Ensaios

Feitiço de esperança

Alberta Whittle & Marina Dias Teixeira Publicado em: 24 de julho de 2026
(DES)Acolhida, de Alberta Whittle, 2018. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow


Nascida em 1980 na ilha caribenha de Barbados, Alberta Whittle vive e trabalha em Glasgow, na Escócia. Sua prática multifacetada tem como cerne o desenvolvimento de uma resposta pessoal às heranças do tráfico negreiro transatlântico, desmascarando suas conexões com o racismo institucional, a supremacia branca e a emergência climática no presente. Frente a um contexto político opressivo, Whittle busca promover esperança e diferentes formas de resistência, autocuidado e cuidado coletivo. Formada em Belas Artes pelo Edinburgh College of Art, com mestrado pela Glasgow School of Art e doutorado pela University of Edinburgh, atua como Research Associate na University of Johannesburg e já recebeu prêmios como o Paul Hamlyn Foundation Award (2022), o Frieze Artist Award (2020) e o Henry Moore Foundation Artist Award (2020). No começo de 2026, passou uma temporada no Brasil como artista residente do Pivô Salvador, onde se encantou com festividades e rituais coletivos, como a festa de Iemanjá no Rio Vermelho e as atividades da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira.


Meditações sobre o acolhimento, de Alberta Whittle, 2018. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow

Transitando entre linguagens como vídeo, performance, fotografia, aquarela e bordado, é na técnica da colagem que Alberta Whittle encontra não só seu primeiro refúgio criativo, mas também uma possível chave de leitura do conjunto de sua obra multimídia, que pode ser vista como uma macrocolagem de processos empregados e temas abordados. Na adolescência em Barbados, Alberta sofreu com dores crônicas que a levaram a se mudar, junto à família, para Birmingham, no coração da Inglaterra, em busca de uma cura para a fibromialgia. Antes dessa migração transatlântica de sentido inverso ao dos invasores britânicos que colonizaram a ilha caribenha no século 17, a artista vivia quase em isolamento, relegada à cama na maior parte do tempo. No quarto, seu passatempo preferido era fazer colagens, desenhos e autorretratos – meios predominantes em sua produção até hoje.

Se o porto seguro entre quatro paredes era a assemblagem de imagens coladas sobre papel, lá fora, o que sempre acolheu Alberta foi a profundidade e a vastidão do oceano. Foi isso que a fez escolher, depois de Birmingham, a Escócia como sua nova casa para retomar o contato com as águas, fonte de criatividade e elemento estético e simbólico que permeia toda sua obra. As ondas oceânicas também lambiam o lar temporário que estabeleceu, entre 2012 e 2019, na África do Sul – lugar que a levou a refletir sobre a condição compartilhada de negritude no mundo. Foi em um período de trânsito entre Barbados, Joanesburgo e Cidade do Cabo que Alberta retomou a prática-refúgio da adolescência.


Iniciada em 2016, a série de colagens digitais Business as usual (Como de costume) encapsula muitas das questões formais, simbólicas e biográficas de Alberta Whittle, mulher negra, queer, caribenha e escocesa. A forte carga imagética do meio se presta a fomentar discussões sobre migração, pertencimento e direitos da população negra, não apenas no Reino Unido, marcado em 2018 pelo desmonte dos direitos da Geração Windrush [1], mas também em todo o mundo pós-colonial. “O trânsito entre Barbados e Escócia foi muito importante para eu começar a desconstruir como entendemos a história, o território e as pessoas, e de que forma contar as estórias de onde viemos, dentro de nossa história compartilhada”. Por isso, muitas das imagens se situam em espaços limiares entre partida e chegada que, por sua vez, se tornam pano de fundo para invasões ou boas-vindas, encontros ou despedidas, ou tudo ao mesmo tempo. Para Alberta, a colagem permite justamente reunir diferentes ideias, ao passo que mostra suas fissuras e de onde elas vêm, quase como se revelasse suas raízes mais profundas.

O título Business as usual pega emprestada uma expressão idiomática da língua inglesa, que pode ser traduzida livremente para o português como “vida que segue” ou “como de costume”. Para a artista, a frase descreve uma situação contínua e imutável, apesar das dificuldades ou perturbações ao redor. Com uma boa dose de sarcasmo, Alberta se reapropria da fala apaziguadora para endereçar a maneira como o status quo se mantém inalterado, como se nada fosse, ainda que carregado de consequências brutais das histórias colonialistas e imperialistas e dos genocídios ainda em curso. Ao falar sobre essas histórias “difíceis” por meio de suas colagens, a artista busca promover o reconhecimento desse passado ainda tão presente e sua cura. Por isso, ainda que a maior parte das obras da série se situe entre 2016 e 2018, Alberta reforça que esse é um trabalho ainda em curso, pois, assim como em suas performances ou obras coletivas, ele só se conclui a partir da colaboração com o outro; mais especificamente, são as conversas que a série desperta que a tornam uma obra de arte completa.


Como de costume, de Alberta Whittle, 2018. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow

Ao olhar para os trabalhos que compõem a série, percebemos sobreposições contrastantes, tanto de linguagens diversas (autorretratos, textos, aquarelas, fotografias e imagens retiradas de HDs, livros ou cadernos) quanto de naturezas e temporalidades distintas. Para a artista, o objetivo é “abordar as histórias da exploração e do colonialismo climático, pois, nos diferentes processos e momentos que se intercalam – entre gerações e tecnologias, com maior atenção à erradicação das tecnologias indígenas –, ainda persiste a sensação de que isso é progresso. É esse atrito entre o progresso – ou o suposto progresso – e as tecnologias negras e indígenas que realmente me incomoda, porque sinto que o conhecimento que nos foi transmitido é frequentemente menosprezado e ignorado.” O resultado formal dessa escavação são composições ao mesmo tempo vibrantes e provocantes, nas quais Whittle toma a liberdade de justapor galáxias e espectros de navios dos séculos 16 e 17, foguetes e insetos, o logo do Google e orquídeas. Passado, presente e futuro são apresentados num mesmo plano.

A coexistência de diferentes estágios desse “suposto progresso” remete diretamente ao conceito do antropólogo mexicano e argentino Néstor García Canclini – postulado no final dos anos 1990 e ainda atual – de multitemporalidade heterogênea, “consequência de uma história na qual a modernização operou poucas vezes mediante a substituição do tradicional e do antigo”. Segundo Canclini, a América Latina – “onde as tradições ainda não se foram e a modernidade ainda não terminou de chegar” – é caracterizada pela coexistência de diferentes planos temporais, sendo resultado “da sedimentação, justaposição e entrecruzamento de tradições indígenas […], do hispanismo colonial católico e das ações políticas educativas e comunicacionais modernas” [2]. Mesmo que o território caribenho tenha suas especificidades, ele compartilha das contradições que marcam a América Latina analisada por Canclini, especialmente no que diz respeito à sua condição pós-colonial com consequências ainda vigentes.


Alberta Whittle já identificava essas complexas sobreposições de camadas nas histórias que a mãe da artista – que não sabia nadar, mas sempre a levava à praia – contava sobre o oceano: “Ela me fez parar para pensar que, enquanto contemplamos essas belas águas turquesas da ilha de Barbados, também há navios negreiros enterrados ali embaixo. Há os restos mortais de pessoas escravizadas que foram jogadas ao mar para servir de alimento aos tubarões. Eu sou uma pessoa sensível, por isso, às vezes eu olhava para o oceano e quase sentia como se pudesse ver esses navios chegando”, relembra. Se o presente ainda é assombrado pelo passado, também é possível curar o passado com ações do presente, como evocado no provérbio iorubá “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje”. Se o pássaro é a herança do tráfico negreiro, as colagens de Alberta são a pedra.


Envolvendo-me em arcos-íris, de Alberta Whittle, 2018. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow

Olhos abertos, conchas do mar, frutas tropicais e as águas do oceano são alguns dos elementos recorrentes que irrompem em diversas colagens da série. A vasta iconografia de Alberta Whittle é reunida a partir de um estado de urgência canalizado em um processo criativo ritualístico, intuitivo e corporal: “Eu uso muito o ritual em minha vida e prática. Incenso queimando, velas acesas… São momentos de reflexão e de cura do meu corpo e da minha alma, em que penso nos meus ancestrais e em como prestar tributo ou pedir orientação a eles. Nesse contexto, minhas obras se tornam um feitiço e uma oferenda para ver o que é possível imaginar juntos”, revela. Assim, cada ingrediente que compõe essa oferenda é rico em carga simbólica, além de estética. Os olhos recortados, por exemplo, carregam a dupla consciência de olhar e ser olhado, ações que podem ter conotações contraditórias, segundo a perspectiva. Do ponto de vista gráfico, a repetição desses órgãos confere um “glitch”, um ruído na composição – recurso presente não só nas colagens, mas também nos filmes de Alberta, que não gosta de superfícies achatadas, e sim de brincar com texturas e criar padronagens a partir delas.

As conchas também são um elemento gráfico e simbólico ambivalente, podendo ser utilizadas como adorno (a mãe de Alberta sempre as empregou para produzir joias) ou como ferramenta em rituais religiosos, enquanto mantêm uma ligação direta à história da escravidão, na qual foram moeda de troca para a compra e venda de almas. Alberta se interessa por essas múltiplas camadas de interpretação que habitam o objeto e pelo atrito que elas produzem. Além disso, ao lado dos olhos, as conchas também demonstram o interesse sensorial da artista que, a depender da disposição da imagem, pode transformar um búzio em ouvido que escuta ou em boca que fala.


Meditações celestes V, de Alberta Whittle, 2018. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow

Até mesmo o corpo da artista está sujeito a contradições e, por isso, também se configura como dispositivo recorrente na série. Enquanto mulher negra caribenha e escocesa de pele clara, Alberta Whittle põe seu corpo fotografado em jogo para as inúmeras leituras que ele suscita nas diferentes comunidades que contribuem para a formação de sua identidade. Enquanto nas ruas da Cidade do Cabo as pessoas paravam para perguntar à artista se ela era alemã, por outro lado, no Reino Unido ser ao mesmo tempo negra e escocesa é visto como uma impossibilidade. Assim, a inserção de sua própria imagem, para Alberta, é uma forma de refletir sobre miscigenação cultural e sobre como é possível pertencer a mais de uma identidade ao mesmo tempo.

Alberta empresta seu corpo para a reencenação de mitos e arquétipos presentes em Business as usual. Em algumas colagens, é possível reconhecer a pose altiva da Estátua da Liberdade, símbolo de independência, democracia e esperança, valores pouco em sintonia com o atual governo dos Estados Unidos – contradição verbalizada no título (UN)welcome (2018) (um jogo de palavras entre a sigla das Nações Unidas em inglês, “UN”, que também funciona como negação da palavra “welcome”, bem-vindos). Já em C.R.E.A.M. (2017), as madeixas da artista assumem a forma de um ninho de cobras – uma alusão direta ao mito grego da Medusa, uma criatura monstruosa com serpentes no lugar dos cabelos e um olhar que petrificava quem ousasse encará-la. “Sempre fui fascinada por esses arquétipos femininos e pela maneira como moldam a forma como as mulheres são vistas e tratadas no mundo. Para mim, a Medusa é um símbolo tão potente quanto incompreendido. Mas, ao mesmo tempo que exploro o poder desse mito, quero representá-lo do meu jeito”, afirma Alberta, que adiciona à figura mitológica uma pitada de “sazon” caribenho, como a pose agachada típica da cultura dancehall anos 90, cocos e bananas, além de moedas, notas e correntes de ouro. “Trago minhas próprias perspectivas para me compreender dentro desses arquétipos, refletindo sobre o que me é útil para falar sobre o conflito entre extração, indigenismo, negritude e feminilidade”, completa.


I de Ilusão de Inclusão, de Alberta Whittle, 2017. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow

A palavra escrita é mais um elemento que agrega a diversas colagens da série. Para Alberta, o texto é um recurso que, apesar de tirá-la de sua zona de conforto para uma experimentação poética, a aproxima do público, criando uma ponte para que sua narrativa chegue ao espectador com força em tempos de atenção dividida e interpretações equivocadas. Muitas das frases – assim como o título não só da série, mas também de cada uma das obras – têm um tom ao mesmo tempo irônico e político. Entre elas, uma brincadeira com o alfabeto guia a leitura das obras, a exemplo de C is for colonial fantasy (“C de fantasia colonial”) ou I is for the Illusion of Inclusion (“I de Ilusão de Inclusão”). Em outros casos, elas funcionam como reza ou feitiço: I wrap myself in rainbows / protection from your gaze (“me envolvo em arco-íris / proteção do teu olhar”). De maneira jocosa ou ritualística, as palavras levam diretamente ao cerne de temas urgentes problematizados pela artista. Imagem e texto se complementam e potencializam.


Meditações celestes II, de Alberta Whittle, 2017. Cortesia da artista e do Modern Institute/ Toby Webster Ltd., Glasgow

Por meio da junção inusitada de elementos iconográficos, palavras e sua própria imagem, Alberta Whittle busca evocar uma nova ideia de futuro, de como estar no mundo, distante do extrativismo, do capitalismo e das desigualdades que provocam. O caminho para construir essa futuridade de cuidado encontra-se na retomada dos rituais herdados pela população negra, pelas mulheres negras, pelas “mulheres de maioria global”, nas palavras da artista. Nesse sentido, as colagens, enquanto oferendas, são portais que convidam a desacelerar e a parar para escutar os ancestrais – que podem vir do passado, do presente ou até mesmo do futuro – e aprender com eles (ou, melhor, elas) a promover cura e esperança.

“Para mim, arte é uma prática de esperança. Contra o entorpecimento generalizado diante de tantas notícias ruins, eu prefiro manter a energia circulando. Mesmo que muitas das minhas obras surjam de um lugar de dor, frustração, raiva e tristeza, nessa troca de conversas, de honestidade e vulnerabilidade, a esperança é renovada e compartilhada. Não podemos permanecer estagnados. Mantendo as coisas em movimento, esses trabalhos são feitiços de esperança.” Com essa série, Alberta Whittle grita aos sussurros que não dá mais para continuar business as usual, seguir a vida como de costume. Por meio do encanto e da reflexão provocados pela arte, é possível imaginar e construir outros futuros. Axé! ///


Marina Dias Teixeira é editora, curadora e jornalista cultural baseada em São Paulo e formada em Estudos de Mídia e Cultura pela Universidade de Artes de Londres. Com especial interesse em arte afro-diaspórica e latino-americana, editou cerca de 20 livros, entre eles Pinacoteca de São Paulo 120 Anos e Máquina de Ritmo: Som e Música na Arte Brasileira, do qual também foi organizadora. Colabora com veículos de arte, design e arquitetura, além de desenvolver projetos curatoriais próprios, como a exposição Fio Condutor, realizada em 2026.


[1] Os milhares de imigrantes que se mudaram do Caribe para o Reino Unido entre 1948 e 1971 são conhecidos como Geração Windrush e, em 2018, foram vitímas do Escândalo Windrush: devido a mudanças nas leis de imigração e à exigência de documentação formal, muitos desses imigrantes foram classificados na época como ilegais, mesmo nunca tendo precisado de visto e terem morado no Reino Unido a vida inteira.

[2] Néstor García Canclini, Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade, trad. Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão, 2. ed. (São Paulo: EDUSP, 1998), p. 17 e 73-74.

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