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Disparo cinematográfico: a fotografia entre o estático e o cinético

Raimo Benedetti Publicado em: 08 de junho de 2018

Locomoção humana IIIB, cronofotografia de Étienne-Jules Marey, 1886. Cortesia dos arquivos Collège de France.

Em setembro de 1881 na cidade de Paris, o renomado fisiologista francês Étienne-Jules Marey (1830-1904) recebeu em seu apartamento o fotógrafo inglês Eadweard James Muybridge (1830-1904). O encontro breve, mas explosivo, representaria uma revolução na pesquisa fotográfica e impulsionaria o desenvolvimento do cinema. Foi depois deste encontro que a fotografia estática e unitária seria empregada para o registro seqüenciado, criando assim as condições para o fundamento da imagem em movimento utilizado pelos irmãos Lumière, cerca de 15 anos depois, quando lançaram o cinematógrafo nesta mesma cidade, em 1895.

Professor do famoso Collège de France, onde Roland Barthes, Michel Foucalt e Henri Bergson iriam lecionar, Marey foi um dos mais destacados cientistas de seu tempo. Considerado hoje como o grande nome por trás da criação da medicina imagética, Marey inventou uma série de instrumentos capazes de gerar representações gráficas dos fenômenos fisiológicos. Dentre as imagens que seus aparelhos produziram, estava a linha do batimento cardíaco que foi pela primeira vez apresentada através do Cardiograma, instrumento que inventou. Em 1873, Marey publicara A máquina animal, um livro de referência que apresentara inúmeras descobertas sobre a locomoção humana e animal, tanto aérea como terrestre. Dentre as suas mais importantes constatações para a história da fotografia e do cinema estava que um cavalo, ao galopar, retirava as quatro patas do chão.

Foi por essa razão, que cinco anos depois da publicação de seu livro, Marey viu com incredulidade as famosas fotografias instantâneas e sequenciadas de cavalos em pleno movimento realizadas, no outro lado do mundo, por Muybridge.  As imagens tinham surpreendido os meios científicos e artísticos daquele momento porque revelavam os segredos de um sonho antigo. Em plena efervescência da sociedade industrial, os cavalos ainda estavam no centro da estrutura produtiva e social. A despeito do enorme desenvolvimento tecnológico, a locomoção animal ainda era a principal força de trabalho no campo e nas cidades.  Além de serem empregados nas guerras, os cavalos tinham o mesmo símbolo de status que hoje foi herdado pelos carros. Em última instância, o interesse científico pelo animal na época tinha relação com o desejo da mecanização do movimento.

Locomoção animal – placa 519, de Eadweard Muybridge, 1887. Cortesia do Departamento de Coleções Especiais, Biblioteca de Stanford.

Muybridge fez seus experimentos com cavalos galopando a 68km/h onde hoje está localizado o campus da Universidade Stanford. Hoje, o local se encontra no epicentro da revolução digital e a universidade leva o nome de seu fundador, o controverso magnata Leland Stanford (1824-1893), ex-governador da Califórnia e o mais importante cliente de Muybridge. Foi dele a ideia de fazer fotografias de um cavalo em múltiplas fases do movimento. E de seu bolso saiu o dinheiro para financiar a empreitada.

O pedido de Stanford era um verdadeiro desafio para qualquer fotógrafo do mundo na época. A fotografia, naquele momento, ainda era um processo lento e manual. Para se fazer uma única foto, era necessário retirar a tampa da lente com a mão, deixar que a luz entrasse no interior da câmera e tampar quando julgasse necessário. Muybridge teria que mecanizar o procedimento e enfrentar com os próprios meios o debatido desafio da fotografia instantânea.

A solução que Muybridge encontrou foi dispendiosa, mas eficiente: instalou 12 câmeras fotográficas lado a lado para fazer fotos sequenciais. Cada vez que fotografava um animal em movimento, produzia 12 negativos independentes que, depois de revelados, eram arranjados nas composições que marcaram a obra de Muybridge. Dentre as mais de 1.000 sequências que produziu em sua carreira, acumulou mais de 20.000 fotografias unitárias.

Nascido na Inglaterra, Muybridge decidiu, aos 20 anos de idade, tentar a vida nos Estados Unidos. Quando escolheu São Francisco para morar, a cidade vivia isolada na costa oeste, em plena época eternizada pelo cinema como “velho oeste americano”. Seu tino comercial e espírito aventureiro levaram-no a uma vida cheia de acontecimentos dramáticos. Do mesmo modo que um herói de um filme, se envolveu em um assassinato, mas foi julgado inocente. Passou por um grave acidente em vida, mas sobreviveu. E anos mais tarde, quando traído pelo todo-poderoso Stanford, conseguiu dar a volta por cima. Muybridge foi um dos mais importantes fotógrafos de sua época, tendo suas imagens viajado o mundo através da imprensa e publicações científicas, dentre as quais a francesa La Nature, na qual Marey entrou em contato com seu trabalho. As imagens de Muybridge serviam perfeitamente para os estudos da novata biomecânica, o que motivou um contato epistolar entre eles.

Muybridge deve ter se sentido honrado por receber uma carta de Marey e o interesse do cientista ativou a inspiração do artista. Decidiu ampliar seus planos com suas composições ao tentar reconstituir e projetar o movimento de suas fotografias através da animação. No entanto, seu sucesso foi parcialmente alcançado. Ao contrário do que pode parecer, os inúmeros filminhos que hoje conhecemos, cuja autoria é atribuída a Muybridge, na realidade só foram produzidos depois de sua morte. Devido a problemas técnicos, o fotógrafo teve de se contentar em decalcar as fotos em desenhos silhuetados. Porém, com os desenhos pintados na borda de um disco de vidro, Muybridge conseguiu projetá-los através do zoopraxiscópio, um importante instrumento da história do período pré-cinematográfico.

A criação do zoopraxiscópio possibilitou a Muybridge apresentar publicamente seu trabalho. Projetando fotografias luminosas e desenhos técnicos animados, ele se lançou  no circuito internacional de conferências científicas, uma forma comum no período que especialistas usavam para apresentar seu trabalho. O apartamento de Marey foi o primeiro lugar fora dos Estados Unidos em que se apresentou publicamente.

Quando finalmente se encontraram, passados três anos desde as primeiras trocas de correspondência, Marey aguardava ansioso para conhecer pessoalmente o trabalho de Muybridge. Convidou um notável grupo de sábios e artistas para a sessão, dentre os quais o matemático e físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-94), formulador do princípio da conservação da energia. Mesmo sem falar francês, Muybridge deu um espetáculo naquela noite. Segundo o artigo publicado no dia seguinte no jornal Le Globe, com o título “A Fotografia Instantânea”, o inglês havia começado sua apresentação projetando imagens fixas. Os instantâneos resplandeciam sobre a tela, havia fotografias de toda a ordem: passo, trote, galope, salto e pinote, que eram intercaladas com informações que Muybridge fornecia. As explicações mais meticulosas dependiam da colaboração de Marey, que enriquecia a apresentação com seus próprios adendos.

Sem título, de Eadweard Muybridge, 1881. Registro sequenciado da égua Sallie Gardner a 68km/h. Cortesia do Departamento de Coleções Especiais, Biblioteca de Stanford.

O zoopraxiscópio apoiado sobre a mesa prometia reconstituir o movimento dos cavalos que a tanto custo Muybridge havia conseguido decompor: como em um golpe, a manivela virou e o ruído do engate libertou a silhueta de sua forma estática. O perfil negro do cavalo piscou, desapareceu e reapareceu em outra fase do movimento, e assim novamente, até que a sucessão de imagens atingisse o tempo exato para que todos os cavalos se tornassem um só, galopando animadamente sobre a parede. A fotografia fixa analítica das composições deu vida a um elegante cavalo de crina esvoaçante, com patas novamente embaralhadas aos olhos dos presentes. Diante da magia das imagens animadas, as gravatas se afrouxaram, na cortina surgiram temas mais fluídos e, de acordo com a matéria do jornal, até a pirueta de uma palhaço foi agraciada de elogios no reduto da ciência.

Muybridge terminou a noite consagrado e deixou no apartamento um rastro de possibilidades para Marey. O triunfo das imagens decompostas e sequenciadas abriu um novo campo de trabalho para o fisiologista, que incorporou a técnica fotográfica como uma poderosa ferramenta para o seu método gráfico. Poucos meses foram necessários para que Marey revolucionasse a fotografia de seu tempo.

Entre o outono de 1881 e a primavera de 1882, Marey foi para sua casa em Nápoles, onde costumava ir passar um inverno mais ameno. Lá, com vista para a Península de Posílipo, se dedicou ao registro de pássaros em voo usando um instrumento que combinava uma câmera fotográfica com o mecanismo de um relógio. A intermitência das engrenagens do relógio fazia girar a intervalos regulares um negativo cilíndrico dentro da câmera. Acoplado a uma espingarda, o conjunto deu origem ao rifle fotográfico.

Considerado um protótipo da câmera cinematográfica, o rifle de Marey era capaz de fazer doze fotografias por segundo. Foi o primeiro dispositivo da história capaz de registrar uma sequência de instantâneos em um pequeno intervalo de tempo. Desse modo, Marey conseguiu alcançar, com um único aparelho, o mesmo resultado das doze câmeras fotográficas de Muybridge.

Gráficos IIA, cronofotografia de Étienne-Jules Marey, sem data. Cortesia dos arquivos Collège de France.

O rifle, porém, ainda era impreciso para os padrões científicos: apoiado sobre o ombro, não permitia a mensuração do espaço percorrido. Além disso, o movimento dos pássaros era difícil de controlar. Marey resolveu trabalhar com uma câmera fixa, com a qual registrou um homem vestido de branco correndo contra um fundo negro. Enquanto o homem cruzava o quadro, a câmera disparava sucessivos clichês sobre o mesmo negativo. A figura foi registrada repetidas vezes sobre a mesma chapa fotográfica, exibindo sucessivas fases da trajetória do movimento. Marey chamou o novo procedimento de cronofotografia. Nos anos seguintes, explorou exaustivamente suas possibilidades criando um dos mais belos acervos da imagem pré-cinematográfica.

Depois de cinco anos, Marey resolveu ampliar o uso da cronofotografia para outro suporte. Seu objetivo era fotografar mais imagens sem que se sobrepusessem na mesma reprodução. A solução estava nas recém-lançadas tiras fotográficas, criadas pela empresa americana Eastman Kodak para a fotografia estática. Foi Marey quem teve a ideia e o talento de adaptar a tira fotográfica a uma câmera cinemática, de modo a gravar as imagens sequenciadas.

O resultado foi apresentado na Academia de Ciências de Paris, no outono de 1888. Na ocasião, os membros da Academia viram em papel as primeiras imagens filmadas da história. A partir daquele momento, a corrida para a constituição do cinema iria passar por seus momentos derradeiros, pesquisadores ao redor do mundo se dedicariam à tarefa de animar e projetar as imagens instantâneas e sequenciadas de Muybridge e Marey.

Quando ambos saíram de cena, o artista e o cientista deram lugar ao empresário e ao empreendedor. Como não havia mais espaço para o intercâmbio espontâneo, como o da noite de 1881, um ambiente de rivalidade reverberou do fim do século 19 até recentemente, com várias disputas quanto à nacionalidade da invenção do cinema. Prevaleceu o modelo do cinematógrafo apresentado pelos irmãos Lumière, cujo maior legado foi ter criado o nome “cinema”, pois, de resto, sabemos, tratava-se de uma combinação de ideias de seus antecessores, entre eles Muybridge e Marey.///

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Este texto é parte integrante do livro Entre pássaros e cavalos – Muybridge, Marey e o Pré-Cinema, que será lançado em breve pela editora SESI-SP

Raimo Benedetti é videoartista, montador de filmes cinematográficos e professor. Dedica-se ao estudo da arqueologia das mídias desde 2010.

 

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