barranca é o nome do umbigo embarcado em nós, que nascemos às margens do são francisco, rio da qual nutre nossa existência desde o corpo de piaba e – na piracema – faz saltar contra toda corrente a quentura molhada dos geraes: pirapora. onde crescemos fazendo careta de azedume e dividindo tudo quanto é ninho e falação fiada no porto dos ouvidos. aqui, onde a cantoria das lavadeiras e corredeiras se misturam, a força das pedras tende a ser mais sorvida do que treme o couro dos surubins. por isso o rio é alimentado de corpos que sabem nadar e a profundidade dele diz sobre a saúde dos céus. na ausência das nuvens de nosso céu geraizeiro, onde sol pode vir a ser abóbora e, no reflexo das águas, francisca. davi de jesus do nascimento
Há dez anos, quando sua mãe faleceu, o artista davi de jesus do nascimento herdou suas fotografias de família. A beleza e o afeto daquelas imagens ampliou seu interesse pela memória dos pescadores, lavadeiras e mestres carranqueiros que vivem ao longo do rio São Francisco. No último ano, o artista visitou familiares e amigos, acionando uma rede afetiva vinculada às águas de Pirapora, região onde nasceu e cresceu.
Seu pai, pescador, marceneiro, construtor de barcos e colaborador do trabalho foi a conexão entre as pessoas e suas memórias. Foi ele quem mediou as visitas e permitiu o acesso aos álbuns pessoais. O resultado desta investigação é um acervo fotográfico de sua família e de outros pescadores e barranqueiros da cidade.
Como construir um álbum de família coletivo? Outra vez, a colaboração de seu pai lhe trouxe respostas: nas caixas de ferramentas, nascimento encontrou fotos soltas, perdidas, aparentemente sem contexto. Seriam estas caixas um álbum? Uma caixa de sapato ou mesmo um barco poderiam ser um álbum?
Com um barco que seu pai construiu há mais de vinte anos, nascimento criou as obras de Barranca. A caixa de ferramentas, o oratório e a madeira são as memórias molhadas de uma comunidade. O anzol, o gancho, a reza são os pequenos objetos de apego, que a constroem e a fazem sobreviver. A pequena fotografia de um ente querido, o paninho bordado: é esta coleção de enormes miudezas que compõem a obra realizada com apoio da Bolsa ZUM/IMS 2024. A obra foi apresentada no Festival ZUM, em uma instalação formato pop-up, pela primeira vez ///.

davi de jesus do nascimento vive e trabalha em Pirapora, Minas Gerais. É um artista barranqueiro, criado às margens do rio São Francisco, curso d’água que define sua vida e prática artística. Nascido em uma família de pescadores, lavadeiras e carranqueiros, nutre suas expressões criativas através de experiências, memórias e imaginações conectadas ao seu território, comunidade e família. [Foto: Caio Esgario]
Texto por Daniele Queiroz, publicado originalmente na instalação pop-up “Barranca”, no Festival ZUM 2025.





