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Brasil, o espetáculo do crescimento

Fotos de Tuca Vieira. Comentário de Guilherme Wisnik e Paula Santoro Publicado em: 26 de novembro de 2013
A mostra “Brasil: o espetáculo do crescimento”, com fotografias e vídeos feitos em viagem exploratória promovida pela 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, está em cartaz até o final desta semana no CCSP. Veja abaixo as fotos de Tuca Vieira, que participou da viagem a convite do Instituto Moreira Salles e da revista ZUM, e o texto de Guilherme Wisnik, curador da Bienal, e Paula Santoro, co-curadora desta exposição.

 

Brasil, o espetáculo do crescimento

Quando, em 2003, o então presidente Lula anunciou que o Brasil viveria o “espetáculo do crescimento”, a frase parecia uma bravata populista, tributária ainda das promessas pífias que, ao longo de décadas, teimavam em nos definir como o “país do futuro”. Ocorre que nesses dez anos muita coisa de fato mudou e nosso crescimento econômico (ainda que oscilante), no contexto de um mundo em crise, fez do Brasil um “país emergente”. Internamente, a mecanização da mineração empresarial e da lavoura (agronegócio), somada às grandes obras estatais de infraestrutura, quer redirecionar o caminho do crescimento econômico para as Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do país, com reflexo nas cidades. É um retrato desse novo Brasil urbano, ainda mal localizado pelos radares do Sudeste e da crítica arquitetônica, que essa exposição pretende esboçar.

A equipe de pesquisa fez uma viagem exploratória a lugares-chave desse processo de transformação, nos estados de Pernambuco e do Pará. Santa Cruz do Capibaribe (PE) é hoje o segundo polo têxtil da América Latina. Já a pequena Salgueiro (PE) se tornou o novo centro de irradiação de importantes eixos de infraestrutura do país, como a Ferrovia Transnordestina e o canal de Transposição do Rio São Francisco. Enquanto o Porto de Suape (PE) se prepara para ser nossa maior refinaria de petróleo, Altamira (PA) sofre uma considerável transformação com a remoção da população e o impacto ambiental provocados pela Usina de Belo Monte, e Marabá e Parauapebas (PA) vivem os efeitos ao mesmo tempo impulsionadores e predatórios causados pela proximidade com as minas de Carajás.

Se esse novo desenvolvimentismo traz a memória do “milagre econômico” dos anos 1970, o Brasil que se entrevê agora não é mais apenas aquele da miséria que nasce com Brasília: Transamazônica, Serra Pelada, índios usando calça Lee. Hoje, parece que o Bye-Bye Brasil dá sua segunda volta no parafuso, com a presença do grande capital estrangeiro, associado à produção de commodities, e à diminuição das desigualdades tanto sociais quanto geográficas, fazendo surgir a ideia de uma nova “classe média”: um conjunto de pessoas que compra geladeiras, televisões, carros e motos, é capaz de reformar sua casa autoconstruída nas cidades e pode receber imóveis nos grandes conjuntos suburbanos do programa “Minha Casa Minha Vida”, abrindo frentes de expansão urbana. Resta saber se esse crescimento recente trouxe desenvolvimento real, promovendo melhor justiça social e educação além do consumismo, ou se reatualiza os velhos contrastes brasileiros na forma de um inesperado crescimento do espetáculo.