Colunistas

A Hong Kong de Fan Ho

Dorrit Harazim Publicado em: 10 de novembro de 2014

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Sombra se aproximando, 1954, publicada em Hong Kong ontem
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A parada do mercado, 1963, publicada em O teatro vivo

Até o fim deste ano chega às livrarias virtuais e convencionais, começando pela loja do Museu de Arte Moderna de Nova York, o terceiro volume da trilogia sobre Hong Kong iniciada 60 anos atrás pelo fotógrafo Fan Ho. Para os cultuadores da obra do mestre chinês tido como soberano no domínio da luz, da composição e da paciência, Uma memória de Hong Kong tem tudo para ser um presentão de Natal. Tudo, menos o preço.

Em se tratando de Fan Ho, a coisa é sempre salgada. Os dois primeiros volumes da série, O teatro vivo (2008) e Hong Kong ontem (2012) custariam, respectivamente, US$150 e US$75, preço razoável para a extraordinária qualidade de ambos. Só que estão esgotados. E as supimpas edições numeradas disponíveis na editora Modernbook custam US$750. Na Amazon, um exemplar da edição comum de Hong Kong ontem está sendo oferecido por US$1.250. Portanto a quem cobiçar o aguardado lançamento recomenda-se fazer desde já a compra antecipada, oferecida por US$65 no site da Modernbook.

Fan Ho trocou Xangai por Hong Kong em 1949, quando tinha 21 anos. À época o território se encontrava em fase de transição pois acabara de emergir da ocupação japonesa da II Guerra Mundial e retornava ao controle colonial britânico.

Foi o prêmio obtido num concurso local de fotografia, do qual participara de forma quase casual, que levou o jovem Fan a escolher a linguagem da imagem como sua forma de expressão – tanto a imagem em movimento como o registro estático do instante.

Escolha acertada, se considerarmos os 280 prêmios de concursos internacionais que ele amealhou a partir de 1956 e os convites para lecionar em 12 universidades Sem falar nos 20 filmes que dirigiu, três dos quais selecionados para os festivais de Cannes, Berlim e São Francisco.

A Hong Kong que Fan Ho nos revela ainda é a que os viajantes ocidentais descreviam como a Pérola do Oriente. Ela portanto nada se assemelha à atual metrópole de arranha-céus de simetria acachapante retratada pelo australiano Peter Stewart. Nem às imagens da monumental arquitetura de gaveta captada pelas lentes do alemão Michael Wolf – um dos prédios fotografados por Wolf tinha 100 apartamentos de três metros quadrados antes de ser demolido.

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O estudo dela, publicada em Hong Kong Ontem

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Janelas brancas, 1962, publicada em O teatro vivo

Essa Hong Kong que hoje faz plantão na rua e exige mais democracia começou a se formar entre 1945 e meados dos anos 1950. A guerra civil que sacudiu a China continental à época fez com que hordas de refugiados inundassem a cidade-ilha. Em apenas uma década a população saltou de 600 mil para 2,2 milhões de pessoas. Hoje são 6,5 milhões que se empilham numa das cidades mais verticais do planeta e formam o terceiro centro populacional mais denso, agitado e moderno do mundo.

É essa densidade que explica porque os manifestantes de 2014 não fincaram seus guarda-chuvas de protesto em uma praça central: ao contrário do Cairo, onde a “primavera” se concentrou na praça Tahrir, ou de Kiev, que transformou a praça Maidan em QG da rebelião anti-governo ucraniano, Hong Kong é apertada demais para ter praça. Tem apenas grandes cruzamentos de ruas.

Em compensação dispõe de uma população de vitalidade e engenhosidade notáveis, com capacidade ímpar de mudar. A obra de Fan Ho capta essa identidade única de Hong Kong. Suas imagens em preto e branco fornecem um olhar íntimo sobre uma cidade em fluxo. Na definição do americano Vaughn Wallace, diretor do site de fotografia LightBox da revista Time, elas formam o “diário visual de um observador paciente”. No conjunto, compõem o painel de um curso de vida em transição, uma vida com foco em momentos no qual o tempo parece imóvel.

Produto da era pré-digital, sua obra resulta de paciência e dedicação oriental baseada na contemplação. Por vezes Fan Ho aguardava horas a fio ou até um dia inteiro num determinado ponto e ângulo da cidade à espera do elemento humano perfeito para seu roteiro e narrativa. Outras vezes recorria a amigos ou desconhecidos para compor sua dissertação visual. O resultado é tão denso e hipnótico que cada uma de suas fotografias poderia render um roteiro de filme.

As três monografias fotográficas da Hong Kong de Fan Ho são um convite a uma viagem sem pressa a um mundo no qual dá vontade de se perder.///

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Sonho da antiga Hong Kong, 2014, Uma memória de Hong Kong

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Hong Kong Veneza, 2012, Uma memória de Hong Kong

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

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IMAGENS © Fan Ho


  • Elvira Madigan

    Todo texto sobre fotografia de Dorrit Harazim age como luz. É sempre uma beleza que aguardo com ansiedade a cada Zum.