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Conheça 10 livros de fotografia africana fundamentais

Ben Krewinkel Publicado em: 10 de julho de 2017

 

O fotógrafo e historiador holandês Ben Krewinkel se apaixonou pela cultura africana nos anos 1990, quando estudava a história moderna do continente. Viveu na África do Sul por um ano e visitou outros países, já interessado em fotografia, mas só se tornou fotógrafo depois, quando também iniciou uma ampla coleção de fotolivros.

Atualmente, é o criador e editor do blog África em fotolivros, uma referência sobre a produção de livros de fotografia africanos. “Depois de ter uma cópia de Pão nosso de cada noite, do fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel, comecei a focar mais seriamente em livros sobre a África ou de artistas africanos, que, no início deste século, não eram muito fáceis de encontrar em livrarias holandesas”, conta Krewinkel.

ZUM pediu a ele uma seleção dos 10 fotolivros africanos de maior destaque na sua coleção. Veja abaixo a lista comentada:

Resistência popular generalizada (1976-77), fotógrafos desconhecidos.

Uma bela publicação produzida como material de propaganda pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), partido que governava Angola na época. O livro vem em uma luva, acompanhado de um pôster. As fotografias são muito boas e o design também é maravilhoso. Este livro pode ser visualizado completamente no blog. Não costumo fazer isso por questões de direito autoral, mas como nesse caso quero saber quem foi o designer, decidi disponibilizar todo o livro. Provavelmente os fotógrafos eram todos do MPLA.

 

Pão nosso de cada noite (2004), Ricardo Rangel.

Pão nosso de cada noite foi publicado como um presente para Ricardo Rangel, um dos fotógrafos mais importantes de Moçambique. Gosto deste livro por ter um escopo muito específico. Rangel fez as fotos nos anos 1950 e 1960 em Lourenço Marques, antigo nome da capital do país (hoje Maputo). O trabalho é um estudo fotográfico da rua Araújo, a região da prostituição perto do porto, na época em que o país era colônia portuguesa.

 

Frelimo (1973), Tadahiro Ogawa.

Este fotógrafo japonês foi convidado pela Frelimo, Frente de Libertação de Moçambique, para visitar e fotografar áreas “libertadas” do país. Tanto o design como as imagens deste livro são impressionantes. Para ser exato, a cópia que eu possuo não é um livro, mas uma revista chamada Sun. Este trabalho também foi publicado no formato de fotolivro. Lembro de ter visto um há vários anos, mas não me recordo se o conteúdo é o mesmo da revista. A capa da revista é melhor, isso eu me lembro.

 

Na vila (2011), Malick Sidibé

Um achado recente que um amigo me apresentou. Este livro contém um trabalho pouco conhecido mas igualmente genial, do famoso fotógrafo. Ele documenta as várias visitas que Sidibé fez à sua vila natal, tanto em fotos coloridas como em preto e branco.

 

 

 

Nada é em vão (2017), Emmanuelle Andrianjafy

Este livro acaba de ganhar o prestigioso prêmio de primeiro livro da editora britânica Mack (First Book Award). A fotógrafa malgaxe realizou o projeto em Dacar, no Senegal, um local desconhecido para ela. Explorar uma cidade nova é também o tema do meu atual projeto fotográfico, em Niamey, capital da República do Níger. Andrianjafy e eu estamos em terrenos parecidos em nossos trabalhos.

 

 

Dias inquietos (2009), Bruno Boudjelal

Sem dúvida, este é um dos livros com o mais belo design que conheço. No formato de diário, é um trabalho bastante íntimo feito por Boudjelal na Algéria, para onde vai em busca da terra natal do seu pai e de alguns familiares desconhecidos. Tudo isso serve como pano de fundo para contar a complexa história política do país.

 

 

Agossou. O pequeno africano (1955), Dominique Darbois

O fotógrafo e humanista francês Darbois apoiou movimentos de independência em vários países africanos. O seu Os argelinos em guerra (1961) é sobre a Frente de Libertação Nacional (FLN), em luta contra o governo opressor francês, com imagens fortes e perturbadoras dos violentos embates. Eu gosto muito desse livro, mas prefiro o livro infantil Agossou. Ele faz parte de uma série que Darbois fez ao redor do mundo, e deve ter influenciado com sua beleza a percepção do que é a África para muitas crianças europeias. O design, que acredito ser de Pierre Pothier, é brilhante. O livro teve uma tiragem muito grande e ainda é fácil de encontrar por um preço razoável.

 

O silêncio (1995), Gilles Peress

Um livro de virar o estômago e um bom exemplo de fotografia engajada. Ou melhor: fotografia enraivecida. Foi realizado logo após o genocídio em Ruanda, que não foi coberto pela mídia mundial com a contundência que merecia. É narrado como se fosse a lembrança de uns dos responsáveis pelo massacre e que está aguardando julgamento. É um livro que assombra.

 

 

Alguns africânderes fotografados (1975), David Goldblatt

Primeiro fotolivro do fotógrafo sul-africano David Goldblatt, Alguns africânderes fotografados talvez não seja tão bom quanto Boksburg (1982), mas é o livro da minha coleção pelo qual tenho maior carinho. Ganhei de presente quando estudava os “brancos pobres” da cidade de Durban (África do Sul) nos anos 1930. Por ser um sul-africano que falava inglês, Goldblatt decidiu focar seu trabalho na comunidade de africânderes [grupo étnico da África do Sul, descendentes dos colonos calvinistas, principalmente da Holanda]. Mesmo assim, conseguiu fotografar esta comunidade de forma respeitosa e calorosa. Este trabalho apresenta alguns dos seus melhores retratos. O livro foi um desastre financeiro e é quase impossível de encontrar. Foi reeditado anos depois como Alguns africânderes revisitado, mas com qualidade inferior.

 

Kenyatta. Uma biografia fotográfica (1967), Anthony Howarth e outros

Este é um desses livros que eu nunca imaginei que existisse. Publicado no Quênia, Kenyatta é uma biografia muito bem editada, com um destacado sequenciamento de imagens. Ian Howes, o designer, utilizou fotos de arquivo, recortes de jornais e fotografias da época para construir essa visualmente deslumbrante biografia de Jomo Kenyatta, ex primeiro-ministro e presidente do Quênia no anos 1960 e 1970. Uma reedição foi lançada em 1972, mas com papel e impressão inferior à primeira. Eu aconselharia colecionadores a adquirir uma cópia, visto que este livro ainda está disponível por um preço razoável. Para mim, é uma joia escondida.///

 

 

Ben Krewinkel (1975) é fotógrafo, historiador e crítico de fotografia. É mestre em História e Estudos Fotográficos e leciona fotografia na escola de jornalismo de Utrecht, na Holanda. Publicou dois fotolivros com temática africana: Uma vida possível (2012) e Procurando por M. (2014).

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