Revista ZUM 29

Foto(cine)pintura

Telma Saraiva & Bitu Cassundé Publicado em: 5 de fevereiro de 2026

Fotografia: anos 1930; pintura: anos 2000

Fotografia: anos 1930; pintura: anos 1940

Fotografia: anos 1930; pintura: anos 1940

1943

Anos 1940

Fotografia: anos 1940; pintura: 2008

Anos 1950


Anos 1950

1958

1960

1968

Anos 1960
1980
2007

2007

2007

Nas primeiras décadas do século 20, a cidade do Crato, no Cariri cearense, foi um centro irradiador de cultura para a modernização de toda a região, com sua arquitetura imponente, praças arborizadas e a icônica Feira do Crato, que reunia cantadores, cordelistas, gravuristas, o artesanato e o retrato popular. A música de Luiz Gonzaga eternizou o Crato no imaginário nordestino, principalmente entre o Ceará e Pernambuco, e a cultura da feira, com sua multiplicidade de relações, aromas, sabores e imagens, impregnou o chamado Cratinho de Açúcar.

Júlio Saraiva nasceu no Crato, em 1895. Foi um empreendedor, pioneiro na produção de ladrilhos hidráulicos com os Mosaicos Leão e técnico urbanista vinculado a diferentes administrações da cidade. Era um leitor assíduo, fascinado por cinema e fotografia – de tal maneira que construiu ele mesmo sua primeira câmera fotográfica. Começou fotografando nas casas e nas feiras, até abrir o primeiro estabelecimento fixo da cidade – a J. Saraiva Photo –, e depois, com a expansão dos negócios, a Photo Riso. Nesse período, a cidade não tinha energia elétrica, então era necessário utilizar espelhos, cortinas e a luz natural para fotografar. Júlio Saraiva se casou com Maria Passos Arraes – a dona Mirou –, que logo se integrou à rotina do estúdio, dominando os processos técnicos de revelação e cópia, e auxiliando no laboratório fotográfico. Dona Mirou é considerada a primeira fotógrafa profissional do Ceará.

Dessa união, nasceram dois filhos, Salviano Arraes Saraiva e Maria Telma Arraes Saraiva – em homenagem à atriz estadunidense Thelma Todd. Desde cedo, o pai levava Telma ao cinema, dizendo a ela que tinha que aprender logo a ler. No entanto, eram as artistas de cinema que fascinavam a menina: “Via meu pai fazendo aquelas fotografias e comecei a sonhar em desenhar as artistas. Colecionava uma revista em que vinham muitas fotografias de artistas, e fiz um caderno de desenho, já imitando meu pai na parte da pintura da foto – raspava os lápis de cor e fazia um pozinho para imitar o pastel. Eu tinha um álbum completo desses desenhos. Aí comecei a querer fazer também fotografias, me embelezei pelos artistas e quis ser artista”, conta Telma.

O Crato tinha a tradição de salas de cinema, contando, à época, com o Cassino Sul Americano (1920) e o Cine Moderno (1936), e posteriormente o Cine Rádio Araripe (1951) e o Cinema Educadora (1958). Telma Saraiva foi uma assídua frequentadora do Cine Moderno, o que alimentou seu desejo por diferentes mundos e personagens.

A partir dos anos 1940, ela iniciou sua trajetória na fotografia, ao lado do pai e do irmão. Nesse período, Telma ganhou sua primeira câmera fotográfica instantânea. Ao ver uma propaganda das tintas Marshall na revista A Cena Muda, ela pediu ao irmão que escrevesse uma carta em inglês solicitando a compra dessas tintas nos Estados Unidos. Em 1949, Telma se casou com o pintor e fotógrafo Edilson Cordeiro da Rocha. Nos anos 1950, ela assumiu o ateliê do pai, que, por pouco tempo, se chamaria Foto Saraiva. Nesse período, ela aprimorou a técnica da fotopintura.

“Depois de casada, comecei a fazer fotografias profissionalmente. Eu gostava de fazer as roupas, a maquiagem, arranjar renda, cetim, imitando tudo. Tenho fotografias minhas, menina mesmo, que eu fiz. Quando iniciei, não foi propriamente no estúdio, foi fotografando ao ar livre. Meu pai não tinha muita paciência para fotografar crianças. Eu tinha uma máquina Rolleiflex, já batia fotos dos meus meninos, daí comecei com crianças no jardim, que era muito bonito”, conta a artista.

O retrato fotográfico pintado faz parte do imaginário nordestino; é uma fundação de sua memória afetiva. A técnica de transformar uma fotografia feita em preto e branco em colorida, utilizando pintura a óleo, pastel ou aquarela, constitui uma subversão do retrato clássico, em uma popularização da representação do rosto, unindo fotografia e pintura. Os retratistas percorriam cidades, indo a feiras e na casa das pessoas, e produziram uma importante iconografia dessa região. Essas obras estiveram presentes por muitas décadas na residência de diferentes famílias – com técnicas mais ou menos elaboradas, molduras rebuscadas ou não. Com a chegada do Photoshop e a praticidade trazida pela tecnologia digital, a técnica laboriosa da fotopintura foi rapidamente perdendo espaço.

Em termos de técnica, Telma sempre buscou pesquisar e utilizar bons materiais em sua produção. Com o apoio de Salviano, fluente em inglês, conseguiu importar papéis e tintas raros no Brasil, o que garantia durabilidade e excelência a seu trabalho. Ela utilizava papéis fotográficos como o Ektalure e o Kodabromide, da Kodak, ideais para absorver tinta. Também trabalhou com ampliações fotográficas, adaptando-as para as fotopinturas, modificando detalhes de roupas e de fundos para criar novas composições. Utilizava câmeras de médio formato Kiev e Pentax, além das antigas Zorki, com filmes Fuji e Kodak para fotos em preto e branco, ajustando a fórmula e a temperatura do revelador para os papéis mais granulados que gostava de usar. A artista criava fundos personalizados para as fotografias, pintando painéis em lilás, verde e azul.

Telma se destaca na técnica da fotopintura pela sofisticação das nuances: ela utilizava pincéis personalizados, muito finos, para detalhar minuciosamente fios de cabelo, sobrancelhas e unhas; e usava cartolina, papel crepom e outros materiais para criar máscaras, produzindo acabamentos sutis, como nas mangas das roupas. Telma também trabalhou no restauro de fotografias, utilizando técnicas de clareamento e pintura para revitalizar imagens desbotadas ou danificadas. No entanto, a técnica não se sobressai à performatividade que abrangia todo o processo, desde o figurino e a composição até a maquiagem. Ela operava em todas as etapas de concepção da imagem, do conceito à produção.

Mãe de cinco filhos – Roberto, Ricardo, Edilma, Edilson Filho e Ernesto –, Telma destacou-se não somente como profissional da fotografia, mas também como uma artista que reinventava a imagem através da ficção. Com maestria e curiosidade, ela criava um universo próprio, profundamente influenciado pelo cinema. Os móveis da casa da artista foram desenhados por ela com base em referências cinematográficas e executados por um marceneiro local – como no quarto da filha, Edilma, inspirado nos cenários do filme Maria Antonieta (1938), de W. S. Van Dyke.

Edilma conta que, em meados da década de 1950, a casa transcendeu a função de lar, tornando-se o cenário vivo da prática profissional e artística de Telma – um espaço simbólico que acolheu sonhos e alegrias ao longo de gerações. Mesmo pequeno, o terraço se transformava em estúdio, no qual ocorriam verdadeiros rituais fotográficos. As cadeiras da sala e da copa eram rearranjadas para acomodar longas filas de clientes – muitos deles vindos de outras cidades –, especialmente nos dias de fotos de formatura. A movimentação era intensa: grupos de jovens chegavam em transportes coletivos para que seus retratos fossem feitos. A porta da casa permanecia aberta, sustentada apenas por uma bandeirola e um trinco, e a pergunta recorrente “Telma, meu retrato está pronto?” ecoava pelos cômodos da casa, marcando o ritmo de um cotidiano repleto de afeto e criação. Com o passar dos anos, a residência de Telma foi se consolidando como um símbolo da história familiar e da memória fotográfica da região. Ali cresceram Telma, os pais Júlio e Mirou, o irmão, os filhos e até os netos. Era uma casa cheia, movimentada, onde a fotografia não era só um ofício, mas uma vivência cotidiana.

Na icônica residência da rua Tristão Gonçalves, no centro do Crato, hoje funciona o Museu Orgânico Casa de Telma Saraiva, que abriga diferentes coleções, além de um estúdio fotográfico. No entanto, o que mais chama a atenção são os retratos pintados – imagens ritualizadas pelo desejo de criação de novos mundos, que se iniciou no cinema e se projetou durante toda a vida da artista.

O conjunto de 30 autorretratos produzidos a partir do final da década de 1940 cobre uma das paredes mais especiais. Ali, Telma se apresenta vestida de diferentes personagens, incorporando seu fascínio pelas divas do cinema hollywoodiano. Essas imagens podem ser compreendidas também como fotogramas de filme: a coreografia das poses remete diretamente ao gesto cinematográfico, aos mecanismos narrativos que a artista já dominava, apropriando-se da performance.

“Foi aí que começou o meu amor pela fotografia”, conta a artista. “Fiz retratos meus com o espelho: botava uma pessoa lá, focava, ajeitava tudo e, depois, tomava o lugar dela, mandava só apertar o dedo. Às vezes, batia com o obturador, batia com o automático –porque já estavam surgindo máquinas mais modernas.”

Assim germinava, na chapada do Araripe, no Cratinho de Açúcar, em plenos anos 1940, um procedimento contemporâneo sem precedentes para a arte cearense e brasileira. A região do Cariri tem um precioso acervo que conta parte dessa história.

Com o apoio do Centro Cultural do Cariri e do Museu da Imagem e do Som do Ceará, todo o arquivo de Telma Saraiva foi digitalizado: fotopinturas, fotos em preto e branco e coloridas, slides retratos 3×4. Em 2021, foi inaugurado o museu, com apoio do Sesc, mantido e coordenado por Ernesto Rocha, em colaboração com a família Saraiva Leão.

O acervo de Telma inclui as fotos deixadas por clientes, seu mobiliário, figurinos e o estúdio, que estão preservados; mas se destacam, sobretudo, os preciosos álbuns que ela construiu para os filhos, registrando, religiosamente, as diferentes fases de cada um. No álbum de Ernesto, por exemplo, as comemorações eram mensais, instaurando a prática do mesversário, hoje tão banalizada. Por sua vez, os álbuns de Edilma, sua única filha, distinguem-se pela sofisticação técnica, com séries completas totalmente pintadas. Uma das grandes surpresas foi descobrir nesses arquivos a paixão de Telma pelo Carnaval: ela organizava blocos e produzia criativas fantasias. Contudo, talvez não seja novidade que a artista jamais tenha deixado de inventar novos mundos, de diferentes maneiras. ///


Publicado originalmente na edição impressa da revista ZUM #29, disponível na loja virtual do IMS.


Telma Saraiva (Crato – CE, 1928-2015) foi fotógrafa e pintora. Exposições de sua obra incluem Telma Saraiva e a fascinação do mundo (2025), no Museu de Arte do Rio (MAR), Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil (2022), no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, e Telma Saraiva: artífice da imagem (2018), no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE)

Bitu Cassundé (Várzea Alegre – CE, 1974) é curador, pesquisador e educador. Foi curador das exposições Telma Saraiva e a fascinação do mundo (2025), no Museu de Arte do Rio (MAR) e Telma Saraiva: artífice da imagem (2018), no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE), entre outras. É gerente de patrimônio e memória do Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo (CCCARIRI).



Tags: ,