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Robert Mapplethorpe: Exposição em Nova York marca os 30 anos da morte do artista

Robert Mapplethorpe & Cadão Volpato Publicado em: 05 de abril de 2019

Robert Mapplethorpe, Autorretrato, 1985. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Não há quem fique indiferente a Tensões implícitas: Mapplethorpe agora, a exposição mais importante de Nova York no momento. Em cartaz até o final de 2019 no Museu Guggenheim, ela apresenta um apanhado mais do que eloquente da obra de Robert Mapplethorpe, uma das mais impactantes do século 20. Impacto ainda mais notável nesses dias de conservadorismo redivivo.

Ainda que estranhamente fria e controlada, como, aliás, costumava ser o trabalho de Mapplethorpe, Tensões implícitas é um tapa na cara. Órgãos sexuais masculinos convivem em harmonia com flores, corpos perfeitos de homens e mulheres brancos e negros e cenas de sadomasoquismo. Por trás de tudo isso há o olhar de um esteta, de um artista atento às luzes e às sombras, como um pintor ou escultor renascentista armado de uma câmera Hasselblad. Mapplethorpe fotografava como um clássico, embora sempre empurrasse o resultado para além da fotografia.

Como ficar indiferente a Homem em terno de poliéster, a imagem do dorso de um homem negro vestido com um terno de três peças, do qual escapa um pênis semi-ereto? Esta foto de 1980, cujo modelo, Milton Moore,  foi um dos amantes do artista, impressiona pelo conjunto. Como se a elegância do terno em contraste com a crueza do pênis exposto revelasse o próprio método do artista, equilibrado entre o sagrado e o profano. “Ele vê a homossexualidade com misticismo”, escreveu sua modelo mais famosa, a cantora e grande amiga Patti Smith.

Mesmo em seus momentos mais hardcore, como fotos de casais sadomasoquistas em que um deles está de cabeça para baixo, numa quase crucificação. Ou mesmo num autorretrato chocante em que o artista se penetra com o cabo de um chicote, há uma atmosfera quase religiosa, um halo místico que conduz nosso olhar por signos em branco e preto.

No entanto, quando quer ser claro, ele é sem reservas – vários de seus retratos mostram órgãos sexuais masculinos eretos. E ele os chama simplesmente de “cock” (pau). Uma das fotos, que não está na mostra, é ainda mais explícita: homem negro com pênis ereto saltando da calça segura um revólver. Um tema sem dúvida recorrente, com roupa ou sem roupa, e que chega a bater na porta do mau gosto (sem, no entanto, entrar).

Há na exposição uma fotografia impressionante de uma arma no momento do disparo, e se houvesse qualquer dúvida em relação às conexões sexuais que Mapplethorpe parece querer estabelecer mesmo quando exibe flores ou  revólveres, ela se dissipa aí. O conjunto é tão belo que afugenta a vulgaridade, preservando o choque. E não para por aí.

Robert Mapplethorpe, Lírio de Calla, 1986. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Mapplethorpe ingressou no mundo gay hardcore novaiorquino pelas mãos de Jack Fritscher, editor da revista Drummer, com quem teve um relacionamento. Fritscher o conduziu ao Mineshaft, o bar gay e sex club do Village onde o fotógrafo arranjaria seus modelos. Outro amigo o aconselhou a deixar de ser observador e passar à ação.

O resultado é sombrio, tão sombrio que evoca as aventuras do pintor Caravaggio pelo chiaroscuro do submundo. Couro, correntes e chicotes comandam as cenas, em que há espaço até para uma graça. Em Brian Ridley e Lyle Heeter, de 1979, um casal SM em seu figurino mais pesado posa placidamente numa sala de visitas de aspecto burguês. “Para mim, SM significa sexo e magia, e não sadomasoquismo”, disse o artista em certa ocasião. As cenas têm uma estranha aura de dignidade meditativa. Algo próximo da arte pura, se ela existisse.

Robert Mapplethorpe, autorretrato, 1980. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Na hora de se autorretratar, Mapplethorpe usa a imaginação em larga escala, assumindo personas engraçadas, de mulheres maquiadas como vamps a rebeldes sem causa de topete gomalinado. Ele é tudo isso, mas também um fauno com chifres ou simplesmente um raro Robert sorridente, de peito nu e braços abertos, que desde sempre parece querer a perfeição.

Nas memórias de Só garotos, que Patti Smith escreveu a pedido do amigo, ela relata uma busca estética permanente de ambos os lados. Como almas gêmeas, eles tateiam o mundo da grande cidade à qual haviam chegado como neófitos, ainda que Mapplethorpe fosse natural de Nova York, ali pelos lados de Long Island. Smith conta como ele parecia destinado à fama, ao reconhecimento, e como de certa forma isso o afligia. Tal urgência, conclui ela, tinha a ver talvez com os poucos anos de vida que lhe restavam. Muitas vezes, quando moravam juntos, em quartos emprestados ou no lendário Chelsea Hotel, ela abria os olhos à noite para encontrá-lo trabalhando obsessivamente em alguma obra.

Robert Mapplethorpe, Louise Bourgeois, 1982. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Naquele tempo, a fotografia não era, para ele, nada além de um artíficio. Mapplethorpe começou ligado em colagens, e era para isso que as fotos recortadas de revistas pornográficas existiam. Algumas dessas colagens estão expostas em Tensões implícitas, e parecem mais do que informativas sobre o destino do fotógrafo. Têm um ar quase colegial, ainda que estejam associadas a temas bastante obscuros. Mostravam o começo de um caminho, e aí estamos falando do final dos anos de 1960 até o início da década seguinte.

É um percurso natural de um artista que estava tateando pela cidade, aberto aos seus múltiplos apelos sensoriais. Também já demonstravam o cuidado no acabamento, o que seria uma marca das fotografias, todas elas compostas em ambientes controlados de luz e sombra, tanto nos retratos das celebridades quanto nas cenas barra-pesada. Mapplethorpe era o homem do controle, e a fase final da sua vida revela bastante sobre esse aspecto da sua personalidade. Nos últimos anos, antes de morrer devastado pelos efeitos da AIDS, o fotógrafo nomeou sua biógrafa, fez com que ela entrevistasse cerca de 300 pessoas, incluindo ele mesmo, continuou aceitando encomendas a todo vapor e criou sua fundação, a mesma que doaria ao Guggenheim os cerca de 200 trabalhos que acabariam iniciando o acervo fotográfico do museu, do qual saiu essa exposição.

Robert Mapplethorpe, Patti Smith, 1976. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Patti Smith, a grande amizade da sua vida, com a qual viveu na pior, como pobres artistas boêmios numa Nova York dominada pela Factory de Andy Warhol (o círculo ao qual queriam pertencer) é a maior presença nas fotografias do Guggenheim. Smith foi sua musa e principal modelo nos tempos de vacas magras, quando ela trabalhava para ajudá-lo a viver como artista.

Uma das imagens mais famosas desse casamento espiritual está na capa de um dos discos mais icônicos do rock, Horses, de 1975. A foto já foi imitada inúmeras vezes. Nela, Smith aparece em preto e branco, de cabelos cortados por ela mesma, camisa branca (limpa, segundo ela, comprada no Exército da Salvação) e suspensórios, segurando uma jaqueta no ombro, na qual, sem muito esforço, conseguimos enxergar um broche em forma de cavalinho prateado. A luz, capturada ao final da tarde, forma um triângulo, e o olhar de Patti, dirigido a Robert, é altivo, quase desafiador. É  como o disco que ela está lançando, tão importante que punks e roqueiros de outras extrações mais ligadas à poesia o transformam num clássico. Patti e Robert parecem encontrar o ápice de sua carreira comum nessa imagem.

Reprodução da capa do disco Horses, de Patti Smith

Em 1970, Mapplethorpe comprou uma máquina polaroide da cineasta Sandy Daley. A ideia era fortalecer as primeiras colagens com fotos produzidas por ele mesmo. “Era mais honesto”,  ele admitiu. Pegou tanto gosto pela coisa que já em 1973 uma galeria mostrava seus trabalhos numa exposição solo chamada Polaroid. Algum tempo depois ele ganhou do mecenas e companheiro Sam Wagstaff a primeira Hasselblad, a câmera da qual ele tiraria todos os recursos de que necessitava para capturar suas imagens controladas. A câmera foi roubada pouco depois de Patti e ele terem se separado.

A busca pela perfeição o levava a caminhos misteriosos. Durante muito tempo Robert fotografou o corpo trabalhado de uma campeã de fisiculturismo, Lisa Lyon, com quem produziu uma série de estudos, filmes e o livro Lady, Lisa Lyon.  Dentro do mesmo pacote de culto ao corpo perfeito, há lugar até para um jovem Arnold Schwarzenegger em pleno vigor de seu fisiculturismo pré-Conan, o bárbaro. Dar de cara com esse retrato na exposição também é surpreendente.

Robert Mapplethorpe, Lisa Lyon, 1982. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Tudo é perfeição em Robert Mapplethorpe, e espanta o fato de ele ter entrado de forma meio relutante no universo da fotografia. Talvez ele pudesse ter sido um bom pintor (alguns desenhos que aparecem numa versão recente, mais luxuosa, de Só garotos, mostram um talento excepcional). Talvez ele pudesse ter sido um bom escultor. Em Tensões implícitas há um desafiador trono em forma de cruz. Algumas fotografias aparecem em molduras que ele mesmo fez questão de montar. E tais objetos engrandecem as imagens.

Robert Mapplethorpe, sem título, seis polaroides e molduras de acrílico pintadas, 1973. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe © Fundação Robert Mapplethorpe

Ele era, de alguma forma, um artista total, com uma diferença importante em relação aos estetas puros: seus trabalhos são provocadores para qualquer época. Já nos anos de 1980 sua vida não era fácil. Nem todos os museus tinham a audácia necessária para expor os seus temas profanos, dos falos às flores sensuais, dos corpos nus aos autorretratos de múltiplas máscaras. Fica difícil imaginar uma exposição dele no Brasil de hoje sem uma gritaria medieval do lado de fora.

Além de tudo, sobrou o estigma da doença que levara Sam Wagstaff dois anos antes. Soropositivo desde 1986, Robert Mappelthorpe morreu em decorrência da AIDS em 1989. Tinha 42 anos. O que ele fez, as tentativas de chegar à perfeição, a audácia de tratar temas incômodos, tudo isso está contido nessa exposição magnífica do Guggenheim.

Robert Mapplethorpe, Autorretrato, 1988. Museu Solomon R. Guggenheim Museum, presente da Fundação Robert Mapplethorpe, 1993 © Fundação Robert Mapplethorpe

O jovenzinho das colagens, aquele que havia sido criado numa família católica e que  se orgulhava de ter sido coroinha, o homem adulto que recorreu ao submundo para encontrar a si mesmo, encarando a arte com a honestidade devastadora de um Baudelaire e a volúpia de um Michelângelo, tudo isso é o corpo de um dos fotógrafos mais importantes do nosso tempo. Aquele cuja última fotografia, de rosto devastado pela doença e segurando uma bengala com um cabo de caveira, é um daqueles autorretratos que só Rembrandt, de feições arruinadas pela velhice, teria sido capaz de entregar para a posteridade.///

 

Cadão Volpato (1956) é jornalista, músico, escritor e ilustrador. É formado em Jornalismo e Ciências Sociais pela USP. Como músico, lançou seis discos com a banda Fellini, entre eles O Adeus de Fellini (85), Fellini Só Vive Duas Vezes (86) e Amor Louco (89). Como escritor, é autor dos livros Relógio sem Sol (2009) e Pessoas que Passam Pelos Sonhos (2012), entre outros.

 

 

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