Retratos de um apagamento
Publicado em: 27 de março de 2025Nascida em Maceió, a fotógrafa, publicitária e professora Renata Voss começou a investigar artisticamente uma tragédia ambiental de grandes proporções em sua cidade natal: o desaparecimento dos bairros de Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Farol e Pinheiro, esvaziados pelo maior crime ambiental já registrado em uma área urbana no país, causado pela extração de sal-gema pela empresa Braskem. Cerca de 60 mil pessoas foram atingidas.
No projeto Sumir do mapa, Voss usa mapas virtuais, registros históricos e inteligência artificial para reconstruir o que já não pode ser acessado fisicamente, e, em alguns casos, nem online. Seu trabalho desafia a lógica do esquecimento e reafirma que nem tudo que desaparece deixa de existir.
Como surgiu seu interesse pela fotografia e quais foram suas primeiras experiências na área?
Renata Voss: Sempre gostei de imagens. Na infância, além dos registros do dia a dia, via muitos álbuns de família, especialmente na casa do meu tio Zequinha, que tem um grande acervo de fotos antigas de Maceió. Ficava fascinada pelas mudanças na paisagem da cidade. Esse contato despertou o interesse pela fotografia. Na adolescência, fiz cursos, depois me formei em publicidade e atuei com direção de arte, mas queria estudar fotografia. Trabalhei em estúdio fotografando gastronomia, moda, produto, arquitetura e retratos. Com o tempo, passei a produzir trabalhos artísticos, participei de exposições e me direcionei para a carreira acadêmica, fazendo mestrado e doutorado na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Meu aprendizado começou com filme, então as experimentações com revelação sempre foram parte do processo.
Desde quando você começou a explorar a relação entre memória e fotografia?
RV: Um dos meus primeiros trabalhos foi sobre o Cine Plaza, um cinema de bairro em Maceió que pertencia à minha família. Minha mãe sempre me contou histórias sobre ele, e, em 2004, comecei a fotografar o espaço desativado. Depois, fiz séries com fragmentos de películas de filmes pornôs encontrados no local e boletins de revisão de filmes. Em 2011, usei a fotografia para disparar memórias sobre o cinema, um lugar que abrigou tantas imagens ao longo dos anos.
Outros trabalhos seguiram essa linha, como Alagoas Iate Clube, em que fotografei um mesmo local em diferentes períodos e usei revelação com goma bicromatada e papel salgado, deixando a última imagem da série se apagar com o tempo. Em Ruir (2017), fotografei casas com risco de desabamento e revelei as imagens em cianótipo, platina/paládio e papel salgado, técnicas que remetem à fragilidade do tema.
Uma vez, em uma exposição, um senhor me perguntou se quem tinha tirado aquelas fotos ainda estava vivo! Acho essa dúvida quanto à época da imagem muito interessante, pois gera incerteza sobre se é uma fotografia recente ou antiga.
A memória, que muitas vezes é vista como algo inerente à fotografia, me interessa justamente nesse ponto de interseção entre o real e o imaginado. Meu trabalho parte do documental para, muitas vezes, dar uma volta e fabular sobre o tema. A escolha das imagens e suas materialidades ajudam a construir essa relação entre o que se lembra, o que se imagina e como projetamos o futuro desses lugares.
O que te motivou a desenvolver a série Sumir do mapa e como foi o processo de pesquisa e concepção desse projeto? São quantas imagens, ao todo?
RV: Sou de Maceió e a cidade é tema em vários trabalhos meus. Para esse projeto, a ideia de trabalhar com essa temática deste crime ambiental surgiu a partir das minhas idas e vindas para Maceió. Moro em Salvador, mas vou com bastante frequência para lá. Em 2022, circulei muito próximo dos bairros afetados pelo afundamento do solo e algo que me chamou a atenção foi essa disparidade entre a circulação normal da cidade e o esvaziamento forçado dessas áreas. Ruas completamente vazias, placas indicando rotas de fuga, um cenário de ausência convivendo lado a lado com uma cidade viva e em movimento. Essa sensação me inquietou e me levou a querer desenvolver um trabalho sobre esse tema.
Em uma das viagens que fiz para Maceió, resolvi pesquisar no Google Maps os locais que poderia visitar para fotografar e, ao explorar o mapa online, percebi que um trecho de uma rua interditada não aparecia mais. Virtualmente, não era possível circular por essa área e, pessoalmente, isso também não era viável. Foi aí que surgiu a ideia do Sumir do mapa. Decidi capturar a última vista de cada extremo deste limite ausente no mapa e comecei a trabalhar a partir dessa ausência. A partir disso, me interessei em ver como era esse trecho no passado, e então comecei a coletar imagens antigas, sendo a mais antiga de 2011 e a mais recente de 2022. Pensando no futuro do território, utilizei inteligência artificial para imaginar como essa paisagem poderia se transformar.
No total, revelei 13 imagens para essa série. São cinco vistas de cada ponto-limite da rua que desapareceu do mapa e uma imagem que mostra a transformação de uma casa ao longo do tempo. Além disso, visitei alguns locais para fotografar pessoalmente e continuo trabalhando com esse material para novas séries dentro desse projeto. O Sumir do mapa ainda está em processo, e sigo pesquisando maneiras de expandir essa investigação visual.
Como você decidiu utilizar imagens do Google Maps e inteligência artificial no trabalho? De que forma essas ferramentas contribuíram para construir essa narrativa visual sobre o desaparecimento da cidade?
RV: Essa escolha surgiu a partir de uma limitação física. Como estou geograficamente distante de Maceió, usei o Google Maps para planejar minhas saídas fotográficas quando fosse para lá. Durante esse processo, percebi que um trecho de uma rua simplesmente não aparecia mais no mapa e, ao tentar ir até o local fisicamente, também não consegui acessá-lo por conta da interdição. Isso trouxe uma camada muito forte para o trabalho, pois mostrava esse apagamento tanto no espaço virtual quanto no real.
O Google Maps, então, se tornou uma ferramenta essencial para construir essa narrativa sobre o desaparecimento da cidade. A impossibilidade de acesso reforça a ideia da interdição e da perda territorial. A inteligência artificial entrou no processo como um meio de imaginar o futuro dessa paisagem. A partir da descrição ‘o futuro da paisagem de uma cidade do Nordeste do Brasil que está afundando devido à extração de sal-gema’, surgiram imagens de devastação e transformação desse lugar. A ideia era provocar uma reflexão sobre o que cada um imagina para o futuro desse território, um espaço que já está marcado pelo desaparecimento e pela incerteza.
A escolha do papel salgado para revelar as imagens tem um significado forte, já que os sais utilizados na técnica estão diretamente ligados à exploração de sal-gema que causou o afundamento. Como você vê essa relação entre materialidade e conceito no seu trabalho?
RV: A materialidade é essencial no meu trabalho, e em Sumir do mapa a escolha do papel salgado tem um significado forte. Essa técnica fotográfica do século 19 utiliza cloreto de sódio e nitrato de prata para formar a imagem, e há uma relação direta com o crime ambiental que causou o afundamento do solo em Maceió. A extração do sal-gema — composto por cloreto de sódio, cloreto de potássio e cloreto de magnésio — foi justamente o que gerou a instabilidade do solo. Dessa forma, as imagens da série são reveladas com os mesmos elementos químicos que provocaram a destruição desse território.
Essa escolha reforça a conexão entre imagem, território e a questão ambiental. O suporte e a técnica potencializam o significado das fotografias, criando uma camada simbólica que amplia a reflexão sobre o desaparecimento desses bairros. Assim como o sal transformou o solo e causou sua destruição, ele também compõe as imagens que contam essa história.
Sumir do mapa lida com transformações urbanas, crises ambientais e apagamento histórico. Como você enxerga o papel da fotografia na documentação e na reflexão sobre essas mudanças?
RV: A fotografia tem um papel fundamental tanto na documentação quanto na reflexão sobre essas transformações. A série não apenas registra um crime ambiental que marcou a cidade de Maceió, mas também propõe um olhar sobre as camadas de apagamento que envolvem esse processo—o desaparecimento físico dos bairros, a perda das memórias e o silenciamento sobre as consequências para os moradores. A fotografia, ao capturar vestígios desse desaparecimento, ajuda a manter viva a discussão sobre esse acontecimento.
Além de documentar, a fotografia tem o potencial de provocar reflexões e sensibilizar o público. Trabalhos artísticos como esse criam novas formas de ver e pensar essas mudanças, trazendo diferentes abordagens, seja pelo registro direto, pela ressignificação de imagens ou pelo uso de processos experimentais. No caso desse projeto, o uso de diferentes técnicas e materiais dialoga com o próprio conceito da série, ampliando a discussão sobre a relação entre cidade, memória e destruição ambiental.
Qual foi o retorno de ex-moradores ou pessoas afetadas pelo afundamento da região? Como foi a recepção ao seu trabalho por parte da comunidade?
RV: Algumas pessoas, tanto de Maceió quanto de outros lugares, comentaram sobre a importância de dar visibilidade a esse crime ambiental. Muitos se impressionam com a magnitude do que aconteceu e com o fato de que, mesmo sendo um dos maiores desastres urbanos já registrados, muitas pessoas ainda desconhecem a real dimensão do problema. O trabalho artístico, de certa forma, ajuda a ampliar essa visibilidade e a manter viva a discussão sobre o impacto dessa perda para a cidade e para seus moradores.
O desaparecimento desses bairros envolve muitas camadas de apagamento — não apenas das construções, mas também da memória afetiva e cultural que existia nesses espaços. A recepção do trabalho tem sido positiva, e acredito que projetos como esse, assim como os de outros artistas que também abordam o tema, contribuem para que esse trauma não seja esquecido. Há um trabalho de pesquisa muito importante e cuidadoso sendo feito pelo Inventário do Patrimônio Cultural Imaterial dos Bairros de Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Farol e Pinheiro, que é parte de um acordo socioambiental firmado entre o Ministério Público Federal e Estadual e a Braskem. Trata-se de um trabalho de pesquisa superimportante para a cidade, pois tem documentado essas histórias e memórias, ajudando a preservar um pouco do que foi perdido.
Sumir do mapa ainda está em andamento. Quais são os próximos passos para o projeto e como você pretende expandir essa investigação visual?
RV: O projeto está em suspensão por um tempo, pois em 2024 engravidei, o que reduziu minhas viagens para Maceió. Atualmente, estou de licença-maternidade e tenho desenvolvido trabalhos a partir dessa experiência transformadora. Ainda assim, sigo investindo na circulação da série, que já recebeu menção honrosa no Prêmio Pierre Verger e no 24º Julia Margaret Cameron Award for Women Photographersna categoria de Processos Alternativos. Algumas imagens da série também foram exibidas no 4º Salão Nacional de Pequenos Formatos de Britânia e na exposição virtual Revealing the Non-evident, organizada pelo festival Experimental 2024, em Barcelona, Espanha. Além da circulação, sigo trabalhando com novas imagens e pesquisas dentro desse projeto. Tenho algumas capturas feitas em Maceió que ainda não foram finalizadas e quero continuar explorando diferentes processos experimentais de revelação fotográfica. A intenção é aprofundar essa investigação visual, buscando novas formas de representar e refletir sobre esse desaparecimento urbano e suas consequências. ///
Fotos da série Sumir do mapa, de Renata Voss, 2023
Lucas Veloso é jornalista audiovisual e cofundador da Mural – Agência de Jornalismo das Periferias. Colabora com portais da mídia brasileira, como Folha de S.Paulo, Estadão, TV Cultura, UOL e Alma Preta. Em 2023 e 2024, venceu o prêmio + Admirados jornalistas negros e negras da imprensa brasileira.
Tags: Braskem, Crime ambiental, Maceió