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As romarias em Juazeiro do Norte pelas lentes do fotógrafo turco Emrah Kartal

Publicado em: 03 de abril de 2019

Procissão e romeiros, de Emrah Kartal, Juazeiro do Norte, 2017

O fotógrafo turco Emrah Kartal chegou ao nordeste brasileiro em 2011, indo morar em Juazeiro do Norte antes de se estabelecer em Fortaleza e terminar seu mestrado em fotografia. Aproveitou a Copa do Mundo de 2014 para fotografar o evento como freelancer para alguns sites de jornais do seu país, o que resultou em um livro de fotos e textos lançado na Turquia.

O sertão nordestino despertou a curiosidade de Kartal pelas manifestações de fé que testemunhou nas várias romarias anuais à cidade do Padre Cícero, santo pela fé popular de boa parte da população nordestina. Decidiu morar em Juazeiro para se aprofundar no cotidiano da cidade também fora dos períodos de peregrinação e o resultado disso é o projeto Além da graça, um fotolivro ainda não publicado, em fase final de edição. Neste trabalho, o olhar do fotógrafo revela Juazeiro além dos pontos e eventos religiosos típicos, registrando imagens diferentes das que são vistas em ensaios que estamos acostumados a ver sobre o tema.

ZUM conversou com Emrah Kartal sobre o projeto e como chegou ao sertão cearense para desenvolver sua carreira de fotógrafo.

 

Romeira pagando promessa, de Emrah Kartal, Juazeiro do Norte, 2016

Como você chegou ao Brasil? E, mais especificamente, como decidiu morar em Juazeiro do Norte?

Emrah Kartal: Eu saí do meu país, a Turquia, em 2009.  Foi a primeira vez na minha vida que viajei para fora da minha terra. Enquanto fazia mestrado em jornalismo, na Universidade de Istambul, houve uma oportunidade de fazer intercâmbio para estudar por seis meses em Lisboa. Foi um aprendizado muito importante, porque saí da Turquia pensando em questões sobre o meu futuro profissional e pessoal. Eu ganhava minha vida como jornalista e fotógrafo freelance, mas com o passar dos anos tive um grande vontade de focar em fotojornalismo. Depois de terminar o intercâmbio, minhas opções eram voltar para Turquia ou continuar viajando e terminar meu mestrado fora. Escolhi a segunda opção. Decidi vir para o Brasil e tentar  minha vida por aqui. Meu primeiro projeto fotográfico foi uma exposição multimídia chamada Terreiro em movimento. Era um ensaio fotográfico fruto de uma pesquisa cultural sobre o reisado na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. O projeto para executar a exposição ganhou um prêmio de fomento da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro. Assim, comecei a conhecer as tradições populares e a origem dos meus futuros trabalhos.  Para resumir, a vida me levou a Juazeiro do Norte.

 

De onde vem seu interesse em fotografar romarias e festas religiosas? É algo que surgiu no Brasil ou já existia quando você vivia na Turquia?

EK: Primeiro conheci a tradição popular nordestina, em especial as da região do Cariri cearense. A partir daí consegui enxergar o tamanho e complexidade da cultura e religiosidade nordestina, no seu cruzamento com a tradição popular. Assim, decidi “cavar”  a realidade juazeirense. Movido por fortes instintos e um olhar sociológico, acabei me graduando também em Sociologia. Ainda estudante na Turquia, não tinha proximidade ou interesse relacionados à religião. Já no Brasil, com essa fusão cultura-religião, nos últimos anos me aproximei do religioso por achar muito interessante e fotográfico. Assim, comecei  a fotografar em Juazeiro do Norte no período dos festejos religiosos, em três épocas do ano. Desde 2011 fotografo as romarias na cidade. E romarias são festejos religiosos complexos. Enquanto faço fotos de uma festa religiosa, ao mesmo tempo é possível registrar toda uma a cultura própria do povo cearense. Por isso, fotografar expressões de religiosidade em Juazeiro do Norte, em torno do Padre Cícero e das romarias, se transformou em uma pesquisa visual. E assim, a cada ano, aumentava minha curiosidade sobre Brasil e seu povo.

Vários fotógrafos brasileiros (e alguns estrangeiros) já registraram das mais diversas maneiras as manifestações populares em torno da fé no nordeste do país. Você tem algum fotógrafo ou trabalho favorito que lhe serviu de referência ou inspiração?

EK: Sim, com certeza. Posso citar Tiago Santana e Guy Veloso. Primeiro, eles fotografaram o mesmo assunto e local que eu queria fotografar. São fotógrafos muito fortes e criaram imagens icônicas que retrataram Juazeiro do Norte e sua religiosidade de maneira original. As imagens deles me inspiraram muito. Não dá para deixar de observar que geralmente as fotos sobre romarias em Juazeiro do Norte são em preto e branco. Uma textura que une imagem e um sentimento poético. Quando decidi fazer o ensaio fotográfico sobre o Cariri cearense,  pensei: posso criar imagens fotográficas com esse mesmo aspecto ou algo tecnicamente diferente desses trabalhos fotográficos anteriores. Minha primeira ideia era  fotografar a romaria do ponto de vista religioso, focando na fé, em romeiros e romeiras juntos em lugares religiosos, em comportamento cerimonial. Até que comecei a ser influenciado pelo trabalho de outros fotógrafos que fizeram trabalhos bem diferentes de documentários na tradição popular. Nessa época, gastei muitas horas vendo fotos, projetos, portfólios fotográficos e fotolivros. Me mudei para a cidade e me dediquei a fotografar o “meu” Juazeiro do Norte.

 

Você mudou-se para Juazeiro do Norte e viveu o cotidiano do lugar nos períodos em que não há romarias ou festejos. Como isso afetou sua abordagem sobre o tema?

EK: O tempo de um ensaio é muito relativo. Depende do que o fotógrafo ou a fotógrafa procura, o sujeito do projeto, logística, clima, tempo, disposição e motivação. Ouvi dizer que [o fotógrafo turco] Bülent Kılıç fotografou Kobane, a cidade destruída pelos terroristas do estado islâmico (ISIS), em um dia. E foi a série fotográfica mais veiculada sobre a cidade. Também vi ensaios de um período mais longo período sobre guerra na Síria que chamaram muita atenção na mídia internacional e no meio da fotografia. Pessoalmente, minha abordagem sempre foi a de um fotojornalista: acreditava que fotógrafo ou fotógrafa vai até o assunto e faz o trabalho. Mas após trabalhar um ano inteiro morando em Juazeiro e fotografando pessoas e peregrinos, mudei o que achava saber sobre o processo de criação de um ensaio. Comecei a questionar o que era uma romaria e quem eram os romeiros, algo muito que foi muito importante para a edição final das imagens no fotolivro. Durante a criação do livro Além da graça, comecei a desafiar a visão sobre a cidade e outros ensaios anteriores sobre romarias.  Cada época de romaria, a cada semana e local da cidade virou um tema de ensaio. Criei uma narrativa que conta a minha história sobre a cidade de Juazeiro do Norte.///

 

Emrah Kartal (1982 ) é um fotógrafo turco baseado no nordeste do Brasil. Conta histórias visuais sobre a diversidade em grupos sociais e o cotidiano das comunidades locais desde 2010.

 

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