Ciborgues & stories
Publicado em: 29 de janeiro de 2026No projeto Guaraná Paquera, a artista brasiliense Mariana Destro utiliza diferentes espaços e plataformas – website, Instagram e fotolivro – para tensionar nossas percepções de verdade e ficção. Destro explora digitalmente a linguagem da fotoperformance para traçar a trajetória de uma personagem através de imagens publicadas nos stories do Instagram.
A partir dessas fotografias, a artista encenou sua própria vida durante todo o ano de 2023. Sua presença online foi pautada por essa existência simulada e os limites entre corpo e tecnologia são constantemente colocados em xeque na obra.
Guaraná Paquera surgiu durante o pós-operatório de uma cirurgia que a artista realizou em seu rosto, logo após mudar-se de Brasília-para a cidade do Rio de Janeiro. Suas reflexões sobre a imagem pessoal construíram uma autobiografia ficcional que discute sexualidade, relacionamentos afetivos, família, abuso e o sermulher na era da internet.
Mariana Destro conversou com Gabryella Roque e Laura Sapucaia sobre os variados procedimentos (estéticos, acadêmicos e artísticos) que resultaram no fotolivro Guaraná Paquera, lançado no final de 2025.
Você comentou que tanto a universidade pública quanto o feminismo foram partes importantes da sua constituição enquanto artista, principalmente no que diz respeito à liberdade de criação. Como sua pesquisa artística foi construída neste lugar?
Mariana Destro: Como muitas garotas da minha geração, meu primeiro contato com o feminismo aconteceu na internet, por volta do momento em que emergia o que hoje chamamos de quarta onda. Pouco depois entrei na universidade para estudar artes visuais, e foi ali que entendi que eu podia, de fato, ser artista. Foi um ambiente decisivo nos anos formativos da minha trajetória. Estudei na UnB, um lugar muito interessante, com seus marcos arquitetônicos e uma comunidade bastante plural. Minhas primeiras mobilizações significativas na faculdade, como projetos coletivos, publicações e exposições, aconteceram junto a outras artistas mulheres e pessoas trans ou não binárias. Ali havia alguma isonomia. E tínhamos espaço para falar, não só sobre gênero, mas de um jeito que evidenciasse como o campo das artes ainda é atravessado por relações de poder desiguais.
No Brasil, a universidade pública é um dos poucos lugares em que é possível desenvolver uma pesquisa descompromissada com o mercado. Ainda que a pesquisa em artes exija, no meio acadêmico, uma série de negociações para ser reconhecida como produção de conhecimento, é a universidade, junto às instituições públicas de fomento científico, que vem me permitindo trabalhar com questões à margem ou pouco comerciais. Talvez seja por essa formação acadêmica que, em meus projetos, eu parta de um conjunto de conceitos enredados, um “programa” que orienta cada etapa do trabalho e estrutura seu desenvolvimento.
Muitas vezes começo pelas ideias, e não por uma investigação formal ou de materiais. As decisões sobre suporte ou mídia, mesmo que circunscrita a um grupo de meios com os quais costumo trabalhar, como a instalação, a performance, o vídeo, a fotografia ou a escrita, surgem das necessidades do projeto. Nos últimos anos, tenho me dedicado a elaborar uma escrita de si amparada pelo pensamento feminista, em torno da sexualidade, e meu corpo tem sido, com frequência, um dos principais objetos dessa investigação.
O Guaraná Paquera já teve formatos diversos, inicialmente como uma performance na pesquisa de mestrado, passou a site, se desdobrou na dissertação e, por último, tornou-se um fotolivro. Você pode falar mais sobre essa transfiguração do trabalho e os impactos dessas modificações de forma para a sua obra?
MD: Guaraná Paquera foi, desde o início, um projeto de escrita. Antes mesmo de encenar a performance, escrevi o ensaio autoficcional que compõe o primeiro ato do livro. Depois, continuei trabalhando nele, revisando, reescrevendo e refinando, enquanto desenvolvia a performance, que constitui o segundo ato. Estava começando a fazer análise e fiquei fascinada pela ideia de que a linguagem pode recontar a vida e, talvez, reestruturar o sujeito. Guaraná Paquera é, nesse sentido, a história de alguém que utiliza tecnologia, redes sociais e intervenções no corpo para remontar sua própria identidade, e o faz através do manejo da linguagem.
Quando o período de um ano da performance se aproximava do fim, surgiu a ideia de criar um arquivo digital, um site de artista, para armazenar a documentação da performance no meu próprio servidor. Escolhi uma estética web 1.0, remetendo a uma internet anterior às redes sociais, sem vigilância algorítmica. Escrevi o site em HTML/CSS pensando que ele pudesse ser também uma forma de escrita, já que um site é, afinal, um texto que o navegador interpreta e transforma em elementos visuais. Ainda que essa noção de site como escrita se sustentasse, era necessário produzir uma dissertação, que deveria assumir um formato textual mais convencional.
Após a defesa, conversei com o editor Romeu Silveira, que preparava uma exposição individual e me convidou para escrever o texto crítico. Propus publicar minha dissertação pela zero-Edições e, para meu êxtase, Romeu topou. Vejo no trabalho dele essa questão que considero ser muito própria da cultura digital, de coletar imagens e criar arquivos em que a autoria se dilui, e isso conversa com o Guaraná Paquera.
A interlocução com Romeu foi essencial para que a dissertação se transformasse em livro de um modo que não reforçasse o caráter excludente da literatura acadêmica, mas que também mantivesse o tom de pesquisa. Para a publicação, selecionamos cerca de 150 das mais de 400 imagens do site e organizamos em três atos, o que, vale observar, aproxima discursivamente o livro da ficção narrativa, até mesmo de um filme. Aí, a lógica de montagem que vejo presente na minha escrita fluiu naturalmente, e tudo se encaixou.
Ao longo de todo o trabalho, acompanhamos a história de uma personagem em constante processo de reflexão e registro sobre sua vida, drasticamente alterada por uma cirurgia no rosto. Podemos observar o lugar social que ocupa e encaramos as limitadas facetas que uma feminilidade normativa a oferece. Qual foi o ponto de partida para a criação desta personagem?
MD: O ponto de partida de Guaraná Paquera foi uma cirurgia plástica que fiz no rosto. Essa experiência coincidiu com minha mudança para o Rio de Janeiro e, pouco depois, com o retorno à universidade para o mestrado. A cirurgia me abriu para um campo de questões sobre as possibilidades de modificação corporal oferecidas pela tecnologia, e era isso que eu desejava investigar inicialmente: como um rosto pode ser redesenhado, aperfeiçoado ou readequado a certos parâmetros estéticos com os recursos tecnocientíficos de que dispomos hoje.
Mas o discurso tecnocientífico, ao que me parece, não dá conta do fato de que estamos lidando com o corpo, que é um organismo vivo. O corpo é imprevisível, reage, cicatriza e às vezes responde de maneiras que não podemos controlar. A partir desse tensionamento entre o desejo de modificação do corpo e seus limites materiais, surgiu a personagem de Guaraná Paquera, alguém que tenta se aproximar de um ideal de feminilidade e, ao mesmo tempo, percebe o custo desse ideal. Um ponto que sustento no livro, que vem da noção de performatividade de gênero da Judith Butler, é que a feminilidade exige trabalho. Ou seja, para performar feminilidade, é necessário que se trabalhe sem receber nada em troca. E, ainda que essa performance de feminilidade não seja reconhecida como trabalho na sociedade patriarcal e capitalista, ela produz certo valor social.
No caso das mulheres, a noção de beleza é muito importante para essa performance. E, no capitalismo, a beleza, como todas as coisas, é uma espécie de mercadoria. Ela é uma moeda de troca, ou até mesmo um ativo, como quiser. De todo modo, porque está condicionada aos corpos e a seus processos de mudança, como o envelhecimento, a beleza é uma moeda instável. Para mantê-la é necessário um trabalho constante, que implica custos, acesso, privilégios… O que, em sociedades como a nossa, é majoritariamente reservado a corpos brancos e burgueses. A indústria da beleza opera plenamente consciente desse mecanismo, explorando e alimentando a sensação de insuficiência para gerar cada vez mais lucros.
A possibilidade de fazer uma cirurgia plástica é, para mim, um reflexo dos meus próprios privilégios e, também, uma prática que reforça certos valores do heteropatriarcado, uma vez que meu rosto se tornou mais proporcional e eu passei a me sentir bonita. Mas me interessa — e acho que isso está latente em Guaraná Paquera — entender como minha subjetividade também é moldada por essas estruturas. O trabalho nasce desse desconforto, dessa consciência de que faço parte das dinâmicas que sustentam esses ideais de feminilidade mesmo quando as critico, e de que a construção dessa personagem é, no fundo, a formação identitária de alguém que tenta existir dentro dos estreitos contornos do que se convencionou chamar de feminilidade.


A contracapa do seu livro apresenta um autorretrato, sobreposto por um filtro de TikTok que simula o rosto ideal seguindo as proporções áureas. Quais são os desdobramentos dessa presença virtual aperfeiçoada como parte da performance do livro?
MD: Algo que me chamou atenção quando pesquisava foi o fato de que a cirurgia plástica se desenvolveu em grande parte a partir das mutilações faciais da Primeira Guerra Mundial. O combate nas trincheiras deixava os rostos dos soldados expostos, e muitos voltavam gravemente desfigurados. Há um termo em francês para essas pessoas, gueules cassées [rostos quebrados]. A reconstrução desses rostos abriu caminho para que, além do reparo, se considerasse também o fator estético nas cirurgias plásticas na tentativa de restituir um rosto “humano”.
Na mesma época, surgia Hollywood e o star system, e os estúdios rapidamente incorporaram procedimentos estéticos na fabricação de suas estrelas. Se você olhar fotos da Greta Garbo antes de Hollywood, a diferença é evidente. Esses procedimentos eram mantidos em segredo e faziam parte de um processo minucioso de construção de imagem. Barthes tem um texto interessante sobre o rosto de Garbo que começa assim: “Garbo pertence ainda a essa fase do cinema em que o enfoque de um rosto humano deixava as multidões profundamente perturbadas, perdendo-se literalmente numa imagem humana como num filtro, em que o rosto constituía uma espécie de estado absoluto da carne que não podia ser atingido nem abandonado.”
Embora novas tecnologias tensionem continuamente essa noção, as imagens técnicas ainda são tomadas como índices de verdade. Isso, evidentemente, afeta a forma como o público lê trabalhos de performance mediados por vídeo ou fotografia. É muito fácil confundir aquilo que aparece na imagem com o que de fato aconteceu. Guaraná Paquera não é uma autobiografia. Ou, melhor, é uma autobiografia ficcional.
Quando encenei a performance no Instagram, em 2023, as pessoas que me acompanhavam não sabiam que eu estava fazendo uma performance. Para elas, eu estava simplesmente fazendo o que quase todo mundo faz nas redes sociais: fotografar e compartilhar o dia a dia, mostrar os livros que leio, a que restaurantes, museus e galerias vou, o matcha que compro, as idas à academia, enfim, como se eu me constituísse a partir desses hábitos de consumo. A performance passou despercebida justamente porque me dispus a incorporar uma lógica de produção de imagem típica do Instagram. Na era do reality show, usei os stories para montar uma versão de mim mesma guiada por uma ideia de “autoaperfeiçoamento”. Eu sabia; o público, não. E mal sabiam que, em certo ponto, me forçava a sair de casa só para ter o que postar.
Não parece um tanto com essa história de star system? Me peguei pensando muito nessa relação na reta final do mestrado, quando já havia encerrado a performance. Olhando para trás e pensando em como iria finalizar o trabalho, percebi que Guaraná Paquera toca nisso de modo oblíquo, deixando entrever a democratização da produção de imagens por meios técnicos e como a indústria cultural molda nosso imaginário o ponto de replicarmos certos códigos e hábitos, especialmente da cultura de massa do século 20, ao criarmos nossas próprias imagens, no século 21. Isso tudo, claro, no ciberespaço capitalista, onde a circulação dessas imagens se dá em fluxo contínuo.


No livro você assume a visualidade das imagens da internet ao construir uma autoficção a partir de fotografias de celular e webcam. Como a possibilidade de produção e difusão abundante de imagens nas redes sociais impactou em seu processo de feitura do trabalho?
MD: Sempre me pergunto o que é ser uma artista cuja especialidade é produzir imagens em um momento como o nosso, em que nunca se produziu e se consumiu tantas imagens, e tão rápido. Desde a origem da fotografia e do cinema, as imagens não passavam por uma transformação tão radical quanto a que estamos vivendo. A própria lógica da imagem digital, que é feita de dados, impulsiona a capacidade infinita de reprodução, cópia e circulação de imagens. É como se estivéssemos mergulhados num fluxo contínuo que satura tudo. A velocidade e a abundância das imagens digitais reconfiguram o próprio modo de ver, que se torna instável, em mudança permanente.
Guaraná Paquera surge nesse ambiente e, de certo modo, responde diretamente ao tempo em que foi feito, ao zeitgeist do início dos anos 2020. Ao escolher imagens de celular e de webcam, eu quis trabalhar com uma visualidade que já faz parte do nosso cotidiano, essa estética meio improvisada, imediatista, que não tem a pretensão da “boa fotografia”. Essas tecnologias produzem uma imagem que é simultaneamente íntima e mediada, e me interessa justamente essa tensão: uma espécie de autorretrato que nunca é só meu, porque é atravessado pelos dispositivos, pelas expectativas de exposição e pelos códigos visuais das redes. E, desde novinha, eu faço autorretratos, selfies e posto na internet. De certa forma, cresci fazendo isso.
Claro que é um trabalho consciente das possibilidades técnicas que o estruturam; há ali um comentário direto sobre a produção de imagens na internet e sobre a própria natureza da imagem digital, mas não se trata apenas disso. A circulação em rede abre espaço para uma interferência — mesmo que mínima — do público. Essa dimensão relacional, em que a recepção e a interação moldam a forma como as imagens são produzidas e percebidas, acaba influenciando também a narrativa do trabalho. É desse atravessamento que a autoficção emerge: como um modo de narrar a si mesmo através de imagens que trazem uma certa crueza e que permitem pensar o corpo não como algo fixo, mas como algo continuamente performado e filtrado.
O texto também é um ponto essencial de Guaraná Paquera, ao longo dele você transita entre pequenas notas, ensaios narrativos, citações e exposições acadêmicas. De que forma você pensou as conexões e tensões entre esses diferentes modos de escrita? Como foi o processo de encadeamento do texto com as imagens?
MD: Alguns anos atrás, um amigo me deu de presente a primeira edição brasileira de Histórias reais, da Sophie Calle, e fiquei muito impressionada com a maneira como ela articula os textos, muito curtos, com as fotografias, produzindo uma narrativa autorreferencial que oscila entre o arquivo e a fabulação. O título promete “histórias reais”, mas o gesto literário está sempre deslocando qualquer ideia de verdade estável.
Sempre escrevi em fragmentos e, durante muito tempo, isso me pareceu uma limitação. Aos poucos comecei a entender que essa fragmentação podia funcionar se eu assumisse uma lógica mais imagética, próxima da montagem. Passei a construir cenas, observar gestos, descrever ações, como se a escrita se aproximasse da linguagem cinematográfica. Foi aí que os fragmentos começaram a se relacionar, criando um tipo de narrativa que não depende de linearidade, mas de associações. Como mencionei anteriormente, Guaraná Paquera é um projeto de escrita, uma escrita que se compõe através do texto e, também, das imagens, mas, ancorando tudo isso, está a experiência.
O livro acompanha um corpo que se reconstrói, se olha, se exibe, se esconde, se fere nos interstícios. É a história de alguém que tenta entender o que significa ser desejada, o que significa desejar, o que significa performar uma feminilidade editável, o que significa negociar prazer, violência e sedução; no limite, lidar com a consciência da própria imagem. É a história de um corpo entendido como work in progress, narrada por fragmentos que, juntos, formam uma trajetória coerente.
Nos conte um pouco mais sobre seus próximos projetos. Quais as próximas performances, histórias e pesquisas que estão por vir?
MD: Ainda tenho uns três anos de doutorado pela frente e estou desenvolvendo o que venho chamando de Pornothésis. Estou me aprofundando nessa relação entre a autorrepresentação na era digital e a indústria cinematográfica hollywoodiana, interessada especialmente na implosão das fronteiras entre o público e o privado e a espetacularização da intimidade — que acho que pode ser, também, uma forma de pensar o exercício da performance de Guaraná Paquera.
Tenho escrito bastante, e ser uma artista que escreve tem me feito feliz. Tenho escrito ensaios, mas pode ser que surjam daí palestras-performances. Por ora, sigo pesquisando, escrevendo e deixando que os próximos trabalhos se revelem no seu tempo. Vamos ver o que vem por aí. ///
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Guaraná Paquera, de Mariana Destro, zero-Edições, 2025, 12×20 cm, 226 pp.
Gabryella Roque (2001, São Paulo, SP) é designer, pesquisadora e graduanda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Em 2025 passou a integrar a equipe da Revista ZUM como estagiária.
Laura Sapucaia (2002, São Paulo, SP) é pesquisadora, educadora e graduanda em Artes Visuais na ECA-USP. Desde 2024, integra, como estagiária, a equipe de Arte Contemporânea do IMS.














