Revista ZUM 3

Infância banida

Plínio Fraga & arquivo do SNI Publicado em: 20 de junho de 2013
Arquivo fotográfico do Serviço Nacional de Informações, órgão de segurança da ditadura, mostra como regime qualificou de “subversivos” e mandou para fora do país crianças de menos de dez anos

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O carro de som estacionado à porta de um dos prédios públicos no Setor de Indústrias Gráficas, em Brasília, tocava uma canção brega de Lindomar Castilho. Em agosto passado, os servidores públicos federais estavam no terceiro mês de greve e, como forma de persuadir os companheiros a engrossar o movimento, executavam diariamente a mesma música de Lindomar, com o refrão “Você é doida demais”, em volume alto, muito alto, torturante.

Tortura foi o que trouxe movimento nos últimos meses à quase sempre pacata sede do Arquivo Nacional. Fotos e documentos tornados públicos em razão da nova Lei de Acesso à Informação, em vigor desde julho, foram colocados à disposição do público. São mais de 15 mil imagens e milhares de relatórios produzidos pelos órgãos dos serviços nacionais de espionagem tirados dos porões e agora expostos à luz.

Estão liberados para consulta imagens de “subversivos fichados”, pastas com o trabalho de campo de espiões, relatos de rotinas de suspeitos de envolvimento em atividades contra os militares no poder. Há fotos constrangedoras, como a de presos, acusados de subversão e de ligação com a luta armada, obrigados a posar nus ou apenas de roupas íntimas. Existem imagens de operações de espionagem de atos de panfletagem de artistas em favor da Lei da Anistia ou em defesa da reforma agrária, comandados por d. Hélder Câmara.

Há ainda fotos de corpo inteiro do jornalista Vladimir Herzog de 25 de outubro de 1975, o dia de sua morte. Nessas imagens, vê-se uma mancha escura em seu pescoço, um indício a mais a comprovar que os militares forjaram a versão do suicídio em cela. Existem ainda fotogramas até então não conhecidos do líder revolucionário Carlos Lamarca, momentos depois de ter sido morto por tropas da repressão. Essas fotos foram publicadas na imprensa recentemente.

O lote de imagens e documentos do Arquivo Nacional ainda revela faces inéditas da história nacional. Uma delas mostra como crianças foram tratadas de subversivas e terroristas pelos órgãos de segurança, mantidas afastadas dos pais e ameaçadas de doação. Há relatos de filhos que se lembram de ter visto os pais serem torturados. Na Argentina, filhos de militantes de esquerda foram doados para as famílias de seus algozes e só recentemente o país descobriu, em choque, essa troca cruel feita pela ditadura. No Brasil, o regime usou outra estratégia. Baniu o comunismo infantil.

Ernesto Carlos tinha dois anos em 15 de junho de 1970. Zuleide, quatro; Luiz Carlos, seis; e Samuel, nove. São irmãos de criação e parecem crianças comuns às vésperas de uma viagem em fotos dispersas no Arquivo Nacional. Mas não estão confortáveis diante do operador da câmera. As imagens que protagonizam vão acompanhar mais tarde o trabalho de um agente de polícia, que escreverá após o nome de cada um deles numa ficha: “subversivo”.

O presidente Emílio Médici e o ministro Alfredo Buzaid haviam assinado o decreto nº 66.716 com o “banimento” do Brasil de 40 militantes políticos acusados de terrorismo. Eram apenas crianças, e aparecem como apêndice no decreto. Mas se tornaram cidadãos sem pátria até a lei da Anistia, em 1979. Cresceram em Cuba e só retornaram ao país 15 anos mais tarde para recomeçar a vida. Uma vida com trauma e sotaque.

Eles se lembram pouco das fotos que registram seus últimos momentos no Brasil. Foram feitas por policiais ou militares da aeronáutica, ou por ambos em momentos simultâneos ou diferentes. Muito provavelmente foram fotografados primeiro numa delegacia, na base aérea em São Paulo, e depois ao chegarem ao Rio, para onde foram levados de helicóptero, horas antes do embarque num avião fretado da Varig rumo à Argélia, que na época vivia sob um regime dito socialista. Depois de dois meses lá, seguiram para Havana, paraíso da esquerda revolucionária nos anos 1970 e endereço residencial das crianças pelos 15 anos seguintes.

“Nem sei quem me deu aquela boneca que está nas minhas mãos. Era uma maneira de distrair a gente, mas aquelas lembranças estão bloqueadas”, disse Zuleide Aparecida do Nascimento, 47 anos, secretária que hoje mora em São Paulo. A boneca era inseparável. Zuleide aparece agarrada a ela em duas fotos dos arquivos de segurança da ditadura, trajando roupas diferentes. “Mais que a lembrança, ficou o trauma”, afirmou Ernesto Carlos Dias do Nascimento, 44 anos, num momento de pausa da campanha na qual está engajado, de um candidato petista a vereador em Guarulhos. “Não posso ver farda, não posso ver polícia nem reunião de muita gente.” Numa das fotos, Ernesto, o irmão caçula, é instado a olhar para a câmera por Luiz Carlos, como se atendesse a um chamado do fotógrafo. “Deve ter sido isso, mas eu não me lembro.”

 

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Samuel, 9, Zuleide, 4, Ernesto Carlos, 2, e Luiz Carlos, 6, com a “tia” Tercina em foto de junho de 1970 encontrada nos arquivos do Serviço Nacional de Informações. Fichadas como “subversivas”, as crianças foram fotografadas no doi-Codi do Rio de Janeiro antes de serem mandadas para a Argélia com outros 40 presos políticos trocados pelo embaixador alemão sequestrado naquele ano.

 

Zuleide, Ernesto, Luiz Carlos e Samuel eram filhos, sobrinhos e netos de militantes esquerdistas que resistiram à ditadura. Sem documento nenhum, embarcaram em direção ao exílio numa segunda-feira do mês em que o Brasil seria tricampeão mundial de futebol – na véspera, pelas quartas de final, o escrete nacional vencera o Peru por quatro a dois e se preparava para enfrentar o Uruguai na semifinal.

As crianças estavam sob os cuidados da avó, Tercina Dias de Oliveira, então com 55 anos, a mais idosa militante política presa pela ditadura. No avião, seguiam juntos outros 40 presos políticos brasileiros. Tinham sido liberados por exigência dos sequestradores do embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig von Holleben. Ele fora capturado em 11 de junho de 1970 por grupos políticos que se diziam revolucionários e que o governo militar chamava de terroristas.

Pela memória de Zuleide e Ernesto, estas fotos poderiam ter sido feitas em São Paulo, na delegacia ou na base aérea, momentos antes da transferência para o Rio. Mas as recordações do historiador Daniel Aarão Reis, um dos presos trocados pelo embaixador alemão, dão luz a essas memórias infantis nebulosas. “Estas fotos minhas foram tiradas no doi-Codi [órgão do exército que centralizava a repressão], na rua Barão de Mesquita [na Tijuca]. No momento da captura do embaixador alemão, eu me encontrava no presídio da Ilha Grande. Antes de sair de lá, em direção ao Rio, com escala para almoçar no presídio de Bangu, foram tiradas várias fotografias, das quais uma série foi feita por uma dupla que não escondia a nacionalidade estadunidense”, disse. “Chegando ao doi-Codi, onde todos os que estavam na lista iam sendo concentrados, nova sessão de fotos. Distingo bem porque estava então vestido com uma camisa de mangas compridas emprestada pelo Gabeira. A ideia era ocultar as marcas de tortura no meu antebraço.”

As fotos de Aarão Reis e da família Nascimento têm um padrão em comum: o mesmo tipo de pano de fundo e de azulejo na parede, o que sugere que foram feitas no mesmo ambiente. “Quando dona Tercina Dias foi presa, as crianças que estavam com ela foram recolhidas numa casa de menores em São Paulo, e ela ficou no Dops. Depois, todos foram reunidos e partiram para o Rio”, contou Aarão Reis.

O historiador fez ainda uma importante ressalva ao uso da palavra “banimento”. “Foi uma figura jurídica criada pela ditadura para racionalizar a nossa partida. Mas eu e meus companheiros não fomos banidos. Fomos libertados por uma ação revolucionária.

Banimento virou um lugar-comum. Num país que chama os que lutaram por sua independência de inconfidentes ou traidores, é assim mesmo. A versão da polícia é a que fica.”

Em fevereiro de 2012, a Comissão de Anistia, órgão de Estado que analisa a concessão de reparação oficial aos perseguidos pela ditadura, aprovou indenização de 100 mil reais a Ernesto, com um pedido de desculpas formal. Zuleide, Luiz Carlos e Samuel já tinham obtido o mesmo valor de indenização em processos anteriores.

O status jurídico das crianças que acompanharam os 40 banidos em troca da libertação do embaixador alemão parece confuso, a princípio. Em vários documentos, são citados como “sob os cuidados” de Tercina Dias de Oliveira, a avó. Mas, durante o processo de indenização na Comissão de Anistia, Ernesto Carlos obteve documentos do antigo Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo que são claros e específicos.

No protocolo de custódia entre autoridades policiais, um agente escreveu: “Entregamos mediante recibo os seguintes presos: Samuel, Luiz Carlos, Zuleide e Ernesto”. Adiante, esclarece: “Os presos relacionados foram qualificados e examinados pelos peritos deste departamento e postos sob a responsabilidade do delegado Renato Paiva Barboza, gabinete da Polícia Federal”. O documento se encerra explicando sua razão de ser: “Presos custodiados da relação de elementos subversivos solicitados para resgate”.

Na sessão da Comissão da Anistia em que Zuleide teve reconhecido seu direito à indenização, o relator do processo pediu desculpas em nome do Estado e realçou o absurdo de crianças terem sido banidas e formalmente apontadas como subversivas. “Não fui torturada fisicamente, mas fui torturada psicologicamente.Não se interessaram pela minha dor. Fui separada da minha avó, a única mãe que tive de verdade. Fui levada gritando e chorando. Meu irmão mais velho ficou detido entre trombadinhas”, declarou Zuleide. Ela é filha de Sebastião Pivoti do Nascimento, filho de criação de Tercina Dias de Oliveira.

Tercina morreu aos 90 anos, em 2004. Conhecida como “Tia”, foi uma lenda na esquerda brasileira. Teve quatro filhos de quatro casamentos, criou cinco outros filhos como seus e foi avó e mãe emprestada de dezenas, como ela recordava. O filho que a levou para a militância política foi Manoel Dias do Nascimento, um líder sindicalista que a fez costurar fardas para os guerrilheiros comandados por Carlos Lamarca. Tercina, com os netos, viveu no sítio no vale do Ribeira em que Lamarca comandava treinamentos militares. Sua função com as crianças era “dar fachada” de normalidade à residência principal. Foi presa numa casa em Jacupiranga, interior de São Paulo, com três das quatro crianças. Ernesto fora preso antes, com a mãe, Jovelina. Tercina disse que, em seu interrogatório, certo capitão Gaeta chegou a dar-lhe com a palmatória três vezes. Ela, uma senhora de meia-idade, perguntou a ele: “Você não tem mãe, não?”.

Foi esse capitão arrependido que ajudou Tercina a reunir-se com os netos, ao ser incluída na lista dos presos políticos que seriam trocados pelo embaixador alemão, a pedido de Lamarca. As crianças tinham sido mantidas em unidades separadas, e volta e meia alguém as ameaçava de internação em orfanatos.

Banida para Cuba, Tercina cuidou das quatro crianças Nascimento numa casa em que vivia com mais um casal e outras três crianças, filhas de Damaris Lucena, também militante política banida, viúva de Antônio Lucena, um dos homens de confiança de Lamarca.

Em Cuba, as crianças tentavam se adaptar. Zuleide foi estudar na escola Vietnã Heroico. Viviam em La Lisa, a oeste de Havana. Com muito atraso, chegavam jornais do Brasil. Ernesto se lembra de um exemplar guardado, com a foto dos 40 banidos em troca do embaixador alemão: “Estava escrito ‘terroristas’ no título. E eu estava entre eles. Eu perguntava para minha avó se eu era terrorista também”, conta hoje.

Das quatro crianças da família Nascimento, Ernesto é o único filho de Manoel Dias do Nascimento e Jovelina Tonello do Nascimento. Ambos também estavam presos à época do banimento. Jovelina conta que Ernesto estava em seu colo quando uma caminhonete dirigida por Lamarca foi obrigada a furar um bloqueio policial nos arredores do vale do Ribeira. Escapou desse primeiro cerco, mas foi presa meses depois, com o filho, que foi levado para junto dos irmãos de criação quando Tercina foi banida.

Em fevereiro de 1971, Manoel e Jovelina foram incluídos entre os 70 militantes de organizações de esquerda trocados depois do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Desembarcaram em Santiago do Chile, quando dois cineastas norte-americanos, Haskell Wexler e Saul Landau, estavam por lá para entrevistar o então presidente, o socialista Salvador Allende.

Wexler e Landau souberam que os brasileiros narravam ter sido duramente torturados na cadeia. Dirigiram-se ao parque Cousiño, em Santiago, e ligaram a câmera. O resultado foi Brasil, um relato da tortura (1971), a primeira e mais impressionante narrativa do que acontecia a cidadãos brasileiros em dependências controladas pelo Estado.

Quando foram entrevistados por Saul Landau, Manoel e Jovelina contaram que Ernesto testemunhou a sevícia dos pais. “Antes de eu descer do pau de arara, minha companheira chegou com meu filho. Este filho assistiu parte da tortura. Em seguida, puseram minha companheira no pau de arara, tomando choque em todas as partes do corpo, inclusive nas partes íntimas. Na minha presença. Só para eu falar alguma coisa”, disse ele no filme.

“Eu cheguei e fui torturada. Meu filho foi torturado. Não posso falar do filho…” Jovelina começa a chorar. “Ela fica emocionada porque a criança passou muito mal. A criança ficou num estado em que não aceitava a mãe. Ficou num estado desesperador, que não reconhecia a gente”, completou Manoel no depoimento a Landau.

Jovelina aparece secando as lágrimas e prosseguindo: “Ele dizia: ‘Não pode bater no papai. Não pode’. Para mim foi muito duro. Batiam muito em mim, mas não me perguntavam nada porque sabiam que eu não tinha participação nenhuma”.

 

 

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Jovelina Tonello e Manoel Dias do Nascimento, pais do garoto Ernesto, enviados ao Chile no chamado “vôo da liberdade”. Jovelina foi torturada na frente do filho.

 

Jovelina e Manoel Dias do Nascimento eram da Vanguarda Popular Revolucionária, organização de extrema-esquerda que utilizava táticas de guerrilha urbana contra a ditadura militar brasileira. Chegaram a Cuba no dia 15 de agosto de 1971 e lá reencontraram Ernesto. Passaram semanas num hotel, longe dos irmãos de criação, que estavam com Tercina, na tentativa de uma readaptação. Ernesto os rejeitava. A reaproximação foi difícil, porque sempre interrompida por adestramentos, reuniões, obrigações revolucionárias.

A militância entrara de vez na vida de Jovelina, que foi fazer treinamento de técnicas de guerrilha na Coreia da Norte. Voltou com Manoel Dias para o Chile em 1972, preparando-se para retomar operações de guerrilha no Brasil. Veio o golpe que derrubou Allende. Ficou presa no Estádio Nacional, conseguiu fugir com o marido, abrigaram-se num refúgio das Nações Unidas e escaparam para Cuba outra vez.

A família se reuniu novamente. Jovelina fez curso de enfermagem e largou a militância. Voltou com Manoel Dias ao Brasil em 1985, preparando o terreno para trazer a família Nascimento, o que só ocorreria quatro anos mais tarde. Jovelina e Manoel se separaram. Ele até hoje é uma das lideranças sindicais ativas na Grande São Paulo. Os dois receberam indenização da comissão de Anistia pelo tempo no exílio. Manoel ganhou mais de 620 mil reais em processo de 2007, quando não havia um teto legal para os anistiados. Ela ganhou 75 mil, mais 900 reais por mês em benefícios vitalícios, em processo concluído em agosto passado.

Haskell Wexler, 86, duas vezes vencedor do Oscar de melhor fotografia, e Saul Landau, 78, professor emérito de cinema na Universidade da Califórnia, autor de 14 livros e duas dezenas de documentários, continuam ativos. “Este filme é o primeiro registro gravado a estabelecer que o governo brasileiro praticava rotineiramente a tortura. Fico satisfeito de o termos feito. A tortura ainda prevalece em muitos países, e nosso filme mostra o que ela causa às pessoas. Acho que deve ser visto pelos brasileiros como parte de sua história”, disse Landau quando lhe informei que Um relato da tortura foi exibido pela primeira vez na TV brasileira em agosto deste ano, no Canal Brasil, 41 anos depois do lançamento.

Landau afirmou “sentir saudade” dos dois personagens mais marcantes de sua obra: Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dora, uma estudante de medicina de 27 anos que relatou torturas físicas, sexuais e psicológicas com clareza, segurança e tranquilidade – em alguns momentos, sorriu. Landau perguntou do quê. “De nervoso”, respondeu ela. E frei Tito Alencar, que narrou que, durante as torturas, torcia para morrer logo. Os dois suicidaram-se alguns anos depois. Dora foi citada pela presidente Dilma Rousseff quando tomou posse: “Queria que você estivesse aqui para ver tudo isso”.

Dora faz um relato aterrorizante de sua prisão: “[Eles] nos tiraram a roupa e fizeram uma série de torturas: espancamentos, ‘telefone’, fizeram simulação de atos sexuais e chamaram todos os outros funcionários do Dops para assistir. Deixaram-me em pé cerca de seis horas; deram-me choques elétricos. As mulheres eram torturadas com choques na vagina, seios e orelhas”. Quatro anos mais tarde, ela se jogaria numa plataforma de metrô na cidade de Colônia, na Alemanha.

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Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dora, entrevistada no filme Brasil, um relato da tortura (1971).

“Recordo que Haskell e eu ficamos encantados com Maria Auxiliadora e impressionados com alguns outros revolucionários, por sua força e comprometimento. Também me lembro da minha dificuldade com a língua, falando espanhol e tentando entender português e portunhol”, disse Landau, cujo filme mais recente é Will the Real Terrorists Please Stand up?, sobre cinco cubanos presos em Miami acusados de espionagem.

 

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Daniel Aarão Reis no Doi-Codi, com a camisa emprestada por Fernando Gabeira para ocultar as marcas de tortura no antebraço.

O cineasta americano lembra-se de poucas reações inflamadas ao filme nos Estados Unidos, à exceção de uma, inesquecível por vir do então homem mais rico do mundo. “David Rockefeller ameaçou retirar sua muito significativa contribuição para a TV pública de Nova York se ela o transmitisse. Eles transmitiram, e a ameaça caiu no vazio. Ele tinha altíssimos investimentos no Brasil. Mas no geral não houve muita reação, até porque nem tivemos uma grande audiência nacional”.

Dos 70 presos políticos banidos, 54 estão vivos, na contagem de Francisco Mendes, um dos que estavam entre eles. Dos 16 que morreram, oito foram assassinados ou se mataram.

Hoje cineasta e produtor, Jom Tob Azulay era cônsul-adjunto do Brasil em Los Angeles, em 1971, quando assistiu a Brasil, um relato da tortura pela primeira vez. Azulay ouviu de Wexler a queixa de que, pior do que os EUA terem apoiado a tortura em nações latino-americanas, só o fato de a terem colocado em prática em prisões como a de Guantánamo nos dias atuais.

Azulay comanda a produção de Setenta, filme de Emília Silveira e Sandra Moreyra. Mais de 40 anos depois, as duas recontam a trajetória de alguns dos integrantes do chamado “voo da liberdade”, como ficou conhecida a viagem do Rio ao Chile com os 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço. “O Brasil vive uma nova anistia, com a abertura de informações que antes estavam trancadas em cofres do Estado”, analisou Emília.

No filme de Wexler e Landau, durante depoimentos severos e emocionados, três crianças louras aparecem por vezes assustadas, por vezes doces e brincalhonas, sempre por trás dos protagonistas. São Fátima, Cátia e Bruna Piola, à época com oito, quatro e três anos, também registradas em foto do SNI. Filhas do italiano Bruno Piola e da brasileira Geni Cecília, estavam no avião que levou os 70 banidos, mas não foram formalmente incluídas no decreto que retirava a cidadania de todos eles.

A família Piola vive numa cidade do interior da Itália. Bruno, preso acusado de montar uma empresa de fachada no interior do Rio Grande do Sul para traficar armas e dar fuga para terroristas pelo rio Uruguai, recebeu 100 mil reais de indenização do Estado. As imagens das meninas Piola encerram um outro filme sobre os banidos do Chile, No es hora de llorar, de Luiz Alberto Sanz e Pedro Chastel, filmado meses após o de Wexler e Landau. Estão no colo da mãe e ilustram o momento que Geraldo Vandré canta “Pra não dizer que não falei das flores”. Elas estiveram no Brasil em dois encontros promovidos pelos integrantes do “voo da liberdade”, um no restaurante Lamas e outro na cantina Fiorentina, no Rio. “São mulheres lindas hoje”, atestou Francisco Mendes, um dos organizadores dos encontros. ///

 

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Geni Cecília com as filhas Fátima, 8, Bruna, 3, e Cátia, 4, enviadas ao Chile em troca da libertação do embaixador suíço.

 

Plínio Fraga é jornalista.

Reprodução das imagens Haruo Mikami.

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