Afetos, descansos e fragmentos cotidianos do amor sapatão
Publicado em: 27 de novembro de 2025Um livro sobre o amor sapatão me diz: fui e sou feliz. Somos.
E contamos essa história agora. Nós. Amor é não morrer.
Marília Oliveira em Um livro sobre o amor sapatão
A artista, educadora e pesquisadora de imagens autoficcionais e memórias Marília Oliveira (1984) constrói as narrativas visuais de suas produções e projetos fotográficos sobre a rede acolhedora do amor – mais precisamente do amor cotidiano lésbico – ou, como ela mesma pontua, do amor cotidiano sapatão. Tal alicerce temático desafia e desarma tanto a ignorância quanto preconceitos e violências heteronormativos, revelando também um lugar seguro, sensível, leve e poético de resistência existencial ante qualquer forma de desamor.
Natural da cidade cearense de São Benedito, o primeiro contato da artista com a fotografia aconteceu ainda na infância, em seu âmbito familiar. Com o objetivo de registrar, de forma caseira, ocasiões extraordinárias, como viagens de férias, aniversários das crianças e festividades escolares, sua mãe dedicava as 36 poses do rolo fotográfico analógico de sua câmera para preservá-las.
Hoje, quando retoma suas primeiras memórias fotográficas, Marília Oliveira estabelece uma relação intrínseca entre fotografia e classe. “É importante pensar que, até a década de 1990, as pessoas que conseguiam guardar suas histórias por meio de registros fotográficos pertenciam a famílias abastadas financeiramente – o que não era o caso da minha família. Cresci com a ideia e a realidade de que fotografia era algo muito caro e, por isso, fui alijada dela como algo cotidiano. Inclusive, quando crianças, não podíamos nem tocar na câmera fotográfica, um equipamento caro, porque isso era sinônimo de que aconteceria certamente um acidente”, recorda a artista.

Recentemente, os hiatos das memórias fotográficas de sua história familiar que acabaram não sendo registradas devido ao fator econômico foram preenchidos pela artista com imaginação e fabulação. Como integrante da mostra coletiva Bezoar do tempo (encerrada recentemente), no MIS do Ceará, ela perseguiu a ausência de sua avó materna, Dona Antônia, que faleceu jovem e deixou somente cinco fotografias e dois vestidos. “Para esse trabalho, começo a pesquisar e coletar no mundo vestígios que pudessem me ligar a essa avó. Em feiras de antiguidades ou em mercados de pulgas, comprei objetos que poderiam ter pertencido a ela e os considerei como minhas memórias familiares. Escrevi cartas para essa avó que não conheci, assim como escrevi uma carta para a filha que não terei, pensando em como passado e futuro impossíveis e inexistentes se encontram no único eixo existente que sou eu no momento presente. A fabulação paira em todas as histórias que contamos, inclusive sobre nós mesmas”, reflete Marília Oliveira.

Tal como sua formação interdisciplinar em Letras, Comunicação Social (mestrado) e Artes Visuais (doutorado), Marília Oliveira transita entre o ofício de artista e o de professora de língua portuguesa do ensino médio da rede pública estadual há mais de uma década. “As pessoas que conseguem viver exclusivamente de arte são pessoas que, historicamente, têm dinheiro. Com isso, volto a falar da relação entre fotografia e classe, porque não foram raros os momentos na minha vida como artista em que, ao ter sido convidada para um festival, não pude participar porque não podia simplesmente me ausentar uma semana do trabalho em sala de aula. Ou porque, ao receber um convite para uma residência fora do Brasil, não pude ir porque não fui uma adolescente que teve acesso a um curso de inglês que, hoje, poderia me dar uma certa autonomia no exterior. Sinto que esse lugar de me afirmar artista tem a ver com muita insistência minha em ter continuado produzindo, ganhando editais, publicando meus trabalhos e realizando minhas exposições por meio de políticas públicas estaduais e federais de incentivo à arte. Além disso, consegui formar uma rede de contatos e apoio genuínos que me ajudou a alavancar meu trabalho e levá-lo a lugares aos quais eu sozinha não teria acesso. Com isso, ficou evidente para mim que o meio artístico não é feito para todo mundo. Ele é um espaço de permanente disputa”, analisa.
Atualmente, artistas cujo trabalho vem rompendo padrões lhe servem como inspiração e fonte de encantamento com suas poéticas visuais, como Mayara Ferrão (BA), Maurício Pokemon (PI), Castiel Vitorino Brasileiro (ES), Daiane Dayane Araújo (CE) e Marina Feldhues (PE). No entanto, o contato com o trabalho da fotógrafa, artista conceitual e cineasta francesa Sophie Calle foi o ponto de virada para que Marília se reconhecesse como artista. As investigações autobiográficas e a percepção da francesa de que sua autobiografia não trata unicamente de sua história, mas se relaciona diretamente com as pessoas que observa, segue e fotografa, tornaram claro para a brasileira a metodologia que iria desenvolver em sua pedagogia visual: “Um dos eventos canônicos para mim foi quando conheci a obra da Sophie Calle e entendi o que queria fazer. Até então estava tateando o mundo e a imagem dos outros para conseguir, de alguma maneira, pontes para falar de mim, minha autobiografia, autofabulações e memórias como um componente narrativo de vida”, recorda Marília.
A herança de sua formação inicial em estudos da linguagem e literatura e a dedicação ao nosso idioma foram a mola propulsora para a concepção do fotolivro Um livro sobre o amor sapatão (2020), após a leitura dos poemas da docente e escritora soteropolitana Lívia Natália. “Foi um grande impacto para mim quando Lívia afirma, em uma entrevista, como era complexo para ela, uma mulher negra, falar sobre amor; como ela precisou exercitar vários combates internos e externos para se apoderar dessa palavra, ‘amor’, e compor seus poemas. Ela falava tanto do amor como um gesto de coragem que resolvi também ter esse gesto de coragem e falar de amor sapatão”, relembra a fotógrafa que explica a escolha pela palavra “sapatão”: “Acho a palavra lésbica muito higienizada e elitista, é quase um termo científico. Quando xingam a gente na rua, não é de lésbica, mas de sapatão. Então, retomar essa palavra e transformá-la em outra coisa, me apropriando dela com todos os estereótipos que traz, é importante para mim”.
A empreitada de produzir Um livro sobre o amor sapatão foi orientada tanto por uma política visual para registrar o amor cotidiano de cinco casais de mulheres quanto por seu desejo de construir um espaço de descanso e pertencimento para ela e para as suas. “Passei muito tempo vivendo uma poética de criação que me colocava num lugar de combate muito aguerrido. Consequentemente, minhas obras eram todas em torno de discussões expressas sobre violência. Com o passar do tempo, percebi que estava reencenando essas violências, mortificando cotidianamente meu corpo, sem oferecer outra possibilidade de pedagogia visual para mim, para pessoas tanto como eu quanto diferentes de mim. Diante disso, resolvi me comprometer com a possibilidade da criação de outra política visual que discutisse e retratasse cenas amorosas do dia a dia desses casais. Mostrar o banal, o ordinário em um contexto amoroso de entrega e descanso também é um campo de disputa”, afirma.
Para compor esse fotolivro, Marília mesclou fragmentos visuais de histórias de amor de terceiras com registros de seu cotidiano com sua ex-namorada. Através de fotos de acervos pessoais, cartas e bilhetes, palavras e imagens tornam-se indissociáveis para tecer uma narrativa alegre, profunda, leve e coerente, construída sobre uma pedagogia amorosa que revela algo comum a todas as relações interpessoais amorosas.
“O mais importante para mim era que, a partir desses fragmentos, conseguíssemos enxergar uma narrativa mais ou menos harmônica, que nos igualasse a todas com as nossas diferenças e especificidades e que qualquer pessoa que vivenciou uma história de amor em alguma instância conseguisse se reconhecer em algumas dessas imagens também. O que pretendo é que seja um gesto de conforto, porque quando as pessoas pensam sobre amor sapatão ou apenas liam o título da publicação – e eu ouvi isso várias vezes ao longo do tempo em que esse livro circulou – esperavam outra coisa, algo mais violento, como cenas de combate. Então, oferecer nessas páginas o descanso e o ordinário do nosso cotidiano como possibilidade de habitação para as sapatonas e sapatões é algo que me é muito caro nesse trabalho. Entender o amor sapatão como um amor perfeitamente trivial e feito de todas as banalidades que qualquer história de amor pode ter.”
O que seria, então, esse amor capturado pelas lentes e olhos de Marília Oliveira?
“O amor é uma mão macia que colocamos em nós mesmas. Acho que o amor é a possibilidade de nos pegarmos pela mão e nos oferecermos uma vida mais gentil. É a possibilidade de descanso, um combate honesto e alegre que se traduz em coragem. No fundo, não consigo definir plenamente o que seria o amor – acho que ninguém consegue fazer isso de forma satisfatória. Mas sei que ele se manifesta toda vez que nos escolhemos e colocamos algodão na sola dos pés para que nosso caminho seja mais macio. Talvez o amor seja isso: um tecido macio que usamos para suavizar o peso da caminhada e para avivar a beleza das coisas.”

Tal reflexão nos leva a entender a concepção da fotógrafa sobre o amor, não como uma ideia romântica de um sentimento, mas como uma prática ética que supera o patriarcado ou qualquer amarra da heteronormatividade. Para ela, o amor é uma escolha cotidiana composta de cuidado, afeto, responsabilidade, compromisso e confiança – assim como bell hooks também o aborda em Tudo sobre o amor: novas perspectivas (2000). Para a intelectual estadunidense, o amor é uma prática social e política que visa alimentar o crescimento e a transformação pessoal e do outro, nutrindo e prezando pela dignidade individual e coletiva como uma ação de justiça social na luta contra sistemas que desumanizam. Ou seja, o tecido macio colocado tanto nas solas dos próprios pés como nas das pessoas que queremos nutrir e proteger em um caminhar digno e humanizante.
A partir do trabalho com o fotolivro e de sua pedagogia visual sobre o amor sapatão, a fotógrafa concebeu, em 2022, o projeto Inauguração do Museu do Amor Sapatão, uma performance visual-especulativa da criação de um museu fictício em praças públicas de Fortaleza, São Miguel dos Milagres (litoral alagoano) e Tiradentes (MG), além de Berlim (Alemanha). Para isso, produziu mil santinhos que informavam sobre a inauguração de um museu, que não existia, e que contava com o financiamento das Lésbicas Futuristas do Atlântico – uma organização fictícia cuja palavra “lésbicas” concedia certa institucionalidade e seriedade à criação. Na cidade alagoana, um pastor evangélico, ao receber um desses santinhos das mãos da própria artista, mobilizou toda a comunidade religiosa local e, em cerca de 24 horas, o secretário cultural municipal entrou em contato com Marília para censurar o museu que não existia.
“Para mim, isso foi complexo e me senti atingida por ver que a lesbofobia ainda é muito presente em diversos lugares de nossa sociedade, por mais que tenhamos a ilusão de que já transcendemos essa questão. Também fiquei pensando em como a imaginação pode causar terror, porque, quando digo que o museu seria inaugurado na praça da igreja e as pessoas passam por ali e veem que não existe nada sendo construído, somente o medo do que entendem ser o amor sapatão as mobiliza para a censura de algo que simplesmente não existe! E o prefeito, por sua vez, fica tão aterrorizado diante dessa ameaça que não chegou a cogitar a hipótese de que seria impossível construir um museu ali sem a sua ciência e autorização!”, diverte-se a artista.
Diante desse medo injustificado do amor sapatão, Marília Oliveira decidiu criar uma história de terror que realmente fosse capaz de produzir medo nas pessoas. Assim nasceu o projeto fotográfico Elas chegam pelo mar (2022), com a lenda das Incriadas. Quando todo mundo está dormindo, essas monstras se levantam e surgem dançando no litoral nordestino em noite de lua minguante, em meio a explosões e barulhos caóticos. A partir daí, tudo pode acontecer, já que não é possível mapear a aparição ou controlar a chegada delas.
Essas figuras monstruosas femininas têm esse nome porque ninguém as cria; elas parem a si próprias na parte mais profunda do mar, onde vivem em segurança. Fabricadas de tudo o que compõe o mar (dejetos, detritos, ilhas de lixo, vulcões marítimos, criaturas abissais, restos de peixes), aparecem ao longo de todo o litoral nordestino, instaurando o terror e o caos por onde passam. A lenda termina dizendo que todos temem as Incriadas, mas elas não temem nada nem ninguém. Com essa fabulação visual atribuída à tradição oral dos povos nativos das praias do Ceará, Marília Oliveira arquiteta inúmeras críticas sociais.
“A primeira delas é discutir o status de esgoto energético que o Nordeste tem em relação às regiões Sul e Sudeste. As pessoas costumam vir para cá para descarregar todas as energias negativas de suas rotinas exaustivas que acumularam ao longo do ano, saindo daqui revigoradas e ‘limpas’. Outro ponto seria desconstruir a mitologia idílica que generaliza todos os estados do Nordeste – de que passamos o dia inteiro na praia e não trabalhamos. Para mim era importante criar uma fabulação de terror que contrariasse esse lugar que permeia o consciente coletivo de outras regiões sobre o Nordeste. Com as Incriadas, tem-se o alerta: ‘Atenção! Este é o lugar para onde vocês vêm se descarregar, sugar e se deleitar. Mas cuidado à noite, porque as Incriadas podem surgir a qualquer momento!’. Na verdade, as Incriadas são a construção de uma comunidade que protege a mim e às minhas. Ao invés delas terem medo de apanhar na rua por serem somente quem são, são elas que causam medo nos outros, como uma forma de proteção. São quase um botão de emergência que acionamos e dizemos: ‘Eu não sou monstruosa sozinha’, e tenho um lugar de proteção que está preparado em silêncio para mim e para tantas outras como eu. Nenhuma família sonha em ter uma filha sapatão ou, muito menos, diz, quando vê uma bebê: ‘Tão linda! Quando crescer vai ser sapatão e vai se casar com outra mulher maravilhosa que vai tratá-la bem!’. Não. A grande maioria das mães tem sonhos heteronormativos para suas filhas. Então, se ninguém sonhou comigo, eu sonho com quem me recebe e crio um mundo para me receber, um local de pertencimento. Crio uma comunidade de monstruosas que recebe todo mundo que não foi sonhado por ninguém e quem muitas vezes teve sua condição e existência tomadas como pesadelo. Assim, tenho a obra Elas chegam pelo mar não somente como uma história de terror, mas também de amor”, afirma a fotógrafa.
O amor que transpassa as criações artísticas de Marília Oliveira é um projeto a longo prazo, instalado com sensibilidade, sem afobamento e com ritmo próprio – o ritmo do afago, da contenção e do acolhimento cotidiano. Se, daqui a décadas ou séculos, no fundo do mar das Incriadas, escafandristas acharem Um livro sobre o amor sapatão, descobrirão não somente ecos de antigas palavras, poemas, retratos ou fragmentos de amores resistentes a toda improbabilidade, mas sim vestígios de uma civilização que existiu e resistiu amorosa e politicamente. E, como amar é não morrer, segundo Marília Oliveira, futuros amores continuarão a ser amáveis no porvir. ///
Renata Martins (1980) é educadora, crítica de arte e curadora independente natural de São Paulo. É mestre em Literatura Alemã pela USP e especialista em Curadoria de Arte pela Universidade das Artes de Berlin. Foi residente do programa Vila Sul do Instituto Goethe de Salvador (2020-2022), onde concebeu e organizou o Catálogo Arte Mais – Panorama de Artistas Transvestigeneres no Brasil @catalogoartemais.



















