Imagens na conjugação da humanidade
Publicado em: 8 de janeiro de 2026
Inaugurada em setembro de 2025, a 36ª Bienal de São Paulo, com curadoria geral de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, sob o conceito de Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, em menção direta ao poema “Da calma e do silêncio”, da escritora e poeta afro-brasileira, Conceição Evaristo, teve a incumbência de apresentar reflexões e obras que, segundo o texto da curadoria, demonstram maneiras de conjugar a humanidade, ou seja, de olhar as ações humanas como verbo em suas dinâmicas e formas de viver.
Com aproximadamente, 120 participantes no Pavilhão Ciccilo Matarazzo, principal local da mostra, e mais cinco no programa Afluentes, que ocupa a Casa do Povo, localizado no bairro do Bom Retiro, região adjacente ao centro da cidade, destaca forte presença de projetos instalativos em uma expografia de poucas paredes. As imagens provindas da mecânica analógica ou da produção digital em formato fotográfico ou audiovisual aparecem em distintos formatos e interações, desde obras que as condensam como única linguagem a outras que as inserem em contextos dinâmicos. Entre as perceptíveis conjugações de humanidade que essas imagens trazem estão os olhares que suas autorias lançaram para experiências da vida coletiva, que vão desde a retratística documental das violências, traumas, às formas de solidariedades, irmandades e poesia cotidiana. Refletem também sobre à humanização e desumanização das paisagens geográficas e das Imaginações não controladas que convocam inquietações e reescritas da história no tempo.
Após longas caminhadas pela mostra, alguns projetos e presenças que tangem este campo chamaram a atenção, os quais destacamos aqui alguns. Não se trata de listá-los a partir do suposto discurso hierarquizante de “melhores”, mas de proporcionar olhares direcionados a algumas imagens em suas forças visuais e discursivas.

Experimentações visuais que convocam futuros, futurismos e visualidades radicais.
Theo Eshetu, artista nascido em Londres, vive atualmente entre Berlim e Roma, apresenta na instalação audiovisual The Garden – Ode to Courage, telas de diferentes tamanhos e formatos exibindo composições que remetem a cores e montagens psicodélicas a partir de imagens de flores e vegetações. A obra de Eshetu traz o caráter da experimentação na criação do irreal, reacendendo visualidades que remontam a visualidade comum em clipes musicais dos anos 80, por exemplo.

Também relacionada entre estéticas da experimentação futuristas, as visualidades que compõem a instalação de Josèfa Ntjam, Dislocations, flertam com os cenários que recorrem às dimensões ampliadas do afrofuturismo, em imagens que criam um universo habitado por referências circulares de tempos entre seres luminosos e objetos mecânicos. De estrelas a satélites, as imagens de Ntjam nos faz viajar por dimensões terrenas em poucos minutos que habitamos um céu de imagens.

Entre os artistas históricos presentes na edição está Behjat Sadr (1924-2009), artista iraniana que teve destacada trajetória na produção moderna do país e com intensa circulação internacional, como sua participação na II Bienal de São Paulo, em 1962. Nesta edição da Bienal estão presentes algumas pinturas, entre elas um óleo sobre tela com colagem fotográfica. A obra Sem título (1987) flerta com movimentos artísticos do período, como a figuração geométrica e o surrealismo, gerando uma composição cosmológica, em um lugar imaginado, em solo terreno, mas com elementos irreconhecíveis.
Imagens no trânsito: revisitar, denunciar, criticar e reeditar no tempo os projetos violentos de suposta humanidade de base colonial e racista.
A instalação A colheita de Dan (2025), de Gê Viana, da artista visual brasileira Gê Viana além de receber o público da mostra com a sonoridade do reggae maranhense, em suas potentes caixas de som justapostas e empilhadas, como ocorre nos bailes de São Luís, cidade que vive os transes culturais entre as regiões nordeste, norte e o caribe. Entre os timbres, imagens impressas de colagens realizadas pela artista que reedita cenas apoiadas no arquivo visual colonial brasileiro referenciado em aquarelas, como as de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Johann Moritz Rugendas (1802 – 1858). Com seu sofisticado e crítico olhar, Gê Viana faz uso de sobreposições, recortes, ampliações e reimpressões para lançar imagens que vingam as narrativas de um passado que ainda nos assombra, mas que não amedontra em sua fragilidade e incoerência.

As violências do Apartheid sul-africano não passam despercebidas nas imagens de Ernest Cole (1940-1990), artista nascido na África do Sul, mas que se exilou do país devido ao regime segregacionista de base cultural e racial que esteve oficialmente vigente entre 1948 à 1994, mas segue com a extensão de seus rastros até os dias atuais. Cole usou a câmera para documentar as atrocidades que o governo da minoria branca impôs ao país, condenando populações não brancas à situações de constante vigilância, controle e miséria.
Técnica, materialidade e mecânica: deslocamentos
Em um mundo cada vez mais habitado por imagens digitais, os processos analógicos de formação da imagem enfrentam dilemas frente as distâncias e aproximações de seus processos. Com câmeras cada vez mais enxutas e elevadas resoluções, o extenso maquinário utilizado pela fotografia analógica se torna obsoleto e desconhecido por grande parte das populações jovens. A película de filme, parte da memória afetiva de muitos, que se encantavam ao ver as imagens miniaturizadas em negativos, se tornou um dos elementos de materialidade de Madame Zo, nome artístico de Zoarinivo Razakaratrimo (1956-2020), artista madagascarense, nascida em Antananarivo, capital do país. Entre tramas tecidas, Zo une películas de filmes 16 mm, fios de fitas magnéticas, com papeis de jornais enrolados, lascas de madeira, fibras de bananeiras, entre outros elementos pouco convencionais no diálogo com a produção têxtil. Se tornam tecidos ou tapetes, com figuras geométricas que fascinam e parecem convocar os olhos a aproximar-se e caminhar por cada uma de suas camadas.

A homenagem instalativa ao cineasta brasileiro Zózimo Bulbul (1937-2013), um dos mais importantes profissionais do cinema nacional, apresenta fotografias e documentos que nos aproxima da extensa carreira e legado que ele construiu. Criador dos Encontros de Cinema Negro – Brasil, África & Caribe, em 2007, Zózimo buscava ampliar o acesso de pessoas negras e as narrativas dessa diáspora no cinema, lutava pela presença negra na frente e atrás das câmeras, na escrita e no pensamento visual. A fotografia de Bulbul com a câmera na mão, exibida em ampliação de grandes dimensões, em um dos painéis da Bienal torna visível sua existência e a extensão dela em nós.

Paisagens da fuga, da não dicotomia, do entre uma humanidade que é natureza: por uma política que preze a vida.
Julianknxx, artista nascido em Freetown, capital da Serra Leoa, e vivendo em Londres, faz do vídeo a linguagem de What colours can we dream in this night filled with salt? (2025). São minutos que vemos um corpo dançar, balançar, contorcer, desafiando a força das águas do mar. Apoiado em uma rocha banhada pelas águas do mar, como se desafiasse a força das ondas que saltam e a banham ao mesmo tempo que reivindica pertencer a elas, águas que presenciaram a violência sob suas transparências. Um coral de vozes femininas parece um caminho ao sonho e à dimensionalidade espiritual, nos fazendo enxergar as cores que o artista questiona no título da obra.

As fotografias de Wolfgang Tillmans retratam com encanto as paisagens grandiosas da terra sem a visível presença humana. São lugares que impactam pela beleza, pelo poder, pela vida que carregam, e que, mesmo diante das emergências climáticas e os desastrosos impactos da modernidade humana diante dos solos, ares, águas, nos fazem lembrar que, somos parte deles, que ainda é tempo de rever a ganância humana diante da vida. Percebemos a pequinês humana diante do mundo, perante o sublime que desperta, e ouvimos a denúncia e o alerta da imagem silenciosa a respeito do que elas são capazes.

No vídeo Ouro negro é a gente (2025), a artista Aline Baiana, soteropolitana que vive entre Salvador, Rio de Janeiro e Berlim, documenta a situação enfrentada por populações ribeirinhas, principalmente quilombolas, da Ilha da Maré, localizada na Baía de Todos os Santos, próximo a Salvador. São pessoas cujos modos de vida são impactados por processos industriais, de exploração de seus territórios e da condenação da vida marítima com a extração de petróleo pela refinaria de Mataripe. O que era fonte de vida na região, com a modernização, se torna um rastro de morte. O vídeo apresenta depoimentos de sujeitos locais, posicionando-os nos lugares de dignidade que lhes foram negados, aos que deveriam ser priorizados diante dos interesses de poucos, dos lucros acima de tudo, e da falsa promessa de benefício aos viventes e ao planeta.

Documentar o cotidiano no limite da política, poesia e denúncia.
Hao Jingban, artista chinesa que viveu o período da pandemia da COVID 19 nos Estados Unidos, apresenta em seu trabalho audiovisual I understand (2020), cenas das manifestações políticas antirracistas que abalaram as ruas estadunidenses após o brutal assassinato de George Floyd, homem negro que foi asfixiado por policiais brancos em uma rua da cidade de Minneapolis, no norte do país. A passagem de Floyd convocou milhares de pessoas às ruas para denunciar a supremacia racial branca e o etnocídio racial dos negros, reivindicando políticas públicas antirracistas e antisupremacistas brancas. Nesse mesmo período, a população chinesa, também vítima do racismo e da xenofobia nos Estados Unidos, vivia violentas situações perante a visão reducionista que atribuía à China, por ter sido a primeira região a ser identificado os casos de COVID 19, culpabilidade pela epidemia. Jingban, em seu vídeo, faz das imagens de manifestação uma luta por dignidade, por vida e justiça social, valores que a humanidade vigente prefere sufocar.
A série de fotografias de Mao Ishikawa, nascida em Ōgimi, cidade de Okinawa, ilha ao sul do Japão, cuja história foi marcada por violências políticas e coloniais do Estado japonês. Suas fotografias documentam a vida de algumas populações da região durante a década de 1970, principalmente as menos favorecidas, em suas dinâmicas de resistência/sobrevivência cotidiana em um território militarmente ocupado por forças estadunidenses em acordo com o governo japonês, cujas identidades também se mantinham em disputa. Okinawa teve seu território e sua população, considerada indígena, anexados ao Japão e forçada a adotar os ideais do país imperialista, sendo até hoje um território marcado por essa história mal resolvida. Foi também o destino de soldados negros estadunidense, que criaram relações com a vida local. Com retratos de momentos comuns, as fotografias de Ishikawa nosaproximam com afeto de uma história do Japão ainda pouco conhecida do lado de cá.

O renomado fotógrafo inglês Akinbode Akinbiyi, nascido em Oxford e que hoje vive em Berlim, apresenta na 36ª Bienal uma série fotográfica realizada pelas ruas do Bom Retiro, bairro da capital paulista conhecido pela sua histórica acolhida a diferentes populações imigrantes, entre pessoas de origens judaica, grega, coreana, chinesa e boliviana, entre outras. O olhar poético de Akimbiyi demonstra as possibilidades dos encontros, das curiosidades e do deslocamento da sensibilidade quando se aterra em lugares ainda poucos conhecidos. Evoca o transitar como verbo milenar na humanidade.

Imagens do cuidado, afeto e dos arquivos pessoais: humanidade como prática do cotidiano
Em instalação que remonta um ateliê-galeria, a Irmandade Vilanismo, grupo de jovens negros que atuam com as artes visuais e que se juntam através de atos de trocas e fortalecimento na construção de estéticas negras transversais no tempo. Entre produções finalizadas e obras em andamento, o espaço apresenta, em álbuns de fotografia, registros que nos convidam a acompanhar os percursos do grupo e a exercer o encontro como gesto de amizade e irmandade. Folhear os álbuns ali presentes é reconhecer as redes que os cercam, entre as relações profissionais e pessoais, entre bastidores de mudanças, cafezinhos, abraços e conversas que viraram imagens.

As afetividades das amizades também estão nas fotografias pessoais de Manauara Clandestina, artista nascida em Manaus e que vive em São Paulo. Em fotografias polaroides, processo fotográfico analógico conhecido pela rapidez em seu processo de revelação, a artista documentou extensões de si através de pessoas com quem compartilha o seu cotidiano. Há um gesto político da artista em escrever uma história retratística trans a partir de cenas descontraídas, que revelam momentos de vividez entre as memórias que desejamos manter.

Outros artistas que também merecem destaque
Obviamente, são múltiplas as possibilidades de análise ou seleção em uma mostra tão ampla como a 36ª Bienal de São Paulo, não caberia esgotá-las aqui, e tão pouco é parte do meu interesse. Entretanto, além dos artistas já mencionados, gostaria de mencionar também a importância dos trabalhos de Noor Abed, Ming Smith, Forugh Farrokhzad, Kader Attia, Tuấn Andrew Nguyễn, Leila Alaoui e Lynn Hershman Leeson. As produções desses artistas aportam também com instigantes relações. Caminhos que vão desde a captura à apresentação das imagens, cabendo paradas atentas diante delas. ///
Luciara Ribeiro (Xique-xique, BA, 1989) é professora e curadora, mestra em história da arte pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e pelo Programa de Pós-Graduação em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo. Foi curadora da exposição Sidney Amaral, um espelho na história (Galeria Almeida & Dale, 2022).









