Radar

Mauro Restiffe por Guilherme Wisnik

Publicado em: 04 de setembro de 2014

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As ruínas de Congonhas

Guilherme Wisnik

No primeiro plano o chão, de um asfalto irregular e rachado, tomado por dejetos acumulados ao léu, como caixas, sacos, folhas de jornal, roupas e restos caídos dos próprios muros destruídos logo à frente. Depois, uma sequência de colunas de concreto enfileiradas, ainda sem vigas ou berços horizontais que as unam. Atrás delas, uma massa informe de construções (predominantemente edifícios), razoavelmente diversas do ponto de vista das suas alturas, mas uniformes quanto ao aspecto plástico, compondo uma espécie de segundo muro no fundo da cena. E por fim, acima de tudo, um céu muito branco e sujo, que não parece oferecer redenção para os sentimentos de melancolia e abandono que dominam a fotografia. Aliás, tudo é arranhado e encardido na imagem, sensação que se potencializa pela granulação algo onírica dessa série de fotos em preto e branco que Mauro Restiffe fez na cidade de São Paulo.

A cena se localiza na Vila Congonhas, nos arredores do aeroporto de mesmo nome, e a sequência de colunas desce o vale em direção à Avenida Jornalista Roberto Marinho, como parte das obras estruturais do Monotrilho da Linha 17 da CPTM, ainda em construção, que ligará o Jabaquara ao Morumbi. Contudo, nada nessa série de colunas, em meio a um cenário desolador, nos sugere um projeto edificante. Dispostas segundo um ritmo aparentemente caótico, e afundando progressivamente no enquadramento da cena, elas nos sugerem, como de resto tudo na fotografia, menos o sentido de construção do que o de ruína. Assim, mesmo as esperas dos vergalhões de ferro por sobre as colunas, elementos necessários para a amarração das futuras vigas, aparecem menos como índices de futuro do que como sinais de improvisação e abandono. Construção e ruína, portanto, não são aqui termos antagônicos, e sim irmanados, a apontar para um estado de construção ruinosa que caracteriza muito bem a experiência urbana paulistana.

Ao olhar repetidamente para essa foto, não consigo deixar de pensar nessas colunas inconclusas como estranhas ruínas de templos clássicos em meio a uma paisagem urbana moderna, como no Foro Romano, por exemplo. Nesse caso, o lixo que vemos acumulado em primeiro plano corresponde aos restos de capiteis, frontões, fustes e entablamentos, que sempre povoam o chão dessas ruínas. E talvez esse sentimento não seja de todo equivocado, considerando que nossas construções parecem, hoje, estar mais perto do papelão, do plástico e das estruturas corroídas do que do mármore mediterrâneo. Muito a propósito, foi nessa mesma obra do Monotrilho, não muito longe da Vila Congonhas, que uma viga caiu matando um operário em junho desse ano.

Nosso mundo “clássico” não será destruído pelos bárbaros. Ele é destruído, por nós, todos os dias, corroído, implodido, sabotado. E o resultado estético disso é algo que está muito aquém daquilo que a história da arte chama de “pitoresco”.///

Guilherme Wisnik é arquiteto, crítico e professor da FAU-USP. Foi curador da décima edição da Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013.

 

SÃO PAULO, FORA DE ALCANCE

Exposição de fotografias de Mauro Restiffe, curadoria de Thyago Nogueira.
Até 28 de setembro de 2014 no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro.
Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea, Rio de Janeiro – RJ.

Veja aqui o ensaio Nova Luz, publicado na revista ZUM # 2.

O livro com 50 imagens lançado com a exposição pode ser comprado na loja do IMS.

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