Ousar sonhar
Publicado em: 26 de março de 2026Exusíaca, a fotografia é cria de uma encruzilhada, o ponto de encontro e de trocas de três protagonistas: fotógrafo, fotografado e câmera. Eu, como espectadora, chego depois, e me deparo com a oferenda visual já feita ao orixá das trocas e da comunicação. Exu ensina que para as trocas na encruzilhada serem justas é preciso conhecer o que se oferta. Nós ousamos sonhar é a oferenda fotográfica realizada pela artista pernambucana Thays Medusa que encontro. Para conhecê-la, questiono: O que ou quem foi fotografado? Como foi fotografado? Para que e para quem essas fotografias foram feitas? Essas perguntas norteiam a conversa que tive com Thays, bem como as reflexões tecidas neste texto.
Nós ousamos sonhar é o título da exposição fotográfica erealizada no final do ano passado no Museu Cais do Sertão, em Recife-PE. Trata-se de um projeto fotográfico colaborativo. De um lado, a artista e fotógrafa de favela Thays Medusa, mulher negra, cria da periferia de Paudalho-PE, e que há anos mora em Recife-PE. Do outro, crianças e adolescentes da Favela do Canal no bairro do Arruda, em Recife. Fazendo a ponte entre eles, a câmera fotográfica, como o espelho de Oxum.

Autodidata, Thays aprendeu a fotografar no território. Suas referências são as mulheres que lhe criaram, o hip hop, o breaking, o graffiti e as pessoas que confiaram suas histórias às lentes da artista. Pois, para Medusa, fotografar não é só produzir imagens. É antes de tudo dialogar, um gesto de escuta.
Foi no movimento hip hop que comecei a entender a arte como ação coletiva e política, organizando batalhas de rima, participando de coletivos e fortalecendo o senso de comunidade. Esse caminho me levou à fotografia documental e às linguagens da arte urbana, como o lambe-lambe e o graffiti, que hoje dialogam diretamente com o meu trabalho.
Cheguei à fotografia entendendo que ela é mais do que imagem: é ferramenta de disputa simbólica, construção de autoestima, geração de renda e registro histórico. Fotografar, pra mim, é um gesto político e afetivo de devolver à favela o direito de se ver como potência, arte e futuro.
O direito de se ver é o de retomar para si a própria imagem. Olhar-se no espelho de Oxum é exercer esse direito, é enxergar a si mesmo, em profundidade, sem máscaras. Oxum não suporta mentiras, é o orixá do autoconhecimento, do autoamor, daqueles que enxergam a si mesmos e não querem mais se trair. A beleza para Oxum não é uma norma a ser imposta, é nutrição que fortalece, que alimenta o espírito, para encarar os desafios da vida com dignidade. Thays Medusa usa a câmera para cultivar relações comunitárias que se materializam visualmente em cenas de abundância, de alegria, bem-estar. Cenas que valorizam a vida cotidiana de periferias, que muito diferem daquelas imagens estigmatizadoras e midiaticamente associadas às favelas e seus moradores.
A fotografia se mostrou como ferramenta de narrativa pra mim no momento em que percebi que ninguém estava contando as nossas histórias do jeito que elas realmente são. Durante muito tempo, vi a periferia ser retratada sempre pelo mesmo recorte: dor, violência e ausência. Mas a minha vivência dizia outra coisa — dizia sobre afeto, resistência, sonho, criatividade e força coletiva.
Quando comecei a fotografar pessoas da minha família, amigas e depois moradores da comunidade, entendi que a câmera podia ser um espelho. Um jeito de devolver imagem, autoestima e memória pra quem quase nunca se vê representado de forma digna. Foi aí que a fotografia deixou de ser só registro e virou posicionamento político.
Esse entendimento se fortaleceu ainda mais quando passei a ocupar espaços institucionais, como museus e exposições, com imagens feitas dentro da favela, por quem é da favela. Projetos como Eles têm medo de nós, O penúltimo olhar e agora Nós ousamos sonhar nascem exatamente desse desejo: usar a fotografia para narrar a comunidade de dentro para fora, com verdade, beleza e respeito, colocando nossos corpos e histórias como protagonistas da própria narrativa.
Em Nós ousamos sonhar a artista instala um estúdio ao ar-livre na Favela do Canal e convida os jovens da comunidade a performarem seus sonhos para as lentes de sua câmera. Ao fazer isso, a artista faz da câmera o espelho de Oxum, possibilitando que as crianças e adolescentes (re)conheçam algo de muito profundo que carregam em si, seus desejos e aspirações de futuro. Vejo materializações visuais dos sonhos que um dia serão as memórias do futuro: imagens de sonhos infanto-juvenis de ser dançarina de breakdance, de ser jogador futebol, de empinar de pipa, sonhos daquilo que traz contentamento, sonhos de continuidade de momentos felizes. Muitos jovens sonham em ser como o Okado do Canal – arte-educador e dançarino de breaking da comunidade – e repetem para as lentes de Medusa passos e coreografias que aprenderam a fazer.
Como material de arquivo, a fotografia é metonímia dos gestos, das poses de dança, das vestimentas. Domicilia e preserva para o futuro fragmentos visuais de quem esses jovens são hoje. Adultos, essas fotos podem se tornar objetos de suas lembranças e, para as gerações seguintes, poderão ser até o meio de se aproximar e conhecer aqueles antepassados que foram fotografados um dia, pois é algo deles que fica. Toda foto é sempre um ponto de encontro entre o presente, o passado e o futuro.
Assim, por um lado, as fotoperformances são fragmentos daquele vivido que levam a lembrar e/ou imaginar o todo. Por outro, são representações dos sonhos juvenis dos próprios retratados. Imagem vem primeiro. Sem imagem de futuro, do que queremos ou aspiramos, não temos como lutar pela sua realização material. Nós ousamos sonhar é um projeto que possibilita aos próprios jovens retratados (re)conhecerem a si mesmos, a seus sonhos, e a inscrevê-los no mundo como um “dever ser”, como um futuro que é imperativo.
A beleza dessas fotoperformances está não apenas na qualidade formal ou estética das imagens, vai além: está no que vibram e ecoam. Diante desses futuros prefigurados, sou convocada a recusar qualquer possibilidade de futuro negro e/ou periférico que não seja o de dignidade. São fotografias não apenas imaginativas, mas emancipatórias, que valorizam os sonhos infanto-juvenis de seus protagonistas, em sua pluralidade, que afirmam o direito de meninas e meninos, negros e pobres, sonharem, imaginarem e inscrevem seus sonhos no mundo.
Sonhar, pra mim, nunca foi algo distante da realidade — pelo contrário. Sonhar é um ato de sobrevivência e de resistência. É imaginar futuros possíveis mesmo quando tudo ao redor tenta nos convencer de que eles não existem para nós.
Sonhar é olhar para minha comunidade, para as pessoas negras e periféricas, e enxergar potência onde historicamente só colocaram falta. É transformar vivência em imagem, dor em beleza, cotidiano em memória.
Quando eu falo de sonho, não falo de fantasia inalcançável, mas de sonho concreto: o sonho de se ver representado com dignidade, de ocupar espaços que sempre nos foram negados, de viver da própria arte, de garantir o básico e também o simbólico.
Sonhar, pra mim, é ousar contar nossas histórias com o nosso olhar, é construir caminhos coletivos, é fazer da arte uma ferramenta de afeto, denúncia e transformação. É dizer todos os dias que a favela não só resiste — ela imagina, cria e projeta futuro.

Autoria: Thays Medusa
Fotografia na pipa: Tempo de pipa, de Gerlaine Ferreira Ramos, 2024


Assim, por meio das fotoperformances, as crianças e adolescentes da Favela do Canal inscreveram seus sonhos materialmente no mundo. Cada imagem foi construída em conjunto com a artista. Não são fotografias forçadas ou ilustrativas. Os jovens não são personagens, nem objetos fotográficos, são pessoas que participaram ativamente da construção de sua própria imagem, de como aparecer publicamente. O protagonismo dos fotografados é reconhecido pela artista no seu perfil do Instagram (@olhardamedus4):
Meu trabalho conta histórias de pessoas reais — e elas constroem junto comigo. Faço questão de que quem é fotografado participe de cada etapa:
– financeiramente, recebendo uma % do valor do trabalho contratado
– e vivencialmente, compartilhando o processo, a criação e a celebração.

O trabalho em parceria, colaborativo, permeia todo o projeto. Seja a parceria com Okado do Canal para a realização das fotos com os jovens da favela. Seja, posteriormente, na pós-produção das imagens com outros artistas, como Bruna Urach (@buburban_), que cria dizeres em pixo para algumas das fotocolagens. É pelo fato de os jovens da Favela do Canal performarem para a câmera que Nós ousamos sonhar existe. O título do projeto carrega em si essa produção conjunta “nós”. Na exposição, pude ver as fotografias e ler em suas legendas o nome, o sobrenome de cada um dos jovens fotografados e seu sonho. Não me restam dúvidas, são crianças e adolescentes que ousaram sonhar e compartilhar seus sonhos com pessoas desconhecidas. Isso é de uma coragem que sempre vale a pena se lembrar.
E por falar em lembrança, peço para Medusa me contar dos passos que antecedem esse momento atual. A artista me apresentou seus projetos anteriores. Em Eles têm medo de nós, Thays Medusa narrou as memórias visuais do presente, do cotidiano do seu entorno na Comunidade do Bode em Recife-PE. Foi sua primeira exposição solo numa instituição de arte. Fruto de favela focou nas vivências da juventude periférica. Em Crias do mangue a artista se investigou os territórios ribeirinhos, mostrando o cotidiano das familias pescadoras e o mangue como espaço de vida e trabalho. Em Penúltimo olhar, Medusa transformou sua comunidade numa galeria expositiva a céu aberto, com imagens adesivadas em lambe em tamanhos monumentais. Nós ousamos sonhar é continuação e expansão dessas narrativas. Continuo e pergunto agora sobre o amanhã, sobre as imagens que a artista gostaria de encontrar nos arquivos do futuro.
Gostaria que, nos arquivos fotográficos do futuro, existissem imagens que mostrassem nossas comunidades para além da dor e da falta. Quero que, quando alguém acessar imagens do Bode, do Canal ou de qualquer outra favela, encontre registros de afeto, de coletividade, de trabalho, de sonhos e de beleza cotidiana.
Quero imagens de mães pescadoras em movimento, de crianças brincando na maré, de jovens dançando, rimando, criando, ensinando e aprendendo. Imagens que revelem o aquilombamento, a força das relações, o cuidado coletivo e a criatividade que nasce mesmo em contextos atravessados por desigualdades.
Do Bode, desejo que fiquem imagens que mostrem a comunidade ribeirinha como território de vida, memória e resistência, com seus corpos negros ocupando o museu, se reconhecendo como arte e como parte da história. Do Canal, quero que permaneçam imagens de crianças sonhando, de um professor como Okado sendo espelho e continuidade, de sonhos possíveis sendo construídos sem precisar sair de casa.
Mais do que registros estéticos, quero arquivos que sejam provas de existência. Imagens que digam: nós estivemos aqui, nós sonhamos, nós criamos, nós fomos protagonistas das nossas próprias narrativas. Que essas fotografias sirvam como referência para o futuro, rompendo com os arquivos coloniais e abrindo espaço para memórias produzidas a partir do olhar de quem vive o território.
Escrevo esse desejo da artista, pois aprendi com a oferenda deixada na encruzilhada fotográfica que Nós ousamos sonhar e que inscrever nossos sonhos em superfícies materiais – visuais, textuais – é prefigurar o futuro que deve ser. Que as imagens feitas por espelhos de Oxum nos orientem, axé! ///
Marina Feldhues (1982) é educadora, artista visual e crítica de arte independente natural de Pernambuco. É pós-doutoranda em Comunicação pela UFPE. Organizadora do grupo de estudos @encruzilhadasvisuais e autora dos livros Arquivo, fotografia e a carne negra: um estudo ante-Estética de suas poéticas implicadas (2025), Fotolivros: (in)definições, histórias, experiências e processos de produção (2021); E Se? (2023); Catálogo (2019) e Viagem ao Brasil 1865-1866: a desordem da carne (2025).














