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Grau & corte no Morro do Dendê

Melissa de Oliveira & Bárbara Copque Publicado em: 30 de novembro de 2021

Série Grau & corte no Morro do Dendê, de Melissa de Oliveira, 2021

Desde 2019 a fotógrafa Melissa de Oliveira, de 21 anos, vem documentando os becos, as ruas e o cotidiano dos moradores do Morro do Dendê – uma das maiores favelas da Ilha do Governador, localizada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Atenta ao apagamento histórico e a visibilidade da comunidade onde mora, comumente ligada à violência pela grande mídia, a jovem fotógrafa, num movimento de quem olha de dentro, registra o lazer, a diversão e o cotidiano estético da juventude do Morro do Dendê.

A pesquisadora Bárbara Copque conversou com Melissa sobre a série Grau & corte no Morro do Dendê, especialmente encomendada pela ZUM, e que mostra bem o olhar atento e íntimo da fotógrafa para sua comunidade: “o evento é uma reunião de motoqueiros para se divertir. É como o baile, como o jogo do Flamengo no bar. Não apenas os motoqueiros participam, todo mundo na favela vai para assistir e se divertir. Fazer manobra com a moto é encarado como qualquer outro esporte aqui”, comenta.

 

Série Grau & corte no Morro do Dendê, de Melissa de Oliveira, 2021

Como foi o seu encontro com a fotografia?

Melissa de Oliveira: Queria mostrar o que só ficava gravado na minha memória, o que vi e aprendi, e que é bem diferente do que costuma ser divulgado sobre a favela e quem mora nela. Quando mergulhei em trabalhos de outros fotógrafos consegui descobrir de que forma eu quero me envolver com a arte e estar viva.

Quem são esses outros fotógrafos nos quais você mergulhou a ponto de desejar ser fotógrafa?

MO: Os primeiros nomes que descobri e me aproximaram da fotografia foram Alan Lima, Bruno Itan, Bira Carvalho, Vincent Rosenblatt, Julio Bittencourt e João Wainer. São os que me lembro agora, quando tive o meu primeiro contato. Mas foram vários, porque a partir de um fui conhecendo outros.

Em 2019 a minha família comprou minha primeira câmera semiprofissional, que é a que uso até hoje, e comecei a praticar documentando o cotidiano, estudando pela internet. E assim as coisas foram crescendo de maneira orgânica. A forma pela qual consegui me aproximar da fotografia foi o digital, porque é a mais barata (ou menos cara?). Desse jeito venho compartilhando o meu trabalho com quem está aqui dentro da comunidade e fora também. Mando álbuns inteiros para a rapaziada pelo zap e posto no Instagram, porque é ilimitado. Ainda assim, tenho o sonho de fazer uma exposição aqui dentro com as fotos impressas na parede.

 

Suas imagens registram parte do cotidiano de jovens moradores de uma comunidade – o morro do Dendê, que é uma das maiores favelas do Rio – e revela, principalmente, o cotidiano estético e masculino desse universo. E estar em contato com suas imagens é ter a certeza de que uma relação de confiança está ali e bem estabelecida. Como se dá essa relação? E nos conte um pouco sobre os eventos de Grau & corte que você documenta.

MO: Algumas dessas pessoas já eram meus amigos, primos, vizinhos e colegas, o que significa que já havia uma ponte construída. Os momentos em que os moradores estão felizes, cuidando da própria vaidade, produzindo coisas importantes ou compartilhando algo que se orgulham, são os momentos que eles querem mostrar. E é isso que eu registro. Também uso a fotografia como uma ferramenta útil para eles, como na construção de um portfólio, na divulgação de um trabalho ou evento. São vários anos de apagamento no Dendê, as últimas fotografias que encontrei [sobre a comunidade] são de notícias em jornais da década de 70. As pessoas querem poder revisitar a própria história.

Agora, falando do Grau & corte, o evento é uma reunião de motoqueiros para se divertir. É como o baile, como o jogo do Flamengo no bar. Não apenas os motoqueiros participam, todo mundo na favela vai para assistir e se divertir. Fazer manobra com a moto é encarado como qualquer outro esporte aqui.

O evento é organizado com muita seriedade. São meses pensando nas camisas, nos adesivos, na bandeira da turma, na equipe de som, na queima de fogos, na rua onde vai ocorrer. Isso ajuda o comércio local, que é divulgado por eles. Várias turmas de grau são convidadas a participar, todas tem suas camisas e bandeiras que representam o lugar de onde vêm. A turma aqui do Morro do Dendê é a Argentina no Grau.

Os motoqueiros treinam antes em lugares isolados para chegarem preparados no dia. O que fizer as melhores manobras por mais tempo sem desequilibrar ou cair é o que vai chamar mais atenção. O nível de dificuldade também conta, e assim o cara vai se tornando mais comentado nas redes sociais, mais reconhecido e requisitado para participar dos eventos. As ruas são fechadas para o evento e tem equipe de som montada para emendar com o baile depois que acabar. Sem dúvida o funk faz toda diferença para eles executarem as manobras com maestria, é tudo muito intenso e divertido.

 

Série Grau & corte no Morro do Dendê, de Melissa de Oliveira, 2021

O universo masculino é central nos seus enquadramentos. É uma opção? Poderia nos falar um pouco sobre essas imagens que saltam?

MO: Não penso muito sobre isso, a vontade de clicar surge espontaneamente. Mas acredito que seja por identificação. Quando era pequena eu andava sem camisa, descalça, soltava pipa, jogava bolinha de gude, estava sempre com os meninos. E hoje não é diferente, gosto dos mesmos cortes de cabelo, roupas, da mesma liberdade, tenho mais amigos homens. Talvez esteja contando um pouco de mim também.

 

Fotografar o local onde você mora e foi criada modificou a sua relação com o lugar?

MO: Me fez olhar mais atentamente para o que falta, para o que é singular, único, o que não deveria passar despercebido. E isso transforma a percepção na vontade de fazer algo prático. Queria uma biblioteca, um cinema, algum espaço para cultura, capacitação, educação, exposições, lazer. Viver aqui vai tomando outras formas.

 

Série Grau & corte no Morro do Dendê, de Melissa de Oliveira, 2021

Há outros projetos em andamento?

MO: Tenho subséries dentro dessa série de fotos na comunidade, como a do bronze com biquíni de fita. A ideia é começar esse verão, que imagino será o verão do século, já que estamos chegando na reta final da pandemia. Quero muito aprofundar os registros em alguns eventos, trabalhos, fenômenos, tradições que têm um universo de histórias na favela. ///

 

Melissa de Oliveira (2000) é nascida e criada no Morro do Dendê, ZN do Rio de Janeiro. Participou da exposição coletiva Escrito no Corpo na galeria Carpintaria (RJ) e tem fotos publicadas nas revistas Elle Brasil e Vogue. Atualmente participa da coletiva Crônicas Cariocas no Museu de Arte do Rio – MAR.

Bárbara Copque é doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professora adjunta da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF/Uerj). É coordenadora do Núcleo de Estudos Visuais em Periferias Urbanas – NuVISU (CNPq-Uerj) e integrante do coletivo de artes visuais Negras[fotos]grafias.

 

 

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