Revelações do sagrado
Publicado em: 3 de abril de 2025
O olhar atento e respeitoso da jovem fotógrafa pernambucana Uenni registrou de forma inédita no Brasil o espaço sagrado do Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco, onde mundos, gerações, tempos, corporeidades e entidades se entrecruzam.
Uenni foi a primeira mulher negra vencedora da 2ª edição do Prêmio Mário de Andrade de Fotografias Etnográficas (categoria Série Fotográfica) no ano de 2024, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional por meio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP/IPHAN. Partindo do desafio de fotografar no escuro à luz de velas, envolta de fumaça e em baixa velocidade, Uenni nos conduz a um ambiente de fartura visual e simbólica, de devoção e evocação ancestral dos Pretos Velhos. Com sua narrativa imagética composta ora de planos abertos, ora de detalhes, temos todos nossos sentidos despertos e aguçados diante do altar minuciosamente preparado em um espaço ritualístico onde símbolos e pontos riscados no chão, cânticos sagrados antigos, vestimentas brancas, pés descalços, alimentos, flores e cachimbos abrem as pontes de comunicação com os encantados que estiveram, estão e sempre estarão entre nós.
A série Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco foi produzida pela artista entre 2022 e 2024 no Terreiro Ilé Asé Orìsanlá Tàlàbí, localizado em Paratibe, município de Paulista (PE), escolhido em 2023 como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Através das imagens desse ciclo, ela traz à luz não somente a prática espiritual do Canjerê dos Pretos Velhos de seu estado, única e não encontrada em outra parte do Brasil, mas também a preservação e visibilização de memórias ancestrais afro-indígenas coletivas e de sua própria família.
Para Uenni, a fotografia sempre transitou no ambiente dos terreiros: “Se tem uma coisa que me fascina muito dentro de um terreiro é que a fotografia sempre esteve presente ali, mesmo que durante um bom tempo tenham sido pessoas brancas as responsáveis por esses registros. Digo isso porque, quando entramos no salão de um terreiro, uma das primeiras coisas que chama nossa atenção são as fotografias expostas nas paredes. Essas imagens dizem muito sobre aquela família espiritual, especialmente sobre as pessoas fundadoras daquela casa”.
Nesta entrevista, acompanhamos a trajetória de Uenni na fotografia, seu processo artístico, suas referências e seu trabalho na concepção e realização da série Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco.


Como se deu seu primeiro contato com a fotografia? Houve alguma imagem ou evento específico que despertou o seu interesse?
Uenni: A fotografia sempre foi muito presente na minha família como uma forma de preservar nossas memórias. A pessoa responsável por fazer esses registros caseiros era a minha avó, Dona Cleonice, que ganhou sua primeira câmera fotográfica (analógica) da mulher para quem trabalhou sua vida inteira como faxineira. Momentos da minha infância, parte da minha adolescência e muitos outros eventos familiares foram feitos pela minha avó porque ela não tinha condições de pagar uma pessoa para fazer isso. Com esses registros caseiros consigo construir uma linha do tempo dessa família periférica na comunidade chamada Santo Amaro, no Recife.
Mas lá pelos meus 15 anos, com o surgimento das câmeras digitais, minha avó começou a não conseguir mais acompanhar a tecnologia e também a ter dificuldade para comprar filmes e revelar seus negativos. Quando ganhou uma Cyber-Shot da Sony, percebeu que não precisava mais revelar suas fotos e pagava para alguém passar as fotos do cartão de memória para um DVD. Com o tempo, também fomos deixando o aparelho de DVD de lado e, como consequência, os registros de nossas memórias afetivas. Comecei a me questionar o que poderia fazer para impedir esse desaparecimento dos momentos de nossa história familiar. Nessa época, em 2014, a ONG Ruas e Praças começou a oferecer uma oficina de fotografia e vídeo no meu colégio com o objetivo de reduzir a violência ali. Decidi participar dessa oficina para dar continuidade àquele trabalho da minha avó na preservação das nossas memórias.
Foi nessa oficina, dirigida por Alexandre Salomão, um cineasta aqui de Pernambuco, que tive toda a base técnica sobre fotografia e contato com equipamentos profissionais porque, até aquele momento, contava somente com as câmeras caseiras da minha avó. Sempre que acabava um período dessa oficina, me inscrevia na próxima turma por me identificar cada vez mais com tudo que estava aprendendo. Ainda assim, tentava me convencer de que não poderia fazer da fotografia minha profissão porque não teria um retorno financeiro com ela.
Quando exatamente você se entendeu que poderia fazer da fotografia sua profissão?
U: Venho de uma família em que ninguém havia terminado o Ensino Médio – e alguns, nem o Fundamental. Minha avó foi faxineira durante toda sua vida, minha mãe também é faxineira e através da fotografia fui a pessoa que precisou enxergar a realidade em que minha família estava inserida para poder conseguir encerrar um ciclo. Por que eu falo isso? A minha avó tinha uma paixão pela fotografia, mas nunca teve a oportunidade de se profissionalizar. Quando ela ganhou a câmera de sua patroa e começou a fazer registros de nossa família, continuava cuidando dos filhos e da casa daquela mulher, enquanto não podia cuidar de si e nem de seus próprios filhos. Os momentos de troca de minha avó com seus filhos eram quando os levava ainda pequenos para essa casa onde trabalhava. Depois de um tempo, minha mãe se tornou faxineira da filha da patroa da minha avó e, tempos depois, também passou a me levar ainda criança para essa casa onde trabalhava. No momento que tive consciência desse ciclo, falei para ela que não queria mais acompanhá-la porque, quando essa mulher tivesse uma filha, eu seria faxineira dessa filha. Sinto muito orgulho da profissão da minha avó e da minha mãe, da forma que encontraram para sobreviver, criar e educar seus filhos. Mas para mim estava claro desde muito nova que precisava encontrar uma forma de não dar continuidade ao que minha mãe e minha avó fizeram. E isso se deu com a fotografia.
O processo de me assumir fotógrafa foi longo e com muitas desistências, porque não tinha meus próprios equipamentos por serem caros e precisava ficar pedindo-os emprestados o tempo todo à ONG – o que me causava uma enorme pressão e estresse para que não fossem roubados e quebrados enquanto estivessem comigo. Em um dos meus retornos à fotografia, decidi fazer registros de coisas que estavam acontecendo na minha comunidade. A partir daí, mesmo sem equipamentos próprios, foi quando comecei a me entender como fotógrafa.
Fotografar o seu entorno foi o gatilho que lhe permitiu se entender como fotógrafa. A partir disso, como surgiu seu projeto de fotografar terreiros?
U: Fui a um terreiro pela primeira vez entre meus 15 e 16 anos – e fui muito bem acolhida. Lá pelos meus 19 anos, encontrei registros da minha avó de um terreiro e isso fez nascer em mim o desejo de começar a fotografar em terreiros – também como uma forma de resgatar uma parte esquecida da minha história familiar, porque minha bisavó foi umbandista e não temos muita informação sobre isso. A negação dessa parte do nosso passado fez com que fôssemos criados demonizando e com medo dos cultos de matiz africana.
Comecei a fotografar vários terreiros da região metropolitana do Recife, contratada por eles. Mas sentia um incômodo grande porque, internamente, acreditava que o motivo para fotografar aqueles espaços não podia ser o financeiro. Eu queria construir algo que fosse duradouro, meu legado, através do qual as pessoas soubessem quem eu fui.
Em 2019, fui pela primeira vez ao Terreiro Ilé Asé Orìsanlá Tàlàbí no ciclo da festividade de Jurema. Ainda que já tivesse fotografado as atividades culturais que aconteciam lá, porque é um terreiro bastante reconhecido, nunca tinha fotografado suas atividades religiosas.
No difícil processo de entender qual seria o meu propósito como fotógrafa sem me apoiar na questão financeira, concebi naquele espaço um projeto sólido e a longo prazo: passaria ali cinco anos tentando registrar todos os ciclos religiosos dessa casa. Mas com a Pandemia da COVID-19, meus planos tardaram e somente em 2022 pude começar a registrar os ciclos da casa, tanto os dos encantados da Jurema Sagrada como os dos Orixás. Esse trabalho se estendeu até 2024 e durante esse tempo entendi como meu trabalho ali era importante para preservar e visibilizar memórias ancestrais.
Segundo a sua percepção, quais pontos diferenciam as suas fotografias dos trabalhos tradicionais de fotógrafos documentaristas ou antropólogos que registram comunidades indígenas e afrodescendentes em suas práticas religiosas e espirituais?
U: Quando comecei a pesquisar sobre a fotografia de terreiro e as pessoas autoras daquelas imagens, vi que, na maioria das vezes, eram homens brancos que utilizaram essa ferramenta para vender narrativas sobre corpos parecidos com o meu e com o de pessoas pretas retintas da minha família. Como pessoa negra, fujo das práticas fotográficas da branquitude, que muitas vezes nos registra sem a nossa autorização. Grande parte desses fotógrafos não fazia (ou faz) parte de nenhum tipo de religião de matriz afro-indígena. O meu processo é de me desvincular o tempo todo do processo histórico de apropriação de nossas imagens, culturas e religiões.
Além disso, é bom lembrar que os acervos fotográficos históricos desses mesmos fotógrafos brancos contribuíram no processo de estigmatização dessas religiões. E, justamente por isso, quando eu comecei a fotografar terreiro, tomei todo tipo de cuidado para não dar mais munição para a intolerância religiosa que temos no país. Vejo meu trabalho como uma tarefa de salvaguarda, de preservação de memórias coletivas e minhas também. O sistema quer mesmo que a gente desista, se silencie e que outras pessoas falem por nós, por nossa cultura, e demonizem nossos cultos. Mesmo precisando de 10 anos até me entender como fotógrafa (desde o meu contato profissional com a fotografia nas oficinas daquela ONG até poder comprar a minha própria câmera em meio a muitas desistências ao longo do caminho), tudo valeu a pena para poder estar hoje segura de que é importante sim eu ser e permanecer fotógrafa.
Em se tratando de referências de fotografia de terreiro, quem seriam as suas?
U: Ainda que um dos principais nomes da fotografia de terreiro seja Pierre Verger, com um acervo rico e incrível das Casas de Salvador, ele não é referência para mim. Na verdade, carrego dentro de mim o trabalho de Lita Cerqueira como uma grande referência por ser uma das primeiras fotógrafas negras no país. Um dia quero chegar na minha velhice, olhar para trás e ver que consegui construir um pouco do legado de Lita. Isso seria grandioso para mim, porque consigo enxergar que temos histórias parecidas. Quando pesquisei sobre seu trabalho, tive o entendimento de que seria possível sim ser fotógrafa e conseguir construir um acervo fotográfico único, assim como ela fez e faz.
Durante muitos anos trabalhei com câmeras, equipamentos e notebooks emprestados de amigos, especialmente do antropólogo Ernesto de Carvalho. Todas essas pessoas que me acompanharam e motivaram também são uma referência para mim (inclusive aquelas que não são fotógrafas!) porque me fizeram acreditar que é possível viver de fotografia.
Como se deu sua escolha para apresentar sua série Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco para o Prêmio Mário de Andrade de Fotografias Etnográficas?
U: Gosto muito de visitar museus afro-brasileiros e sempre encontro fotografias que são basicamente sobre o Candomblé. Isso me dá uma agonia, porque a gente tem tantas outras manifestações religiosas de matriz africana e afro-indígena espalhadas neste Brasil gigantesco, como a Xambá, o Tambor de Mina e a própria Jurema Sagrada. Ela foi o primeiro ciclo religioso que fotografei no Terreiro Ilé Asé Orìsanlá Tàlàbí e um dos que mais me emociona, particularmente. É muito bonito para mim ver aquelas entidades ali em terra cuidando das pessoas com benzimentos e, no final de todo processo, a gente partilha aquele alimento que cada filho preparou com carinho.
No processo de entender o que iria submeter ao Prêmio Mário de Andrade, achei na internet muitos registros de Gira de Preto Velho na Bahia, como é chamado o Canjerê em Pernambuco, mas nenhum deles era semelhante ao ritual que eu tinha fotografado. Percebi então que possuía um material único e pensei: “Posso não ganhar esse prêmio, mas quem está na comissão desta seleção vai bater o olho nas minhas imagens e ter algum tipo de impacto. Eles vão saber como é o Canjerê dos Pretos Velhos de Pernambuco”. Após o prêmio, começaram a aparecer vários registros do Canjerê de Pernambuco dentro da tradição da Jurema.
Lembro que também fiquei incomodada com o fato de que nas versões anteriores do Prêmio, a grande maioria das pessoas vencedoras era de pessoas brancas retratando aspectos da cultura brasileira de pessoas pretas. “Por que isso estava acontecendo, se existem fotógrafos pretos competentes para ganhar um prêmio desse?”, me questionei. Para mim era muito importante que tanto esses registros como meu trabalho como uma fotógrafa negra fossem visibilizados nessa oportunidade.
Ainda que a intolerância às religiões de matriz africana seja um crime no Brasil, temos visto notícias constantes de ataques a terreiros. Houve alguma preocupação ou cuidado específicos seus para realizar a série Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco?
U: Sempre estive muito atenta ao que estava acontecendo ali ao meu redor. Como estávamos cultuando nossas ancestralidades, registrei a Preta Velha e o Preto Velho com o cuidado de não ser invasiva com a minha câmera ou de atravessar o espaço num momento importante. Também registrei as crianças naquele espaço: elas entendiam tudo o que estava acontecendo com aqueles encantados. Mesmo que essas imagens ilustrem um ambiente totalmente contrário ao que muitas pessoas divulgam, e assim também sirvam para combater preconceitos e ignorância, essas fotos sempre correm o risco de serem colocadas num lugar de estigmatização. Isso acaba sendo frustrante para mim, porque tenho que estar atenta o tempo todo e não mostrar demais nossas festividades para que pessoas intolerantes não peguem minhas fotos e as façam circular em outros espaços com discursos de ódio. Muitas vezes as pessoas que mais combatem e demonizam os terreiros, e que estão em grande parte em territórios periféricos, são moradoras dessas comunidades e acabam recebendo cestas básicas ou assistência dessas casas. Ou seja, os terreiros acolhem até mesmo as pessoas que os violentam.
Ao longo dos três anos do projeto Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco, como você analisa o desenvolvimento de sua mirada?
U: Como fotógrafa, é muito interessante poder rever minhas primeiras fotos de 2022 e compará-las com as dos anos seguintes. Consigo perceber como meu olhar se desenvolveu conforme ia entendendo na prática cada espaço daquele terreiro e seus limites, principalmente em relação à iluminação. Eu tinha que estar atenta ao que estava acontecendo para não ficar atravessando as pessoas ou atrapalhando o ciclo que estava acontecendo naquele momento. O respeito pelo que estava registrando foi o que guiou este projeto.
Não tenho o costume de fotografar coisas que não fazem parte da minha vivência porque, se alguém vier me questionar, poderia não saber contestar ou responderia que fiz imagens bonitas por serem somente bonitas.
Meu método de trabalho foi primeiro o de entender durante um ano o espaço do Terreiro Ilé Asé Orìsanlá Tàlàbí sem ser fotógrafa. Claro que observar outras pessoas fotógrafas em ação nesse ano me fez exercitar o olhar, me imaginava fazendo registros sob outros ângulos ou explorando a pouca iluminação do ambiente. Quando comecei definitivamente a fotografar o Canjerê, optei por planos mais abertos para captar o máximo possível de detalhes. Toda a dinâmica com a dificuldade de fotografar no escuro (estávamos o tempo todo à base de velas), em baixa velocidade e sem acesso a equipamentos adequados me fez aprender a fotografar no meu limite e a entregar o máximo com o pouco que tinha à disposição. Ao mesmo tempo, tudo isso me levou a estar em um constante processo de pesquisas e tentativas para ter as melhores fotos possíveis.
O que representou o Prêmio Mário de Andrade de Fotografias Etnográfica para sua série Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco, tanto para você como para as pessoas do Terreiro Ilé Asé Orìsanlá Tàlàbí?
U: Como até o Prêmio Mario de Andrade minhas fotografias não estavam circulando ou sendo publicadas em posts no meu Instagram, muitas pessoas não me viam como fotógrafa. Costumo dizer que a gente só vale o que tem, infelizmente. Ao ter esse prêmio, isso ficou muito claro para mim porque passei a ser vista e validada como fotógrafa, mesmo tendo um acervo grande de fotografias e anos de prática. Mas, durante toda minha jornada, sei quem foram as pessoas, especialmente toda a comunidade do terreiro, que estiveram ao meu lado e me incentivando para não deixar que me dissessem que meu trabalho não era bom. Esse prêmio trouxe uma felicidade e sensação de orgulho muito grande à Casa. Quando eu entrei pela primeira vez ali, estava desacreditada e querendo desistir da fotografia. Mas todo o acolhimento que recebi ali foi fundamental no processo de me entender como fotógrafa e resultou neste prêmio, que levou o nome do Terreiro a outros espaços. ///
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Fotos da série Canjerê dos Pretos Velhos na Jurema Sagrada de Pernambuco, de Uenni, 2023- 2024, digital. Trabalho agraciado com o Prêmio Mário de Andrade de Fotografias Etnográficas, ano de 2024, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por meio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP/IPHAN.
Renata Martins (1980) é educadora, crítica de arte e curadora independente natural de São Paulo e residente em Bonn, Alemanha. É mestre em Literatura Alemã pela USP e especialista em Curadoria de Arte pela Universidade das Artes de Berlin. Foi residente do programa Vila Sul do Instituto Goethe de Salvador (2020-2022), onde concebeu e organizou o Catálogo Arte Mais – Panorama de Artistas Transvestigeneres no Brasil @catalogoartemais.