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Os penitentes e seus rituais secretos são tema de novo livro de Guy Veloso

Publicado em: 14 de fevereiro de 2020

Fotografia da série Penitentes, de Guy Veloso, 2002-2019 © Guy Veloso. Cortesia Rumos Itaú Cultural.

Por quase duas décadas, o fotógrafo paraense Guy Veloso viajou por 13 estados brasileiros registrando os rituais dos penitentes, irmandades secretas e místicas que durante a Quaresma e a Semana Santa saem à noite em procissão rezando pelos espíritos sofredores. Em casos mais extremos, alguns praticam a autoflagelação.

Contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018, o resultado da pesquisa visual de Veloso está sendo lançado em formato de livro, editado pela Tempo d’Imagem, e intitulado Penitentes – dos ritos de sangue à fascinação do fim do mundo. ZUM conversou com Guy Veloso a respeito do projeto. 

Fotografia da série Penitentes, de Guy Veloso, 2002-2019 © Guy Veloso. Cortesia Rumos Itaú Cultural.

 

Começando do início: quando e como surgiu a ideia de fotografar grupos de penitentes Brasil afora?

Guy Veloso: Na romaria de Juazeiro do Norte (CE), em 1998, vi umas 15 pessoas com mantos azuis e cruzes bordadas nas costas que, embora católicos, tinham práticas, crenças e rituais próprios. Eram os Aves de Jesus, o primeiro grupo de penitentes que tive contato. Mas só em 2002 resolvi aprofundar o estudo, buscando organizações similares em outros estados do nordeste, quando fiz meu primeiro ensaio na Semana Santa, em Sergipe. Em 2009 expandi para o restante do país. Tive a sorte de ser o primeiro pesquisador a provar a existência desta tradição (também conhecida como “Encomendação das Almas”) nas cinco regiões do Brasil.

O longo período de pesquisa (17 anos), ao mesmo tempo em que possibilita uma profunda imersão no tema, chegou a “viciar” o seu olhar? Depois de tantos anos é possível separar o fotógrafo do penitente Guy Veloso?

GV: Acho que ocorreu o contrário. Como o trabalho se deu em quase duas décadas, creio que minha fotografia, em sua estética, mudou bastante ao longo desses anos. Um ponto-chave foi a troca do equipamento analógico pelo digital. Eu também mudei. Minha forma de ver o mundo foi se transformando – e isto vai se agregando ao trabalho. Claro que algumas vezes tive “crises” por achar que estava “repetindo a mim mesmo”. Mas elas foram passageiras. Graças a Deus!

Meus projetos são sempre de longa duração, com visitas sistemáticas aos mesmos lugares, intensa pesquisa e comprometimento com os fotografados. Isso leva a uma intimidade com o tema e com quem está do outro lado das lentes. No caso dos penitentes, minha relação foi se estreitando com os anos de viagens: fotografava cada vez mais de perto (fisicamente falando mesmo), participava efetivamente dos rituais. Muitos viraram amigos. Como Dona Jesulene Ribeiro (a Nenezinha, que me elevou oficialmente à condição de membro do grupo dela), líder de grupo em Juazeiro (BA) e que vem todos os anos me visitar aqui em Belém na época do Círio de Nazaré. Minha proximidade com os penitentes me fez ser um deles.

A sua pesquisa se estendeu por todo o Brasil, mas nas fotografias é possível perceber a forte presença da paisagem rural típica do nordeste brasileiro. A maioria dos grupos de penitentes está no sertão? Isso de algum modo afetou a estética das suas imagens?

GV: Sim, o nordeste é a região com maior número de irmandades, particularmente nas cidades interioranas da região do Cariri e do Baixo e Médio São Francisco. E tenho certeza de que a gama religiosa-dramática sertaneja ficou impregnada no livro. E na minha vida.

As procissões e caminhadas dos penitentes acontecem durante a noite e você optou por não utilizar o flash, mas trabalhar de forma visual a baixa velocidade do diafragma com borrões e a pouca luz artificial disponível. Como se deu a decisão de não usar o flash? Foi feita a priori ou você testou e não ficou satisfeito com os resultados?

GV: Esta estética foi tomando corpo no início do projeto pela falta de elementos técnicos para fotografar de noite com pouquíssima iluminação, já que eu usava câmera analógica e filme diapositivo. Assim, borrões e distorções nas cores eram usuais – e bem-vindas! Também incorporei erros técnicos ao trabalho: fotogramas expostos inadvertidamente por duas vezes, luzes “vazadas” no diapositivo ou mesmo problemas na revelação eram tidos no mesmo patamar das fotografias “bem resolvidas”. Várias delas estão no livro. Com minha entrada no digital em 2013, isso foi resolvido. Porém, aquela linguagem já tinha me tomado. Inclusive lanço mão dos “borrões” ao documentar, hoje em dia, os ritos afrobrasileiros. De nenhuma forma usaria o flash por dois motivos: não comprometer a conceito onírico, “fora do tempo” que queria transmitir e – principalmente – por respeito aos penitentes, já que o flash distrai a concentração de qualquer um.

Apesar de poder ser visto como um estudo antropológico ou documental sobre os penitentes, suas escolhas estéticas permitem também outras leituras para as imagens do livro. Como foi o processo de edição? Você quis tornar essas fronteiras mais fluídas?

GV: A curadora Rosely Nakagawa – que acompanha o projeto desde 2005 – selecionou e editou as imagens do livro. Claro que eu sugeri alguns caminhos, mas a arquitetura foi dela. Rosely, inclusive, excluiu da montagem a foto que eu mais gostava. Contei também com excelentes sugestões da produtora Isabel Santana e o trabalho da designer Bia Matuck. Ao todo, foi um ano de trabalho. A equipe do Itaú Cultural deu um bom suporte, junto com minha produtora financeira Fatinha Silva. Passei o meu aniversário de 2019 dentro da gráfica Ipsis rodando a obra. Desde as primeiras reuniões da equipe foi unânime a decisão em desprezar recortes cronológicos e geográficos, privilegiando a poética. Há muitas mensagens sublimares e indicações de “rotas” de leituras. A capa chama atenção pelo inusitado: não há fotografia, mas sim uma intervenção feita pela artista Luisa Malzoni utilizando cianotipia em tecido e tratamento digital a partir da foto de um manto cerimonial dos penitentes de Caririaçu (CE).

Algumas fotografias do livro (como o painel do carro desfocado, o celular na mão de uma penitente) parecem querer lembrar os leitores que essas imagens são contemporâneas, estão inseridas no nosso dia a dia, nos tirando de uma paisagem que evoca práticas medievais. Quão importante é para você que seu trabalho seja visto dentro de um contexto atual e não apenas um olhar para antigas tradições?

GV: Sim, trazem essa dicotomia: um ritual de origem medieval que pouco mudou ao longo dos séculos e que subsiste nos rincões do Brasil contemporâneo. Mas isso não foi algo intencional ao fotografar. Minha preocupação neste ensaio é que as pessoas saibam que essa tradição existe, que faz parte de nossa cultura imaterial. Muita gente comenta: “mas isto é no Brasil mesmo? Como eu não sabia?”.

Quais foram as principais dificuldades/desafios para fotografar tão “de dentro” sociedades fechadas e até mesmo secretas?

GV: Os primeiros contatos com os líderes das irmandades (sem a câmera, claro) foram carregados de desconfiança da parte deles. Afinal, a maioria nunca tinha recebido nenhum pesquisador, quanto mais alguém pedindo para fotografar. Aos poucos fui conquistando a confiança. Conhecer os cânticos e praxes das sociedades, ter sincero respeito por estas pessoas, além de ser amigo íntimo de uma líder de irmandade, abriu muitas portas. Das 207 ordens de penitentes que conheci em 13 estados, apenas quatro não deram permissão para fotografar nestes 17 anos. Uma delas voltou atrás. Porém, na hora marcada o pneu do carro alugado furou e achei ser um presságio para não ir. O tema dos penitentes é cheio de mistérios.

Essa sua pesquisa continua? Você ainda fotografa os penitentes?

GV: Certamente deixou de ser prioridade como elemento fotográfico. Sentimentalmente o tema jamais me abandonará. A época do ano em que a maioria das confrarias realiza sua peregrinação está chegando. Quem sabe? ///

 

Guy Veloso (1969) nasceu e trabalha em Belém. Formou-se em direito e é fotógrafo desde 1988. Participou da 29ª Bienal de SP (2010)  e da 4ª Bienal das Américas, em Denver (2017).

 

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