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Entrevista: o fotógrafo João Castilho fala sobre Zoo, fotolivro da sua série de animais silvestres em ambientes domésticos

Publicado em: 13 de abril de 2017

O que aconteceu com o projeto Zoo, do momento em que ganhou a Bolsa de Fotografia ZUM/IMS em 2013 até virar livro?

Desde o começo já tinha a ideia de fazer o livro. Gosto desse trânsito, principalmente entre a parede e o livro. O Hotel Tropical, por exemplo, foi outro trabalho que surgiu para a parede e depois virou livro.

O Zoo começou sem grandes pretensões, apesar de já entender o potencial que ele tinha. A ideia era fazer algo rápido e focado em uma ideia: fotografar animais silvestres e selvagens dentro de ambientes domésticos. O trabalho acabou se mostrando difícil e demorado de ser produzido. Não era difícil de ser fotografado, até porque o meu tempo tinha que ser o tempo que o animal se sentia mais ou menos tranquilo naquele ambiente e diante de mim.

Depois de concluir a Bolsa ZUM/IMS, estendi o projeto mais dois anos, produzindo as fotos com menos frequencia. Percebi que a série tinha ficado com algumas lacunas, vi que havia animais que queria fotografar de qualquer jeito.

Que animais você quis fotografar?

Na primeira etapa não consegui fazer o bicho-preguiça, a anta e alguns outros. O processo acabou exigindo mais tempo para o contato, a produção e estabelecer uma relação de confiança e segurança entre os tratadores e eu. Estar diante de um animal, mesmo um cachorro, já é complicado. Houve uma exceção ou outra, no caso da anta, por exemplo, que já estava acostumada a entrar no quarto do tratador. A anta é o único animal do livro inteiro que vive solto, no mato e vai visitar o seu Moacir de vez em quando. Ele a encontrou filhote machucada, pegou e tratou por uns dois meses. Depois que ele a soltou, a anta começou a voltar e entrar na casa dele. Hoje acredito que sejam até amigos.

O que o fotolivro acrescentou à ideia original do projeto?

O livro é um suporte que venho explorando com o mesmo interesse que os ensaios, as exposições, as fotoinstalações e os vídeos. Nas minhas três últimas publicações, amadureci uma parceria com o Marcelo Drummond, artista e designer. Não queria fazer um catálogo do Zoo. As imagens eram conhecidas, o trabalho já estava circulando e sendo experimentado em exposições. Não queria um registro disso, mas que fosse como meus outros livros, um objeto feito a partir de um ensaio. O trabalho do Marcelo foi precioso.

A primeira ideia era que as fotos das matas viessem cobrindo as páginas como um folder.  Assim, cada foto viria coberta com a imagem da mata escondendo o animal debaixo da página dupla. Mas iria criar uma oposição entre bicho solto e preso, um viés mais ecológico que não vejo nesse trabalho. Não é de onde parti. Então o ensaio da mata passou a funcionar como abertura e encerramento do livro. Acho que causa uma certa estranheza, ainda mais com o livro fechado. Não diz nada sobre o que tem dentro. Ou diz muita coisa, mas fica invisível.

Este e outros pontos levaram o trabalho para o formato horizontal, uma orientação complicada para se fazer um livro de fotografia, que normalmente não dá certo. Gera um desconforto. Como fotografei tudo com uma composição centralizada, os animais no meio, temi que, com a produção gráfica que a gente tem por aqui, não conseguisse obter aquela abertura de 180 graus para um espelhamento bem feito das páginas. Também me preocupei com a questão da riqueza cromática das imagens. Imagina na hora da impressão se em um mesmo caderno está o tatu, a onça-parda e outra foto? É para ficar doido. Também achei que não cabia texto algum no Zoo, justamente para dar leituras diversas, ricas. Qualquer texto meu as aniquilaria. Tem gente que sente falta, mas eu só sinto muito.///

 

João Castilho é fotógrafo e artista visual. Publicou Pulsão escópica (2012), Peso morto (2010) e Paisagem submersa (2008). Ganhou a Bolsa de Fotografia ZUM/IMS de 2013 com o projeto Zoo.

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