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Exposição com fotos inéditas de Thomaz Farkas no DF; leia entrevista com o curador

Publicado em: 05 de outubro de 2015
Presidente Juscelino no dia da inauguração de Brasília, 21 de abril, 1960

Presidente Juscelino no dia da inauguração de Brasília, 21 de abril, 1960

Abre nesta terça-feira, 6 de outubro, a exposição Thomaz Farkas – DF, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. A individual do fotógrafo húngaro naturalizado brasileiro é composta por 21 fotografias da capital do país feitas entre 1958 e 1960, época da construção à inauguração da cidade, e entre 1998 e 2000, quando Farkas torna a visitar Brasília. Entre elas, 13 registros inéditos ocupam as paredes do museu paulista, até o dia 14 de outubro. Também será lançado o livro homônimo, quarto volume da Coleção Ipsis de Fotografia. Leia entrevista com Eder Chiodetto, curador da exposição:

 

Marcel Gautherot, fotógrafo favorito de Oscar Niemeyer, foi convidado pelo arquiteto a registrar a construção da nova capital. Quanto às fotos de Brasília, em que pontos a produção de Gautherot tangencia a de Thomaz Farkas, e em que pontos se distancia?

Na pesquisa que realizei com o apoio do Instituto Moreira Salles, ficou bastante claro que os fotógrafos contratados para fotografar a construção e inauguração de Brasília, tais como Gautherot, fizeram coberturas fotográficas salientando a exuberância e a monumentalidade do projeto arquitetônico de Niemeyer e Lucio Costa. O mesmo pode ser observado nos trabalhos de Peter Scheier e Jean Manzon. Não à toa, Gautherot se tornaria o preferido de Niemeyer. As fotografias dele fazem uma grandiosa homenagem às linhas e aos volumes que saíram da prancheta do arquiteto para se tornar a maior obra arquitetônica modernista. Raramente vemos um autor traduzir de forma tão eloquente – e entusiasmada – a obra de um outro como nas imagens em que Gautherot enfatiza a grande aventura idealista que foi a construção de Brasília nos moldes que conhecemos. No entanto, embora essas imagens hoje integrem com razão o nosso patrimônio iconográfico, não podemos deixar de lado o caráter propagandista que ficou colado a elas.

Thomaz Farkas não foi contratado. Aliás, ele sempre dizia que nunca fez trabalho encomendado. Isso o deixava numa posição talvez mais confortável. Suas fotografias não necessitariam ser aprovadas por ninguém. Nesse sentido ele não se sentia impelido a fazer propaganda. Fotografou apenas pelo prazer em ser testemunha ocular de um fato histórico. Nota-se claramente, desde as primeiras imagens realizadas em 1958, que Farkas não se empolga tanto com a arquitetura arrojada. Seus registros priorizam o tempo todo os “candangos”, o Núcleo Bandeirante. Em muitas imagens, mesmo quando a arquitetura tem primazia na composição, sempre vemos um grupo de operários em ação.

 

Comércio popular em Brasília, 1998

Comércio popular em Brasília, 1998

 

A seu ver, o registro da construção à inauguração de Brasília representaria uma guinada humanista no trabalho de Farkas? Por quê?

Farkas estava no núcleo de amigos e fotógrafos muito próximos a Geraldo de Barros – no Foto Cine Clube Bandeirante – e, com isso, foi um dos ícones da fotografia de caráter mais experimental, a partir do final dos anos 1940. Seria natural, portanto, que ele partisse para um enfoque mais metalinguístico ao se deparar com os volumes e linhas do eixo monumental. A arquitetura e os impulsos desenvolvimentistas, afinal, eram alguns dos motores da produção experimental da geração dele.

Mas, para minha surpresa, ele se mostra muito mais preocupado com o homem simples, os operários, a pouca atenção dada à periferia. O exercício de linguagem que tangenciava o concretismo perde lugar para esse viés mais sociológico, digamos. Essa atitude de se reforçaria a partir de 1968, quando ele inicia a Caravana Farkas, projeto pioneiro na área de documentação que gerou 19 documentários sobre a cultura popular brasileira.

Quando Farkas retorna a Brasília, 40 anos depois, vai novamente para as cidades satélites e fotografa aquilo que parecia já ter previsto entre 1958 e 1960. Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, diz: “A cidade mudou nas aparências. Mas, para o povo, a vida continua praticamente a mesma”. No livro e na exposição é chocante perceber que as imagens realizadas na periferia entre 1998 e 2000 são perversamente semelhantes às de 40 anos antes.

 

Qual a importância, em termos sociais e políticos, que o olhar de Farkas sobre a capital tem, ou poderia ter, a respeito do Brasil?

Reunir essas 100 fotografias de Brasília no quarto volume da Coleção Ipsis de Fotografia, fraturadas pelo distanciamento de 40 anos, faz-nos refletir muito sobre os rumos sociais e políticos no Brasil. É incrível perceber como o sonho de uma geração é esfacelado na próxima, remendado e tocado adiante de forma canhestra pelas seguintes. Como os projetos de grande envergadura não contemplam o todo, não pensam na progressão dele no futuro mais imediato. Hoje, Brasília é uma cidade completamente cindida entre Eixo Monumental e cidades satélites, com enormes problemas urbanos, muitos gerados a partir da ruptura entre um projeto idealista e a vida cotidiana. A obra de Farkas é poderosa para nos levar a esse tipo de reflexão.

Congresso Nacional em construção visto do Palácio do Planalto, 1959

Congresso Nacional em construção visto do Palácio do Planalto, 1959

Barracos na periferia do Distrito Federal, Brasília, 2000

Barracos na periferia do Distrito Federal, Brasília, 2000

Jovens da periferia de Brasília DF_abril 2000

Jovens da periferia de Brasília, 2000

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