Ensaios

Meu vício é gente: a fotografia de Vania Toledo

Vania Toledo & Erika Palomino Publicado em: 01 de setembro de 2020

 

Caio Fernando Abreu e Cazuza

Aquela coisa: Vania Toledo conhecia “todo mundo”. A combinação de uma personalidade carismática, a mente rápida, o humor afiado e a risada inconfundível. Com muito charme e uma Yashica na mão, abriu portas e oportunidades para traçar uma trajetória única e original, em que vida e obra se atravessam, tendo como resultado um recorte comportamental e ousado da cultura e da vida social no Brasil nas décadas de 1970, 80 e 90.

Aos 13 anos, a menina Vania Rosa saiu da cidade de Paracatu (MG) para morar em São Paulo. Os pais contavam que ela descrevia as festas de família com uma riqueza de detalhes que passava completamente despercebida aos olhos dos adultos. Tinha “olhar fotográfico”, como diziam. Aos 15, Vania ganhou sua primeira câmera e, a partir dali, registraria tudo o que lhe interessasse. Ou seja: gente.

Formou-se em ciências sociais, e até os 30 anos considerava sua produção fotográfica apenas um hobby, trabalhando na área de educação da Editora Abril. Foi quando, numa viagem a Londres com o marido, teve tempo para flanar pelas ruas, passeando com a câmera a tiracolo. À noite, no quarto do hotel, revelava o material. Ao final de três meses, espalhou todos os negativos no chão. Veio o estalo: “Vi que aquilo poderia me dar uma felicidade, e que eu poderia fazer daquilo a minha vida. Desci do avião fotógrafa.”

Bob Wolfenson, que era fotógrafo júnior da Abril naquele tempo, conheceu Vania na editora. “Eu a via sempre, tínhamos uma simpatia um pelo outro. E de repente ela se tornou fotógrafa. Num primeiro momento, achei aquilo esquisito: como é que uma pessoa se torna uma coisa para a qual não tem nenhum tipo de formação? Mas, pelo contrário, isso foi uma vantagem, porque ela não era viciada em nada, não aprendeu fórmulas nem composições. A grande coisa da Vania era estetizar a própria vida. Ela era independente e livre. Fotografava o que via, e fazia isso lindamente, porque era muito verdadeiro, sem elucubrações. Era o que era: onde ela estava, era o que fazia”, completa Wolfenson.

Andando pelo circuito USP Maria Antonia-praça Roosevelt, frequentado pela boêmia dos palcos, Vania foi conhecendo o povo do teatro, e começou fotografando (de graça) os atores, que sempre pediam material para divulgação das peças. Teatro que ela sempre amou, e que chegou a fazer com Eugenio Kusnet e Ruth Escobar (mas que teve de preterir pelo vestibular, segundo dizia).

Com Luiz Sérgio Toledo, formava um casal badalado. Ele, cirurgião plástico, ela, em seus 30 anos, extrovertida, comunicativa, ligada no 220: uma locomotiva, para usar uma gíria da época. Moravam num sobrado na alameda Casa Branca, que era point, principalmente nos almoços de sábado. “Ela usava um vestido vermelho, salto altíssimo, cabelão”, lembra o amigo Mario Mendes da primeira vez que eles se viram, na redação da Interview. Vania fazia entrevistas e fotos para a revista, e cabia ao então jovem estudante de jornalismo transcrever todo o material.

Vania já era muito amiga de Antonio Bivar, que viria a se tornar parceiro de vida. Ele trabalhava no semanário Aqui São Paulo, e a apresentou para Samuel Wainer, editor e publisher, o primeiro a contratá-la como fotógrafa. O projeto durou um ano (1976-1977). Depois, ela e Bivar foram para a Pop, dirigida por Okky de Souza e com direção de arte de Richard Raillet, que depois se associou com Claudio Schleder na Interview. Foi assim que todos se conheceram.

Marília Pêra

Vania pegava cada vez mais gosto pela nova profissão, admirando David Bailey, George Platt Lynes e, sobretudo, Richard Avedon. Luiz Sérgio também gostava de fotografar, e eles costumavam comprar revistas técnicas americanas, com indicações de fotografia e equipamentos. Ele traduzia as matérias para que ela aprendesse mais de técnica. Luz de estúdio, ela conta, foi aprendendo ao fotografar teatro.

“Salto alto, bolsa, era muita coisa”, conta Mario Mendes. Então ela começou a sair com uma maquininha autofocus. “Lá vem a Vania com a Nhá Chica dela”, assim batizou Gilberto Gil a clássica Yashica. “Aí começou o grande lance. E quem ela não conhecia passou a conhecer”, resume Mario.

“Ela usava câmeras sem muitos recursos, pequenas, sem grandes técnicas, mas participava da cena underground de São Paulo e do Rio. A vida passando na frente dela, e ela fotografando tudo. E o que dava relevância à sua produção, primeiro, era ela estar na hora certa, no lugar certo, e com um olhar muito crítico: tinha uma língua feriníssima, e isso se transportou para o trabalho também. As fotos têm um olhar cínico, crítico, às vezes enaltecedor também, porque ela gostava de muita gente e era gostada por muita gente”, relembra Bob Wolfenson. “Ela flagrava as pessoas, e as pessoas adoravam! E entregavam para a Vania o que não davam para ninguém”, confirma Mario Mendes.

 

Vieram os retratos de artistas, da música brasileira, do rock, e Vania virava a capista oficial de um momento áureo da indústria fonográfica no país. Com tantos portraits em curso, ela precisava ter um lugar só dela, e assim surgiu o estúdio da alameda Campinas com a Lorena, que também virou um babado forte.

“Em tudo o que interessava ela estava presente, e era única em fazer esse tipo de foto, em pegar aquela vibe. Foi a cronista visual de uma época, era a cara de toda uma trupe que fez e aconteceu, quando a noite era embalada não por drogas sintéticas, tinha uma purpurina maior no ar…”, conta Joyce Pascowitch.

Lá por 1978-79, Vania e Luiz Sérgio fizeram uma viagem a Nova York, e lá foram recebidos por um amigo que tinha virado “mordomo” da família Newhouse, dona da editora Condé Nast. E ele conhecia “todo mundo”.“Foi assim que eles foram ao Studio 54, e ela fez aquelas fotos”, revela Mario Mendes. Truman Capote, Andy Warhol… Esse material trouxe uma enorme visibilidade para Vania, na melhor tradição de nomes como Ron Galella, Bill Bernstein e Richard E. Aaron.

 

Em Nova York, Vania se jogou nas festas bafônicas da comunidade gay em Fire Island. Com alma de fotojornalista, não tinha medo nem barreiras. “Ela sempre falava: por que não pode? Tudo pode. Vou lá”, conta Mario.

“Meu vício é gente. Gente atuante, libertária, gente que produz e faz arte, que gosta de viver como eu. Por isso ou por aquilo, sempre fotografei pessoas assim, com esse perfil”, contou Vania, por ocasião de uma exposição no Museu da Diversidade, em São Paulo, realizada em 2018 com curadoria de Diógenes Moura. “Sou contra tudo o que é muito correto, muito confortável. Minha zona de conforto é a interrogação, é a procura eterna pelo novo”, conclui.

A vivência e o trânsito de Vania no underground gay naturalmente aparecem em seu trabalho. Ela tinha muitas amigas maquiadoras, dentre elas a poderosa e absoluta Danton, que além de garantir que ela estivesse sempre linda em todas as festas e fervos de discotecas, como a lendária Aquarius e o Gallery, templos do jet-set nacional, proporcionava passe livre para ambientes ainda mais restritos, como os lendários shows da boate Medieval, bas-fond na Augusta próximo à Paulista, com seus espetáculos inspirados nos cabarés franceses, cheios de pompa e glamour. Lá, Vania entrava nos camarins e fotografava tudo, absolutamente pioneira. Estabelecia com seus personagens uma relação de confiança e cumplicidade, essencial para o registro de situações tão corriqueiras quanto grandiosas e fugazes.

Cida Costa para a revista Playboy

“Na série da noite paulistana era, e é, por dentro de cada uma de suas imagens que cada um de nós poderia cair, sem lenço, sem documento, longe do perverso mundo globalizado e do politicamente correto infame dos frágeis dias atuais”, diz o curador e escritor Diógenes Moura.

“O mais legal de seu legado foi a afinidade que ela conquistava com as pessoas, obtendo um momento particular, às vezes algo tão íntimo. Hoje não se consegue mais isso, o mundo está tão careta. Perdeu-se muito da espontaneidade também. Hoje, ou as pessoas são superexpostas ou se saca uma câmera e a pessoa logo fica apavorada. O carisma dela quebrava qualquer gelo, a risada…”, conta seu filho, Juliano Toledo, também fotógrafo (e DJ), que se identifica, sobretudo, com a cobertura da vida noturna que a mãe produziu.

 

Foto da série Homens

Foi naquele verão de 1979-80 que as mulheres começaram a fazer topless no Rio. Era a época da novela Água viva. “Os rapazes, por sua vez, começaram a fazer ‘botomless’, a Vania achou aquilo engraçado, e teve uma ideia”, conta Mario Mendes, sobre a origem de um dos mais famosos trabalhos da fotógrafa, a série Homens (1980). “Em plena ditadura, uma mulher resolve fazer um livro de homens nus. E, por acaso, ela era amiga de homens que toparam!”, comenta Mario. São 34 fotos, retratando anônimos e personalidades, como Caetano Veloso, Roberto de Carvalho, Nuno Leal Maia e Ney Matogrosso (Vania conhecia Ney antes do sucesso dos Secos & Molhados, do teatro. Depois, na Interview, Vania fez a entrevista e as fotos da edição com a famosa chamada “Vim homossexual nessa encarnação para cumprir uma missão”. Depois, ela e o editor Claudio Schleder tiveram que ir dar explicações na Polícia Federal.)

Sempre curiosa, Vania achava um absurdo que não coubesse às mulheres o direito de conhecer outros corpos masculinos que não os dos maridos e filhos. Ligando para esses amigos, perguntava onde eles mais se sentiriam à vontade para posar. E eles aparecem em seus quartos, camas, piscinas e chuveiros. Fez tudo em 15 dias. Foi um estrondo. O lançamento, badaladíssimo, foi no Spazio Pirandello, onde a intelligentsia paulistana se encontrava então, na região hoje conhecida como Baixo Augusta.

Ela chegava com sua Brasília, e o agito começava. Aos sábados, por exemplo, o programa da turma naqueles tempos em São Paulo era frequentar lojas de discos do centro, como a Wop Bop, na galeria Califórnia, e a Bossa Nova, bem ao lado, na Barão de Itapetininga. Depois almoçar no Bar Brahma e seguir para a casa de algum amigo.

 

Pelé

Entre 1984 e 86, o lugar obrigatório da cidade era o clube Madame Satã. Recém-separada, Vania frequentava a casa de segunda a sábado – porque aos domingos não abria. Lá circulavam punks, jornalistas, roqueiros, como Julio Barroso e sua turma, em suma, toda a modernidade paulistana. E onde certa vez Vania foi de pijama e trench coat. E foi no Val Improviso, fundamento do under gay daqueles tempos, na Amaral Gurgel, que ela levou Cazuza para conhecer a noite da cidade. Vania era rueira.

Certa vez, já em 1990, foi ao Cineclube Elétrico, uma sala cult na Augusta. Terminada a sessão, atravessou a rua e foi até o orelhão telefonar para o Bivar, que tinha ficado de assistir a um filme na casa dela, na praça Buenos Aires. Foi ao cruzar de volta, naquele cantinho onde ficava o cinema, que se deu o atropelamento brutal que a colocou num coma profundo, entre a vida e a morte. Desenganada pelos médicos, foi dito que, caso ela sobrevivesse, jamais andaria de novo. Foram 22 fraturas, só da cintura para baixo, e mais de dois meses inconsciente. Enquanto isso, seus amigos da música, como os Titãs e Rita Lee, faziam shows. E artistas plásticos, como Fernando Zarif, leiloavam obras para pagar a conta do Sírio-Libanês. Ao acordar, Vania se emocionou. “Foi a maior prova de amor, ela nem sabia que as pessoas gostavam tanto dela”, conta Juliano Toledo.

Um ano de recuperação, meses e meses de todo tipo de fisioterapia. Ela teve de reaprender a falar, a andar (adotou a partir daí a bengala que se tornou marca registrada), a mexer os dedos e a fotografar.

 

Foi o lançamento do livro Personagens femininos (iniciado antes do acidente), que a tirou, literalmente, da cadeira de rodas, em 1991. “Decidi chamar atrizes e, para cada atriz, perguntei qual personagem ela tinha vontade de fazer.” Com isso, queria, principalmente, entender sua relação com as mulheres, já que sempre transitou melhor entre os homens (suas grandes amigas foram Clô Orozco e Regina Valadares). O resultado foi histórico e colocou Vania no panteão dos grandes. Retratou Fernanda Montenegro, Regina Casé, Henriqueta Brieba, Giulia Gam, Marília Pêra e Dercy Gonçalves, a mais difícil de todas para ser dirigida, segundo Vania.

O episódio marcou também o fim da fase notívaga da fotógrafa.Fazia em estúdio até as fotos de teatro, os retratos, e deixava as cenas de palco a cargo de sua assistente na época, Claudia Guimarães. “A gente se divertia muito, ria muito, e o estúdio era maravilhoso, ali na Vila Nova Conceição, que ainda não era essa coisa de hoje. Era mais conhecida como travessa da Santo Amaro”, conta a fotógrafa. Claudia começava, ela mesma, uma trajetória de fotos da vida noturna de São Paulo, e as duas tinham uma excelente dinâmica. “Foi a primeira vez que alguém me aceitou como assistente. O Estúdio Abril não me aceitou, por eu ser mulher, e outros fotógrafos importantes também não me aceitaram, pelo mesmo motivo. A Vania não, ela adorava, e a gente trocava muito. Eu fiquei fascinada pelo ambiente, arrumava tudo, limpei tudo, e vi as revistas, a Interview dos anos 1970, com as capas maravilhosas. Aprendi a fazer luz, a mexer nos equipamentos, com ela”, conta. O estúdio se chamava Salto Alto.

 

Virgínia Punko

A produção desses mais de 30 anos de trabalho foi compilada por Vania, pelo curador Diógenes Moura, pelo filho, Juliano, e pelo amigo Mario Mendes, num projeto iniciado há cerca de 18 meses, para virar um livro e uma exposição, com nome provisório de Caixa preta, uma autobiografia fotográfica, segundo ela. Foram cinco meses debruçados sobre o material: 1.400 folhas de contatos, abertas uma por uma, e incontáveis cromos, 600 imagens editadas, quase tudo em preto e branco. Depois de muitas sessões de entrevistas com Vania por Mario Mendes, para um texto na primeira pessoa, ainda faltava coisa. “O projeto parou no ano passado, íamos retomar este ano, quando o mundo acabou”, conta o jornalista.

“Vania estava ansiosa com o livro, e o isolamento a estava torturando. Essa coisa de encontrar, de sair, de ver os amigos, andar na rua, era vital para ela, que não parava, e de repente se viu fechada em casa”, conta Mario. Dia 5 de julho, a morte de seu mentor e cúmplice, Antonio Bivar, levado pela covid-19, foi um duríssimo golpe. “Ela se fazia de forte. Conversamos na sexta-feira, ela falou do Bivar aos prantos, mas acabamos dando risada quando ela disse que ele era um ‘punk velho’. Nossa cara. Do Bivar, inclusive”, ele relata. Na segunda-feira seguinte, ela foi internada com infecção urinária, e seu quadro piorou rapidamente. Na UTI, seu coração não resistiu, e ela morreu na madrugada de quarta para quinta, 16 de julho, aos 75 anos. O livro, agora, será póstumo.

“Ela era colecionadora de muita coisa: em casa, tem muitos armários de roupas, distribuídos em três quartos, com coleções de chapéus, de bengalas, pesos de papel, e tanto livro, que o IMS já até tinha comprado uma parte, e já tem lá uma coleção dela”, conta Juliano, o filho que era seu grande amor. Em seu aniversário, agora em março, antes de ter início a quarentena em São Paulo, ele tocou no clube Jerome e levou a mãe. O DJ Felipe Venancio colocou uma cadeira atrás da cabine, e ela ficou lá sentadinha, a noite toda. “Ao final, todo mundo aplaudiu, foi muito bonito. A última balada dela foi comigo.” ///

 

Erika Palomino é jornalista e curadora, desde fevereiro de 2019 dirige o Centro Cultural São Paulo (CCSP). Trabalhou por 17 anos na Folha de S. Paulo, onde foi editora e colunista da Ilustrada. Escreveu Babado Forte e A Moda.

 

© Vania Toledo. Fotos gentilmente cedidas pela família da artista.

 

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