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A alta sociedade e o underground paulistano dos anos 90 nas fotografias de Fabiana Figueiredo

Fabiana Figueiredo & Felipe Abreu Publicado em: 19 de junho de 2018

Ensaio La Nuit, de Fabiana Figueiredo, 1998-2001. Cortesia da autora.

A fotógrafa mineira Fabiana Figueiredo tem uma trajetória curiosa, com pequenos detalhes que transformaram não só a sua vida, como também a divulgação de seus trabalhos. Pouco conhecida no Brasil, até mesmo por seus pares, Figueiredo tem quase 30 anos de produção fotográfica, que culminaram no ensaio La Nuit, mescla de imagens da alta sociedade e do underground paulistano e praticamente inédito desde sua realização nos anos 1990.

Conheci o trabalho de Figueiredo por acaso, ao ver três fotos de sua autoria no catálogo da coleção Pirelli MASP. Na internet, encontrei um verbete na Enciclopédia do Itaú Cultural e um perfil em uma rede social. Não resisti e enviei um pedido de amizade. Nas trocas de mensagens que se seguiram, procurei entender por que a obra dela permaneceu desconhecida por tantos anos, mesmo tendo participado de exposições em instituições importantes e ter suas fotos em coleções como a Pirelli MASP.

A trajetória profissional de Figueiredo começou em Belo Horizonte, mais especificamente em torno da cena rock da capital mineira da década de 1980. Desse período, a fotógrafa traz um acervo imenso: “Cheguei a cantar com o John [Ulhoa], que hoje é do Pato Fu. Éramos todos da mesma tropinha, a gente tinha as nossas bandas de rock, Divergência Socialista, Sexo Explícito e Último Número. E com a imprensa cada vez mais interessada nas bandas, precisavam de alguém para fotografá-las. Então acabei virando a fotógrafa das bandas de rock de Belo Horizonte”.

Além das bandas mineiras, Figueiredo também fotografou outros artistas importantes da cena do rock brasileiro, como Arnaldo Baptista, Ira!, Sepultura e João Gordo, com quem dividiu apartamento nos primeiros tempos de vida paulistana, e sua banda Ratos de Porão. Por conta dessa proximidade, acompanhou a banda por mais de 20 anos e foi responsável pela maior parte de seu acervo fotográfico. É nesse período que suas fotografias de shows e músicos foram publicadas pela primeira vez no livro Abz do rock brasileiro, do poeta e artista multimídia Marcelo Dolabela.

Nessa primeira fase da fotógrafa, já se percebe a construção de um olhar que será aprimorado no decorrer de sua carreira. É uma fotografia próxima e despojada, que tem na atitude de seus retratados sua grande força. Com este recorte visual, Figueiredo constrói uma importante coleção de imagens de bandas, algumas que permaneceram no underground e outras que alcançaram sucesso duradouro.

Depois de uma década acompanhando a cena alternativa musical brasileira (e de uma breve passagem pela Itália), Figueiredo decide mudar os rumos de seu trabalho e não mais fotografar figuras do rock. Por indicação de Sonia Maia, então editora da revista Bizz, conhece Nair Benedicto, fotógrafa que marca sua trajetória profissional. “Fui a um café com o Abz do rock brasileiro debaixo do braço para conhecer a Nair. Ela olhou as fotos, olhou para mim e disse: ‘Se você quiser trabalhar comigo, pode começar amanhã’”. Era um momento de mudança para Benedicto, que acabara de sair da Agência F4 e estava abrindo a N-Imagens. Assim começou a parceria entre as duas fotógrafas e a entrada de Figueiredo no mundo do fotojornalismo, trabalho que realizou por cerca de 11 anos. “Foi nesse período que aprendi tudo que sei. Nair foi minha mestra, minha inspiradora. Ela tem uma importância enorme na minha vida em todos os sentidos”, comenta a fotógrafa.

Sua produção foi veiculada nos principais jornais da cidade, mas isso não era suficiente para bancar sua estadia em São Paulo. “Sabe como é fotógrafo, sempre morrendo de fome. Eu não podia produzir apenas projetos autorais, então tive que buscar uma forma de me sustentar com a fotografia. Eu odiava a ideia de trabalhar para uma coluna social, mas fui convencida por amigos que apontaram a possibilidade de novos trabalhos surgirem da convivência com as pessoas que eu iria fotografar.” É trabalhando por seis anos como fotógrafa para a coluna do jornalista Amaury Jr. e com acesso quase irrestrito às festas da alta sociedade paulistana que surgem as primeiras imagens de La Nuit.

Ensaio La Nuit, de Fabiana Figueiredo, 1998-2001. Cortesia da autora.

Os enquadramentos agressivos de Figueiredo cortam cabeças, destacam mãos, gestos e vestimentas, e ao mesmo tempo mantém certo anonimato para os personagens e fazem um retrato franco e direto da riqueza paulistana no final do século passado. “Toda a imprensa era convidada a cobrir as festas da alta sociedade, então eles estavam preparados para serem fotografados, existia uma conivência total na produção dessas imagens. O que eles não sabiam era que eu estava criando uma linguagem completamente diferente daquela que ia para o jornal”, conta Figueiredo. Entre as fotos do período, se destaca a de uma jovem socialite, que aparece sem rosto, mas com uma estola de pele que “morde” seu vestido tomara que caia. É esse tipo de acidez que as imagens da burguesia paulistana em La Nuit carregam.

A outra metade do ensaio, a parte mais underground da noite, também é realizada graças a pautas para as quais Figueiredo era contratada: “fui chamada para cobrir a abertura da primeira casa noturna com pole dance em São Paulo. Aproveitava esse tipo de situação para produzir meu trabalho autoral, com uma câmera pequena, com filme PB, às vezes com e às vezes sem flash. Acho que devo ter incomodado alguém, pelo flash, que costuma desagradar, mas a função do fotógrafo muitas vezes é essa, invadir um pouco um espaço para assim poder mostrá-lo de forma mais genuína”. Dessa maneira, joias, vestidos longos e sorrisos amarelos se uniram ao glitter, às peças diminutas e à lascívia das casas noturnas em um único ensaio fotográfico. Além do sexo e da riqueza, La Nuit conta com registros de uma cultura jovem do submundo paulistano em seus primeiros momentos de efervescência.

Joias, vestidos longos e sorrisos amarelos se uniram ao glitter, às peças diminutas e à lascívia das casas noturnas em um único ensaio fotográfico

É curioso que um ensaio com esse tema e de tamanha potência tenha permanecido inédito por tanto tempo. Parte desse mistério foi esclarecido por Figueiredo ao contar que, no final dos anos 1990, “a Bovespa encomendou um livro [chamado São Paulo: Imagens de 1998] para ter um registro da cidade no final do século. Como curadores, foram escolhidos Aracy Amaral e Rubens Fernandes Junior que, por sua vez, escolheram 15 fotógrafos de renome – eu era a única desconhecida do grupo – para produzir ensaios, cada um com um tema. Eu recebi a função de registrar a noite e suas tribos urbanas. Tudo parecia bem até o lançamento do livro no MAM, com todos os fotógrafos presentes. Em um dado momento do evento, um casal, retratado em um dos ensaios, informa que não havia sido consultado sobre o uso de sua imagem e que moveria um processo contra o fotógrafo e contra a editora”. Assim, sem mais um respiro, as mil cópias foram engavetadas e La Nuit e os outros ensaios presentes na publicação permaneceram conhecidos apenas pelos presentes naquela noite, rápidos o suficiente para adquirir seus exemplares antes de toda a tiragem ser recolhida.

Ensaio La Nuit, de Fabiana Figueiredo, 1998-2001. Cortesia da autora.

Além da publicação frustrada, outro ponto importante para o projeto ter permanecido na gaveta foi a mudança de Figueiredo para a França. “Eu saí do país porque meu marido tinha um emprego muito importante: ele criou e dirigiu durante 30 anos o Centro Regional de Fotografia de Nord Pas de Calais, uma instituição essencial para a fotografia francesa. Como eu era freelance, entendemos que seria mais fácil eu mudar para a França do que ele para o Brasil. Não vou usar isso como desculpa para o La Nuit ter permanecido inédito por tanto tempo, mas com certeza este é um dos aspectos.” Há mais de 15 anos longe do Brasil e dessas fotografias, Fabiana quer agora publicar o ensaio em livro.

Agora, uma coisa que eu aprendi é que rico é igual no mundo inteiro: joias, smoking, caviar, foie gras e champanhe de qualidade

Guardadas por 20 anos, hoje as fotos de La Nuit não se restringem ao ambiente e à história que envolvem o ensaio. As imagens têm uma força ímpar, na proximidade marcante de seus fotografados e em uma lente grande angular que, com o estourar de um flash inquieto, nos joga dentro de cada cena. Fabiana conseguiu lidar muito bem com a sensação de ser uma outsider nos eventos da alta sociedade paulistana e com o desejo exibicionista de cada um dos presentes ali. Seus anos de fotógrafa da cena punk somados ao seu apuro jornalístico permitiram registrar esses personagens com uma ironia discreta, que diz muito àqueles de olhar atento, mas que não incomoda quem empresta seus gestos, vestes e costumes para serem fotografados. “Entendi que era importante para o ensaio mostrar as diferenças das classes sociais, como poderiam ser tão diversas as festas, seus locais e afins. Isso tudo, principalmente em uma cidade como São Paulo, que tem uma desigualdade social enorme. Aliás, eu provavelmente não teria acesso às festas da alta sociedade se não tivesse um jornal por trás de mim, porque muitos dos eventos eram registrados apenas pela imprensa. Eu não conseguiria fazer esse trabalho em Nova York ou em Paris se eu não estivesse trabalhando para um jornal. Agora, uma coisa que eu aprendi é que rico é igual no mundo inteiro: joias, smoking, caviar, foie gras e champanhe de qualidade.” Do outro lado, nas imagens dos clubes de strip-tease se vê a voracidade de homens sobre os corpos de jovens performers e uma curiosidade espantada diante de corpos nus de homens e mulheres. São construídas relações precisas entre quem se apresenta e quem assiste, traduzindo de forma cirúrgica a atmosfera quente e tensa de cada um desses locais.

Assim, o desejo é a sensação mais flagrante das fotografias de La Nuit. Seja o desejo dos retratados pelo corpo alheio, seja pela boca de seu companheiro ou por sua própria imagem, espelhada em poses extravagantes. Além de ser uma das poucas fotógrafas a produzir um material consistente sobre a classe alta brasileira, Figueiredo consegue unir essas imagens à vida noturna do submundo paulistano, com todos seus tipos e situações idiossincráticas. Em todos os momentos, seu olhar marcante rapidamente conquista a atenção do espectador, arremessado no meio de cenas curiosas e envolventes. Isso tudo, aliado à verdadeira caça ao tesouro para encontrar essas imagens e sua história, deixam o trabalho ainda mais encantador e surpreendente. ///

 

 

Fabiana Figueiredo (1964) nasceu em Belo Horizonte. Em 2002, mudou-se para a França, onde criou o projeto editorial Sensible Editions, que, entre outras coisas, promove um programa de residência para artistas brasileiros na França. As fotografias do livro Migrances, publicado em 2005, são constantemente exibidas pela Europa.

Felipe Abreu é fotógrafo, editor da revista OLD e mestrando no programa de Artes Visuais da Unicamp com pesquisa focada na construção de narrativas em publicações fotográficas.

 

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