Entrevistas

As Copas de Jorge Araújo

Jorge Araújo & Guilherme Gomes Publicado em: 05 de julho de 2018

Copa do Mundo de 1986, estádio Jalisco, Guadalajara, México: Brasil 4 x  Polônia 0. O jogador Walter Casagrande Jr. está insatisfeito por ter ficado no banco. Ao fundo, os jogadores Paulo Roberto Falcão, Edson e Paulo Vitor. Jorge Araújo/Folhapress.

Se você acompanhou as notícias do Brasil e do mundo nas últimas décadas, certamente já deve ter visto, mesmo que sem saber, alguma fotografia feita por Jorge Araújo. Nascido em Salvador e criado na capital paulista, ele é um dos maiores fotojornalistas do país. Seu nome está intrinsecamente ligado à Folha de S.Paulo, jornal onde passou 47 de seus 69 anos de vida.

De 1971 até hoje, clicou de tudo: da ditadura à campanha das Diretas Já, do cotidiano de São Paulo ao barro de Serra Pelada, da política em Brasília aos indígenas da Amazônia. Ao longo desse tempo, o período de ouro da mídia impressa, suas fotografias estamparam dezenas de capas de jornais, receberam prêmios como Esso, Wladimir Herzog e Nikkon, passaram a integrar a coleção Pirelli MASP e foram expostas aqui e no exterior.

Araújo também cobriu vários eventos esportivos. Foram duas Olimpíadas e quatro Copas do Mundo. A primeira, em 1978, em plena ditadura militar de Jorge Videla na Argentina. A última, em 1998, aquela da convulsão de Ronaldo, na França. Confira a seguir um bate-papo como fotógrafo sobre sua atuação nesses eventos.

Como você começou a fotografar?
Jorge Araújo: Comecei aos 14 anos como contínuo do jornal Última Hora, do Samuel Wainer. Meu pai trabalhava lá na área de transporte, então sempre estive envolvido com o mundo dos jornais, mas com um olho na fotografia. Depois de dois anos como contínuo, passei para o laboratório fotográfico, na época da fotografia analógica, que chamo de química. Foi um aprendizado no escuro, como costumo dizer, pois você ampliava as fotos dos grandes fotógrafos. Você via o que era aquela linguagem. Cada fotógrafo tinha uma coisa especial, nenhum olhar era igual ao outro. Todos esses olhares me deram um norte para formar o meu olhar. Foi uma grande escola. Também tive ali o primeiro contato com os diferentes tipos de luzes para fazer meu trabalho. Foram cerca de três anos absorvendo bastante coisa. Daí, quando fiz 16 ou 17 anos, comprei minha primeira câmera, uma Yashica.

E como chegou à Folha de São Paulo?
Foi quando a Folha comprou o jornal Última Hora, em 1971, e acabei indo no pacote, aí já atuando como fotógrafo.

Nessa época você já tinha algum objetivo? Qual era o seu sonho na fotografia?
Logo de cara eu tinha dois sonhos. Cobrir uma Copa do Mundo e ganhar um prêmio Esso. Consegui as duas coisas quase ao mesmo tempo, com a Copa de 1978, na Argentina, e o prêmio Esso de 1979 (com a fotografia Anistia é intocável, de uma manifestação na Praça da Sé). Acho que lá em cima Deus falou “vou dar a ele as duas coisas logo de uma vez” (risos). Esse tipo de coisa alavancava a carreira de um fotógrafo.

Pode falar mais da sua experiência com esporte e, sobretudo, com o futebol?
Como atuava em um jornal de cobertura geral, nos finais de semana fazia algumas coisas no Esporte. Era bom para treinar o olhar. Tentava juntar beleza plástica e notícia, para que o leitor parasse por 15 segundos antes de ler a legenda. Buscava um discurso, um silêncio, um impacto. Não apenas a foto pela foto. A ideia era virar a objetiva para algo que a TV não tinha mostrado, começar um novo tipo de olhar, algo que hoje muitos fazem. Lembro de uma foto curiosa em um jogo no antigo Parque Antártica. Era Dia do Trabalho e fiz uma imagem mostrando somente a torcida na arquibancada com o fundo das antigas chaminés da fábrica [Matarazzo]. Ficou uma espécie de caldeira humana e acabou na capa do jornal.

Como era a preparação para cobrir uma Copa?
A partir de 1974, fiz algumas viagens, fotografei amistosos e eliminatórias, Copa América, Pan-Americano. Era um preparativo para o profissional encarar uma Copa do Mundo, um teste de fogo.

Como foi cobrir sua primeira Copa do Mundo?
Em 1978, não cobri a Seleção Brasileira. Como era na Argentina, aqui perto, a Folha mandou mais de um fotógrafo. Fiquei em Buenos Aires registrando treinos e jogos. Mas já dava um frio na barriga pela responsabilidade. Afinal, só entravam em campo jogadores, árbitros e nós, fotógrafos. Mas sempre botava na cabeça que era um jogo como qualquer outro, de dois times quaisquer para o nervosismo não me afetar. E ter trabalhado anteriormente em estádios na América do Sul e na Europa também ajudou.

Como é o dia a dia da cobertura fotográfica numa Copa?
O mais chato e trabalhoso são os treinos. É a parte mais pesada. Pois são vários dias de treinos e poucos jogos. E o treino é aquela mesmice, mas você não pode ser repetitivo, precisa achar alguma história ou imagem interessante, uma notícia. Outro ponto que complica ainda mais é que muitos técnicos estão fechando os treinos para a imprensa. Liberam apenas 15 minutos para imagens. Daí precisa ter uma pauta pré-definida e ser rápido. Daí a importância de uma boa sintonia com os repórteres. Pois ter algo plástico no treino é difícil, mas às vezes acontece. Por exemplo, o Ronaldinho Gaúcho jogava sempre com uma faixa na cabeça. E comecei a reparar que nas cabeçadas dele a faixa mexia muito. Até que uma hora fotografei ele cabeceando a bola e a faixa voando junto. É uma foto que resolve um dia sem notícia. Tipo o cabelo do Neymar.

No dia seguinte da derrota para a França, Ronaldo evitou falar com jornalistas. França, 1998, Jorge Araújo/Folhapress.

Qual a diferença entre cobrir uma Copa e uma Olimpíada? Qual evento esportivo você prefere?
Olimpíada eu não desejo nem para o meu pior inimigo. Você vai com 80 quilos e volta com 60. Acorda de manhã com uma pauta e as coisas vão acontecendo e mudando a cada momento. Tem de sair correndo toda hora, já que são muitos esportes e em muitos locais diferentes e às vezes distantes entre si. Acaba sendo uma loucura completa.

Há uma diferença de 20 anos entre sua primeira e sua última cobertura de Copa do Mundo. Nesse período, as plataformas de circulação de imagens mudaram. Como isso influenciou a fotografia?
Hoje os caras praticamente filmam o jogo e depois tiram o frame. Isso não é uma crítica, afinal é uma nova geração. No meu tempo não tinha essa possibilidade, não tinha esse clique nervoso. Hoje, em apenas um lance de futebol, fazem 40 fotogramas. Antigamente, tínhamos de ser mais seletivos no dedo. O filme era algo limitado, que precisávamos administrar. Não era igual àquele revólver do mocinho em filme de faroeste em que a bala nunca acaba. No nosso caso, a bala acabava. E também não havia duas, três câmeras, para sacar outra. Hoje a história está sendo contada pelos celulares. A nova tecnologia é fantástica. Consigo transmitir da minha própria câmera para o editor. É muito mais fácil, mas nada disso dispensa o olhar.

Como lidar com a concorrência num evento como a Copa?
Eu costumo ouvir o barulho do clique. Você percebe que o cara ao lado fez algo que você não fez ou não viu. Mas ao mesmo tempo não dá para se distrair. Tem de ficar concentrado no trabalho. Por isso prefiro ficar perto de gente que fale outra língua, para não me distrair ou me desconectar daquilo que estou buscando.

Copa do Mundo de 1982, estádio Sarriá, Barcelona. O jogador Zico (deitado) durante a derrota do Brasil contra a seleção da Itália, por 3 a 2, em jogo que garantia presença na segunda fase da Copa. Os gols do Brasil foram marcados por Falcão e Sócrates e os da Itália por Rossi. Jorge Araújo/Folhapress.

Prefere cobrir a vitória ou a derrota? Por quê?
A derrota, sem dúvida. A vitória no futebol encobre muitas coisas e, pelo o que a gente sabe, muitas coisas erradas. Encobre os conchavos, a politicagem. Basta ver a situação dos cartolas atuais pelo mundo, muitos estão presos ou acusados. Jornalisticamente a derrota é melhor. Na vitória, fica muito oba-oba. Por exemplo, na Copa de 1998, algumas imagens do Ronaldo durante a final e depois da derrota para a França diziam tudo. Nem precisavam de legenda. É contar a história pelas expressões: o Cerezo jogando a camisa após a derrota para a Itália em 1982, o Júnior Baiano puxando o Cafu do gramado em 1998… Imagens de derrotas são muito mais fortes do que o papel picado jorrando. A não ser que tenha uma quebra de protocolo, como aquela do Cafu subindo no pódio com a camiseta do 100% Jardim Irene.

Como lidar com o envolvimento emocional?
Perdendo ou ganhando, tenho que fazer o trabalho. Quando o Brasil faz um gol, o coração precisa ser de ferro. Eu não testei a emoção de ser campeão do mundo, pois o Brasil não ganhou nenhuma das Copas que cobri. Agora, a derrota de 1982 foi um grande pecado, tanto que a Seleção brasileira não apanhou da mídia. De perto, a gente via que as coisas eram feitas de forma correta, mas não pude me envolver, tinha a obrigação de contar a história daquela derrota.

Qual a Copa mais difícil de cobrir?
Foi a de 1986, no México. O país tinha sofrido um terremoto fortíssimo e as comunicações estavam bastante prejudicadas, então era muito difícil transmitir as imagens.

Nem todos sabem, mas na fase pré-digital além de fotografar era preciso também transmitir as imagens, não é?
Fotografar era apenas parte do trabalho. Tinha todo o estresse de transmitir e fazer isso o quanto antes. As agências internacionais tinham uma estrutura para isso, mas quem estava cobrindo sozinho tinha de se virar. Outro ponto que interferia, antes dessa fase do tempo real, era o fuso horário. Dependia se era favorável ou não. Na Copa de 1998, na França, a Folha enviou três fotógrafos e um editor. Me senti trabalhando numa agência internacional. Não tinha a obrigação de transmitir e podia me concentrar apenas em fotografar.

Copa do Mundo de 1978, estádio Monumental de Núñez, Buenos Aires. Torcida acompanha o jogo entre as seleções da Argentina e da Hungria. A seleção da Argentina venceu por 2 a 1. Jorge Araújo/Folhapress.

Qual foi o maior perrengue que você passou numa Copa?
Foi justamente na primeira que cobri, na Argentina. Em 1978, eles viviam sob uma ditadura militar. Saindo de um treino, no meio do caminho, explodiu uma bomba na rua. Num ato instintivo, desci do carro para fazer algumas imagens. Nisso, fui abordado por um policial que me falou “Você está aqui para fotografar a Copa do Mundo, não a política”. Ele acabou me levando e fiquei detido no carro por algumas horas. Se bobear, podia ter virado mais um “desaparecido”.

E uma história inusitada?
Teve uma nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994. Uma coisa legal era que você viajava no avião com a Seleção. Essa foi naquele episódio em que o goleiro Zetti foi pego no exame antidoping por ter tomado um chá na Bolívia. Estávamos dentro do avião e os jogadores começaram a dar aquele apoio ao Zetti, aquele carinho todo, o Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF) também. Daí fizemos as imagens. Mas como transmitir? Se fosse hoje com celular seria fácil. E não dava para esperar chegar a São Paulo. Então, durante a parada do avião para abastecer em Manaus, desci e fui correndo tentar encontrar um lugar para transmitir. Larguei tudo no avião, mala, roupa etc. e optei por perder o vôo. Mas consegui emplacar a foto no jornal.///

 

Guilherme Gomes é formado em Jornalismo pela Cásper Líbero e fanático por esportes. Já passou pela Fluir, Folha e Istoé antes de fazer parte da equipe que fundou o diário LANCE! em 1997, onde ficou por 19 anos. Foi diretor de redação do Diário de SP e atualmente trabalha no Agora/Folha de SP