Quando comecei a desenhar projeto de uma residência para a pesquisa Corpo Preta composições com rosas vermelhas para um arquivo em preto e branco, estava pensando a performance para a fotografia analógica como um diário de artista, estava obcecada com a clássica forma engessada de guardar imagens produzidas pela etnografia.
muSa michelle mattiuzzi

Em Corpo preta, a artista muSa michelle mattiuzzi parte do interesse pelos arquivos e acervos coloniais e institucionais para questionar os lugares possíveis a seu corpo, sua performance e sua obra. Em diálogo criativo com os artistas Arthur Bispo do Rosário e Jayme Figura, mattiuzzi investiga a materialidade de sua própria imagem, criada em conjunto com o fotógrafo Vicente Otávio. O resultado são oito fotografias que se repetem ao longo da obra, (autor)retratos em que seu rosto e suas mãos narram contos de beleza, força e encontro com a câmera. Conhecida por seu trabalho em performance, mattiuzzi faz da repetição das imagens impressas em serigrafia um gesto artístico, ao escolher tecidos nas cores branca, preta e vermelha, criando uma grande bandeira que faz menção às cores atribuídas ao orixá Exu. Ela também sinaliza os processos analógicos da fotografia: o negativo, o positivo e a cor vermelha, usada como filtro de segurança nos processos de revelação fotográficos. Os diálogos seguem e referenciam sua ancestralidade, já que são as mulheres de sua família que bordam e costuram a obra de dimensões monumentais. Com isso, muSa provoca os arquivos e acervos institucionais comumente armazenados ao longo do século XX, arquivos estes que, muitas vezes, exotificavam corpos como o seu. E inscreve-se de maneira assertiva nessas mesmas coleções, tornando a fricção permanente, provocadora e fértil.
Artista selecionada na Bolsa ZUM/IMS de 2023, muSa michelle mattiuzzi conta o processo criativo e o desenvolvimento do ensaio Corpo Preta, composições com rosas vermelhas para arquivo em preto e branco. Em formato de diário, a artista nos conta do processo criativo do ensaio Corpo Preta.
Leia aqui o Diário Corpo Preta – parte 1
Leia aqui o Diário Corpo Preta – parte 2
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muSa michelle mattiuzzi – É uma artista indisciplinar cuja investigação e prática se desdobram da performance à escrita, da fotografia ao cinema. A violência colonial é um tema constante em sua investigação poética e suas obras apropriam-se e subvertem o lugar exótico atribuído aos corpos das mulheres negras pelas narrativas imagéticas cis-normativas brancas. Em 2018 foi premiada com a Bolsa Ecos do Atlântico Sul do Instituto Goethe – São Paulo e em 2021 participou da 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto [Foto: Andrea Santicoli].
Texto por Daniele Queiroz, publicado originalmente na instalação de Corpo preta, no Festival ZUM 2024.



