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Entrevista: a pesquisadora francesa Luce Lebart fala de seu livro sobre a história das mulheres fotógrafas

Luce Lebart & Daniele Queiroz Publicado em: 24 de março de 2021

 

Carta ao tesouro 022, de Pamela Singh, 1994-1995, pintado em 2015. Cortesia © Pamela Singh e sepiaEYE. Parte do livro Uma história mundial das mulheres fotógrafas, edições Textuel, 2020.

Lançado no final de 2020, o livro Uma história mundial das mulheres fotógrafas (Une histoire mondiale des femmes photographes), das autoras Luce Lebart e Marie Robert, nasceu da percepção da dupla de que as mulheres estão muito mal representadas na história da fotografia. “Desde o início quis descentralizar nossa abordagem a fim de abri-la o máximo possível a vozes de diferentes países e horizontes. Também achei crucial refletir a diversidade de formas de escrever sobre fotografia e incentivar uma variedade de escritoras, historiadoras, jornalistas, iconógrafas, etc.”, comenta Lebart.

Daniele Queiroz, assistente de curadoria de fotografia contemporânea do IMS, conversou com Luce Lebart sobre o projeto e a importância da mulher dentro da história da fotografia. Leia a entrevista a seguir.

 

  

De onde veio a ideia do projeto?

Luce Lebart: A ideia desse projeto nasceu de uma constatação: as mulheres fotógrafas estão muito pouco representadas na história da fotografia, especialmente na França. No entanto, elas existem e trabalham desde a criação dessa mídia. No que diz respeito ao Ocidente, Thomas Galifot e Marie Robert mostraram isso brilhantemente na exposição Qui a peur des femmes photographes? [Quem tem medo das mulheres fotógrafas?, no Musée de l’Orangerie e no Musée d’Orsay, em 2015-2016]. Foi uma revelação para mim. Mas foi quando eu preparava um livro sobre os grandes fotógrafos do século 20 para a Larousse – em que tive o prazer de trabalhar com a paridade e integrar mulheres muitas vezes invisíveis – que percebi uma dificuldade: o panteão dos fotógrafos é essencialmente masculino, e colocar um número igual de mulheres e homens em cerca de 60 entradas significava renunciar a figuras como Brassaï, André Kertész ou Robert Frank.

Ao mesmo tempo, estava terminando uma publicação sobre Eugène Atget, um fotógrafo que foi erguido, sem o seu consentimento, como figura tutelar da oitava arte após sua morte. Como leitora fervorosa de Abigail Solomon-Godeau [crítica e historiadora da arte], me perguntava sobre as origens dessa canonização. E também se a ausência das mulheres nas histórias da fotografia poderia estar ligada ao fato de que há muito tempo elas sejam escritas por homens. Por que então não imaginar um livro sobre mulheres fotógrafas escrito por autoras? Além disso, utilizar especialistas de todo o mundo poderia ser uma forma de descobrir fotógrafas que operaram muito além do Ocidente, ainda no século 19. Desde o início quis descentralizar nossa abordagem, a fim de abri-la o máximo possível a vozes de diferentes países e horizontes. Também achei crucial refletir a diversidade de formas de escrever sobre fotografia e incentivar uma variedade de escritoras, historiadoras, jornalistas, iconógrafas etc. O projeto inspirou-se nas edições da Textuel, e o encontro com Marie Robert foi decisivo, pois, com sua abordagem sociológica da fotografia e sua pesquisa sobre gênero, ela confirmou o que para mim era apenas uma intuição.

 

Carrie no salão Euro, de Deborah Willis, Eatonville, Flórida, 2009 © Deborah Willis. Parte do livro Uma história mundial das mulheres fotógrafas, edições Textuel, 2020.

Como foi a pesquisa e o processo de seleção das 300 artistas e 160 autoras dos verbetes?

LL: Isso foi feito a partir de uma rede. Tínhamos uma lista inicial de nomes obrigatórios, de Anna Atkins a Zanele Muholi. Mas para desenvolvê-la recorremos a especialistas internacionais que, cada um em sua área, sugeriram nomes de fotógrafas e escritoras. Para o Brasil, Thyago Nogueira, do Instituto Moreira Salles, nos apresentou a trajetória de muitas fotógrafas e nos mostrou a riqueza da pesquisa na área. Para a Austrália, Shaune Lakin, da Galeria Nacional da Austrália, também foi uma fonte instigante de referências. As pessoas que ele recomendou nos indicaram novos nomes e autoras: uma era especialista em fotografia do século 19 no Havaí, a outra na Nova Zelândia etc. Várias associações também nos ajudaram, e as próprias autoras expandiram continuamente nossa rede. Assim, a constituição do corpus foi feita de forma orgânica. A abordagem é verdadeiramente polifônica.

 

Cavalo, de Sabine Weiss, Porte de Vanves, 1951 © Sabine Weiss. Parte do livro Uma história mundial das mulheres fotógrafas, edições Textuel, 2020.

 

Qual sua percepção, a partir da pesquisa, do cenário artístico fora do eixo do hemisfério norte?

LL: Esses cenários artísticos são extremamente ricos, mas infelizmente menos visíveis e acessíveis do que os do hemisfério norte e da França, país de origem desse projeto. Na França, somos esmagadas por produções europeias e anglo-saxônicas. Muitas vezes são os mesmos nomes de artistas que vêm e voltam, seja em festivais ou em livros. É preciso fazer um esforço e ter uma boa rede para acessar produções da América do Sul, por exemplo, ou ainda da África ou do sul da Ásia, ainda que cada vez mais instituições e festivais estejam tentando levar isso em conta em seus programas. Em Paris, somos afortunados, porque a Fundação Cartier vem construindo pontes fascinantes com a América do Sul há vários anos. Foi assim que em 2019, por exemplo, ficamos impressionados com a exposição de Claudia Andujar, que foi um sucesso incrível. Uma coisa é certa, no livro sempre buscamos um equilíbrio entre uma boa representação geográfica e histórica. Queríamos mostrar tanto as práticas do século 20 como as do século 19. É fascinante ver que tantas mulheres foram fotógrafas no século 19 em tantos países. Também ficamos impressionadas com a presença do colonialismo nas práticas fotográficas. Na África no século 19, muitas das fotógrafas conhecidas hoje pelos historiadores são inglesas ou belgas, mas as novas gerações de pesquisadoras, que estão fazendo um trabalho de base incrível, estão nos apresentando a fotógrafas africanas que já haviam sido esquecidas.

 

Leque, de Yvonne Chevalier, Espanha, 1950 © Musée Nicéphore Niépce, Vila de Chalon-sur-Saône. Parte do livro Uma história mundial das mulheres fotógrafas, edições Textuel, 2020.

Por que o formato enciclopédico? Qual a importância desse formato hoje em dia?

LL: Queríamos valorizar as fotógrafas por meio de ensaios, considerando suas carreiras. Era importante evitar uma abordagem estritamente biográfica, algo que pode ser encontrado, por exemplo, na Wikipédia. Nós realmente queríamos incentivar pontos de vista. Nosso livro, de fato, também quer destacar a escrita das mulheres, que, sabemos, também tem menos oportunidade de aparecer. Em resumo, o formato dicionário também não nos convinha, porque queríamos organizar os textos em ordem cronológica e, assim, enfatizar as conexões entre trabalhos e destacar uma sequência temporal.

Sua pergunta me lembra um artigo que apareceu na Paris Match, uma revista semanal francesa, sobre nosso trabalho. Ele chamava o livro de “uma pedra na lagoa” [“un pavé dans la mare”, expressão francesa que diz respeito às reverberações que a pedra faz quando jogada numa lagoa de água parada]. Isso foi muito importante para nós porque, sim, este livro é de fato um gesto editorial firme, por conta de seu viés de gênero (um livro sobre mulheres feito por mulheres) e sua abordagem global. É espesso, pesado, e sua forma, pensada pela designer gráfica Agnès Dahan, também diz que não podemos ignorá-lo. Ou seja, que não podemos mais ignorar as mulheres fotógrafas ou usar o pretexto de que não havia nenhuma ou que são poucas. Sempre houve várias, em todo o mundo. Nosso livro mostra apenas 300, é só um começo, um primeiro rascunho. Poderia haver reunido milhares.

 

sem título, de Isabel Muñoz, da série Bam, 2005 © Isabel Muñoz. Parte do livro Uma história mundial das mulheres fotógrafas, edições Textuel, 2020.

 

O que você descobriu quando fez esse trabalho?

LL: Eu diria que o que mais me impressionou foi a questão do compromisso. Quantas fotografias têm sido uma ferramenta de emancipação para inúmeras mulheres e quanto, a partir do século 19, elas têm estado em todas as frentes do meio, com homens e próximo a eles, seja no contexto de expedições ligadas à conquista do Ocidente americano até conflitos modernos. E então percebi realmente o quanto o trabalho de redescoberta é imenso e parece inesgotável. ///

 

Luce Lebart é historiadora da fotografia, curadora e correspondente francesa da coleção Arquivo do Conflito Moderno. Dirigiu o Instituto Canadense de Fotografia de 2016 a 2018 e as coleções da Sociedade Francesa de Fotografia de 2011 a 2016. Sua pesquisa se concentra na fotografia de arquivo, na história das técnicas e nas práticas científicas e documentais relativas à imagem.

Daniele Queiroz atua como assistente de curadoria no Instituto Moreira Salles. É criadora da plataforma A história é outra, que investiga mulheres artistas no campo da fotografia.

 

 

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