A sala de aula como espaço experimental da liberdade
Publicado em: 9 de abril de 2026
Questão de classe
A sala de aula é um território em disputa. Sobretudo pela equação do esforço por atenção dedicada sobre um determinado espaço de tempo, geralmente demarcado por um período de 50 minutos a uma hora. Fechar essa conta requer uma capacidade de adaptação constante que os professores acabam se habituando a exercer. O que não significa que isso seja um processo automático, pois em um mesmo trajeto sempre há novos percalços pelo caminho.
Ao observar as atenciosas composições realizadas pelo artista marroquino Hicham Benohoud em cada página do fotolivro The Classroom (A sala de aula ou La salle de classe, do original, em francês), perguntas começaram a surgir. Precisava saber diretamente do artista quais foram as suas motivações para a realização de um projeto ao mesmo tempo tão lúdico e profundamente crítico sobre a identidade pós-colonial de um país como o Marrocos. A transformação da sala de aula em um estúdio fotográfico promovida por Benohoud pode ser considerada uma verdadeira experiência visual pela liberdade, em contraste com as frustrações de quem sofreu com a rigidez de um sistema educacional precário, mais precisamente entre os anos de 1994 até 2002, período em que as fotos deste projeto foram feitas.
Também não há como refletir sobre a produção de um artista que reinventou as possibilidades trazidas pelo espaço da sala de aula, sem deixar de ser atravessado pela minha própria experiência enquanto professor de artes plásticas da rede pública de ensino da cidade do Rio de Janeiro, há cerca de 18 anos.


Benohoud nasceu em Marrakech, no Marrocos, em 1968. Depois de obter um diploma de bacharelado em artes plásticas em sua cidade, percebeu a escassez de opções em sua carreira: fazer um curso pedagógico de dois anos no chamado CPR (Centro Pedagógico Regional), ou frequentar uma escola de artes em Casablanca ou Tanger. Para ele, naquele momento da década de 80 não existiam condições financeiras para que pudesse continuar seus estudos no exterior, nem de ser artista em tempo integral, como desejava.
A escolha que restou foi se tornar professor de artes plásticas, algo totalmente contra a sua vontade. Talvez por isso Benohoud nunca tenha idealizado ou romantizado a profissão.
Corpos dóceis?
Apesar da rotina que o sistema educacional exige para a sua própria operacionalidade, o cotidiano escolar nunca é previsível. A escola é formada por espaços de convivência que propiciam uma experiência absolutamente diferente a cada dia. Afinal, são corpos inseridos em um espaço vigiado e distribuídos de forma a se submeterem a determinadas práticas de poder. Em uma sala de aula habitam sujeitos providos de emoções, vontades próprias. Indivíduos que, para se reconhecerem como tais, precisam fugir às tentativas de controle sobre os seus corpos, que não são assim tão dóceis, parafraseando o capítulo da obra referencial de Foucault, Vigiar e Punir. Ainda bem.


É sobretudo no capítulo “A arte das distribuições”, que Foucault caracteriza as relações de dominação pela técnica do poder disciplinar que organiza os indivíduos pelos espaços (sejam escolas, fábricas ou prisões) através do chamado quadriculamento ou princípio da localização imediata. Ou seja, cada corpo ocupa um lugar individualizado, de forma a se fragmentar no espaço e desagregar as coletividades em prol da utilidade, da produtividade e adequação às normas para o convívio em sociedade. Tomando como exemplo a dinâmica das escolas, as relações de controle temporal ocorrem na estipulação de horários de entrada e saída, recreação, e duração das aulas para cada disciplina, sempre marcadas pelo som da sirene entre as atividades.
A sala de aula como estúdio fotográfico
Quando começou a tirar fotos na sala de aula, Benohoud o fazia de forma espontânea. A ideia era combater a monotonia, pois uma hora naquele ambiente parecia uma eternidade. Para ele, os primeiros dez minutos de aula eram mais suportáveis, pois era o tempo que precisava para explicar aos alunos a tarefa que deveriam realizar. Era normal ele se sentir absolutamente entediado, sem ver o tempo passar. Foi isso que o inspirou a provocar os alunos, e a partir daí começou a produzir suas primeiras fotografias. Pedia gentilmente para que, diante de um estúdio improvisado, passassem e parassem diante da câmera, um por um. Não explicava nada, pois nem ele mesmo tinha muita clareza sobre o que estava fazendo. Dessa maneira, ele conseguia despertar a curiosidade e estimular os estudantes, pois eles se divertiam ao deixarem de lado as suas tarefas, mesmo que por alguns momentos, para viver uma experiência improvável.
Na maioria das vezes, eles eram cooperativos e participavam de maneira séria e aplicada, por mais estranhas que fossem as suas intervenções. Ficavam mais animados quando era permitido fazer algo normalmente proibido em sala de aula, como subir em uma mesa ou deitar no chão. O diretor da escola só pedia para ter cuidado para evitar qualquer incidente, especialmente quando se tratava de usar objetos cortantes, como arame ou galhos de árvores que eram trazidos para as encenações. Sua preocupação era apenas com a segurança dos estudantes, e não com o conteúdo das fotos produzidas pelo professor.
A arte é o exercício experimental da liberdade
Benohoud enfatizou que sua abordagem pretendia ser radical, pois discutir o autoritarismo do sistema está no centro deste projeto fotográfico. As imagens são repletas de gestos criativos, mas algumas cenas podem ser lidas sob uma estética mais ambígua, pois certas encenações sugerem opressão, violência e isolamento, justamente para criticar a autoridade que caracteriza uma sociedade de controle.
Quando o crítico Mário Pedrosa afirmou que “arte é o exercício experimental da liberdade”, a proposta é que a criação artística não seja apenas estética, mas um campo de experimentação prática de liberdade, política e ação social, para além dos cânones tradicionais. Por isso, perguntei a Benohoud de que forma conseguia colocar em exercício a sua metodologia de trabalho: “Antes de tirar fotos na sala de aula, levava comigo alguns esboços que pretendia traduzir em fotografias. Sabia de antemão o que devia pedir aos meus alunos, que aceitavam minhas instruções sem hesitar. Eles achavam meu pedido maluco. E isso os animava. Além disso, quando lhes pedia para posarem numa situação que consideraram contida, eles diziam que podiam ir ainda mais longe no que lhes propunha. Era uma forma sutil de me dizer que aderiam ao meu projeto e que me apoiavam até o fim. Seus olhos brilhavam.”
Mesmo tendo estabelecido uma relação de confiança, que transparece pela estranha beleza das imagens, também havia a necessidade de um distanciamento, pois considerava os alunos “modelos”, descartando qualquer possibilidade de coautoria no seu projeto.
Afinal, assistir aulas de artes plásticas é uma obrigação. Dessa forma, não é diferente de qualquer outra disciplina. Se os estudantes vêm assistir é porque faz parte do programa escolar e não existe outra escolha. É normal em nosso cotidiano docente ver mais de 100 alunos por dia ou mais de 600 por semana. Existe todo um esforço, mas é difícil lembrar os nomes e rostos de todos. Tão particular que os resultados desse processo muito provavelmente não vão corresponder às expectativas de quem participa deles: “As únicas vezes em que dei algumas fotos tiradas nessas sessões, eles não gostaram, acharam sem sentido. Para eles, uma foto bonita seria um retrato a cores com um grande sorriso.”
É bastante curioso que Benohoud tenha dito que quando começou a trabalhar nesse projeto, não tinha nenhuma referência artística da história da fotografia. Mesmo que se perceba uma combinação do cotidiano com o fantástico e o absurdo em seu trabalho, o que por vezes revela ecos de um ou outro artista da vanguarda surrealista, ele se esforçava para não seguir essa ou alguma tendência específica. Suas primeiras fotos eram usadas como referência nas aulas de pintura a óleo, pois era essa a técnica que o interessava na época.
Os primeiros retratos dos seus alunos foram feitos em slides coloridos (cromos) para que pudessem ser mais facilmente reproduzidos em pintura a óleo da forma mais fiel possível. As fotografias em preto e branco que conhecemos do seu projeto surgiram bem depois, produzidas ao longo do tempo de maneira totalmente despretensiosa, sem imaginar que pudessem interessar a alguém, muito menos serem expostas e publicadas.


Uma série, dois fotolivros e a mesma relevância
Ao contrário do que se possa pensar sobre um artista que trabalha com imagens, Benohoud nunca consultava seus arquivos, nem sequer via suas fotos. Em centenas delas, não tinha provas de contato e precisava ver os negativos em contraluz para ter ideia do material, sem nunca fazer ampliações para obter uma visão melhor.
A ideia de se produzir um livro sobre esse projeto veio inicialmente em 2001, quando foi contactado por um editor após preparar uma exposição dessa série na Galeria Vu, em Paris. Na época, entregou algumas centenas de fotos a esse editor, que acabou fazendo um livro com a sua visão. Em um primeiro momento, ficou com a sensação de ter sido excluído de suas próprias escolhas e acabou tendo que intervir para impor algumas fotos de sua preferência.
Mais de duas décadas depois, em 2025, foi novamente contactado por outra editora (a Loose Joints, de Londres), para fazer uma reedição do seu livro. Foi então que ele fez a proposta de produzir um outro livro, explicando que havia várias fotos que ele ainda não tinha visto. Foram resgatadas mais de duas mil imagens ainda em negativos, bem como a permissão de produzir uma nova publicação com a sensibilidade desses novos editores. Dessa vez, ficou surpreendido positivamente com o resultado. A premiação da Aperture no Paris Photo como melhor livro de fotografia do ano consagrou o esforço empenhado na criação desse novo trabalho. Ainda assim, espera um dia editar esta série apenas com a sua própria abordagem, sem a intervenção de terceiros.
Não deixe o artista virar professor
Criada e difundida em 1977 em panfletos performáticos pelo artista Ivald Granato, a famosa frase “Adote um artista, não deixe ele virar professor” foi em seguida resumida de maneira mais enfática para “Não deixe o artista virar professor”. A frase sempre me instigou, tanto que a tinha colada na parede da cozinha da minha casa para não esquecer do que eu realmente desejava. Até finalmente perceber que, por uma simples questão de subsistência, precisava lidar com essa crise e conciliar as duas atividades. De forma que as inquietações trazidas pelo artista também deveriam ser trabalhadas pelo professor, e vice-versa.
Mas lidar com a crise não é superá-la, e sim entrar em choque com as tarefas do ofício docente de ordenar, orientar e avaliar com as do artista, que busca por indefinições, incertezas, e tem a necessidade constante de provocar e desconstruir padrões. Talvez esse seja um dos principais conflitos do artista-professor em uma instituição de controle que é a escola. Sempre em uma posição desvantajosa em relação ao quadro formado pelas outras disciplinas, o professor de artes precisa demarcar território, encontrar brechas e subterfúgios para conseguir realizar o seu trabalho com qualidade, de forma a gerar alguma reflexão e criar sentido. Para ele realmente acontecer, é preciso incomodar, sair de qualquer previsibilidade ou zona de conforto. O que condiz com o pensamento do curador, artista e educador uruguaio Luis Camnitzer ao criticar abertamente o ensino de arte nas instituições formais, argumentando que ele se tornou uma “fraude” ao priorizar a técnica e o mercado em detrimento do pensamento crítico e da invenção.
E foi este o caminho que Benohoud tomou para tornar o cotidiano suportável e seu trabalho relevante dentro desse sistema de controle, já que nunca gostou de ser professor de artes, deixando claro que era apenas um trabalho para ganhar a vida. Talvez também não visse sentido por estar cansado de querer ensinar para quem não queria aprender. Mas a verdade é que sempre sonhou em ser artista em tempo integral e viver exclusivamente dos seus projetos. Quando teve oportunidade de deixar o ensino, não hesitou em nenhum momento e sequer teve tempo de pedir demissão. Deixou sua profissão assim que conseguiu construir uma rede de contatos na França para realizar residências artísticas e expor em uma galeria em Paris. Se organizou para conquistar os seus objetivos, que eram incompatíveis com o ambiente escolar. O caminho foi longo e perigoso, mas emocionante. E como ele mesmo me disse: só se vive uma vez. ///
Fotos gentilmente cedidas por Hicham Benohoud
Rafael Adorján (Rio de Janeiro, Brasil, 1982) é artista, fotógrafo e professor da rede pública municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro. Doutorando em Artes Visuais pelo PPGAV/UFRJ e mestre em Artes pelo PPGARTES/Uerj. Sua pesquisa está relacionada à sobrevivência da imagem nas interseções entre história, memória e cultura. Realizou exposições individuais e coletivas e possui três livros de fotografia publicados, sendo Religare, incluído na lista de melhores livros do Festival PhotoEspaña em Madri, em 2016, e na publicação referencial CLAP! 10×10 Contemporary Latin American Photobooks, editada pela 10×10 Photobooks, de Nova York.














