Ensaios

Meu amigo Martin Parr

Simon Baker Publicado em: 12 de março de 2026

Da série The last resort, de Martin Parr, 1983-1985

Quando fui nomeado o primeiro curador de fotografia da Galeria Tate (Londres) em 2008, uma das primeiras pessoas com quem me aconselharam encontrar foi Martin Parr. Figura de grande importância na fotografia britânica, provavelmente também era um dos poucos nomes realmente conhecidos do público em geral, ao lado de Don McCullin e David Bailey. Martin, juntamente com muitos de seus pares, vinha defendendo há anos que a Tate tivesse um curador dedicado à fotografia e acreditava apaixonadamente que a representação da fotografia na Tate deveria estar no mesmo nível que outras mídias, como pintura, escultura, instalação, performance, cinema e vídeo.

Uma das surpresas, no entanto (pelo menos para mim; talvez não para quem já o conhecia), foi que, assim que comecei a conhecer Martin, em reuniões na Tate ou em sua casa em Bristol, ele passou todo o tempo me contando sobre outros fotógrafos. Parr me falou sobre tantas figuras incríveis da fotografia britânica, chegando até a organizar encontros com muitos dos grandes nomes da geração que a Tate havia negligenciado anteriormente, como Chris Killip e Graham Smith. Na prática, me bombardeando com ideias, histórias e contatos.

Talvez o momento mais transformador, no entanto, tenha ocorrido em 2009, quando me explicou (através de sua incrível coleção de livros) a enorme influência de William Klein no Japão, especialmente no trabalho e na estética de Daido Moriyama e da revista Provoke. Essa percepção de Martin levou diretamente à exposição William Klein + Daido Moriyama na Tate Modern em 2010; a primeira exposição que organizei do início ao fim para a Tate. A partir daí, Martin e eu trabalhamos juntos incansavelmente, tentando viabilizar a aquisição, pela Tate, de sua coleção única e incomparável de mais de 12.000 fotolivros. Isso levou quase cinco anos e envolveu um esforço incrível de Martin, de toda a equipe da Tate e de nossos parceiros da Fundação Luma em Arles, para manter a coleção unida em Londres como parte fundamental de seu legado. Creio que seja justo dizer que ninguém trabalhou mais arduamente para dar sentido ao fotolivro como forma de arte, e para popularizar e insistir em seu valor, do que Martin.

Essas conquistas na Tate nunca foram minhas, mas sim coletivas, frequentemente com múltiplos interlocutores, e muitas vezes só possibilitadas pela energia e paixão incansáveis ​​de Martin. Um dia, depois de anos em que já nos conhecíamos (e tenho a conversa gravada na memória), Martin disse: “Sabe de uma coisa? Nós nunca conversamos sobre o meu trabalho!”. Era verdade, não porque a Tate não se interessasse pelo trabalho de Martin, mas porque com ele sempre parecia haver algum outro nome, projeto, livro ou exposição que ele queria garantir que soubéssemos. Isso deu início a uma nova conversa que culminou em uma impressionante exposição de fotografias, livros e uma obra composta por slides (Luxury – Luxo) na coleção permanente da Tate Modern: exatamente onde Martin deveria ter estado o tempo todo.


Da série Bad weather, de Martin Parr, anos 1980

A carreira de Martin Parr como fotógrafo começou em preto e branco, antes de se desenvolver no que todos reconhecemos imediatamente como o clássico “estilo” Parr: cores vibrantes, flash à luz do dia, pessoas, rostos, closes e detalhes. Mas em toda a sua obra, do início ao fim, vemos seu celebrado senso de observação: os relatos, muitas vezes humorísticos ou mordazes, das excentricidades e peculiaridades de seus retratados, na maioria das vezes britânicos, mas não apenas; e a quantidade de cidades e países que figuram no trabalho de Parr é um sinal claro de sua curiosidade ilimitada. Embora não tenha sido o primeiro grande conjunto de obras que chamou a atenção de seus pares (ele já havia exibido amplamente The Non-ConformistsOs não conformistas – no final dos anos 70), sua primeira publicação foi o tipicamente britânico livro Bad weather (Mau tempo), de 1981: ventos fortes, um cinza épico, guarda-chuvas amassados ​​pela chuva e carros congelados. Reza a lenda que o tempo no Reino Unido estava TÃO ruim que Parr foi obrigado a usar uma câmera subaquática. No entanto, o que talvez não seja tão óbvio no livro é o quão impressionantes eram as impressões originais desta série, refletindo plenamente a atenção ao trabalho artesanal associada a influências e contemporâneos como Tony Ray Jones e Chris Killip.


Da série The last resort, de Martin Parr, 1983-1985

O que se seguiu a Bad weather, e novamente com um título tipicamente evocativo e irônico, The last resort (O último resort), viu Parr mudar definitivamente para a fotografia colorida, e para os temas e a estética pelos quais seu nome se tornaria sinônimo. Inspirado pelos cartões-postais comerciais de acampamentos de verão de John Hinde, mas também influenciado pelo trabalho em cores de fotógrafos americanos como Joel Meyerowitz e Stephen Shore, Parr abraçou tanto as cores brilhantes e saturadas quanto os espaços radicalmente pouco fotogênicos do lazer da classe trabalhadora. A cidade litorânea de New Brighton, no noroeste da Inglaterra, foi o foco de The last resort, mas como alguém que, aos 10 anos de idade na época, passava finais de semana intermináveis ​​em Hastings, Bexhill, Margate e Felixstowe (todas no sudeste da Inglaterra), posso confirmar a amplitude da precisão do trabalho de Parr, imagens de toda uma série de cidades litorâneas que “esqueceram de fechar”. Antes da Easyjet e da democratização das viagens internacionais de curta distância, estas eram as férias que muitas pessoas reconheciam: batatas fritas, gaivotas, sorvetes a pingar e o vento com areia a bater nos olhos dos visitantes em praias ligeiramente geladas de água marrom: adorável!

Muitos criticaram essa abordagem de Parr em relação a esses espaços e às pessoas que os frequentavam, como se tivesse trazido uma curiosidade mórbida da classe média para lugares da classe trabalhadora. Pessoalmente, no entanto, considero esses comentários simplistas demais quando aplicados ao final dos anos 70 e início dos anos 80 (a minha própria juventude com avós da classe trabalhadora e pais ambiciosos), época em que muitas pessoas de diferentes origens e classes sociais eram obrigadas a tentar se divertir em circunstâncias improváveis. Conhecendo um pouco Martin Parr e conhecendo bem seu trabalho, acho reconfortante saber que foi ele quem dedicou tempo para documentar tais temas e lugares, e acho surpreendente, até mesmo mágico, que tais imagens tenham sido, e continuem sendo, tão icônicas.


Celebração do Dia de São Jorge na Inglaterra, foto de Martin Parr, anos 1980

A carreira de Parr, a partir desses primeiros sucessos de crítica, continuou a alcançar patamares significativos, transformando-o, por mérito próprio, de um fotógrafo documentarista dedicado e comprometido em um ícone cultural. Sua atenção ao estranho, ao excêntrico, ao bizarro e ao extraordinário – da classe média britânica na década de 1980 em The cost of living (O custo de vida); ao consumismo global em Common sense (Senso comum) no final dos anos 90; aos super-ricos na década de 2000 em Luxury – sempre permitiu que Parr encontrasse uma síntese perfeita de seus temas, expressando-os com sua voz particular e seu próprio vocabulário visual. Sua participação na Magnum não foi apenas transformadora, mas essencial para o coletivo, que enfrentava uma nova era na qual o jornalismo impresso e seus trabalhos comissionados estavam cada vez mais ameaçados. Mas Parr era uma voz marcante em qualquer multidão, um defensor incansável do que acreditava ser o potencial da fotografia, tanto social quanto artisticamente, e alguém que estava sempre presente e comprometido: palestras, sessões de autógrafos, workshops, feiras, festivais e programas de televisão. Parr estava sempre presente, atraindo plateias e encantando as pessoas que conhecia, sendo ao mesmo tempo muito inteligente e, quando necessário, muito bobo.

Um dos últimos momentos que passei com Martin foi no festival suíço Images Vevey, em 2024. O diretor do festival, Stefano Stoll, organizou um passeio de barco pelo lago com Martin e um grupo de convidados. Todos nos sentimos muito sortudos por estarmos lá e felizes por Martin estar bem, já que, como todos sabíamos, ele tinha estado gravemente enfermo. Encontrei Martin sentado em uma mesinha com sua esposa, Suzie. Estava numa conversa animada com Paul Graham sobre uma nova câmera digital que tinha começado a usar. Paul perguntou se ele gostava dela. Sim, disse Martin, mas achava irritante que não houvesse o clique característico ao tirar fotos. “Ah”, disse Paul, “isso é só a configuração, você se importaria se eu desse uma olhada?” Paul Graham então ativou o botão de clique na câmera digital de Martin Parr. Martin tirou uma foto de todos com o barulhinho do clique. “Ótimo!!!”, disse ele e começou a rir. ///

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Tradução do inglês por Carlos Franco

Fotos de Martin Parr gentilmente cedidas pela Galeria Lume, representante do fotógrafo no Brasil. Parr realizou duas exposições individuais na Lume: Food (2023) e Covers Exhibition (2015)

Simon Baker (1972) é historiador da arte e curador. Foi curador de fotografia da Galeria Tate (Londres): diretor da Maison Européenne de la Photographie (Paris) e professor de história da arte na Universidade de Nottingham.



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