Entrevistas

Intimidade entre estranhos

Linda Zhengová, Daniela Fonseca Moura & Lucas Gibson Publicado em: 14 de maio de 2026
Foto da série Strangers, de Linda Zhengová, 2024


Desde cedo, a fotógrafa tcheca Linda Zhengová percebeu que desconhecidos facilmente lhe contavam histórias pessoais. E que sentia certo prazer em acessar a intimidade de quem pouco conhecia. Aos 16 anos, enquanto ensinava inglês em Praga, Linda notou que as aulas se tornaram apenas um pretexto para que as pessoas se abrissem e lhe contassem sobre relacionamentos tumultuosos.

“Às vezes eu os forçava a falar em inglês sobre a situação, mas sentia a solidão das pessoas e queria me conectar com elas. E havia algo disso que também transbordou para a minha fotografia. A câmera é como a minha terceira mão ou o meu terceiro olho, sinto isso com muita intensidade”, conta Zhengová. Atualmente, aos 30 anos, é reconhecida por projetos autorais de densa atmosfera emocional e erotismo pulsante, em que fotografa principalmente pessoas desconhecidas.

Nascida em Pilsen, na República Tcheca, Zhengová se mudou da cidade de 180 mil habitantes para a capital para cursar o ensino médio, período em que atuou como professora particular. Foi em Praga que também conheceu a fotografia, embora sua formação em artes tenha se iniciado apenas anos depois, na Royal Academy of Arts, em Haia, nos Países Baixos, onde foi inicialmente estudar diplomacia. Hoje vive em Paris e, além de fotógrafa, atua como curadora, escritora e editora colaboradora das plataformas GUP Magazine, FRESH EYES, Extra Extra e Discarded Magazine.

Publicou, nos últimos 5 anos, diversos fotolivros e zines, com destaque para Catharsis (2021), Katabasis (2023), Strangers (2024), Heist (2025), Traveling Model (2025) e Oxymoron (2025) – este último também lançado no Brasil, durante o Festival ZUM, em novembro do ano passado, quando a conhecemos.

Produzido antes desse período, o projeto Kulishek (2018) se distingue em estética e conteúdo do tipo de imagem que se tornou sua assinatura artística. Para abordar a história do casamento de seus pais, Zhengová recorreu às imagens do arquivo familiar, formado por um volume extenso de correspondências trocadas ao longo de mais de 30 anos de um relacionamento majoritariamente mantido à distância.


“O arquivo deles é muito raro. Eles se conheceram durante os tempos comunistas na Tchecoslováquia, quando, se você quisesse viajar ou estudar no exterior, só era possível ir para países comunistas. Na época, meu pai estava na China e minha mãe na Tchecoslováquia, e eles foram selecionados aleatoriamente por uma espécie de sorteio em que não se podia escolher o que estudar, nem se sabia para onde iria. Ambos  foram sorteados para estudar veterinária em Moscou e se conheceram na universidade.

Eles conviviam com muitas pessoas de países africanos, asiáticos e do Leste Europeu. Havia uma mistura cultural e racial e isso é o que eu realmente adoro na história deles. Numa época em que tudo era fechado e nenhuma cultura podia entrar, eles estavam, na verdade, vivendo numa sociedade muito liberal e de mente aberta, o que era muito bonito.”

Com o fim da Tchecoslováquia (1992) em razão da Revolução de Veludo (1989) – evento responsável por fundar a República Tcheca e a Eslováquia -, sua mãe precisou retornar ao território de origem. A relação, que a princípio seria rompida pela distância, foi mantida com a descoberta de uma gravidez inesperada.

“Eles se mantiveram trocando cartas. Era muito interessante porque colocavam todas essas colagens nas cartas, só para manter aquilo vivo. E pelos envelopes dá para observar as mudanças de regime. No começo, por exemplo, há o martelo comunista nos cartões-postais e depois aparecem símbolos completamente diferentes.”

Segundo Zhengová, mesmo depois, seus pais decidiram manter a relação à distância, uma vez que seu pai não conseguiu oportunidades de trabalho na República Tcheca, por conta do racismo e da xenofobia, e sua mãe tampouco quis se mudar para a China.

“Há muitas camadas no projeto. É sobre a história de amor dos meus pais e sobre a dificuldade de uma relação multirracial na República Tcheca. E é também sobre como eu percebo os relacionamentos, a ideia de lar e como, graças aos meus pais, adquiri um certo tipo de abertura para perceber os outros. Eles nunca me disseram que eu não poderia falar ou namorar com alguém. Acho que é porque tiveram que passar por tantas dificuldades no relacionamento deles que realmente deram a mim e ao meu irmão muita liberdade nesse sentido, e sou muito grata por isso.”

Quando perguntada sobre o título do projeto, Zhengová responde que Kulishek é o nome de um passarinho, em russo, mas também é um jeito carinhoso de chamar alguém, como “querida”. “Era assim que meu pai costumava nos chamar — a mim e à minha mãe — como um passarinho.” Advém, desse relacionamento singular, o nome Zhengová, criado a partir da junção do sobrenome original paterno “Zheng” e da flexão de gênero “ová”, comum a sobrenomes eslavos em mulheres.

O uso do arquivo, que parece ter desaparecido dos projetos posteriores a Kulishek, se manteve indiretamente como elemento do processo criativo, seguindo como uma ferramenta de pesquisa artística. É o que nos conta sobre o projeto Maybe, Happiness Is….

Eu estava em Buenos Aires e, em um dos meus primeiros dias, fui a um mercado vintage e descobri uma caixa chamada Happy Box. Era um arquivo erótico meio maluco de Buenos Aires, dos anos 1960, 1940, cheio de orgias, insano. Eu comprei duas fotos dali. O contexto do projeto está relacionado à liberdade sexual e esse arquivo coloca as coisas em perspectiva. Sinto que nos tornamos mais pudicos.”


Em Maybe, Happiness Is… – série que será publicada no formato de livro em setembro de 2026 pela Untitled Publishing -, Zhengová partiu de uma angústia pessoal para investigar o que a felicidade significava para outras pessoas. O sentimento de infelicidade a motivou a sair de Haia, cidade onde morava nos Países Baixos, em uma jornada de cerca de 6 meses, durante a qual transitou por 21 domicílios distintos antes de se estabelecer novamente em Amsterdã.

“Eu estava morando em um pequeno estúdio e me dei conta de que não me sentia feliz. Então mandei uma mensagem para o proprietário dizendo que sairia do lugar, sem ter nenhum plano ou para onde ir. Foi assim que o projeto começou. Eu simplesmente me mudei com uma bolsa esportiva e passei a ficar na casa de amigos ou pessoas aleatórias, principalmente na Europa. Foi assim que comecei a me conectar com estranhos. Eu tentei capturar essa sensação de vitalidade, de se aproximar da vida por meio de encontros que você não espera ou que nem sabia que precisava na sua vida.

Isso se tornou a força motriz do projeto. Depois viajei até o México, e lá descobri um tipo totalmente diferente de felicidade: como as pessoas a definem, como vivem suas vidas, como se conectam. O mais interessante foi descobrir como me conectar com estranhos sem uma língua comum.”

Paralelamente a Happiness…, e igualmente derivado do encontro com pessoas que a artista não conhecia antes dos registros, surgiu a série Strangers, em que apresenta um panorama desses caminhos cruzados. São essas imagens que, impressas em risografia, com tiragem de 50 cópias, dão origem ao zine homônimo, publicado em 2024 pelo selo do editor francês Pierre Bessard.


Em espaços privados, com o corpo à mostra e explicitamente posando para a câmera, são principalmente mulheres que protagonizam as imagens. Homens, quando aparecem, ocupam um papel secundário, por vezes anônimo, reconhece a fotógrafa.

“Acho que, instintivamente, é muito mais fácil para mim me conectar com mulheres, porque compartilhamos o mesmo corpo e também as mesmas frustrações sobre como fomos representadas ou sobre a realidade que ainda enfrentamos simplesmente por existir.

Existe muita energia sexual no meu trabalho, mas não acho que eu sexualize as mulheres. Acho que elas estão muito no controle da própria sexualidade. Eu encaro minhas sessões fotográficas como uma espécie de liberação dessa energia feminina mais sombria. É algo que eu realmente acolho, mas não imponho às pessoas. Eu apenas digo que elas podem me mostrar o que quiserem, e então elas recebem essa liberdade. É impressionante a energia que elas liberam, e isso acontece por um período muito curto. Quero mostrar que há uma grande variedade de formas de compreender o desejo, a sexualidade e os corpos femininos.”

Nesse contexto, fotografar mulheres sendo também uma mulher não é algo banal. Ao longo da história da fotografia, a representação da sexualidade e dos corpos femininos foi majoritariamente construída por homens. Embora não seja possível, a partir do gênero, determinar uma maneira de ver – um olhar feminino ou masculino necessariamente –, é recorrente como tais corpos aparecem como objetos passivos de desejo, sob um regime visual que tende à exploração e à desumanização.

O olhar de Zhengová, a seu turno, segue na direção de estabelecer um vínculo que tem como premissa a confiança e a identificação. Sem buscar construir representações necessariamente positivas ou negativas, a pessoa que está sendo fotografada é quem lhe concede sua intimidade e vulnerabilidade, prescindindo de dinâmicas de poder como, por exemplo, quando fotógrafos se utilizam do contexto da prostituição.

“O interessante é que acho que a maior parte do meu público é masculino. Sei que eles estão olhando. Sei que consideram meu trabalho perturbador, já que não estão acostumados a ver mulheres dessa maneira. Ao mesmo tempo, eles se sentem atraídos pelas imagens. Às vezes sinto que os homens querem replicar isso, mas não conseguem. E tudo bem, porque sinto que também não consigo fazer o mesmo com homens e é por isso que também não os fotografo tanto. Existe uma certa distância entre nós.”

É natural que um fotógrafo se pergunte, diante de uma pessoa desconhecida, se será possível fotografá-la com a profundidade que ambos projetam e desejam. A câmera, que intermedia esse encontro, precisa ser capaz de fabricar uma terceira coisa, que surge da interação entre as subjetividades de quem posa e de quem opera o equipamento. Com o avanço da crítica sobre a ética na prática fotográfica, a convivência e a manutenção de vínculos prolongados entre fotógrafo e fotografado parecem ter conquistado um lugar de destaque nos discursos contemporâneos em projetos envolvendo pessoas.

Ao fotografar estranhos em sessões fotográficas intensas, fugazes e curtas, Linda parece desafiar essas premissas, criando um terreno de abertura singular em que são experimentadas formas de expressão que talvez não emergissem em contextos de maior familiaridade.

“Às vezes sinto que, de forma online, é muito mais fácil me expôr, porque as pessoas não me conhecem, então consigo falar livremente. Acho que algo parecido acontece com quem fotografo. A situação tem algo de erótico, porque existe muita tensão, já que você não conhece a pessoa. Então eu posso projetar muito de mim mesmo nela, e a pessoa também pode projetar muito de si em mim. Esse ‘desconhecimento’ traz muita liberdade e gosto muito de brincar com isso.”

Caso aconteça de fotografar amigos, o processo assume outra dinâmica.  A intimidade já estabelecida entre a fotógrafa e os fotografados garante um ambiente de confiança que torna a exposição diante do outro um processo mais confortável. Cada contexto oferece uma situação diferente de liberdade e exposição do corpo. Zhengová afirma que ou fotografa completos desconhecidos ou então amigos muito próximos. Nada entre esses dois extremos.

“Com amigos muito próximos, as sessões são diferentes. Eles entram na minha casa, já tiram a roupa e dizem: ‘ok, vamos começar’, e então simplesmente exploramos”.

Para Zhengová, viagens são sempre oportunidades de produzir novas imagens para seus projetos. Quando veio ao Brasil pela segunda vez, em 2025, além de lançar seu fotolivro Oxymoron e conduzir um workshop na Lovely House (livraria e editora especializada em arte e fotografia em São Paulo), Linda se envolveu intensamente com a vida noturna da cidade.


Bastidores de um dos ensaios de Linda Zhengová no Brasil, 2025. Foto: Lucas Gibson

“Foi uma experiência incrível. Todos os dias eu saía do apartamento às dez da manhã e só voltava depois da meia-noite. Isso me deu muita adrenalina, porque as pessoas aqui estão muito dispostas a serem fotografadas. Não senti resistência alguma.


Sarah, professora e dançarina de pole dance, fotografada em São Paulo, em 2025, como parte da série Excess, Aura, Transcendence, de Linda Zhengová.

Quando fotografo à noite, fico mais ‘faminta’. Tenho mais apetite para observar as coisas, porque tudo fica escuro e consigo perceber melhor pessoas e situações. Consigo me concentrar melhor e entro também em um modo mais primal de ver e pensar, o que funciona muito bem para a minha fotografia.”

Foi nesse contexto que visitou o Cine Arouche, um dos cinemas pornôs tradicionais do centro de São Paulo, acompanhada de um amigo brasileiro. O lugar despertou o seu interesse justamente por ser frequentado pelo público local, em vez de turistas, como diz ser em Amsterdã. Marcados por dinâmicas próprias de desejo e anonimato, para Zhengová, ambientes como esses funcionam quase como microcosmos urbanos, condensando tensões e energias que raramente se manifestam com tanta intensidade em outros contextos.


Cine Arouche, fotografado em São Paulo, em 2025,  como parte da série Excess, Aura, Transcendence, de Linda Zhengová.

“Foi uma experiência sensorial muito intensa, porque estava completamente escuro e eu não sabia se os sons vinham do filme ou das pessoas no espaço. Parecia uma cena de um filme de Gaspar Noé, uma das minhas grandes referências. Também foi assustador, porque, como mulher, acho que muitas pessoas não percebem que às vezes entro em situações das quais nem sei se vou conseguir sair.

Eu vi muitas trabalhadoras do sexo e meu amigo perguntou a uma delas se ela se importaria de que eu tirasse uma foto. Ela disse que não, mas que queria receber dinheiro. Eu disse que não, porque isso se tornaria uma transação e não é assim que trabalho. A pessoa não estaria realmente querendo ser fotografada, e isso poderia tornar a situação em algo exploratório. Mas, quando eu já estava saindo para o andar de cima, outra garota me parou e disse que, na verdade, gostaria de ser fotografada. Eu disse: nesse caso é diferente, vamos fazer”.

Após ter feito a fotografia, mesmo tendo obtido consentimento, Zhengová se sentiu em conflito. Guardou o contato da fotografada para enviar a imagem posteriormente, enquanto se perguntava se havia transposto o limite ético.

“Eu busco me fazer muitos questionamentos e tento me colocar no lugar das pessoas que fotografo. É muito importante que não se arrependam das imagens depois. Não quero causar nenhum dano. É por isso que tento criar uma abertura para que façam o que quiserem.”

Colocar-se no lugar da pessoa fotografada ajudou a despertar em Zhengová a curiosidade de experimentar ser seu próprio assunto e o desejo de se pôr também na frente da câmera. Embora se auto fotografe desde os 16 anos, foi em seu livro mais recente, Oxymoron, que se apropriou da linguagem do autorretrato de maneira mais evidente.


“O autorretrato era a única forma que eu tinha de representar certas coisas. Eu estava lidando com muitos problemas de saúde mental, então me fotografei na situação mais vulnerável em que já estive. Pensei que nunca fosse publicar essas imagens, mas então minha editora viu todo o meu arquivo e me convenceu a publicá-las, porque, afinal, o projeto era sobre mim.

Eu descobri que a ambiguidade é algo muito ligado à arte. Isso cria uma abertura para que as pessoas projetem suas próprias experiências traumáticas. Na vida, todos nós já passamos por algum tipo de trauma — em diferentes intensidades, em diferentes situações — mas todos compartilhamos isso.”

Em Oxymoron, enquanto tentava se recuperar de uma relação abusiva, a artista buscou o universo fetichista e de práticas BDSM para criar imagens que expressassem seu estado mental do momento, além de possibilitar que experimentasse a própria sexualidade e dinâmicas de poder. Com o desenvolvimento do projeto, Zhengová sente que uma espécie de alter ego emergiu. 

“Começou quando publiquei um anúncio em um site fetichista, dizendo que estava curiosa sobre o que as pessoas faziam a portas fechadas e que, se quisessem, eu poderia registrar isso.”

Após receber uma mensagem, a fotógrafa realizava o primeiro contato num espaço público, onde se sentia segura para decidir se prosseguiria com aquela interação.

“Com o tempo, fui me envolvendo cada vez mais com essas pessoas. Comecei a receber mensagens do tipo: ‘quero limpar sua casa, mas você precisa ser muito má comigo’. Foi curioso me ver em posições de dominação porque eu me sentia desprovida de poder pessoal. Essa inversão de controle se tornou um processo mental muito interessante, quase uma espécie de vício, e sinto que me transformou ao longo do projeto.

Antes eu só percebia isso nos outros, mas agora entendo que também faz parte de mim. Acho que a maior catarse veio quando percebi que esse alter ego sou eu. Não é algo separado, não é uma persona distinta, faz parte de quem eu sou.” ///

Daniela Fonseca Moura (Salvador, 1995) é pesquisadora e educadora dedicada ao pensamento crítico da imagem. Doutoranda em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo, investiga a circulação da fotografia no campo das artes visuais na década de 1970, vinculada ao projeto de pesquisa Geopolíticas Institucionais (FAPESP). Escreve e conduz cursos sobre fotografia, além de organizar o ciclo de conversas do festival Imaginária.

Lucas Gibson (Rio de Janeiro, 1992) é fotógrafo, professor e pesquisador. Doutorando em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo com tese sobre fotolivros japoneses, historiador da arte e mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Grupo de Estudos Arte Ásia (GEAA) da USP/UNIFESP. Foi bolsista da Japan Foundation/Ishibashi Foundation em 2022, desenvolvendo pesquisa no Japão sobre fotolivros japoneses.




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