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Ryan, morro do Cajueiro: o que o luto não deixa ver

Miguel Conde Publicado em: 04 de abril de 2016
Mãe do menino Ryan Gabriel, morto por bala perdida em Madureira, deitada sobre o caixão do filho no velório no Cemitério de Irajá. Foto de Gabriel de Paiva/ Agência O Globo.

Mãe do menino Ryan Gabriel, morto por bala perdida em Madureira, deitada sobre o caixão do filho no velório no Cemitério de Irajá. Foto de Gabriel de Paiva/ Agência O Globo.

Uma fotografia de Gabriel de Paiva publicada pelo jornal O Globo em sua edição do último dia 30 de março registra o velório de Ryan Gabriel, um menino de quatro anos morto durante um tiroteio entre traficantes no Morro do Cajueiro, em Madureira. A imagem mostra a mãe de Ryan, Tayane Pereira da Silva, debruçada sobre o caixão do filho, atingido por uma bala nas costas quando brincava em frente à casa dos avós durante o domingo de Páscoa.

É um registro do luto que foge aos padrões do que já se poderia considerar um gênero especializado do fotojornalismo brasileiro, dada a disseminação endêmica entre nós da violência urbana, cujas principais vítimas são jovens negros e pobres, como Ryan. Por meio desse desvio da norma, a imagem recupera algo da dimensão individual e trágica do acontecimento. Dá, sem estardalhaço, a devida nota de urgência a um episódio que, noticiado de outra maneira, poderia ser recebido com indiferença, como sendo apenas a mais recente reiteração da rotina de mortes violentas nas áreas pobres das grandes cidades brasileiras.

Nesse efeito, faz pensar em outras imagens recentes da violência carioca, como a do carro varado pelos mais de cem tiros dos policiais que assassinaram um grupo de jovens de Costa Barros ou o vídeo de celular que captura o desespero da mãe do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, logo depois de seu filho ser morto por um PM com um tiro na cabeça em frente à sua casa no Complexo do Alemão (durante um tiroteio, diz a polícia, o que foi contestado por alguns moradores). Se a morte de Ryan se distingue desses outros episódios pelo fato de que, até onde se sabe, o tiro que o atingiu partiu de traficantes, e não da polícia, o registro do seu velório também se diferencia das outras duas imagens por sua maneira mais indireta, embora a seu modo também contundente, de sintetizar a tragédia.

A fotografia chama atenção de imediato em razão daquilo que não exibe, ou da maneira como aquilo que exibe impõe uma interdição. Entre o caixão e nosso olhar, o corpo de Tayane se interpõe. Não vemos o morto que está sendo velado, nem tampouco o rosto da mulher jovem, de chinelo e bermuda jeans, virada de costas para a câmera. Em lugar de lágrimas ou expressões de desespero, a fotografia enquadra um enlace silencioso que traz para o primeiro plano, na ocasião pública do velório, a intimidade da relação afetiva entre mãe e filho. Debruçada sobre o caixão de Ryan, Tayane está sozinha (impressão acentuada se sabemos, como foi noticiado, que o pai de Ryan está preso e a Justiça não autorizou que ele comparecesse ao enterro do filho). De tal maneira, que a foto (e, de tabela, nosso próprio olhar) chega a parecer uma intromissão. Podemos pensar que a morte violenta de uma criança (ou de qualquer pessoa) sempre nos diz respeito. Mas o registro de Gabriel de Paiva me obriga a reconhecer, ao mesmo tempo, que num outro sentido a morte de Ryan de fato não me diz respeito. Entre minha solidariedade e a dor de Tayane, há um abismo.

Tudo na imagem demonstra, ainda, que é necessário acrescentar uma qualificação à descrição dessa diferença. Pois não se trata apenas de uma diferença individual entre a dor de quem perde um filho e a reação do leitor de jornal ao tomar notícia do episódio. As roupas simples de Tayane e a cor de sua pele, a luz queimada de uma das luminárias, a mesa sem qualquer adorno deixam claro que a criança morta era de família pobre. Como tudo no Brasil, também a morte e o luto são profundamente desiguais.

A fotografia de Gabriel de Paiva, no entanto, não faz da morte de Ryan apenas um emblema genérico de uma questão de classe. A imagem, paradoxalmente, individualiza o luto de Tayane pela omissão do rosto, expressão mais evidente da nossa individualidade. É a presença central e inesperada do corpo que se torna, aqui, singular. Sentada de maneira meio desajeitada sobre a mesa, os pés soltos no ar, Tayane cobre parcialmente o caixão. O gesto é uma expressão inequívoca de afeto, mas possui ao mesmo tempo algo de mais ambíguo, menos rapidamente decifrável do que uma expressão facial de sofrimento. Parece um carinho, mas também uma tentativa de proteção. Não sabemos há quanto tempo Tayane está ali, e alguma coisa na maneira como o corpo se projeta sem reservas sobre o caixão sugere que ela poderia estar inconsciente, desmaiada ou adormecida junto ao filho. “Vou morrer junto”, Tayane disse durante o enterro, e é ainda disso que a imagem fala, de uma impossibilidade: o desejo de estar junto mais uma vez, ainda que na morte.

O corpo debruçado sobre o caixão bloqueia meu olhar, me mantém de fora da situação. Repõe a distância que uma empatia superficial pretenderia anular, sensação de afastamento reforçada, na edição impressa do jornal, pela publicação fora de registro, que dá à imagem um ar fantasmagórico. Lançado de volta sobre si mesmo pelo obstáculo do corpo, o leitor do jornal talvez seja levado a reconhecer uma medida de voyeurismo ou de curiosidade trivial na sua atitude mais rotineira enquanto passa os olhos pelas notícias do dia. O gesto de Tayane chega tarde para salvar a vida do filho, mas talvez procure protegê-lo dessa derradeira violência.

Quando a tragédia individual ganha dimensão pública, sua singularidade tende a ser apagada. Num extremo, que é fácil repudiar, pela conversão da tragédia em anedota, curiosidade. Em outro, mais ambíguo, pelo empenho na elucidação de suas causas. Explicar a tragédia, tomá-la como caso particular de um fenômeno geral seria necessário para evitar, como ouvimos tantas vezes, que “histórias como aquela” continuem a se repetir. Daí, a necessidade de mostrar que a “fatalidade” não é um acaso, pois tem razões sociais que se poderia entender e remediar. Em sua vinculação reiterativa dos acontecimentos a uma mesma causa já conhecida de antemão, essa generalização não deixa de implicar também, apesar de suas boas intenções políticas, certa forma de indiferença. Trata-se obviamente de uma repetição necessária, que no entanto se torna ineficaz, e talvez no limite contraproducente, se não é capaz de também perceber e transmitir ao menos uma parcela do que, em cada tragédia individual, escapa à generalização.///

 

Miguel Conde é jornalista, doutorando em Letras na PUC-Rio e Visiting Research Fellow na Brown University. Trabalhou no jornal O Globo e na editora Rocco, e foi curador da Flip em 2012 e 2013.

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