Offside Brazil

Bárbara Wagner entre Deus e Estelita: dois ensaios para o OFFSIDE BRAZIL

Juliana Cunha Publicado em: 02 de julho de 2014

A fotógrafa brasiliense Bárbara Wagner mora em Recife desde 1998 e realizou trabalhos importantes na cidade, como o ensaio “Brasília Teimosa”, publicado em livro em 2007 e apresentado em mostras individuais em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Para o Offside Brazil, Wagner registra a ocupação nos armazéns do cais José Estelita, que já dura um mês. Há dois anos, ativistas promovem manifestações para que no local onde hoje existem galpões de açúcar abandonados não sejam construídos os 12 espigões de até 40 andares do projeto “Novo Recife”, um consórcio formado pelas maiores construtoras de Pernambuco.

Além de fotografar a ocupação, Wagner busca investigar o crescimento da religião evangélica no Brasil e sua ligação com a chamada “nova classe média” local, caracterizada como uma massa de pessoas que acaba de ser introduzida no mundo do consumo. As fotografias de Wagner pretendem se debruçar sobre o tema, mostrando como a migração do catolicismo para o protestantismo representa uma mudança na lógica do brasileiro.

Abaixo, a fotógrafa conta um pouco de seu método de trabalho e de como tem sido produzir esses ensaios para o projeto Offside Brazil.

Em Recife, jovens ativistas acampam no pier Estelita durante os jogos da Copa do Mundo. O movimento “Ocupe Estelita” permanece no local desde o dia 21 de maio, embora tenha sido dispersado pela polícia com violência no dia 17 de junho

Em Recife, jovens ativistas permanecem acampados no Pier Estelita durante os jogos da Copa do Mundo. O movimento ‘Ocupe Estelita’ tomou a área desde 21 de maio, como meio de protesto ao projeto estatal conhecido como ‘Novo Recife’, que planeja construir uma dúzia de torres de apartamentos luxuosas na área histórica da cidade. O movimento foi violentamente dispersado pela polícia em 17 de junho

Te pediram para fotografar o entorno da Copa em Recife, mas parece que as pessoas que estão ocupando o cais Estelita estão às margens de sua própria cidade, não só da Copa. É muito forte aquela imagem do garoto acampado com uma camisa que de um lado é da seleção brasileira, de outro do Sport Club Recife, quase uma síntese do embate entre evento nacional (Copa) e local (Estelita) que ele está vivendo. Como foi fotografar essa ocupação? Qual tem sido seu método e rotina de trabalho?

A ocupação e mobilização em torno do cais Estelita pode ser vista com uma das mais poderosas tomadas da cidade em anos recentes justamente porque tem na sua visibilidade sua maior força e fragilidade. Os jornais locais estão completamente comprometidos com as empresas construtoras do consórcio envolvido no projeto Novo Recife, deixando o movimento de fora de suas pautas.

De outro lado, a imprensa internacional está de olho nos protestos em todo o país, privilegiando, no entanto, imagens de confronto de ativistas com a polícia. Decidi fotografar o Estelita na noite de uma segunda-feira chuvosa, durante o jogo do Brasil x Camarões, justamente para observar os atores do movimento que permanecem no acampamento mesmo quando não há grande apelo de mobilização. No dia anterior, houve uma grande festa com shows de música no local, uma das maiores mobilizações de suporte ao movimento, algo absolutamente necessário. O que eu queria ver, no entanto, era quem estava lá no dia-a-dia da ocupação.

O retrato do jovem Jonatas Araújo, com sua camisa do Brasil/Sport, dentro de sua barraca, assistindo o jogo pelo celular, talvez seja uma boa síntese desse momento. Só visitei o acampamento nessa ocasião, passei a noite conversando com diversas pessoas, cada uma com sua historia, com seus motivos para estar ali. Um dos jovens do acampamento me ajudou a fazer as fotos, me auxiliando com o uso do flash.

O evento traz para as cidades sede o olhar de gente do mundo todo. A ideia de fotografar o entorno dos jogos é justamente ampliar o abrangência desse olhar. Qual o papel da fotografia nessa dinâmica?

A fotografia como prática de rua, em seu sentido de investigação, é um legado de profissionais que fizeram e fazem parte da Magnum. O momento no país é mais que oportuno para esse tipo de produção. A relação entre nomes de fotógrafos, artistas e ativistas brasileiros é em si mesma uma experimentação necessária para a produção documental feita no país.

O trabalho que eu tenho feito para o Offside Brazil é ficar em Recife e fotografar o fenômeno do crescimento das igrejas evangélicas no Brasil (que subiu de 5% na década de 1970 para 22% hoje). Nesse sentido, o que me interessa é a relação estreita do evangelismo com o que ficou conhecido como a “nova classe média” do país. Ao contrário do catolicismo, o neopentecostalismo, por exemplo, fala da vida em suas questões mais ordinárias (problemas de relacionamento, contas a pagar, doenças, negócios). Sugerindo soluções para a vida “agora”, e não para o “depois”, a maioria das organizações evangélicas se inserem no centro da lógica imediatista do consumo.

O que você espera causar com essas imagens?

Em meu trabalho, a continuidade entre os temas está sobretudo no meu interesse pela cultura popular, pelas tradições que se reinventam o tempo todo nas ruas, sem regras e sem muitos pudores. Nesse sentido, não há muita distância entre o terreiro, o palco e o altar. Gosto da ideia de poder contribuir com uma observação mais íntima dessa forma de política entre o popular e o pop, que na minha opinião tem uma estética muito própria e que merece ser estudada seriamente, sem preconceitos.

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