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Retrospectiva 2025: os destaques do site da ZUM

Publicado em: 6 de janeiro de 2026

Do fotolivro I carry Her photo with Me, de Lindokuhle Sobekwa, 2024. Cortesia da editora Mack

Espiral de memórias por Lindokuhle Sobekwa & Anna Ortega

Ainda criança, o artista sul-africano Lindokuhle Sobekwa viveu um fato que seria decisivo na própria história: o desaparecimento de Ziyanda, sua irmã mais velha, por mais de uma década. Elaborar o luto através da fotografia foi o caminho escolhido por ele para lidar com esta perda.

Fruto desta busca, no fotolivro I carry Her photo with Me Lindokuhle refaz os passos da irmã, na tentativa de se aproximar do mistério que não sossegava no seu interior.

Em conversa com a jornalista Anna Ortega, o artista conta que esta série “moldou a minha visão de mundo e da fotografia, inclusive sobre os projetos que me interesso em trabalhar hoje ou no futuro. Mudou a forma como vejo a história da minha família, a história da África do Sul, pois há tantas histórias como essa e que, muitas vezes, ficam restritas à oralidade.”


Yokosuka Story #98, da série Yokosuka Story, de Ishiuchi Miyako, 1976-77

Vestígios do tempo por Ishiuchi Miyako, Daniel Salum & Lucas Gibson

Desde os seus primeiros trabalhos nos anos 1970, a fotógrafa japonesa Ishiuchi Miyako se destaca por uma notável capacidade de reinvenção e experimentação, sempre em torno de temas como memória, corpo e a inevitável passagem do tempo.

Em conversa com os pesquisadores brasileiros Daniel Salum e Lucas Gibson, a artista fala sobre sua carreira e o seu olhar único para os vestígios que fizeram parte da vida de pessoas íntimas, famosas ou mesmo desconhecidas.

“Sua abordagem caracteriza-se por transformar objetos cotidianos e vestígios do passado em poderosos testemunhos visuais, elevando-os a agentes que comunicam tanto a resiliência quanto a fragilidade da condição humana.”


The Velvet Underground no Max’s Kansas City, foto de Leee Black Childers, agosto de 1970, Nova York

Lou Reed em Juiz de Fora por Carime Elmor

A história das fotos do último show de Lou Reed com a sua clássica banda The Velvet Underground, encontradas há cinco anos em uma feira popular em Juiz de Fora (MG). No conjunto de 24 fotografias, compradas por R$ 4 reais, algumas imagens raras do Velvet Underground em shows realizados entre o final dos anos 1960 e o início dos 70.

Em depoimento, a jornalista Carime Elmor conta a história de como as fotos foram encontradas e quem foi Leee Black Childers, o fotógrafo responsável pelos registros da última apresentação de Lou Reed com o Velvet.


Retrato de Maria Bandeira, aos 90 anos, criado com inteligência artificial, a partir de imagens de arquivo da cientista jovem. Giselle Beiguelman,  2024.

Venenosas, nocivas e suspeitas por Lucia Santaella & Giselle Beiguelamn

Valendo-se da IA para imaginar e criar retratos de mulheres botânicas dos séculos 18 e 19, a artista e pesquisadora Giselle Beiguelman mergulhou numa pesquisa histórica e estética para criar a exposição Venenosas, nocivas e suspeitas.

Em ensaio escrito para a ZUM, a pesquisadora e professora Lucia Santaella destaca que a obra de Beiguelman “está baseada em uma cuidadosa e paciente pesquisa histórica, cujo parti pris encontra-se no feminino. Trata-se do resgate político do apagamento e pressão do esquecimento a que a figura da mulher foi relegada no passado.”


Da série Jeito de Corpo, de Luiza Sigulem, 2024

As esculturas temporárias de Luiza Sigulem por Luiza Sigulem & Paula Sacchetta

Um pouco antes da pandemia de covid-19, a fotógrafa paulistana Luiza Sigulem sofreu um acidente. Desde então, ela precisa do auxílio de uma cadeira de rodas para se locomover. Após um longo período de recuperação, Luiza foi buscar na fotografia uma forma de lhe ajudar a entender como acessar a cidade (e sua própria cidadania) a partir da sua nova perspectiva.

Em ensaio, a cineasta Paula Sacchetta conta a história da fotógrafa e do projeto Jeito de Corpo, vencedor do prêmio Marc Ferrez em 2024. “Se o corpo num retrato cai num clichê, ela propunha fugir do tradicional a partir do limite de 1,40m, altura na qual ela fica quando está sentada. Soluções novas para se enquadrar tinham que partir dos próprios fotografados que passaram a dobrar suas colunas e abandonar o ‘normal’ da postura ereta.”


Da série ABC – Grafton G2651, de Silvia Rosi, 2022 © Silvia Rosi, produzido com o apoio da Fundação MAXXI e BVLGARI

Fotos e grafias por Silvia Rosi & Renata Martins

A fotógrafa ítalo-togolesa Silvia Rosi utiliza a fotografia para criar pontes narrativas entre o passado e o presente do Togo. A curadora e pesquisadora Renata Martins apresenta Protetorado, projeto mais recente da artista, que combina autorretratos encenados em estúdio com signos gráficos impressos em tecido com materiais históricos do Arquivo Nacional togolês em Lomé.

O título do projeto, do alemão protektorat, faz referência direta ao passado histórico-político e cultural do Togo entre os séculos 19 e 20, quando teve seu território ocupado e administrado militarmente por alemães, franceses e ingleses.


Hannah Höch – Corte com a Faca de Cozinha Dadá através da Última Era Cultural da Barriga de Cerveja de Weimar na Alemanha, 1919 (detalhe)

Fotomontagem e inteligência artificial generativa por Jörg Colberg

Em artigo, o editor e crítico de fotografia alemão Jörg Colberg traça paralelos políticos e estéticos entre a fotomontagem e as imagens geradas por inteligência artificial e se pergunta: “em teoria, imagens geradas por IA poderiam ser usadas para combater o fascismo. Mas isso não ocorre, uma vez que elas não cumprem esse papel. Por quê?”

“Na montagem, o artefato é um recurso expressivo; na IA generativa, é um erro. Como a IA busca evitar qualquer imperfeição, não vejo como um artista comprometido com sua prática poderia adotá-la. A boa arte nasce da dúvida e dos erros, precisamente o que os desenvolvedores da IA generativa se esforçam para eliminar.”


Rafaela Kennedy, Adria Savick, da série Rainha das Matas 2025.

Rainhas das matas por Rafaela Kennedy & Rainha das Matas

No mês do Orgulho LGBTQIAPN+, convidamos a artista Rafaela Kennedy para realizar um ensaio visual do Festival Rainha das Matas, que acontece em Soure, no arquipélago do Marajó. Ágata Felina, performer e uma das idealizadoras do evento, se une a Rafaela e às Rainhas das Matas para refletir sobre o artivismo queer socioambiental e seus processos criativos.

“Cada tronco tingido de urucum devolve à terra o erotismo que lhe foi amputado. No Marajó, barro, seiva e suor unem-se num mesmo perfume mineral, desobedecendo a fronteira entre carícia e ecologia. Contra o roteiro heteroecológico que ainda quer separar as nossas potências do mundo vivo, o Rainha das Matas faz germinar uma volúpia vegetante, trepadeira que escala troncos, brotando em tudo.”


Livro Fujikawa – o sol daqui brilha amarelo, de Henrique Fujikawa, 2025. Editora Tempo D’Imagem.

Se eu interpretar uma fotografia… por Luana Lorena, Henrique Fujikawa & Rafaela Tavares Kawasaki

A escritora paulista Rafaela Tavares Kawasaki resenha dois recentes fotolivros de artistas nipo-brasileiros: Canção à poeira (2025), de Luana Lorena; e Fujikawa – o sol daqui brilha amarelo (2024), de Henrique Fujikawa. Para ela, ambos formam uma experiência complementar justamente nos pontos onde se diferenciam com radicalidade.

“Participar dessa triangulação entre fotografias, esses dois artistas que as manipulam e nós mesmos, enquanto espectadores, possibilita reconhecer que o olhar sobre registros de arquivo é também uma projeção inventiva, simbólica e política sobre o passado dos outros e, inevitavelmente, sobre o nosso próprio”, escreve Rafaela.


Vista da exposição Nada poderia ter nos preparado, tudo poderia ter nos preparado, de Wolfgang Tillmans, Centro George Pompidou, Paris, 2025 © Wolfgang Tillmans / Jens Ziehe

Wolfgang Tillmans: a história é o hoje por Wolfgang Tillmans & Erika Palomino

A jornalista e curadora Erika Palomino visitou a exposição do artista alemão Wolfgang Tillmans na biblioteca pública do Centro George Pompidou, em Paris. A mostra marcou a despedida temporária da instituição, que em setembro foi fechada ao público para uma grande reforma.

Erika conversou com Florian Ebner, curador da mostra, sobre as escolhas e definições do artista na ativação de um espaço não usual para grandes exposições. “São os momentos de experiência compartilhada pelo público que tornam a exposição tão especial e lhe conferem um poder tocante, que se relaciona com a utopia original do prédio”, conta Ebner.


Garoa, por Lorenzo Beust

Caminhar e carnear por Lorenzo Beust & Anna Ortega

O olhar do fotógrafo gaúcho Lorenzo Beust revela as curiosas miudezas de um cotidiano interiorano no Rio Grande do Sul. Especificamente de São Gabriel, sua cidade natal que parece concentrar uma quantidade considerável de estereótipos sobre o estado mais ao sul do país: homens e mulheres de bombacha montados sobre cavalos, a carne como centro de tudo, o rodeio como entretenimento e modo de viver.

A jornalista Anna Ortega acompanhou Beust em um final de semana gelado, caminhando e testemunhando seu jeito de narrar o que vê nas ruas e paisagens de sua cidade: “um modo de registrar que, certamente, opera de modo classificatório, que se deleita no acúmulo de fotografias de gatos, cachorros, cavalos, carros, vacas mecânicas, postes, capacetes e latões”.


Zé Barretta, Fe₂O₃ – Uma arqueologia da Imagem, 2017

No princípio, era a imagem: a origem e os deslocamentos da humanidade segundo duas mulheres por Ronaldo Entler

A partir do trabalho de duas mulheres – a arqueóloga Niède Guidon e a filósofa franco-argelina Marie José-Mondzain – o colunista Ronaldo Entler elabora alguns pensamentos a respeito de uma possível “arqueologia das imagens” nas pinturas rupestres de sítios arqueológicos no Brasil e no mundo.

“Vistas daqui, desde o nosso tempo, essas inscrições caracterizam o início de uma existência privilegiada, de um domínio sobre a natureza. Mas vagar por um mundo ainda incompreensível carregando o peso dessa subjetividade recém-adquirida tem algo de aterrorizante.”

Acompanha o texto de Entler um ensaio visual do fotógrafo paulistano Zé Barretta, realizado no parque nacional da Serra da Capivara (PI).