30 mil norte-vietnamitas, que dois meses depois continuavam a manter encurralados um número incerto de fuzileiros. No Correio da Manhã de 15 de maio de 1968, Luís Edgar relatou sua necessidade de ver com seus próprios olhos o que estava acontecendo. Ele reproduziu uma conversa com outro veterano correspondente norte-americano, Ernie Zaugg.

“O que é que você, tão jovem, vai fazer em Khe Sanh? Ainda anteontem foi abatido outro avião lá, no momento do pouso”, disse Zaugg.

“Estou no Vietnã há 15 dias e só tenho feito turismo. Turismo nas imediações do front”, respondeu Luís Edgar.

“Espero que não lhe aconteça nada. Ainda que você viva 100 anos, nunca esquecerá essa experiência. […] Khe Sanh é a guerra em sua forma mais pura”, resumiu o jornalista.

Felizmente, nada lhe aconteceu, e pouco depois ele estava de novo próximo à frente de batalha. Dessa vez, como conta na reportagem de 17 de maio, saiu com uma patrulha noturna de fuzileiros que vasculhava uma área em busca de inimigos. Junto com ele estavam outros dois falantes da língua portuguesa: o correspondente português José da Câmara Leme e o capitão do Corpo de Fuzileiros Navais Joaquim Domingos Pereira, americano de pais lusitanos. No caminho de volta, passaram por uma pequena vila composta por três casas, apenas com mulheres e crianças.

“Onde estão os homens? Certamente no Vietcong”, questiona-se Luís Edgar, antes de seguir o relato: “Nisto, avistamos um camponês de pijama branco e chapéu de palha. Está saindo de casa, ao nascer do sol. Vai, talvez, plantar arroz. Os fuzileiros navais o prendem como suspeito. Suspeito de quê? Camponês à luz do dia só pode ser vietcong. Na patrulha ninguém fala vietnamita.

‘Você é um VC, sim?’ – acusa um fuzileiro, dedo em riste.

Sem entender o que se passa, o homenzinho apavorado mostra um cartão de plástico com uma fotografia: seu documento de identidade, emitido pelo governo de Saigon. O capitão Pereira bate no ombro dele e manda-o embora.

Voltamos para o quartel com sono e sem nenhuma história para contar.”

Vietnamita interrogado por soldados americanos, 1968

As fotografias do episódio dão conta do pavor do “camponês de pijama branco”, que parece pressentir o que acontece com quem os fuzileiros acusam de “VC”. As fotos coloridas ressaltam o contraste entre o vietnamita assustado, em trajes simples, e os norte-americanos que o cercam, totalmente no controle com sua parafernália militar.

Mesmo quando não há eventos extraordinários, Luís Edgar faz com que as excursões no fronte de batalha rendam boas histórias. No artigo de 18 de maio no Correio da Manhã – um dos últimos que o jornal publicaria –, Luís Edgar retorna aos eventos de Khe Sanh. As tropas norte-americanas tinham furado recentemente o cerco inimigo e tentavam manter aberta uma estrada que chegava até a base. Andrade e outros dois correspondentes – Felix Bolo, da agência France Press, e John Schneider – foram até o local de uma emboscada dos norte-vietnamitas, mas não conseguiram avançar e resolveram retornar. Schneider, que não quis acompanhar os colegas, foi ferido durante um ataque norte-vietnamita naquela mesma noite e acabou no hospital. A reportagem é contada do ponto de vista dos correspondentes, que se tornaram eles mesmos a história.

Assim como nos textos, em seu arquivo de fotos constam diversos registros dos correspondentes em ação. Homens ou mulheres das mais diversas nacionalidades, que, assim como no romance O americano tranquilo, decidiram ir até o Vietnã para cobrir a guerra, mas, ao contrário do personagem de Graham Greene, não ficaram limitados ao bar do hotel. Alguns aparecem confraternizando, outros tomando notas ou ainda fotografando cenas terríveis, como o cadáver de um vietcong morto em combate no meio da rua ou o corpo seminu de um jovem com os pés amarrados. Nos dois casos, Luís Edgar fotografa o colega fotografando essas vítimas.

Ao voltar para o Brasil, depois de ter testemunhado não poucas injustiças e arbitrariedades cometidas pelos dois lados do confronto, Luís Edgar seria ele mesmo vítima de uma injustiça cometida por seu próprio governo. Talvez a realidade do conflito velado da ditadura militar o tenha levado a deixar de lado essas imagens. Talvez o momento político não fosse propício para divulgá-las. Talvez, ainda, ele sentisse a necessidade de distanciamento das imagens e situações vividas na guerra. Redescobertas agora, as fotografias dessa valise carioca, a história de sua produção – e também seu esquecimento – falam tanto sobre a Guerra do Vietnã quanto sobre a própria história no Brasil. ///

 

Erika Zerwes é doutora em História pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP e pós-doutora pelo Museu de Arte Contemporânea da USP.

 

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